pe e ju

- Não me olha assim.
- Então não faz isso.
- Eu preciso.
- Mas, porque?
- É o certo a fazer.
- Como você sabe o que é certo ou o que é errado? Nem tem como saber. Sabe, e sua vida? E tudo que você construiu? E tudo o que a gente construiu? Você vai jogar tudo fora, por uma parada que você nem sabe se vai dar certo?
- Vai dar.
- Você tem certeza de que vai fazer isso? Sabe cara, pensa um pouco na sua vida, na sua família, no seu trabalho… Pô, e eu?
- Me desculpa.
- Só acho que você tá fazendo uma besteira.
- Oitenta e três.
- Que?!
- Nada. Esquece, pensei alto.
- Não, fala por favor. Eu quero te entender.
- Um dia eu vou ter oitenta e três anos.
- Mas do que você tá falando? O que tem haver?
- Eu vou estar sentada, na sacada da minha casa, em uma cadeira de balanço. O vizinho vai estar cortando grama, com aquelas máquinas barulhentas, sabe?! Enquanto isso, o neto do outro vizinho vai estar correndo. De um lado pro outro com os amigos. E os carros vão estar passando. Mas uma hora, os carros vão dar um tempo. Uma das crianças vai cair, e vai machucar o joelho. E todas vão sair correndo, pra casa. A esposa do vizinho do cortador de gramas, vai chamar ele pra almoçar. E aí, vai ficar silêncio. Com oitenta e três anos. Sabe o que eu vou fazer com os meus oitenta e três anos? Sabe o que eu vou pensar? Que acabou. Que não importa o que eu faça dali em diante, não vai mudar nada. Acabou, entende? Aí, eu vou pensar nas decisões que eu tomei, se eu fui realmente pro caminho que eu queria seguir ou pelo mais fácil, o mais óbvio. Eu não ia me sentir bem comigo mesma. A gente só tem uma chance. E se eu passasse a vida inteira sem ao menos ter tentado… Como é que eu ia me explicar isso um dia? Eu te entendo. Você tem sua família, sua faculdade, seu trabalho. Você só quer ter uma vida comum, mas eu não. Isso não sou eu. Isso não ecoa na minha cabeça. Essa fábrica de sinos não ecoa na minha cabeça.
- Fábrica? Que história é essa?
- É… Imagina se você trabalhasse numa fábrica de sinos, você ia voltar pra casa com aquele barulho ecoando na sua cabeça, sabe? É o que tentam fazer com a gente. Eu não quero… Um bom emprego, uma casa na praia, ou casar. Eu só quero ser feliz comigo mesma. E isso não ecoa na minha cabeça. E sabe o que ecoa? A máquina de cortar grama do vizinho. E quando ela parar… Eu tenho que estar bem comigo mesma.
—  A fábrica de sinos.