processo inverso

eu pego uma bicicleta emocional pra fugir de você. me mudo pra capital na sexta. ainda não tirei nem a mala do sótão. o que me era fundamental já não faz sentido. troquei os jeans pelos blazers e as palavras pelos números. os velhos amigos de bar troquei pelos colegas de corredor. e eu não sei o que importa e o que tanto faz, o que me molda e o que é supérfluo. não consigo deixar nada de lado, mas tampouco abocanho tudo e seguro. fico assistindo as pessoas dizendo que vão embora o tempo todo e só fico. tem me dado paz não me mexer muito. ficaria o dia todo na mesma posição se meus ossos não doessem. às vezes roo as unhas até de madrugada e depois durmo um sonho incessantemente. é um pouco cansativo desexistir. um processo inverso ao nascimento, que não é a morte. é só negar a existência e desfaze-la, como um pranto pra dentro do corpo. implodir. prometo não levar aquela camisa do ac/dc nem as certezas que me desviaram do caminho certo. eu sinto pavor de fazer qualquer coisa porque tudo parece definitivo, mas vou acabar seguindo a correnteza e transformando o medo em algo bonito. talvez eu produza, faça arte da exaustão, limpe os mofos das minhas bagunças e volte a ser luz. perdi toda a minha capacidade de organização, o que chega a ser bom. é meu panorama zero, minha tábula rasa. vou começar aqui como se nunca tivesse sido coisa alguma. se der certo, a gente não se vê mais. torça então por isso.