paredes escritas

Quando despertei o sol estava nascendo. Olhei em volta, avaliando cada canto do quarto pequeno que antes não tive a chance de perceber. Tinham fotos coladas na parede, e frases escritas com um preto forte. Meu olho bateu em uma frase e logo a reconheci, “amar a navalha é também amar o corte”. Lembrei que em uma das nossas brigas ela me disse isso e só depois que eu pensei bem, eu entendi. Amar ela é também amar os erros, os dias ruins, as fases difíceis. Aprendi a colocar na balança o que me dói mais, perdê-la ou perdoar um erro. Eu prefiro amar a navalha e aceitar os cortes. Meus pensamentos são atrapalhados pelo corpo dela se mexendo. Só agora pude perceber que meu braço dorme, igualmente a pequena menina ao meu lado. Meus dedos deslizam em seu rosto e eu a olho cheio de amor. Seus lábios carnudos me chamam, o desejo que eles me trazem é insuportável. Eu a beijo, com calma e apaixonadamente. Ela acorda. Seus olhos demoram a se acostumar com a luz que passa pela janela diretamente em nós, mas assim que consegue, ela me olha, com um olhar apaixonado e com um sorriso no rosto ela me da um beijo casto e diz:
 — Bom dia, meu amor.
E naquele momento, enquanto ela pronunciava aquelas palavras, eu percebi que era ela, aquela descabelada com os olhos e a voz doce que eu queria todos os dias acordando ao meu lado.
—  Maria Clara.