providenciar

Capitulo 148

Clara respirou profundamente para controlar o impulso de confirmar aquela retórica. Não era daquele jeito que terminaria sua relação com Eduarda, suas regras de conduta moral não permitiriam tal crueldade.

– Duda você está falando bobagens, não vou continuar essa discussão. Vou providenciar meu visto, e tentarei embarcar o mais rápido possível para lhe encontrar.

Sem dar chances de Eduarda retrucar, Clara desligou o telefone. Se pudesse arriscar um palpite ela acertaria quando imaginou que naquele momento Eduarda lançara o celular contra a parede furiosa com a noiva.

Depois da conversa tensa com a empresária, Clara pressentiu que não seria tarefa fácil definir aquela situação e ficar livre para Vanessa. O mal estar gerado por aquele telefonema só foi minimizado quando dona Joana bateu à porta:

– Doutora, tem um motoboy aqui fora insistindo em entregar-lhe um embrulho pessoalmente.

– Embrulho?

– É, disse que a exigência do remetente era que a encomenda fosse entregue em mãos.

– Se passou pela segurança e pelo raio X não acho que seja uma ameaça não é?


Clara pensou alto.

– A senhora vai ou não receber?


Dona Joana indagou impaciente.


– Faça-o entrar.

O motoboy entrou no gabinete com seus trajes característicos da profissão e o capacete na cabeça apenas com a viseira levantada. Os olhos eram familiares, mas Clara tentou disfarçar o reconhecimento se adiantando para receber o embrulho.

– Quem enviou? – a promotora perguntou.

– Consta no protocolo de entrega.

O motoqueiro de voz rouca exibiu o livro de protocolo para Clara assinar e decretou:

– Tenho instruções para aguardar a sua resposta.

Clara estranhou, e tentando esconder o conteúdo do pacote de dona Joana que curiosa se esticava para conferir o teor da entrega, quando viu quem o enviou sorriu discretamente: Vanessa Andre Mesquita.

Abriu com cuidado a caixa e dessa vez não conseguiu conter o sorriso largo quando conferiu do que se tratava: um pedaço de torta charlote, a preferida de Clara. Fixado na embalagem um bilhete:

–“A sobremesa eu já providenciei, mas o jantar é por sua conta. Janta comigo?”.

– Diga-lhe que a resposta é sim.


Clara disse assinando o livro de protocolo do motoboy. Encantada com o gesto delicado de Vanessa, Clara nem olhou para o motoqueiro que não saiu da sala mesmo já tendo cumprido sua missão.

– O senhor já está dispensado.

Dona Joana praticamente expulsou o rapaz, enquanto Clara esperava ficar sozinha para telefonar para Vanessa. Qual não foi sua surpresa quando coincidentemente ouviu um celular chamar da recepção, sem resposta. Intrigada seguiu o som e percebeu que coincidia com as chamadas do celular do motoboy que se afastava pelo corredor do prédio.

Insistiu na ligação já que não obteve resposta, seguindo o som que ecoava pelos corredores junto com o motoboy que se afastava sem cessar seu percurso mesmo sendo seguido acintosamente pela promotora. Para surpresa de Clara o motoboy entrou no banheiro feminino do andar, a promotora intrigada continuou a perseguição, dentro do banheiro se deparou com o motoboy que de frente para ela retirou o capacete exibindo seus cabelos grandes e loiros e o sorriso estonteante que lhe desestruturava completamente. Vanessa com seu jeito de moleca disse:

– A gente precisa parar de se encontrar nos banheiros da cidade doutora.

Tentando se recobrar do choque, Clara balançou a cabeça negativamente, sorriu e não resistindo ao charme da fotógrafa a empurrou contra a porta, prendendo seu corpo no dela para um beijo faminto.

– Você é louca! E eu amo você ainda mais por isso!

Vanessa envolveu a cintura de Clara devolvendo o beijo quente, sugando a língua da loira acendendo seus desejos.

– Já podemos jantar agora?

Vanessa sussurrou. Clar sorriu e se rendendo aos apelos do seu corpo e tocada pelo gesto apaixonado da fotógrafa respondeu:

– Desde que o prato principal seja servido na nossa cama, sim podemos.

– Será servido onde você quiser meu amor.

Naquele dia, o expediente de Clara foi encerrado mais cedo pela primeira vez desde que assumiu o cargo no Ministério Público. Nos braços de Vanessa, Clara retomou suas energias, outrora abaladas pela discussão com Eduarda. Aninhada no corpo da loira a promotora tinha a certeza que tudo mais era menor, aquele sentimento que unia ela e Vanessa era intenso e forte o suficiente para transpor qualquer episódio desagradável que riscasse seu estado de felicidade plena.