paredes pintadas

Divagações sobre um dia em que não tive gastrite

Parte 1

Não escrevo sentada em uma cadeira macia e cara. No máximo coloco um travesseiro em meu traseiro e termino com os pés enrolados na extensão em baixo de mim. Não escrevo em uma instalação moderna e movida à arte. Eu não vou até os centros de cultura ou bares paulistas para escrever. Daqui só tenho minha janela para o morro e uma parede que precisa ser pintada. É tudo claro daqui: de onde venho não se chega a nenhum lugar com a escrita. Assim como a música, teatro e dança. É uma sorte descabida, assim como um bilhete premiado ou ganhar na loteria. Porque de onde eu venho pouco se acredita em arte. No máximo em algum curso que te dê dinheiro. Que pelo menos compre um carro. O que você vai ganhar escrevendo? Pois bem, eu não tenho nenhum assessor importante, não faço parte de um site famoso e nem escrevo para televisão. O que eu tenho é simples e sem grandes metáforas. É fácil de engolir, passa livre e sem grandes dificuldades pela garganta. Não dá azia e nem faz um livro ruim. Caberia em uma sacola amassada de pão, em um guardanapo sujo de óleo ou atrás da agenda de 2012. O que eu escrevo, ou melhor, do que eu escrevo vem de dias limpos de remédio para gastrite o que me permite um pouco de leveza ou discernimento. Não é nada de especial, nem arrojado, nem transcendental. Você não vai encontrar palavras gloriosas ou difíceis que precisem de um suporte ou que te garantam uma leitura inteligente. Aliás, eu mal sei como terminar um texto e se eu tenho que passar alguma mensagem, espalhar uma lição de moral, promover uma reflexão importante. Porque de onde eu venho a gente aprende com o suor salgado do rosto, as três prestações atrasadas e uma felicidadezinha reluzente quando sobra um trocado para uma pizza na sexta feira ou um sorvete no sábado. Porque vivemos absortos nas lotações esmagadoras de seres humanos e nos metrôs estufados de obrigações, sonhos e cheiro ruim. Quando a liberdade do outro é um espaço para sentar ou três minutos para a porta abrir. Enquanto isso eu escrevo. Daqui do morro, da cadeira cheia de cupim, sem nenhum chá preto a La escritora ou algum vinil tocando uma música calma e tranquila. Eu só escrevo sobre o que parece com a vida para mim. Eu só escrevo porque tenho um estômago ruim e uma memória traidora. 

O mundo é grande demais para se desbravar sozinho, mas é  uma coisa com a qual já me conformei. Não reclamo da solidão, - pelo contrário, nos até tornamos íntimos. Reclamo da palidez da minha pele, dos dias que se arrastam, do amor que nunca vem, das madrugadas frias me arrastando pela casa esbarrando por essas paredes cuidadosamente pintadas de branco. Reclamo do nó na garganta sem motivo aparente, da nostalgia, da insatisfação, da falta de interesse por qualquer coisa, da falta de paciência e de carinho mas reclamo sobretudo da assustadora falta que sinto de algo que não sei o que é. Minh'alma reclama por algo que eu desconheço.

ayer pensaba en vos, y en tu antiguo cuarto,
y en las paredes pintadas tan como vos que me hacían sentir cerca tuyo,
y de como me preparabas un trago antes de irme a dormir,
y de como elegías una película para que no la vieramos,
y de como fumabas al lado de tu ventana y de como yo me moría de felicidad cada momento que me despertaba en medio de la noche y veía que estaba en tu cama,
y de tu olor a cigarrilo y de tu olor a marihuana y de tu pelo largo apoyado en la almohada y de tus dedos con tantos huesos marcados y de tu voz que siempre que aparece en mi mente me dan ganas de correr y que me cuentes todas esas historias que ya me contaste mil veces y me las repetís siempre,
y capaz ya no te extraño tanto a vos, pero extraño a vos y yo en tu cuarto sin luz y con la ventana abierta y el vientito y las calles de laberintos y que me esperes en la avenida y que me abraces y que me preguntes como estoy de la manera que más me gusta que alguien lo haga,
y me des unas tostadas y odies el día que empieza tanto como lo odio yo porque no sé cuando voy a volver a estar con vos en tu antiguo cuarto

Minha vida é ácido sulfúrico. Meus olhos, lanternas de medo que perseguem os erros. Sou lobo, sou voz, sou fato. Sou sentimento indomável de realidade incomum. Meu corpo é espinho sangrento e minha alma, copo vazio. Minhas palavras dissipam-se com o vento junto à minha respiração. Meus pensamentos são paredes mal pintadas a descascarem com o tempo. Sou complexidade fatal. Sou um suicídio cinematográfico. Sou o erro inaceitável. Um tanto faz constante. Um irreversível talvez. O sim e o não nunca ditos. Sou tempo. Sou morte em vida. Sou simples. Sou segredo contado. Sou poema sem rima. Uma carta de despedida que não fora entregue ao destinatário. Sou chama que nunca apaga. Sou a morte antes do fim. O texto inacabado. O peso morto jogado à beira da estrada. O coração partido em pedaços, estraçalhado como um pedaço de vidro. Sou labirinto, por fim, infinito.
—  Wordland.
poemas de derrubar Muhammad Ali

Uma chuva com som de chiado de fim do lado A do disco do Vinícius de Moraes cai lá fora, escuto alguém falar na TV a cabo que extraterrestres existem, que os americanos arquitetaram a queda das torres gêmeas pra invadir o Iraque e Afeganistão. Que instalaram uma sonda no mar Cáspio pra roubar petróleo. São notícias desinteressantes pra mim. Nunca quis ser alguém na vida. Nunca quis ter dinheiro. Sempre caguei para a bolsa de valores e o preço do dólar. Devo ter 45 centavos na minha conta poupança do Itaú e 4 reais na gaveta de talheres da cozinha. Sou um fracasso econômico. Tenho 32 anos e meu último celular foi trocado por duas caixas de cerveja num bar com as paredes pintadas “Brasil rumo ao hexa!” Ninguém dá a mínima pra minha existência. Se eu morrer amanhã, escreverão postagens no Facebook falando que eu escrevia legalzinho. Que representava Bukowski e outras merdas que sempre discordei em relação aos meus escritos. Fiz muitos inimigos por bobagem. Sempre toquei o foda-se por bem pouco. Sempre escolhi o caminho mais difícil. Sou um cara doente. Sou um babaca. Sou mestre em fazer coisas erradas. Parece que meu maior vicio é ter peso na consciência. Não devia ter feito o papelão de socar o atual namorado da minha ex-mulher no shopping center. Não posso estragar a felicidade de quem não me quer mais. O amor não é um jogo. Uma partida de futebol. Um torneio de poker onde você pode acusar o oponente de trapacear e quebrar cadeiras e mesas na cabeça do cara. Você não pode se tornar um psicopata. Um palerma que agride os outros por ter perdido quem dormia ao seu lado e ria das suas piadas toscas e chorava com seus poemas de derrubar Muhammad Ali.

– Alô. Liguei pra pedir desculpas. Não consegui te ver com outro cara. Não sei qual é a dele. O sujeito parece legal. Só liguei pra dizer que estou caindo fora da cidade. Vou pegar a estrada. Vou vender pulseirinhas de hippie pelas Brs da vida. Você foi a fonte da minha literatura por um bom tempo, mas chegou a hora de parar com esse sonho besta de ser reconhecido e viver de literatura. Tchau.

– Cara, não estamos mais juntos. Terminei com a Roberta ontem. Ela só fala de ti. Às vezes acordo de madrugada e ela está fazendo carinho no teu livro de poesia. Ela é sua. Foi atrás de você. Não precisa me acertar outro jab no queixo. Não sou de briga. Sou voluntário do Greenpeace. Minha causa é salvar baleias encalhadas de bancos de areia. Boa sorte com seu amor.

A chuva engrossa. O chiado aumenta. Vinicius canta algo lindo com Tom Jobim na minha vitrola. Apago o cigarro e espero Roberta chegar com seu sorriso de sol se deitando na beira do mar.

Diego Moraes

as paredes pintadas de fungos me atraíam demasiadamente.
estreitei o olhar até as beiras dos cantos do piso: a madeira resmungou meu sapateado amador.
então andei de ballet, cruzei o espaço até o colchão ao chão: teu corpo ali.
nos entrelaçamos quase como nos conhecêssemos faziam meses.
ah,
quando você me aperta…
é um fluxo apertado de palpitações extras exageradas sufocantes tremendas exorcistas em órbita
atéia.
deixe-me ver vazar em seu abraço.
deixe-me sentir quebrar os ossos contra seus ossos mais brancos, mais bonitos, menos vis.
sugue meu fresh air.
transe comigo nos mofos, nos cantos, nos infernos.
entendeu?
eu quero ser para você o motivo
o por quê
o amém
o alívio
o alívio.
: os ôs.
os quero todos,

rua casper líbero, apê centoe2

Las paredes de mi cuarto
pintadas con frases de mis miedos
llenan el silencio
cada madrugada
en mi intento de apagar el pensamiento
siempre pierdo el vuelo.

Y entre tanto escuchar
que no hay forma de escapar del sueño
escapar de nuevo
pasaron las horas y amaneció
otra vez ya no hay nada
nunca retuve nada…

—  Insomnio- Mundaka.