premeditar

Mania que a gente tem de tentar premeditar o impremeditável. Não vou me apaixonar de novo, não vou amar de novo, não vou fazer isso e aquilo de novo, cansei disso — dizemos, ingênuos, acreditando termos nos tornado de uma hora para outra seres autossuficientes, voltando a alimentar a ilusão marqueteira de que é possível gerenciar as próprias emoções e evitar o inevitável, e algum tempo depois nos pegamos idiotizados, o olhar enternecido acompanhado pelo conhecido retardo mental, assaltados por mais uma paixão súbita ou por mais um amor violento que dá sentido às nossas investidas existenciais. E a gente vive por isso, embora no mais fundo do orgulho gostemos de pensar que não.
—  Edson Junior.
Chega um momento na vida que não há a onde se esconder. Você se torna inteiramente responsável por tudo o que faz. Você começa a colher o que semeou e, tem a obrigação de arar a terra novamente, para novas ações surgirem. E nesse momento não há frio na barriga, dor na ponta do dedinho ou calafrio que o salve. As estradas já não parecem tão seguras, sua visão tende a embaçar e sua cabeça quase explodir. Você sente vontade de chorar, pois não sabe o que fazer. Ontem mesmo fora uma criança e hoje se vê cheio de opções e poucas escolhas. E dói tanto. Essa história toda de crescer, de ter que arrumar uma profissão, de ter que comprar uma casa, de ter que construir uma família, de ter que levar seus netos na escolinha e envelhecer até morrer. É tão complicado essa situação toda de ter que premeditar seus próprios passos combinado a essa merda toda de responsabilidades.
—  Alifer Souza.
C.B.A.H.L

“Ela é bossa-nova, samba de roda, é carnaval
ela faz jus ao nome,
encanta e some.

Ela ama, (des)ama
e (re) ama
e depois de toda essa trama
não se encontra o fim.

Ela é da cor do meu café com leite, hmmmmmm…
que sede
que ela me dá.

E para saciar essa sede
um gole de você basta
mas você com relutância
não me permite tal graça.

É alegria de dia
tristeza de noite
felicidade e angústia
de mãos dadas.

E aqueles olhos castanhos
parecem premeditar o que está por vir
mas eu me recuso a ir
até você me expulsar.

E a luz dos seus olhos castanhos
que antes me iluminavam
hoje me afogam
como se fossem o mar…

Ela é dela, e ponto final.”

Não foi planejado, nem premeditado. Foi só um querer estar perto e cuidar, tomar todas as dores e lágrimas como se fossem suas. A vontade e o desejo vieram depois, bem depois. Não foi um lance de corpo, foi um lance de alma. Não foi o jeito de escrever, ou de se vestir. Foram as palavras. Uma saudade e uma urgência daquilo que nunca se teve, mas era como se já tivesse tido antes. Foi amor. É amor.
—  Tati Bernardi

tomei um banho e um capuccino
cê disse que é boa essa combinação
pra acalmar os dias
de pleno desatino
ainda disse que nenhum mal 
há de permanecer
e que felicidade pura 
é se esquecer

somos como capuccino:
fragmentado.
cálcio pra ser forte
e café pra ser agudo

assim se esforçar
com o pouco 
do muito que tem
e sobreviver 
com o que sobra 
de um átomo
de esperança
clandestina

criei uma filosofia barata 
pra sustentar o mundo
porque não é fácil
eu não sou de prata
muito menos de ouro
às vezes dá pra ser de bronze
estouro estorvo

deixo aqui essa filosofia
porque não é fácil
se manter assim:
firme de agonia

depois de toda essa
carga sentimental 
eu me deprimi:
admito
mas é bom 
pra abalar os ânimos

tenho dito pra se
lembrar de que nem 
tudo é singular e dá 
pra sorrir enquanto isso

quando eu não puder premeditar 
como você há de descobrir
eu exagero no cinismo
que é pra não abandonar
os ânimos ambíguos

enfim você é base
eu sou destruição
você é calma
eu sou lamentação

só pra deixar bem claro:
esquecer é não permanecer 
e felicidade é sempre
por um triz

tá aí uma certeza
pra te tornar cicatriz.