perninhas

Porque eu quero curtir a pessoa antes de estar com ela, quero troca de olhares, quero achar o sorriso bonito, quero me encantar, quero levantar a perninha no primeiro beijo e quero que seja verdadeiro. Porque eu quero que ocorra o pedido de namoro para os meus pais, quero aproveitar cada minuto ao lado, quero passar a tarde de um dia chuvoso vendo filmes, quero ir em um churrasco de família acompanhando, quero apresentar para os amigos e quero que seja verdadeiro. Porque eu quero um pedido de casamento emocionante e surpreendedor, quero ver todos os tipos de vestidos e decorações para o grande dia, quero ensaiar a valsa milhares de vezes, quero escolher padrinhos e madrinhas à dedo, quero deixar todos loucos com tanta enrolação para marcar a data e quero que seja verdadeiro. Porque eu quero acordar do lado desse alguém, quero fazer viagens inesquecíveis, quero esperar ansiosa pelo fim do dia só para fazer um jantar especial, quero ser madrinha de um afilhado, quero sonhar em ser mãe e quero que seja verdadeiro. Porque eu quero ver o teste dando positivo, quero surtar pensando em uma forma diferente de dar a notícia ao pai, quero a ansiedade de saber se é menino ou menina, quero ficar imaginando o rostinho, quero contar os dias para finalmente tê-lo em meus braços e quero que seja verdadeiro. Porque eu quero olhar o rosto e ter certeza de que aquele nome se encaixa, quero amamentar e ninar, quero ver o riso fácil ao me ver, quero ouvir as primeiras palavras, quero dar a educação certa e quero que seja verdadeiro. E exatamente por querer tanto, tenho medo de não ter. É difícil de encontrar alguém que se encaixe nos meus planos, porque apesar de querer tanto, acima de tudo, quero que não seja superficial. E repito: Que seja verdadeiro.
—  Vittoria Catarina.
Li três textos hoje. Os três falavam de tédio e tristeza. Os três falavam de lágrimas, solidão e vazio. Talvez, eu tenha mencionado todos esses fatores nos meus últimos textos. E nos meus primeiros também… Mas é que todos os seres humanos tem algo em comum: a existência. Fria e transmissível como um gripe, de fato. Hoje, além do três textos tristes, eu vi também um ambulância de maternidade, com a sirene ligada, provavelmente com uma moça em trabalho de parto dentro. Sorri. Gostaria de estar lá dentro com ela. Partos. Eu odeio partos. São poesias sendo expelidas do corpo, com mini perninhas, às vezes desejadas, às vezes não, assim como eu. Todos os bebês são pequenas metáforas antes de escreverem seus próprios textos tristes, assim como eu. Mas gosto de pensar que aquela mulher cresceu, sonhou, amou e alimentou dentro de si o desejo de ser mãe. Gosto de pensar que ela estava gritando de dor, com as pernas abertas para estranhos, absurdamente vulnerável, porque tem que ser assim, assim como eu, você, nós. Dou à luz a tantas coisas tristes: tédio, lágrimas, solidão e vazio. Todos os dias estou com o coração crescido, esperando algo me explodir e querer sair por todos os buracos vulneráveis e atraentes da minha alma. Eu penso na minha mãe, coitada, parindo algo que ela jamais quis parir. Vomitando sua poesia incompleta ainda, gritando de dor, sangrando, igualando-se a um animal, tão nova, tão bonita, envergonhada de suas entranhas, envergonhada de seu ventre expelir algo tão clichê quanto, adivinhem, eu! Eu gostaria de dizer pra minha mãe que ainda busco completar a poesia que ela começou e não teve tempo de terminar. Ainda busco acordar de manhã e encontrar um sentido pra minha vida. Mães gritam e esquecem da dor com um choro. É a vida em seu estado bruto, cru, nu, bonito. Longas horas de agonia e, no final, um sopro de felicidade que vem em forma de outro choro, envolto em sangue, visceral, minúsculo, o primeiro texto triste da vida de um novo ser humano. Partos são metáforas lindas. São reais. Mamãe abraçou sua metáfora incompleta e me amou com todas as forças que tinha. (Entendo que ela tinha poucas forças. Eu também sou fraco. Mas amo mesmo assim. Eu sei como é). Mamãe amou sua obra incompleta, como uma criança que ama um desenho feio, como uma adolescente que se apaixona por um cara errado na escola, como um idiota que escreve textos tristes. Meu choro abafou o choro dela. Agora, a vida era problema meu, meu e de meus textos tristes. Mas hoje, após ver aquela ambulância da maternidade, eu quero dizer algo para a nova metáfora que veio ao mundo… Eu quero dizer, amigo, que essas lágrimas vão cair centenas de vezes e que respirar dói ainda hoje. Mas eu quero dizer também que a gente consegue sobreviver mesmo sendo incompleto. A gente consegue ser feliz, mesmo escrevendo textos tristes. A gente consegue parir centenas de coisas com os buracos da alma, e amá-las, assim como, aos poucos, eu consigo amar a mim mesmo, com toda essa incompletude, essa confusão e essa impotência asquerosa. A gente consegue dar uma pausa na solidão e e aproveitar a companhia de alguém, a gente consegue esquecer de tudo através do álcool ou da bíblia (o que você preferir adorar), a gente consegue ser feliz fazendo sexo, mesmo que do sexo nasça outra poesia, completa ou incompleta, para preencher o eterno vazio do mundo. O mundo, inclusive, lê suas poesias rápido demais. É incessante. Então, amigo, você não é o último cara da terra. Você não é o único texto triste que li hoje. Eu quero dizer, amigo, que hoje eu vi uma grandalhão passeando com um filhote de cachorro na rua. Hoje, eu fiquei feliz porque você tava chegando! Dá pra ser feliz, entende? É difícil, mas dá. Dá pra ser feliz, amigo. Você consegue amar até mesmo aquilo que dói. Olha pra sua mãe e vê como ela tá chorando enquanto te olha. De dor ou de felicidade, que seja. Mas ninguém escuta o choro dela, apenas o seu. Não esquente com isso. Os choros abafados, uma hora, serão os seus. Os choros do seu velório serão mais altos do que a sua tristeza velada. Mas por enquanto, pequeno amigo, este texto não é um texto triste em sua homenagem.
—  Cinzentos
Sentávamos com perninha de índio, falávamos por horas dos livros que lemos durante o mês, arriscávamos algumas notas no violão, ríamos sobre as tuas encrencas e os roxos na minha pele — eu, atrapalhada, sempre esbarrava em alguma coisa. É que hoje deu saudade. É que hoje eu queria ter saído pela rua e esbarrado em você. Logo em você eu não esbarro. Acho que por dentro, bem lá no fundo, inconscientemente, vou mudando os caminhos para não esbarrar. Acho que por dentro, no fundo do fundo, se é que isso existe, tenho medo de esbarrar e me machucar também.
—  Amanda Medina
[Praça da Torre do Relógio]

Carruagens iam e vinham do palácio para a cidade, então chegar lá não foi um problema. Só foi mesmo um problema… A carruagem não parar tão perto do lugar que queria ir, por ter um acúmulo grande de pessoas e ser perigoso o trânsito de veículos entre elas.

Tendo as perninhas tão curtas e finas, fora um tanto cansativo alcançar aquela área de festejo… Rodas de pessoas dançantes, fogos lançados aos céus, mesinhas diante da praça e pessoas sorridentes, barulhentas… Acharia incômodo tanta gente assim naturalmente, mas com aquela quantidade de luzes e risadas felizes, tornava-se algo agradável. Para observar melhor de um canto afastado, resolveu se sentar num banco bem próximo da torre, sozinha.

O horário marcado no relógio já era avançado e ainda tentava se lembrar do que acontecia… Porém, olhando todas aquelas pessoas reunidas dava-lhe um vazio inexplicável, deixando-a distraída.

CAP 17

POV CLARA

Assustei com meu celular vibrando na mesa de cabeceira da cama. Olhei para o lado ignorando totalmente o celular, vi a claridade invadir parte do quarto o que significava que já era dia. Me virei e sorri com a cena que acabava de presenciar. Max estava de bruços com o braço direito agarrado ao pescoço de Vanessa e sua perninha em cima de sua barriga. Vanessa estava com o braço esquerdo abraçado a ele. Sorri feito boba com aquela cena. Como demorei tanto para encontrar alguém como ela!? Uma garota de uma simplicidade exorbitante, humilde, carinhosa, inteligente e até a timidez dela a deixava interessante. Suspirei ao olhar aquele corpo descoberto pelo lençol, ela usava apenas um baby doll. Meus olhos se perderam naquele corpo, naquelas curvas. Quando me lembro do quanto foi difícil pegar no sono essa noite, pois não pude fazer nada daquilo que meu corpo desejava. Tudo que eu queria era sentir aquela garota, suas mãos percorrendo toda a extensão do meu corpo. Só de imaginar, sinto meu corpo inteiro se arrepiar. Mas com Max ali, não pude matar meus desejos, minhas fantasias e olha que essas não são poucas. Se ela soubesse o que ainda quero fazer com ela, são tantas loucuras. Que é melhor nem imaginar. Peguei meu celular e havia uma ligação perdida do Pitter, ele era marido da Kamila. Minha irmã mais velha, eles moravam também em Los Angeles e trabalhavam na minha empresa. Kamila era minha sócia e Pitter advogado. Resolvi retornar a ligação mais tarde e voltei a admirar novamente Max e Vanessa. Aproveitei que estava com o celular e tirei uma foto daquela cena, Max se mexeu e aconchegou sua cabeça no braço de Vanessa. Que cena linda, meu coração estava tão feliz. Meu filho e a garota que invadiu meu mundo e meu coração. A nossa primeira noite juntas, foi tão diferente, que todos os momentos ao lado dessa garota se tornam inesquecíveis. Me sinto tão presa, mal sabe ela que não consigo passar um dia se quer sem pensar nela, estou perdida por essa garota. Quero tanto poder ser a mulher certa pra ela, pois sinto que ela é a pessoa certa para minha vida, para o meu coração. Me aproximei mais dos dois e comecei a fazer carinho em seu rosto, ela sorriu com aquele gesto. Foi abrindo os olhos aos poucos, quando seus olhos encontraram os meus ela abriu um largo sorriso. Mas quando ela foi se virar, pareceu sentir o peso de Max sobre seu corpo e sorri com sua cara  assustada  ao ver Max agarrado a ela. Vanessa começou a sorrir em seguida e quanto mais ela tentava se virar tirando o bracinho dele do seu pescoço, mais ele se agarrava a ela. Comecei a sorrir muito mais daquela cena, tentei conter o riso com uma de minhas mãos na boca. Mas foi impossível não sorrir.

Clara: Acho que o Max quer você só pra ele – sorri boba

Vanessa: Espero não ter machucado ele enquanto dormia – ela disse preocupada

Clara: Provavelmente não, se não teríamos acordado com ele reclamando. Deixa te ajudar, já estou com ciúmes desse agarramento todo – sorrimos juntas. Quanto mais tentava tirar o braço dele, mais ele se agarrava a ela. Sorrimos juntas.

Vanessa: E agora!? – ela disse ainda sorrindo ao me olhar.

Clara: Bem, você eu não sei. Mas vou tomar um banho – disse ao me levantar e sorri do desespero dela ao me olhar. Logico que estava brincando, só queria ver a reação dela. 

Vanessa: Clara! Me ajuda aqui sua vagabunda – ela disse sussurrando para não acordar Max e com um olhar desesperado.

Clara: Você me chamou do que Vanessa!? – disse séria, mas morrendo de rir internamente. Ela se assustou com minha pergunta, parecia envergonhada com o que ela havia dito

Vanessa: Fo…foi mal Clara – ela disse ao me olhar envergonhada

Clara: Vanessa, estava brincando – disse ao me aproximar dela. Tirei delicadamente o braço de Max do seu pescoço e dessa vez ele não apresentou resistência. O peguei no colo ainda dormindo. Vanessa se levantou e me aproximei dela, levei minha mão direita ao seu rosto, pois com a outra segurava Max em meus braços – Você pode me chamar assim quantas vezes quiser, desde que suporte o castigo que te darei quando estivermos entre quatro paredes. Você é uma menina má Vanessa, merece uma lição. Pena que não posso te dar agora. Mas mais tarde você não me escapa.

Vanessa: Olha o seu tamanho Clara – ela começou a sorrir da minha provocação

Clara: Não brinque com fogo Vanessa. Continue me provocando que depois você vai implorar pelo meu perdão – quando disse isso, mordi levemente meu lábio ao olhá-la. Senti sua respiração mudar drasticamente e só pude sorrir. Pois era essa minha intenção. Dei as costas para ela e coloquei Max novamente na cama. Quando já estava me levantando, senti suas mãos apertarem minha cintura, em seguida ela me virou. Vi em seus olhos o desejo, senti suas mão me apertarem ao colar nossos corpos.

Vanessa: Não faça isso de novo – ela disse ofegante ao aproximar nossos lábios

Clara: Fazer o que? Não fiz nada – mordi meu lábio novamente, senti seu corpo estremecer. Mas quando ela avançou em minha boca, Max começou a chorar. Saí dos seus braços e fui pegá-lo no colo.

Vanessa: Poxa Max – ela disse acompanhada de um suspiro, sorri da reação dela – Vai me deixar nesse estado Clara?

Clara: Quantas vezes você já me deixou nessa situação!? – sorri irônica – Se você se comportar direitinho, mais tarde te recompenso. Agora vai apagar esse fogo em baixo do chuveiro. Quero que me ajude a comprar o que falta para o apartamento.

Vanessa: Tem certeza? Nossos gostos são bem diferentes – ela disse receosa

Clara: Claro que sim, sua opinião é importante para mim e não acho que nossos gostos sejam tão diferentes assim – me aproximei depositando um selinho em seus lábios – Agora já para o banho.

Clara: Van, será que sua mãe se importaria que usasse sua cozinha para fazer a mamadeira do Max? - estava com vergonha, queria esperar Vanessa acabar seu banho. Mas sabia que Max estava com fome e começaria a chorar novamente.

Vanessa: Deixa de ser boba Clara, claro que não – ela sorriu e foi em direção a porta do seu quarto a abrindo – Vem, vou descer lá com você, depois volto pra tomar meu banho.

Clara: Obrigada – disse ao depositar um beijo em sua bochecha e senti ela corar com meu gesto. Descemos e quando chegamos na cozinha todos já estavam lá, menos o padrasto da Vanessa.

Vanessa: Bom dia gente. Oooh mãee… a Clara tava com vergonha de vir fazer a mamadeira do Max, parecia com medo da senhora – ela riu e todo mundo que estava por ali também.

Clara: Vanessaa!! – a reprendi, estava muito envergonhada – Bom dia!

Sol: Bom dia Clara. Vem, fique à vontade pra fazer a mamadeira dele – ela me deu um sorriso e pegou Max do meu colo para que pudesse preparar sua mamadeira.

Vanessa: Vou tomar um banho, já desço – ela saiu em seguida seguindo para seu quarto.

Preparei a mamadeira de Max enquanto observava o carinho que a mãe da Vanessa tinha com ele. Era impossível não compará-la a minha mãe, que era totalmente diferente. Minha mãe nunca esboçou nenhuma aproximação maior, seja comigo ou com Max. Ela sempre foi um pouco distante e quando tinha atitudes de maior aproximação, logo ela se distanciava. Nunca compreendi a frieza de seus sentimentos. Mas a mãe da Vanessa, sempre foi acolhedora desde a primeira vez que nos conhecemos, ela sempre foi carinhosa e receptiva com a gente. Seja comigo ou com o Max. Até com a Mayra, que ela mal conhecia, ela conversava como se conhecesse a séculos. Sorri boba com a forma que ela distribuía carinho e atenção a todos nós ali e principalmente com o Max. Quando terminei de preparar a mamadeira do Max e fui dar sua mamadeira, Sol fez questão de dá-la. Não recusei, pois ela parecia ficar feliz com esse pequeno gesto. Me sentei ao lado de Mayra e Junior, Vanessa desceu em seguida. Tomamos nosso café e em seguida terminamos de nos arrumar para sair. Sol insistiu para ficar com Max, mas deixei  o número do meu celular caso Max ficasse enjoadinho. Tive um pouco de receio em deixá-lo, ele não se dava muito bem com qualquer pessoa, mas com a mãe da Vanessa era diferente. Ele parecia confortável, não só com ela, mas naquela casa. Fiquei tranquila em deixá-lo com ela. Pois seria complicado levá-lo, nosso dia seria bastante cansativo, haviam muitas coisas a serem resolvidas.

Closed | assertedhonour

Ela já havia feito tudo o que pretendia fazer aquele dia. Já visitara o máximo de obeliscos que ficavam próximos, já tentara mapear mais um pouco do planeta, já anotara lendas novas e já tentara comunicar-se com seus amigos, sem sucesso, novamente.

Jane estava cansada de tudo ser tão parado e solitário. Ficou mais de uma hora nos galhos de uma árvore qualquer observando os balões passar enquanto conversava com Lil Seb. Cansada, ela tenta voltar pra casa, parando alguns metros antes para sentar-se novamente em uma pedra qualquer. Ela olha para o coelho robótico que agora dançava perto dela. Era engraçado ver como as perninhas dele se movia.

- “Puxa Lil Seb… Quem me dera contar com mais alguém aqui além de nós dois e os esqueletos que aparecem por aqui…”- Suspirou, tristonha.