que-isso-jovem

“Saudades sabe? Saudades do seu toque, saudades da sua voz, saudades da sua pele, saudades do seu sorriso, saudades dos seu olhos… Ah, seus olhos são os mais lindos que eu já vi. Eu quero você aqui. Nossa, isso é muito clichê não é? Que tal eu falar isso, de uma maneira diferente? Eu necessito de você aqui. Também soa clichê… Mas quer saber? Não to nem ai. A única coisa entre a gente, que não é clichê, é a forma que eu amo você.(fpm)

Capitulo 29 - FINK (Feelings I Never Know)

(Pov Clara)

Eu já estava quase fazendo um buraco no chão de tanto andar de um lado para o outro com o celular em uma mão e o número de Chris na outra.

Era como se eu tivesse um diabinho e um anjinho em minhas costas e no momento eu não conseguia distinguir qual era qual. Um lado me mandava ligar para ele e escutar o que ele tem pra dizer, ver o que ele quer mostrar e quem sabe tirar a imagem que eu fiquei dele; mas o outro lado berra para que eu jogue o cartão fora assim como Vanessa pediu. Fechei os olhos e soltei um alto suspiro. Ela não fez o que eu pedi então eu não precisava fazer o que ela pediu, certo? Porque ela estava lá, com a prima gostosa e eu estou sozinha em casa. Podemos mudar isso.

Em um impulso desbloqueei a tela do celular ignorando minha foto com Vanessa no plano de fundo, ignorando o grito em minha mente que dizia para não fazê-lo e disquei rapidamente o número de Chris.

– Alô? - a voz rouca atendeu um pouco irritada e eu fiquei algum tempo processando o que eu estava fazendo – Alô? - ele repetiu agora um pouco mais alto

– Hã, oi Chris, sou eu.. Clara - disse receosa quase desligando o telefone, que merda eu estava fazendo?

– Clara - ele disse empolgado, a irritação sumiu de sua voz- eu achei que não ia ligar, e aí? Está muito ocupada?

– É, na verdade.. não, eu estou em casa

– Posso te buscar? - a pergunta saiu rápida e eu fiquei sem saber o que dizer. Como assim? Ele nem me falou nada e quer me buscar

– O quê? Pra onde?

– Estou te devendo um pedido de desculpas certo? - assenti com um barulho nasal – Vou te levar pra um passeio

– Chris, eu acho melhor não, eu te desculpo não tem problema

– Calma Clarinha, relaxa eu tô sóbrio - ele disse devagar e eu balancei a cabeça confusa com a ideia - Quero te trazer pra um lugar especial, eu te peço, só dessa vez, confia em mim - respirei fundo e senti uma leve fisgada na cabeça

– Que horas você passa aqui? - disse com a voz arrastada

– Já estou indo, em menos de 40 minutos eu tô aí, pode me esperar na posto 7 da praia? sabe como é, né? meu pai não ia gostar de me ver por aí principalmente a Vanessa

– Tudo bem, não demora se não eu desisto - disse num só fôlego e desliguei a ligação

 

Sentei em um banco qualquer do posto 7 e fiquei encarando minha pulseira por um lONGo tempo. Algo dentro de mim berrava para não fazer isso, berrava para eu voltar pra casa e esperar Vanessa acabar o maldito almoço, mas a outra parte dizia que eu não podia me submeter a tudo que ela queria.

Era melhor eu voltar pra casa, discutir com Vanessa por causa de Chris seria horrível.

Levantei-me e na mesma hora uma moto parou na frente do meu banco, e Chris tirou o capacete, sorridente com uma expressão confusa

– Onde você está indo? - ele se encostou na moto e eu sorri receosa. Vanessa não gosta de motos, porque eu estou fazendo isso mesmo? – Vamos? - fiquei alguns segundos encarando Chris na moto e pensando nas consequências disso. Soltei um lONGo suspiro e assenti subindo na garupa.

 

Chris não pilotava a moto, ele voava. Devíamos estar no triplo da velocidade permitida e eu já estava quase sujando as calças. O que fazia com que eu agarrasse seu corpo cada vez com mais força.

Em alguns minutos chegamos em uma parte de Miami que eu nunca tinha visto. Aquilo me lembrava as favelas mexicMays, e eu nunca tinha lido sobre a periferia de Miami, mas se existisse favela americMay, era aquilo. As casas caindo aos pedaços, pessoas pobres, cachorros abandonados. Porque diabos Chris me trouxe aqui? Franzi o cenho preocupada e ele começou a diminuir a velocidade. E paramos de frente a uma alta construção. Também precária, mas melhor que as outras.

– Chegamos - ele parou a moto e estendeu as mãos para me ajudar a descer e assim o fiz

– Onde estamos? - perguntei receosa e talvez até com medo da resposta

– Fraternidade Camille Mesquita- ele pegou uma de minhas mãos me guiando pela estreita escada de tijolos que nos encaminhava para a porta do local – Seja bem vinda à FCJ - ele abriu a porta e eu arregalei os olhos um tanto chocada com o que vira

Uma grande sala de estar com paredes decoradas à mão, literalmente, a pintura da sala parecia ser feita por crianças que marcaram suas mãos na parede com tinta a óleo e tudo era feito de material reciclado. Sofá de garrafas pet, tapete de papelão e algodão e finalmente o que mais me chamou atenção: As crianças.

Havia umas dez crianças naquela sala. Elas brincavam animadamente no chão, e outras tentavam ler um livro enquanto outras apenas estavam deitadas no largo tapete, encarando o teto e conversando. Olhei para Chris boquiaberta e ele sorriu satisfeito

– Você ainda não viu nada, tem muito mais por aqui - ele adentrou a sala e com um tom muito mais alto anunciou – Meninos, hoje temos visita - a voz de Chris ecoou pela sala e todas as crianças voltaram os olhares para a porta. As expressões de tédio viraram completos sorrisos e algumas vieram correndo até a porta

– TIO CHRIS - um dos meninos menores com a camiseta do Batman pulou em Chris que sorriu e pegou-o nos braços

– Essa é a tia Clara - ele disse apontando pra mim e eu dei mais um passo para entrar por completo no lugar. As crianças sorriram e se empurravam para chamar a atenção – Cadê todo mundo?

– Estão nos quartos e ou lá em cima com a tia Morgan - a menina que parecia ser a criança mais velha dali respondeu. Ela devia ter uns 11 anos no máximo. Os cabelos loiros bagunçados eram lONGos e ondulados e ela tinha expressivos olhos azuis. Era linda mas com uma beleza mal tratada

– Oi, tia Clara - o pequeno menino mulato com camiseta do Batman nos braços de Chris falou. Ele parecia ter uns 3 anos e estava sorridente. Tinha olhos castanhos profundos que me lembravam Vanessa, o que me fez sorrir – meu nome é Dilong

– Que nome legal - disse ainda um pouco impactada por ver tudo aquilo. Eu não imaginava que ele tivesse realmente uma ONG, que fosse realmente uma boa pessoa para alguém

– Vem, deixa eu te apresentar - com a mão livre, Chris pegou a minha mão e me guiou para o meio da sala – Sentem aí crianças, isso vale pra você também Karin - ele disse pra menina loira dos olhos azuis, e em menos de dois minutos todas as crianças sentaram e eu fiquei surpresa com o tanto que elas pareciam gostar de Chris – essa é a tia Clara, ela veio conhecer vocês

– Oi, tia Clara -eles disseram em unissono e tentaram se apresentar

Depois de alguns minutos nós finalmente saímos da sala. As crianças fizeram questão de se apresentar uma por uma. Elas pareciam ser bem carentes e Chris me explicou que eram crianças abandonadas pelos pais, ali na ONG elas tinham casa, comida e estudo. Eram crianças completamente encantadoras e doces, elas te encantavam com aqueles olhos profundos com um apelo por atenção, e Chris era como um pai para elas, aquilo era inacreditável.

Passei o dia na ONG com aquelas crianças, conhecendo cada uma delas. Sessenta e oito no total. Todas elas falavam muito bem de Chris, dizendo que era ele que cuidava delas, e todas sem exceção tinham um enorme amor por ele, principalmente o pequeno Dilong que tem uma história em especial.

O pai dele era chefe de tráfico, e a mãe era uma professora que se encantou com a beleza dele. Tiveram uma linda história de amor até que o tráfico falou mais alto. Ela teve uma morte trágica tentando tirá-lo dessa vida, mas não conseguiu. Eu não sei que ligação ele tem com Chris, mas assim que ela morreu ele deu o menino pro Chris cuidar na ONG, ainda recém nascido e Chris tem por ele uma espécie de amor especial, como um filho favorito. O nome verdadeiro do menino ninguém nunca soube, por isso Chris o batizou de Dilong, que significa “Dragão Imperador”, e ninguém sabe o porquê disso também. Foi isso que Morgan, a jovem auxiliar de Chris me contou.

19h e eu estava na laje da ONG e eu estava no meio de uma roda de dezessete crianças que estavam muito interessadas na história da bela e da fera.

– Hora da janta e de dar tchau pra tia Clara - Chris apareceu na laje esbaforido como se tivesse corrido horrores para chegar ali e Alice, uma pequena menina negra de 4 anos me abraçou forte

– Tio Chris, deixa a tia Clara com a gente - ela afundou o rosto em minha camiseta larga e eu a abracei com força

– Temos que ir agora, Chris? - perguntei chateada e talvez até um pouco triste devido às crianças que faziam manha para que eu ficasse

– É, pois é, tive um imprevisto e eu tenho que levar a tia Clara agora - ele disse tudo muito rápido se desvenciliando de Dilong que o agarrava e pela sua cara, eu vi que o imprevisto não era uma coisa tão simples então sem contestar eu me despedi das crianças que estavam ali

– Prometo que volto - disse para elas que agora estavam sentadas me olhando

– Promete mesmo? - um pequeno me questionou duvidoso

– Claro que prometo, prometo de dedinho - mostrei-lhe o dedo mindinho e ele assentiu convencido

– Vamos? - Chris me perguntou apressado e eu assenti.

Ele pegou meu braço e me guiou pela escada até sairmos da ONG. A sua moto não estava mais ali na frente, e eu pude perceber que tinham alguns homens mal encarados nos observando. Um arrepio de medo percorreu todo o meu corpo. Então aquele era o imprevisto.

Chris observou que eu os notei e bufou, pegando minha mão e entrelaçando nossos dedos. Por um momento eu pensei em relutar mas precisei ceder se quisesse acompanhar seus passos. Ele praticamente corria pelas apertadas vielas do local até finalmente chegarmos em um beco estreito onde estava a sua moto. Ele não disse nada sobre o ocorrido ou me explicou quem eram aqueles homens, apenas indicou apressadamente com a cabeça para que eu subisse e assim eu fiz.

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(Pov Vanessa)

 

Já estava escurecendo e nenhum sinal de Clara.

Por volta de uma e meia da tarde eu cheguei do meu almoço com Megan e fui chamá-la no oitavo andar mas ela não estava lá. Eu mandei mensagens, liguei e nada. Drew e Wes também não sabiam dela, Angel muito menos. Eu não havia conseguido falar com a May, mas isso era o que me tranquilizava, vai que as duas estavam juntas?