pra-enfrentar-o-inverno

Eu que não fumo,
Queria um cigarro.
Eu que não amo você
Envelheci dez anos ou mais
Nesse último mês.
Eu que não bebo,
Pedi um conhaque
Pra enfrentar o inverno
Que entra pela porta
Que você deixou aberta ao sair.
—  Eu que não amo você | Engenheiros do Hawaii.
Eu que não fumo, queria um cigarro. Eu que não amo você, envelheci dez anos ou mais nesse último mês. Eu que não bebo, pedi um conhaque, pra enfrentar o inverno que entra pela porta que você deixou aberta ao sair.
—  Engenheiros do Hawaii.
Eu que não fumo, queria um cigarro. Eu que não amo você, envelheci dez anos ou mais nesse último mês. Eu que não bebo, pedi um conhaque pra enfrentar o inverno que entra pela porta que você deixou aberta ao sair.
—  Engenheiros do Hawaii.
Capítulo 56

Mayra: Fudeu! Vamos ser assaltadas.
Vanessa: Fica quieta e entrega tudo! 
xXx: O que vocês fazem aqui a essa hora? – May virou aos poucos.
Mayra: Ah seu cretino! Eu vou te matar! – Começou a dar sapatadas na pessoa.
Vanessa: Pára May, é o Edu!
Mayra: Eu sei que é ele, você acha que se não fosse ele eu taria batendo?
Edu: E por que você ta me batendo?
Mayra: Porque você me assustou, filho da mãe! – Edu começou a rir.

Vanessa: Liga não Edu, ela ta bêbada.
Edu: Pelo jeito ela não é a única, né? O que estão fazendo aqui? E a essa hora?
Vanessa: Então, eu fui descartada pela Clara e a May me acolheu.
Edu: Vocês duas estão ficando?
Vanessa: Claro que não Edu! Só viemos beber um pouco.
Edu: E agora estão indo pra onde?
Mayra: Não te interessa!
Edu: Me interessa sim, olha o estado de vocês duas.
Vanessa: Estamos indo pegar meu carro pra ir pra casa.
Edu: Você não vai dirigir desse jeito.
Mayra: Eu já disse pra você não se meter, seu metido! Volta pra festinha com as tuas peguiguetes!
Edu: Com as minhas o que?
Vanessa: Peguetes! Ela tentou dizer peguetes. – Edu riu.
Edu: Me dá a chave, eu levo vocês embora.
Vanessa: Ah eu não quero ir pro apartamento não.
Edu: Você vai pra onde então?

Vanessa: Eu quero ir pro meu apartamento. Não to afim de ir pro outro.
Edu: Ta, no caminho você me diz onde é e eu te deixo lá.
Vanessa: Ta bom. – Ela entregou as chaves e eles entraram no carro. 

O apartamento de Vanessa não era muito longe dali, então alguns minutos depois eles chegaram lá.

Vanessa: Valeu Edu. Pode ficar com o carro. Leva a May com você.
Mayra: Não! – Ela desceu do carro. – Quero ficar com você.
Vanessa: Não precisa May. – Desceu do carro também. - E vou ficar legal.
Mayra: Mas com o Edu no carro, eu não vou ficar legal. Quero ficar!
Edu: Fica com essa chata Van. – Desceu do carro.
Mayra: Chato é você!
Edu: Você quem é!
Vanessa: Chega! Vocês dois vão acordar o bairro todo. Beleza Edu, a May vai ficar comigo, mas você pode ficar com o carro.
Edu: Eu vou direto pra casa mesmo. Não precisam de nada?
Vanessa: Não, obrigada por tudo.
Edu: Tchau May. – Ele se aproximou dela e quando foi dar um beijo em seu rosto, ela o virou e acabou pegando de raspão na boca.
Mayra: Abusado! – Edu riu.

Edu: Foi sem querer! Você virou o rosto.
Vanessa: Chega vocês dois, mas que coisa. – Ela pegou umas chaves no carro e deu pra May. – Vai entrando May, eu já vou. – Ela retirou-se.
Edu: Tem certeza que vocês não precisam de nada?
Vanessa: Tenho sim, valeu mais uma vez. – Ele se aproximou dela e deu um beijo em sua testa.
Edu: Não fica mal não, valeu?
Vanessa: Pode deixar. – Sorriu sem muita vontade. – Boa noite ou bom dia, sei lá.
Edu: Cuida bem da teimosa. – Entrou no carro e o ligou.
Vanessa: Deixa comigo.

Assim que se despediram, Vanessa entrou no prédio e May a esperava no elevador. Elas subiram, May fez mil comentários de como o apartamento de Vanessa era lindo, elas conversaram mais um pouco, logo tomaram um banho e caíram na cama. May adormeceu na cama de Vanessa, enquanto ela tomava seu banho. Vanessa não quis acordá-la, então a deixou ali mesmo.


‘Eu que não fumo queria um cigarro.
Envelheci dez anos ou mais nesse último mês.
Eu que não bebo, pedi um conhaque pra enfrentar o inverno que entra pela porta que
você deixou aberta ao sair’

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Já era seis da manhã e Vanessa tinha em suas mãos um copo de whisky, ela andava do quarto para a sala, ia na sacada, olhava o pouco movimento que tinha lá embaixo, voltava para o quarto, deitava, tentava dormir, bebia mais um pouco quando o sono não vinha, até que deitou pela milésima vez e acabou pegando no sono, ao lado de May. 

Como ninguém sabia que elas estavam lá, ninguém as incomodou, afinal, seus celulares estavam descarregados e elas nem se deram conta. Lá pelas duas da tarde e com bastante dificuldade e pouca vontade Vanessa foi abrindo seus olhos aos poucos. A claridade que passava por entre a cortina de seu quarto a incomodava, então ela virou para o outro lado e teve uma bela e assustadora surpresa: May estava deitada, dormindo seminua ali mesmo, em sua cama.

Rapidamente Vanessa se sentou na cama e percebeu também estar seminua. Por causa das doses extras de bebida alcoólica e ao sono que ainda sentia, ela não se lembrava ao certo do que havia acontecido na noite anterior, depois que já estavam em seu apartamento. Mas se as duas haviam bebido até não poder mais e se estavam – seminuas - na mesma cama, com certeza o instinto de Vanessa havia falado mais alto e ela teria se rendido, ficando com a prima da mulher que amava.

VanessaPuta que pariu, não acredito que eu fiz isso! Cara, que mancada! 

Ela se enrolou em um lençol e começou a andar de um lado para o outro no quarto. 

VanessaA May vai achar que eu a embebedei só pra trazê-la aqui pro meu apartamento. Eu não acredito que eu fui fraca mais uma vez! Mas que porra! Como vou contar isso pra Clara? E com que cara vou olhar pra May quando ela acordar? – Aos poucos, May começou a acordar. – Não May, não acorda agora não, por favor, eu não pensei em nada ainda. Será que se eu cantar como fazem nos desenhos, ela dorme de novo também? Aff, claro que não. Ih já era, ela acordou! – Ela arregalou os olhos. 
Mayra: Bom dia! – Sorriu espreguiçando-se. Vanessa estranhou.
Vanessa: Bom dia? – Será que eu disse que a amava?

Mayra: Não é bom dia?
Vanessa: Não é que…é..eu e você…nós duas…você vai me achar uma cafajeste, mas o que aconteceu ontem a noite aqui nesse apartamento? – May começou a rir.
Mayra: Não, nós não transamos. 
Vanessa: Não? Tem certeza?
Mayra: Se eu tivesse transado com uma mulher, com certeza eu não iria esquecer. Nós chegamos, bebemos, tomamos um banho e dormimos. Bem, foi isso que eu fiz, agora se você me molestou enquanto eu dormia, daí já não sei.
Vanessa: Não brinca com isso May.
Mayra: Viu como é bom zuar os outros. – Sorriu. – Que horas são?
Vanessa: Duas ou três da tarde.
Mayra: Vamos fazer assim, enquanto eu ligo pro apartamento das meninas pra dizer que estamos bem, você coloca uma roupa e pede algo pra almoçarmos, ok?
Vanessa: Ta bom, to cheia de fome. Já volto. – Retirou-se. 

E assim como combinado, elas fizeram e logo foram almoçar. Enquanto almoçavam, conversavam.

Vanessa: Você tem certeza que não rolou nada?
Mayra: Tenho Van, desencana. Até porque se você tivesse transado comigo, você não iria esquecer!
Vanessa: Nem se acha né? – Elas ririam. – Falou com as meninas?
Mayra: Falei, Paula estava louca atrás de nós.
Vanessa: O Edu não disse onde estávamos?
Mayra: Ele não acordou ainda.
Vanessa: E a Clara?
Mayra: Bem, é… Paula disse que ela ainda não tinha chegado. 

Depois disso e o assunto acabou. Vez em outra May falava qualquer besteira, mas estava na cara que Vanessa não tinha gostado nada do que May havia falado antes. Depois que almoçaram, elas limparam a bagunça, conversaram mais um pouco e la pelas cinco da tarde, resolveram voltar ao apartamento das meninas.

Ao mesmo tempo que Vanessa estava louca pra chegar e ver Clara logo, ela tinha medo de como agir ao vê-la e de que Clara não estivesse lá. Por vezes, durante o trajeto, ela pensou em adiar um pouco mais essa chegada, mas era tarde, elas já estavam no elevador, indo em direção ao apartamento delas. Assim que saíram do elevador, ela começou a dar passos inseguros e lentos. Segundos depois e elas já estavam no apartamento.

Paula: Bonito hein? Saem pra gandaia, não avisam e chegam só no outro dia tarde! 
Mayra: Viramos a noite bebendo na praia.
Paula: Teve que carregar ela, Van?
Vanessa: Não, ela já ta se saindo bem. – Elas riram. – E a Clara? – Paula olhou May e desfez o sorriso.
Paula: A Clara ligou agora pouco perguntando por você e pediu pra te avisar que…que ela vai vir só amanhã a tarde, depois que levar Fabian pro aeroporto.
Vanessa: Ah. – As duas notaram que Vanessa ficou bastante desapontada.
Mayra: Aeroporto? Ele vai embora amanhã? – May falou isso na tentativa de animar, um pouco que fosse, Vanessa.
Angel: Parece que sim.
Vanessa: Eu vou pro quarto ver os meus e-mails. Com licença. – Retirou-se

Vanessa deixou May e Paula na sala e foi para o quarto, ligou seu notebook, abriu seus e-mails, respondeu o e logo saiu da internet. Aquele seria mais um dia sem Clara. Ela deitou na cama, ficou olhando para o teto e lembrou que tinha algo no bolso. Ela colocou sua mão dentro dele e pegou a rosa que ela havia tirado do buque e que daria hoje pra Clara e ficou olhando-a.

VanessaPois é, mais uma vez sobrou nós duas, rosinha. – Começou a acariciar a rosa.

Era nove e pouco da noite e Vanessa ouviu seu celular vibrar em cima da cômoda onde estava carregando. Ao olhar no visor, viu que era Clara, ela fechou os olhos e deixou chamar até a ligação ser finalizada. Dessa vez ela estava muito chateada com Clara. May ficou um tanto preocupada ao notar que Vanessa não tinha saído do quarto pra nada então foi vê-la como estava.

Mayra: Posso entrar, Van? – Vanessa guardou a rosa na gaveta e respondeu.
Vanessa: Pode sim, May. – Ela entrou e foi até a cama onde sentou-se.
Mayra: Como você está?
Vanessa: To bem. – Sorriu.
Mayra: Vamos jantar?
Vanessa: To sem fome.
Mayra: Você tem no estomago só o almoço, precisa comer algo.
Vanessa: Antes de dormir eu como.
Mayra: Vai passar a noite aqui?
Vanessa: Não sei. Acho que vou dar uma volta.
Mayra: Quer ir a boate?
Vanessa: Não. Preciso relaxar e só relaxo fazendo uma coisa.
Mayra: Vem ela com putaria de novo. – Vanessa riu.
Vanessa: Isso também me relaxa, mas não é isso.
Mayra: Então é o que?
Vanessa: Quer mesmo saber?
Mayra: Claro.
Vanessa: Pega um casaco e vem comigo então. – Levantou-se colocando o casaco.
Mayra: Aonde vamos?

Vanessa: É surpresa. Vamos logo.
Mayra: Você não vai aprontar né?
Vanessa: Claro que não. Confie em mim! 
Mayra: Ta bom, só espero não me arrepender depois. – Levantou-se. – Vou pegar meu casaco então.

Enquanto May pegava o casaco, Vanessa avisou que elas iriam sair mais uma vez. Sem perder tempo e as duas seguiram para o carro.

Mayra: Quero só ver que surpresa é essa! – Vanessa deu a partida no carro e começaram a andar.
Vanessa: Não prometo que você vai gostar.
Mayra: Não vai me levar a nenhum puteiro lésbico né?
Vanessa: Claro que não.
Mayra: E hetero?
Vanessa: Menos!
Mayra: Então não vai ter graça. – Vanessa sorriu. – É longe?
Vanessa: Não muito.

Uma meia hora depois e elas estavam no tal lugar misterioso.

Mayra: Pera aí, a sua surpresa é essa? Uma estrada deserta?
Vanessa: Não é simplesmente uma estrada deserta, é um palco pra pegas.
Mayra: Aquelas corridas doidas?
Vanessa: Exatamente.
Mayra: Entendi. Espera aí! Você vai fazer um pega e eu to dentro do seu carro?
Vanessa: Bingo! Faz tempo que eu não faço isso e to precisando.
Mayra: Você é louca, Vanessa! Onde já se viu relaxar correndo o risco de morrer.
Vanessa: Não é pra tanto também.
Mayra: Você deve ta de porre ainda, só pode! Não, quem ta de porre ainda sou eu, to imaginando isso, é, é isso mesmo!– Vanessa sorriu.
Vanessa: Quer ver como é um pega ou quer esperar do lado de fora?
Mayra: Tem certeza que isso é seguro e que não vamos morrer aqui?
Vanessa: Cruzes May, não vamos morrer. E prometo fazer com carinho. - Sorriu. 
Mayra: Já que é assim, eu topo então.
Vanessa: Aperta bem teu cinto. 
Mayra: Como é?
Vanessa: Questão de segurança, você sabe. – May não gostou, mas assim fez.

Vanessa esperou May apertar seu cinto e logo ligou o carro, dava pra notar de longe que May estava nervosa demais. Vanessa acelerou o carro algumas vezes e logo tirou o pé da embreagem fazendo o carro queimar pneu e logo começar a correr. May se segurava no banco e no painel do carro, seus olhos estavam arregalados e sua boca entreaberta. A estrada era reta, havia apenas uma curva há alguns metros de onde elas deram a saída e um pouco antes de chegar nessa curva, Vanessa deu um cavalo de pau, e em alta velocidade voltou ao lugar de onde saíram, dando outro cavalo de pau e parando o carro em seguida.

Vanessa: E aí May, gostou?
Mayra: Eu disse que você era louca?
Vanessa: Disse.
Mayra: Você não é louca, você é retardada! – Vanessa sorriu.
Vanessa: Ah, confessa que é emocionante. 
Mayra: Tem emoção demais pra mim!

Enquanto elas conversavam, alguns faróis altos vinham na direção delas.

Mayra: Putz, só falta ser a policia! 
Vanessa: Relaxa.
Mayra: E se forem assaltantes?
Vanessa: Relaxa. 
Mayra: Pára de me dizer pra relaxar porque eu fico mais nervosa!

Os carros que vinham pararam ao lado delas.

xXx: Olha o que eu achei, duas gatinhas perdidas na beira da estrada.

Haviam uns quatro ou cinco carros, todos com três ou quatro integrantes em cada um, entre homens cheios de marras, haviam algumas mulheres, parecia ser uma gangue.