pianinho

Cadê você que não me vê? Quem é você que eu não vejo? Cadê você pra me dizer que tudo isso vai passar? Eu vou entrar na tua casa, eu vou entrar na tua vida, eu vou sentar e esperar tu me mandar embora mais uma vez. Cadê você que me esqueceu? Quem é você que eu não esqueço? Quem é você que me prendeu e depois me deixou pra trás?
—  Pianinho, Esteban.
Sou a maldade em crise, tendo que reconhecer as fraquezas de um lado que nem todo mundo vê. Fiz em mim uma faxina, e encontrei no meu umbigo o meu próprio inimigo que adoece na rotina. Eu quero me curar de mim. Quero me curar de mim. O ser humano é esquisito, armadilha de si mesmo. Fala de amor bonito e aponta o erro alheio. Vim ao mundo em um só corpo, esse de um metro e sessenta, devo a ele estar atenta. Não posso mudar o outro. Vou pequena e pianinho fazer minhas orações. Eu me rendo da vaidade
que destrói as relações. Pra me encher do que importa, preciso me esvaziar. Minhas feras encarar, me reconhecer hipócrita. Sou má, sou mentirosa, vaidosa e invejosa. Sou mesquinha, grão de areia. Boba e preconceituosa. Sou carente, amostrada. Dou sorrisos, sou corrupta. Malandra, fofoqueira, moralista e interesseira. E dói, dói, dói me expor assim. Dói, dói, dói, despir-se assim. Mas se eu não tiver coragem pra enfrentar os meus defeitos. De que forma, de que jeito eu vou me curar de mim? Se é que essa cura há de existir, não sei. Só sei que a busco em mim, só sei que a busco.
—  Me curar de mim, Flaira Ferro.