piva

Rua das Palmeiras

Minha visão com os cabelos presos nos rumores de uma rua o sol fazendo
      florescer as persianas por detrás do futuro
meu impulso de conquistar a Terra violentamente descendo uma rua
      gasta
minha vertigem entornando a alma violentamente por uma rua estranha
os insetos  as nuvens costuram o espaço avermelhado de um céu sem dentes
as copeiras se estabelecem nas sacadas para gritar
o sangue fermenta debaixo das tábuas
meninas saem de mãos dadas sem que a Terra deixe marca nas unhas
onde está tua alma sempre que o velho Anjo conquista as árvores
      com seu sêmen?

os aviões desencadeiam uma saudade metálica do outro lado do mundo
colunas de vômito vacilam pelos olhos dos loucos
corpos de bebês mortos apontam na direção de uma praça vazia
o tapume os vultos meu delírio prestes a serem obliterados pelo
      crepúsculo
almas inoxidáveis flutuando sobre a estação das angústias suarentas
as palavras cobrem com carícias negras os fios telefônicos
no ar no vento nas poças as bocas apodrecem enquanto a noite
      soluça no alto de uma ponte

Roberto Piva, em Paranoia [1963] [São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2009]