ponta seca

você é como uma pintura que ainda tento entender
te toco porém não te sinto
e isso me dói
me dói porquê você é só sua
e eu estou em tudo menos no teu mundo
sou como uma ponta seca de um pincel
só quero ser p(arte) de ti
só deixa misturar tua cor na minha
e ver no que vai dar

você
não pode
gostar de mim
como eu gosto de você
e eu digo que tudo ok porque isso não é algo que se possa pedir. mas eu gostaria de dizer as verdades. gostaria de sentir inteiro. de não machucar a gente com isso, mas pegar a ponta seca do compasso e riscar nosso íntimo, pra gente sangrar vivo como quem sente e vive e pulsa.
eu quero agarrar a sua sanidade e questionar cada pergunta. isso. te desmontar com as minhas dúvidas. me pendurar nas suas certezas. quebrar as barragens que a gente finge impor pra não se perder. as migalhas que espalha pra voltar pra casa. eu quero te tirar dos trilhos. porque só assim eu vou sentir algo vivo dentro de mim.
mas isso não é algo que se possa pedir

De momento é o jazz que está a tocar; não há melodia, só notas, uma miríade de breves sacudidelas: não têm descanso, uma ordem inflexível fá-las nascer e destrói-as, sem lhes deixar um momento para tomarem fôlego, para existirem por si. Elas correm, apressam-se, dão-me, ao passarem de fugida, uma pancada seca, e voltam ao nada. Gostava de as apanhar, mas sei que, se chegasse a agarrar uma, só me ficaria entre os dedos um som ordinário e sem vida. Tenho de aceitar que morram; essa morte, devo até querê-la: conheço poucas impressões mais ásperas e mais fortes. Começo a reanimar-me, a sentir-me feliz.

Há ainda outra felicidade: fora de mim há aquela faixa de aço. A duração limitada da música que atravessa o nosso tempo de lado a lado, e o recusa, e o rasga com as suas pontas secas e agudas; há um tempo diferente.


Jean-Paul Sartre, A Náusea