parede tijolo

Amou daquela vez como se fosse a última
beijou sua mulher como se fosse a última
e cada filho seu como se fosse o único
e atravessou a rua com seu passo tímido
subiu a construção como se fosse máquina
ergueu no patamar quatro paredes sólidas
tijolo com tijolo num desenho mágico
seus olhos embotados de cimento e lágrima
sentou pra descansar como se fosse sábado
comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe
bebeu e soluçou como se fosse um náufrago
dançou e gargalhou como se ouvisse música
e tropeçou no céu como se fosse um bêbado
e flutuou no ar como se fosse um pássaro
e se acabou no chão feito um pacote flácido
agonizou no meio do passeio público
morreu na contramão atrapalhando o tráfego.
—  Chico Buarque. 
Nightmare

Prólogo 

Capítulos: um, dois



Capítulo 3 – Terceiro Nível: Realidade.

Pov. Jimin

Meus olhos estavam ardendo e muito. Eu não conseguia dormir direito, toda vez que deitava minha cabeça pra tirar um cochilo, os pelos do meu corpo se arrepiavam e eu me sentia mal. JungKook parecia alheio, firme como uma rocha, e eu até entendia em partes. Ele não queria demonstrar fraqueza, talvez se demonstrasse todos os outros ficariam loucos.

Quem diria que para namorar aquele garoto lindo eu teria me enfiar nesse tipo de enrascada. Meus olhos continuavam ardendo e me lembrei do motivo: lentes de contato. Eu precisava troca-las om urgência, ou ao menos passar colírio.

- Ei – toquei o braço de JungKook que me olhou preocupado – Eu preciso trocar minhas lentes.

- Vamos ao banheiro…

Eu também sabia bem que nem todos ali estavam felizes com minha presença, JungKook e eu namorávamos a pouco tempo e seus amigos não gostavam muito de mim, era nítido. Quero dizer, havia uma grande diferença entre nós, eles me chamavam de fresco ou metido por eu ser de uma galera diferente, contudo JungKook gostava de mim, se importava e sabia muito bem como eu era. E isso consistia em ter medo até da minha sombra.

Entrei no banheiro, dando uma olhada no espelho, realmente, meus olhos estavam vermelhos. JungKook sentou-se na privada com a tampa fechada, coçando seus próprios olhos. Ele não havia dormido praticamente nada, dava pra ver seu esgotamento. Arrumei o pequeno pote, para tirar aquelas coisas dos meus olhos logo, então quando puxei com cuidado, simplesmente congelei.

Havia algo dentro do meu olho… Eu podia ver um pequeno ponto preto, embaixo da pele. Fiquei todo arrepiado, com cuidado, cutuquei a região e senti algo se mexendo. O medo era tanto que eu não conseguia nem falar, se falasse berraria. Aquele negócio começou a se mexer, JungKook parecia perdido dentro de sua própria cabeça pra ver aquilo e eu não conseguia soltar nada. Então uma pequena “cabeça” saiu dali, era um maldito gafanhoto saindo do meu olho. Soltei um grito de pavor e meu namorado levantou rápido, olhando para mim.

- Jimin – chamou.

- TIRE ISSO DE MIM – gritei.

Ele me olhou meio perdido, e quando voltei meu olhar para o espelho não havia nada no meu olho. Puxei a pele, nada. O que foi aquilo?

- O que houve? – perguntou preocupado.

- Tinha… – sussurrei – Tinha um bicho no meu olho.

- Não tem nada no seu olho – JungKook fez um carinho na minha bochecha – Talvez você só esteja estressado.

Estresse me faria ver um bicho saindo do meu olho? Tirei as lentes rapidamente, não querendo ficar muito tempo ali, quando voltamos ganhei um olhar de Taehyung.

- Quem berrou? – Yoongi perguntou.

- Eu – corei – Desculpe.

- Cara… – Hoseok disse pensativo – Essa casa está nos deixando loucos.

E estava mesmo. Eu queria muito saber como sairíamos daquilo, minhas esperanças estavam em um agente imobiliário aparecendo antes da data estimada. Procurei por meu celular na mochila, estava pronto pra ver se conseguia algum sinal, porém não o achei. Franzi o cenho e comecei a olhar pelo chão, tateando meus bolsos.

- O que foi? – Jin perguntou.

- Eu perdi meu celular – pisquei perdido – Eu juro que tinha deixado na mochila.

- É só um celular – Taehyung deu de ombros.

Aquilo estava me irritando, desde quando JungKook me apresentou ao seu melhor amigo, Taehyung me tratava com desdém, eu não queria brigar por algo tão bobo como ciúmes, só que estava além de mim. Fechei meus olhos por um segundo, então ele continuou.

- Vai chorar por um celular?

- Sério? – abri os olhos e encarei aquele garoto – Você não cansa?

- Jimin – meu namorado chamou.

- NÃO – respondi firme – Eu estou cansado dele me tratando assim, te todo mundo me menosprezando.

Nem quis argumentar aquela discussão, e sinceramente, talvez não fosse o momento. Saí batendo os pés, fui até a cozinha e achei meu celular sobre a mesa. Mas…

- Jimin – JungKook estava ali – Não precisava agir assim.

- Tanto faz – não dei bola – Meu celular está aqui.

Não sei se ele me deu bola, porque eu verificava o aparelho com cuidado. Não sabia bem como tinha ido parar ali, até que JungKook me segurou pela cintura, fiquei achando estranho. Tantos momentos pra ele fazer isso, por que agora?

Fui prensado contra a bancada, ficando confuso. JungKook beijou meu pescoço e não que estivesse ruim, só não parecia certo. Virei e saí de seu abraço, sorrindo amarelo. Quando fui sair da cozinha, ele me segurou com força, quis gritar e só não fiz porque era ele. Meu corpo estava contra a parede de tijolos, quase sendo esmagado pelo seu corpo maior que o meu. Meus pulsos estavam presos e ele aplicava força neles.

- O que houve com você? – perguntei.

JungKook não respondeu, ele continuava sorrindo pra mim de um modo que me dava arrepios. Debati-me e não consegui sair, aquilo estava errado, algo dentro de mim gritava pra sair dali e correr o mais rápido possível.

- Jimin? – ouvi a voz de JungKook e congelei.

Se JungKook estava vindo da sala, quem estava me segurando? E eu gritei alto o bastante um “SOCORRO”. Fechei meus olhos e senti uma boca próxima ao meu ouvido “Bem vindo” foi tudo que saiu, e quando abri estava sozinho, com meu namorado na porta da cozinha encarando-me. Ele deu um passo e tremi.

- O que foi? – esticou a mão.

- NÃO CHEGUE PERTO DE MIM – berrei.

- Jimin…

- O que houve? – Taehyung apareceu também.

- Algo… Alguém – indiquei o lugar – Estava aqui.

Olhei meus pulsos e havia marcas de mãos. Como aquilo estava acontecendo? JungKook chegou perto e com calma, tocando meu pulso e achando aquilo tão estranho quanto eu. Quem era quem ali?

Deixei-me ser levado até a sala, pensando que só podia estar ficando louco. E quando notei, lá fora estava escurecendo novamente. Que dia realmente era? O cansaço estava presente e eu não conseguia dormir, tinha medo que algo acontecesse. JungKook parecia tão cansado quanto, inclusive os outros garotos. Eu dormi, e acordei ainda no escuro. Todos haviam pegado no sono, menos meu namorado, que estava sentado, com a mão jogada sobre o joelho. Seu olhar estava compenetrado… Em mim. Ele tapou minha boca, sorrindo pequeno e então me soltou, ficando com um olhar indecifrável. Ouvi um barulho de moto e corri até a janela. NADA.

- Não tem ninguém – suspirei.

- Jimin – ouvi sua voz próxima a mim e quase pulei de susto – Você sabe que eu te amo. Não sabe?

- Sim – engoli em seco – O que houve?

Ele não respondeu, apenas saiu da sala e fiquei ainda mais perdido. Caminhei atrás dele, não querendo acordar os outros, talvez ele quisesse conversar. Mas não… JungKook continuou andando, como se soubesse exatamente o que fazer, parou em meio ao quintal escuro e deu a mão para aquela mulher. Seu sorriso voltou-se pra mim, e ele seguiu com ela até a casa dos fundos. Eu não conseguia me mexer, fiquei parado enquanto ele ia com ela. A porta foi fechada e então gritos começaram a vir de lá. Minha mente voltou e eu corri pra dentro, quase tropeçando em meus próprios pés. Quando adentrei a sala, JungKook olhava pela janela.

- Onde você foi? – perguntou curioso.

- O que… – pisquei várias vezes. Como ele estava ali e não estava?

- O que foi?

- Eu acabei de te ver – indiquei o corredor – Indo com a mulher.

Yoongi acordou, perguntando qual era o problema e eu contei. Se isso estava acontecendo comigo, poderia eventualmente acontecer com os outros. Aquele barulho de moto novamente veio alto, fiquei ainda mais perdido. Parecia… Que estava ali dentro. Fui até a porta da sala, olhando pelo corredor. Havia um homem, com uma moto, na outra extremidade. Eu não conseguia ver seu rosto, só sabia que ele vestia roupas pretas. JungKook apareceu e ficou tão perdido quanto eu, o que era aquilo.

Fui puxado pra dentro da sala quando o homem acelerou, a porta foi trancada e eu quase caí pra trás. Todos estavam quietos, esperando alguma reação ou alguma coisa tentando entrar, mas só havia o ronco daquela moto. Minha cabeça estava a mil, o medo me dominando, eu queria gritar e correr, meu instinto me dizia isso. Depois de muito tempo, o motor parou e então JungKook abriu a porta, olhando. Não havia nada… A mulher começou a gritar, mas parecia vir de fora da casa. Meu namorado correu e eu fui atrás, vendo que não estava sozinho. O homem a segurava pelos cabelos, seu rosto… Bem, não havia exatamente um rosto, parecia mais uma máscara lisa branca. Uma bela faca de caça estava em sua mão e tão simples quanto se fosse um pedaço de bife, a mulher foi degolada… Minha boca abriu em pura perplexidade. O pior foi que ainda a jogou no chão, abrindo a pobre coitada. A garotinha apareceu, correndo até ele e abraçando-o pelas pernas. Meus olhos não conseguiam desviar daquele show de horrores. A pequena garotinha que parecia inocente estava pulando “corda” com o intestino da mulher, enquanto o homem apreciava a cena.

Eu quis vomitar, quis muito. Só que eu não conseguia aquilo era tão horrível e fora da realidade, que eu não conseguia desviar os olhos com medo que se eu o fizesse, sumisse bem diante de mim. JungKook  segurou minha cabeça, passando as mãos nos meus cabelos, como se quisesse me acalmar, e em partes eu estava calmo. Uma calmaria havia se apossado de mim, e talvez pelos últimos acontecimentos, eu lidasse bem com todo o tipo de coisa estranha. Fora isso que aconteceu com JungKook e seus amigos?

E então nós fomos até o “nosso” quarto, fiquei sentado abraçando minhas pernas. JungKook fazia algo em sua mochila, ou talvez fosse a minha, nem eu sabia mais. Taehyung estava em pé na porta, ouvindo o que meu namorado dizia e eu não conseguia focar na conversa. O meu medo parecia ter se tornado algo muito pior, talvez aceitação ou meu instinto de sobrevivência houvesse me abandonado.

- JUNGKOOK – Taehyung gritou e dei um pulo.

Eu não estava prestando atenção e nem olhei, apenas me assustei com tal ato. JungKook tocou meu joelho e ergui os olhos, os dois olhavam pra mim com certo… Receio.

- Ele não está bem – pela primeira vez, Taehyung parecia realmente preocupado comigo – Talvez esteja passando mal.

- Jimin…

- Eu estou bem – cortei meu namorado – É só… Tudo isso. Vocês estão acostumados, mas eu não.

- Acostumados? – Taehyung riu soprado – Jimin, a gente nunca viu algo desse nível. Acredito que todos estão se borrando.

JungKook assentia pra tudo que seu amigo falava, e eu pensei que aquilo podia ser uma tentativa de conforto, algo pra me fazer sentir melhor.

- Nós já invadimos lugares aparentemente melhores, literalmente – JungKook disse pra mim – Visualmente falando. Agora, eu nunca achei que algo tão… Simples, poderia ser o pior de todos.

- Eu… – comecei e então tomei folego – Eu achei que vocês já tivessem passado por coisas semelhantes.

- Na verdade não. – o melhor amigo do meu namorado disse sorrindo – Quero dizer. Teve vezes em que ficamos presos, mas porque o Hoseok bateu uma porta que não deveria. Ou quando nós nos perdemos dentro daquela escola antiga…

- Vocês são corajosos – sussurrei.

- Jimin – JungKook sorria – Não tem problema em ter medo. Você precisava ver o Hoseok quando entramos no hospital abandonado.

- Fiquei surdo por uns três dias – Taehyung bufou.

- Até hoje meu ouvido apta – JungKook complementou.

Eu bem que podia imaginar Hoseok gritando com medo de algo, e até que ele estava aguentando bem a barra, e talvez um deles ou os dois, estivessem lendo meus pensamentos.

- Quando ele fica perto do Yoongi se sente melhor – Taehyung voltou a falar – E porque o Yoongi entende o medo dele, acaba passando segurança.

Assenti para os dois. Pela primeira vez estavam sendo legais comigo, e o pior, a pessoa com quem eu havia sido rude mais cedo. Taehyung parecia não ligar, e talvez entendesse um pouco que estava passando dos limites.

- Ei vocês – NamJoon apareceu na porta – As câmeras de fora voltaram, mais ou menos, vocês precisam ver isso.

E lá fomos nós, para mais uma bizarrice do dia. A sala parecia quase um ninho, todos estavam ali fazia horas. O computador de NamJoon ligado a uma das baterias e ele mexeu ampliando uma das imagens. Nela havia o mesmo homem, sentado… Parecia esperar alguma coisa.

- O que ele quer? – Yoongi perguntou.

- Não faço ideia – NamJoon respondeu.

- Ele matou aquela mulher – fiz careta – Ou seja lá o que ela fosse, ou se morreu.

- Tem mais essa – Hoseok bufou alto.

A mulher podia ser uma assombração, ou uma alucinação. Ninguém sabia de nada ali, não tinha como comprovar; e tal garotinha não parecia mais tão simpática quanto antes. Havia alguma “alma” bondosa naquele lugar? Então aquele barulho de moto assustou-nos novamente. Quase voei pra perto de JungKook que parecia um pouco assustado, porém se manteve firme. A porta estava trancada e isso não aumentava minha paz de qualquer maneira.

- Se ele está lá fora… – Taehyung disse atraindo nossa atenção – Quem está na moto?

Uma boa pergunta, que ficaria sem resposta como todas as outras. JungKook foi até a porta, espiando pela fechadura, pude ver seu cenho franzido.

- O que foi? – perguntei.

- A menina está parada ali – respondeu – Apenas olhando pra porta.

- Se ela quisesse entrar estaria aqui. – Hoseok soltou – Não estaria?

As perguntas nunca eram respondidas, porque nenhum de nós entendia tal situação. E o pior aconteceu, ficou escuro. Tão escuro que nossas lanternas sofreram pra nos deixar enxergando alguma coisa. A temperatura desabou mesmo de moletom eu podia sentir meus dedos doendo. Fumaça saía de nossas bocas e todos pareciam ainda mais confusos.

- Adianta alguma coisa nós ficarmos aqui? – JungKook perguntou.

Ele tinha um ponto. Não sabíamos as horas, estávamos perdidos nos dias, não dava pra confiar que alguém apareceria e muito menos que sairíamos dali num piscar de olhos. Quando a situação é tão sem sentido, você se questiona o que deveria fazer e acaba optando pelo que é mais cômodo, porém nessa situação, não havia exatamente um ponto de partida.

- Vamos até a cozinha… – Yoongi falou – NamJoon fica aqui com o Jin, use o walktalk se aquele cara se mexer ou algo aparecer.

Eu queria mesmo ficar ali, quieto, sentado sem qualquer coisa estranha por perto. Contudo, eu amava JungKook, e não poderia deixa-lo ir sozinho. Agarrei sua mão, dando meu melhor olhar firme e seguimos até a cozinha. O mais engraçado era enxergar o caminho até lá, mesmo sabendo de cor, naquela escuridão era quase impossível.

- Espera… – JungKook falou – Era pra gente estar na cozinha.

Iluminou as paredes e o corredor estava diferente. Um papel de parede verde oliva com algumas flores era visível quando a lanterna estava próxima. A casa havia mudado novamente? E nós andamos, e andamos… Os cômodos estavam diferentes, em lugares diferentes, com cores e portas diferentes. Nada ali estava como antes.

- Eu acho que essa foi a primeira casa – Taehyung sussurrou – Só pode ser.

- Então estamos no que foi a primeira construção – Yoongi assentia mais pra si – Que bela hora pra descobrir isso.

Parecia maior… MUITO maior. Os quartos eram mais amplos, e quando finalmente achamos a cozinha, cabiam umas cem pessoas na boa. Olhei pela janela e ficava difícil enxergar, lá fora estava tão escuro quanto ali dentro.

- Não consigo ver o homem – falei.

Algo voou na janela fazendo com que alguns de nós soltássemos um berro. Aproximei a lanterna e vi que era algo com… Sangue. Havia sangue no vidro e não vi o que havia voado. Então outra coisa voou e eu quase morri do coração. Taehyung me puxou, tirando-me de perto do vidro, olhou para o meu namorado e os dois pareciam se comunicar assim.

Ouvi um barulho baixo de porta abrindo, olhei para o meu lado esquerdo e uma porta oculta abria lentamente, deixando apenas um vão. Cutuquei JungKook e indiquei a porta com o dedo em silêncio, ele foi até lá e com a ajuda de Yoongi, puxaram de uma vez… Não havia nada.

- Parece ser uma adega antiga – meu namorado disse.

Senti um frio na espinha e tremi dentro do casaco. Foi rápido, algo afiado passo na parte de cima da minha mão e soltei um gemido alto de dor.

- O que foi? – JungKook veio correndo.

Olhei para a minha mão iluminada pela lanterna, um corte, parecia ter sido feito com uma faca. Estava ardendo bastante. Taehyung puxou um lenço, entregando-me e coloquei sobre o machucado, enquanto o restante tentava iluminar a cozinha enorme para saber se estávamos mesmo sozinhos.

- NamJoon? – Yoongi perguntou no walktalk – Está me ouvindo?

“Sim” – o som era baixo – “O cara ainda está parado”.

Mas e o homem da moto? E a garotinha? A porta da cozinha começou a tremer e NamJoon tentava dizer algo e só ouvíamos ruídos. Então a porta começou a fazer um barulho alto, como se alguém tentasse arrombar.

- Corram – JungKook falou alto e firme.

Eu corri o mais rápido que pude, só não sabia para onde estava indo. Acabei me perdendo dos outros, pois olhei pra trás e não via as lanternas. Achei um canto, ficando quieto e agachado, rezando internamente para que seja lá o que fosse não viesse atrás de mim. O barulho da moto voltou alto e forte, tremi e tapei minha boca não querendo fazer ruídos. Minha lanterna me deixou na mão, apagando do nada e quis chorar.

Risos de criança… Passos… Eu podia ouvir tudo naquele silêncio e isso me deixava quase maluco. Bati na lanterna tentando acendê-la e quando consegui quase gritei encarando JungKook que agachara na minha frente.

Ele fez sinal de silêncio, pegando minha mão e fazendo com que eu levantasse. Nós andamos pela casa em total silêncio, procurando qualquer vestígio ali. Por fim, acabamos novamente na cozinha solitária e então ele puxou a porta da adega indicando o lugar e entrei. Estávamos a sós ali e eu fiquei em silêncio, com medo que alguma coisa nos encontrasse.

Senti algo no meu tornozelo, e chutei o ar com cuidado. Depois senti novamente, e de novo. Senti a mesma coisa subindo pelas minhas coxas, tocando meus ombros e meus braços. Iluminei e eram… Mãos. Pálidas, com cortes e hematomas.

- JUNGKOOK! – gritei e iluminei. Não havia ninguém ali comigo e eu gritei cada vez mais alto.

A porta da adegada começou a ser chutada, enquanto eu gritava por estar sendo puxado por aquelas mãos sem entender de onde vinham. Eu estava chorando e berrando como um louco, o frio não ajudava e quando a porta finalmente abriu, vi meu namorado e seu melhor amigo. Quase me joguei pra fora, tremendo.

- O que houve? – JungKook perguntou – Como você foi parar aí?

- Algo… – custou a sair e tomei uma lufada de ar – Você, ou algo que parecia você, me trouxe até aqui e então… Havia mãos tentando me puxar.

- Santo Deus – Taehyung soltou perplexo – Tem algo parecido com o JungKook na casa?

- Eu não sei… – chorei.

- Calma. – meu namorado me abraçou – Nós estamos aqui.

Não sei como, mas eles conseguiram achar o caminho de volta até a sala que estava iluminada por algumas lanternas grandes. Sentei ainda chorando e todos estavam preocupados comigo, Taehyung contava baixo o que havia acontecido e Hoseok sentou-se ao meu lado, ninando-me e falando que eu estava a salvo.

- Eu perdi as câmeras de fora – NamJoon falou do nada.

- Não tem como arrumar? – Yoongi perguntou.

Se já estava um clima tenso, aquela notícia piorou tudo. E o pior ainda nem tinha vindo, a porta abriu num romper mesmo trancada a chave. E começou a abrir e fechar com força. Pelo barulho, todas as portas da casa faziam isso. O barulho da moto veio alto, parecia ecoar nas paredes e todos levaram em posição de defesa. A garotinha apareceu na porta, dando aquele sorriso enorme e apontando para o corredor. JungKook foi até lá… Olhou com cuidado e voltou-se pra nós.

- O homem está parado lá – informou.

Ele queria que a gente saísse dali. Não precisava ser um gênio pra saber, se ele foi atrás daquela mulher, só Deus sabia o que ele faria conosco. Jeon fechou a porta, porém ela abriu novamente com um barulho. Não fecharia, eu já sabia disso. Ouvimos berros novamente, e quando meu namorado olhou, voltou-se ainda mais preocupado.

- Aquelas pessoas que estavam com a mulher – suspirou cansado – Estão ao lado do homem.

Senti um arrepio percorrer meu corpo, já estava cansado mentalmente e fisicamente. Aquela casa parecia um pesadelo horrível. Algo tocou meu cabelo e dei um pulo… Meus olhos não acreditavam naquilo. Havia algo, mais parecia alguém, tentando sair da parede, como se aquilo fosse um elástico. E não foi só uma “pessoa”, foram várias… Parecia que as paredes estavam se fechando e fui saindo de perto. Aquilo estava me assustando, além do normal.

- Vamos sair daqui – Hoseok disse com medo. Ele saiu correndo pra fora da sala, Yoongi gritou seu nome e saiu correndo atrás.

- Eles vão se perder – Taehyung avisou.

Claro, saímos todos correndo atrás. Eu fiquei junto de Taehyung, porque JungKook desviou e o perdemos na escuridão. Eu não via nada mais do que a luz da lanterna do melhor amigo do meu namorado. Até que ele iluminou alguém no corredor e paramos.

- Oi? – ele perguntou.

- Acho melhor voltarmos – avisei.

Segurei Taehyung pelo pulso e o puxei, algo dentro de mim dizia que tínhamos que correr. Com a lanterna, o garoto iluminou a pessoa, e não havia realmente um rosto, apenas uma pessoa de preto com coturnos, uma faca afiada estava em sua mão e então nós corremos.

Ele nos perseguiu e a casa parecia maior do que já era, algo segurou em meu tornozelo e caí, parecia uma mão e quando iluminei vi que saía de baixo de sofá antigo. Tudo parecia louco, agora havia moveis, e eu podia ouvir o barulho dos coturnos batendo contra o assoalho, ele vinha pra me pegar…

- Vamos – Taehyung me puxava – JIMIN!

Eu levantei quase tropeçando, bati minha bacia em uma quina e doeu. Olhei para frente e não encontrei Taehyug, o desespero tomou conta de mim e paralisei. Naquele escuro e silêncio eu podia ouvir minha respiração, meu coração acelerado e até mesmo o suor acumulando-se em minha testa. Como se a vida tivesse voltado ao meu corpo, corri como um louco, nem sabendo onde estava indo, mas apenas seguindo pra algum lugar. Meu corpo chocou-se com alguém e encarei Hoseok.

- Graças a Deus – ele soltou – Você também se perdeu?

- Eu estava com o Taehyung e do nada ele sumiu – olhei para os lados – Onde estão os outros?

- Não faço a mínima ideia – bufou – Essa casa parece um labirinto.

Aquele maldito barulho de moto e então Hoseok colou-se em mim, ficamos em silêncio esperando que algo acontecesse e então o silêncio voltou. Senti uma mão em meu ombro e soltei um berro, era o homem com a faca, por sorte, Hoseok me puxou e começamos a correr feito dois loucos. Achamos um armário e ficamos ali, escondidos, tapando nossas bocas e esperando que por alguma sorte, aquele homem passasse por nós.

Um maldito machado foi batido contra a porta e nós gritamos muito, uma hora ele ia entrar e provavelmente nos matar.

- Jimin – Hoseok chamou no meu ouvido – No três a gente empurra com força total e corremos.

Parecia um bom plano e quando ficamos o três chegou, nós empurramos e o homem desestabilizou, porém não caiu. Nós corremos novamente, só que quando notei estava sozinho novamente. Só podia ser algo da minha cabeça, não podia ser real. Comecei a rezar e pedir que aquilo parasse, que fosse embora…

Mãos me seguraram e eu gritei, eram várias pessoas sem olhos, eu gritei e parecia que não havia mais escapatória pra mim. Meus braços foram arranhados e eu tentava me debater. Uma luz iluminou a cena e pisquei meio cego, não havia mais ninguém.

- Jimin? – era a voz do JungKook – Finalmente te achei.

Eu rastejei, ficando encolhido e querendo saber se aquele era mesmo o meu namorado. Ele suspirou, agachando-se e estendendo a mão.

- Sou eu – disse suave – Confia em mim.

- Não…

- A primeira vez que te beijei foi atrás da árvore da sua casa – sorriu pequeno – Você estava usando uma blusa vermelha que escondia suas mãos, eu achei aquilo tão fofo.

- JUNGKOOK! – joguei-me nele – Eu estava com tanto medo.

- Eu sei, vamos achar os outros e procurar uma forma de sair daqui.

Nós andamos muito, a casa parecia maior do que antes, e então encontramos uma escada. Não havia um porão na construção, disso eu tinha certeza. Ouvimos gritos vindos lá de baixo, podia ser um dos garotos ou apenas uma armadilha, então o homem apareceu no pé da escada, encarando-nos com a faca na mão.

- JungKook – sussurrei.

- Corra!

Nós corremos, e parecia interminável, meu rosto estava banhado de lágrimas, todas as janelas começaram a receber uma chuva de flashes e aquilo quase nos cegava. Voltamos ao corredor original e encontramos Yoongi com Hoseok. Depois disso apareceram os outros e nos abraçamos, felizes por estarmos inteiros.

A por abriu lentamente e ficamos congelados… A rua lá fora parecia normal, e havia um taxi parado na entrada. O primeiro a correr foi Hoseok, entrando no carro e fazendo sinal. Apertamo-nos lá e o motorista sorridente perguntou:

- Estão prontos pra ir? – perguntou e dissemos um sim quase gritando.

O carro seguiu caminho, indo de modo lento enquanto uma música baixa vinha do radio precário do taxi. Abracei JungKook e ele sorriu pra mim, finalmente o pesadelo havia acabado.

                                                             ¤

O vizinho mais próximo viu quando os gritos começaram, também viu o show de luzes que vinham de dentro da casa. Nada fora do normal, poderiam ser alguns baderneiros só querendo aprontar. Pegou seu telefone fixo e discou o número da emergência, avisando a polícia que havia alguém na mais nova propriedade do bairro.

Ficou olhando tudo pela janela, enquanto a porta da casa era aberta e um táxi parava na entrada. Não entendeu muito bem o que estava acontecendo, era um senhor de idade, talvez sua visão lhe pregasse peças. A porta do veículo foi aberta e fechada, mas não havia ninguém dentro do mesmo, apenas um simples motorista. A porta da casa foi fechada lentamente, e o carro seguiu a rua de modo calmo. Quando a polícia chegou, exatamente oito minutos depois, desceu as escadas com seu pijama e chinelos, não havia nada dentro da casa, nenhum equipamento, ou qualquer lanterna. A casa estava impecável e não havia ninguém dentro.

- O senhor tem certeza do que viu? – o policial perguntou.

O senhor já não sabia dizer, só podia falar que aquela casa lhe deixava com os pelos arrepiados, assentiu zonzo e saiu de lá o mais rápido que pode, chegando ao outro lado da rua viu uma pequena garotinha acenar da janela.

Fim.

E toda vez que você ta no fundo do poço e pensa em desistir, aparece alguma coisa que te faz subir, que te faz tentar novamente, só pra cair de novo, e de novo. Até você resolver não subir mais… E então, você acaba cavando um túnel pra sair do fundo do poço, e no túnel você vai subindo paredes de tijolos, não deixar tudo desmoronar dessa vez. Até que um dia você está totalmente fora do túnel, mas infelizmente cercado de tijolos.

creditos >> http://requiemstyles.tumblr.com/

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Me olhei no espelho novamente e fiquei na dúvida. O vestido preto que eu  estava usando era mais colado e curto do que todos que eu tinha,mas era ele que tinha me dado.´O vestido ficava tipo,quatro dedos abaixo da minha bunda,e era todo aberto nas costas. Abaixei um pouco a saia do vestido e me olhei novamente. Com aqueles saltos ele parecia mais curto,mas ele havia me dado. Ele ia gostar de me ver com aquele vestido. “Eu trouxe pra você de Paris” Zayn disse com um sorriso no rosto,enquanto eu abria as centenas de presentes que ele havia trago.

Eu iria encontrá-lo no Funky Buddha,e as garotas já estavam me apressando.

- Se eu tivesse uma bunda desse tamanho,eu iria andar só de calcinha - Gemma disse e eu ri sem graça. Droga,eu odiava meu corpo e minha bunda gigante era só apenas a pior parte pra mim.

- Se eu fosse o Zayn,jamais eu te daria esse vestido,quer dizer,olha pra você! - Lou disse e eu tampei meu rosto com as mãos,me virando em direção ao closet pra trocar de roupa,mas elas me impediram.

- Eu to desconfortável - Minha voz saiu abafada enquanto elas me colocavam sentada na cadeira novamente,terminando de arrumar meu cabelo pra gente poder finalmente ir.

- Você está absolutamente linda - Gemma disse novamente e eu sorri para ela. Talvez de todas as outras garotas,ela fosse a que eu mais gostava. Minutos se passaram até que finalmente Lou me deixou ir,e pegando todas as nossas bolsas e tranqueiras,saímos de casa e seguimos nosso caminho.

[…]

A música estava tão alta que eu mal podia ouvir meus pensamentos,e logo eu senti a mão de Gemma segurando a minha,me puxando entre a multidão até o andar de cima. Quase me encolhi devido a quantidade de olhares de todos os tipos que foram lançados na minha direção,enquanto elas riam disso.

- Até parece que você é timida - Lou disse e eu dei um sorriso amarelo. Definitivamente eu não era tímida,mas a sensação de que Zayn não iria gostar do que ia ver me deixava ansiosa. Nós subimos até a área VIP e eu pude perceber que nós fomos as primeiras a chegar. Logo elas estavam conversando com algumas pessoas que eu nunca vi na vida,enquanto eu estava dançando sozinha no alto. Aquilo era extremamente desconfortável e tudo o que eu queria era estar no meio daquela multidão,de olhos fechados e dançando.

- Vai lá,eu aviso pra ele quando ele chegar - Gemma gritou no meu ouvido e eu hesitei por um momento,antes de descer as escadas e atravessar a multidão,ficando no meio da pista,primeiro fechando os olhos e colocando as mãos para cima,sentindo a música. E então eu comecei a me mover,dançar como eu não dançava há tempos,deixando a música levar tudo de ruim que aconteceu nos últimos meses,todo o estresse,toda a raiva,todo o cansaço. Não sei por quanto tempo eu fiquei ali,eu estava totalmente fora desse mundo até que senti mãos compridas ao redor da minha cintura,e dei um sorriso.

- Quem deixou você ser toda gostosa assim ? - Zayn beijava meu pescoço e falava no meu ouvido,me trazendo pra junto dele,colando seu corpo no meu. Eu dei um sorriso e ele envolveu minha cintura com os braços,mordendo o lóbulo da minha orelha e me fazendo arrepiar.

- Não faz assim,meu namorado é ciumento - Eu disse e Zayn riu,seus olhos brilhavam de malícia quando ele me beijou,puxando delicadamente meu pescoço e brincando com a minha língua. Naquele momento eu era dele e ele poderia fazer o que quisesse comigo,eu não me importava. Quando Zayn me soltou eu já estava sem fôlego,e ele sorriu com isso.

- Vou pegar uma bebida pra gente - Ele disse no meu ouvindo e eu acenei com a cabeça,e então Zayn sumiu no meio da multidão. Começou a tocar  Yeah do Usher e puta que pariu,eu amo essa música. Não tinha ideia de como eu estava dançando,só sei que eu me movia do jeito que meu cerebro mandava,de um lado para outro e de cima para baixo,até que eu senti novamente mãos no meu quadril,mas dessa vez eu não sorri,não eram as mãos de Zayn. Eu me virei e empurrei o homem loiro de camiseta branca que tentava me agarrar. Ele era enorme,em todos os sentidos e lados.

- Não faz assim - Eu pude ler os seus lábios antes dele me puxar pelo braço e me segurar pela nuca,forçando seu rosto contra o meu. Aquilo me deu ânsia e eu batia e arranhava ele em todos os lugares possíveis,até que finalmente meu joelho o acertou e ele se soltou de mim.

- Seu nojento! Eu tenho namorado! - Eu gritei com ele e as pessoas que estavam ao nosso redor estavam nos olhando,mas sem parar de dançar

- Que isso gatinha,com esse vestido aí e dançando desse jeito sozinha,não tem como resistir - Ele disse e me puxou novamente,e dessa vez eu fui mais rápida e dei um tapa em seu rosto. Tapa forte o suficiente pra que minha mão ficasse doendo.

- Me solta seu tarado! - Eu tentei bater novamente quando ele não me soltou,só que ele segurou minha mão,e eu estava presa. O homem estava me puxando pra perto novamente quando magicamente,a voz de Zayn pareceu estar mais alta do que a música.

- Ela disse pra você soltar ela - Zayn falava em seu tom normal,e eu senti todo o meu corpo ficar arrepiado. Ele  estava com uma garrafa na mão. Aquilo não era bom,e eu sabia muito bem o quão ciumento e possessivo Zayn era.

- E quem vai me obrigar? - O homem disse olhando para Zayn,que sorriu um sorriso torto.

- O namorado dela - Ele disse e eu logo fui pro lado de Zayn e olhei pra cima,procurando qualquer um dos garotos para me ajudar. Ia dar merda,eu sabia. O loiro mediu Zayn de cima à baixo enquanto eu tentava empurrar Zayn para fora da pista de dança,tudo o que eu queria evitar era briga.

- Zayn por favor,não - Eu sussurrei contra a boca dele mas ele não me ouvia mais,seus olhos estavam semi cerrados e ferozes. Aquilo me assustava. Eu beijei seus lábios e ele olhou pra mim por um momento,e então o loiro fez tudo o que não podia acontecer : passou a mão na minha bunda. Zayn sorriu mais uma vez e então me empurrou para o lado,partindo pra cima do homem loiro. Eu pude ver exatamente  o momento em que ele levou um soco na boca,enquanto quebrava a garrafa na cabeça do homem,socando seu rosto ao mesmo tempo. Ele parecia um animal e ninguém parecia querer ajudar a apartar a briga,ao contrário,todos estavam com seus celulares,filmando enquanto Zayn e o homem loiro rolavam no chão,aos socos. E então Zayn estava estava em cima do homem,o segurando pelo colarinho e desferindo vários socos em seu rosto. Não me dei conta que eu estava gritando com Zayn até que Louis me puxou para fora da pista,enquanto Harry e Liam tiravam Zayn de cima do homem,e Niall verificava se ele continuava vivo. Eu estava completamente em choque. Aquilo nunca tinha acontecido antes,Zayn era ciumento,mas violento…aquela era a primeira vez. Louis me levou até os fundos da boate e eu senti o ar puro queimando meus olhos. Meus ouvidos zuniam por conta do barulho,e eu me encostei na parede de tijolos atrás de mim. Louis me olhava com…pena. Acho que era isso,e quando eu ia abrir a boca pra falar,a porta bateu e de lá saíram um Zayn furioso e Harry e Liam,tentando acalma-lo. Seu lábio inferior estava cortado e sangrando e seu olho esquerdo começava a inchar.

- Zayn eu… - Eu ia abraçá-lo,estava assustada com tudo aquilo,mas antes que eu pudesse terminar a frase,Zayn me agarrou pelo braço e saiu me arrastando até onde o carro estava,me fazendo tropeçar e quase cair várias vezes no trajeto. - Minha bolsa… - Resmunguei,meio desnorteada quando Zayn me jogou dentro do carro,batendo minha cabeça na porta do mesmo. Rapidamente eu me endireitei no banco do carro e ele entrou do outro lado,pisando no acelerador,quase atropelando um grupo de pessoas que chegava a boate. Seus olhos estavam em chamas e havia sangue na sua camiseta azul. Ele parecia deliciosamente perigoso. - Zayn…

- Cala a boca - Zayn me cortou quando eu comecei a falar,e foi como se eu tivesse levado um tapa. A culpa de nada daquilo tinha sido minha.

- Mas…

- Eu disse pra você calar a porra dessa boca (s/n)! - Zayn berrou comigo e eu estremeci,me calando imediatamente. Ele suspirou pesadamente e acelerou mais o carro,nós já estavámos acima do limite de velocidade.

Sem saber o que fazer,eu olhei para as minhas mãos,encarando o modo que a mão que eu havia batido no homem estava vermelha e um pouco inchada,comparada a outra. Será que aquele homem estava vivo? Nós chegamos na casa de Zayn em dez minutos,e quando ele estacionou eu desci do carro relutante,ainda olhando para baixo. Ele abriu a porta e eu entrei na frente,acendendo as luzes. Quando eu ouvi Zayn fechando a porta atrás de si eu me virei. Precisava me explicar,precisava pedir desculpas,precisava que ele se acalmasse. Mas não deu tempo.

- Então você gosta de ficar se esfregando com outros caras por aí? - Ele disse puxando o meu cabelo e andando em direção ao sofá

- Zayn,ai,não! - Eu choraminguei devido ao seu jeito bruto. Aquilo iria doer mais ainda amanhã

- Não foi o que eu vi (s/n),ou você acha que eu não vi quando ele te abraçou? - Sua íris estava dilatada ao ponto dos seus olhos parecerem completamente negros. Eu coloquei minhas mãos sobre as suas,enquanto ele puxava meu cabelo para baixo,me fazendo sentar sem jeito no sofá de couro escuro.

- Eu não…

- CALA A BOCA! - Ele gritou e na mesma hora eu me calei. - Quem mandou você ir assim? - Ele disse olhando para o meu vestido,enquanto eu lutava contra as lágrimas que estavam começando a surgir.

- Você me deu esse vestido Zayn,por favor! - Eu choraminguei,mas ele não ouviu. Com a mão livre ele enfiou a mão dentro do meu vestido,para então com um movimento brusco,rasgar uma parte dele. Eu gritei com o susto e ele olhou para o meu rosto.

- Eu. Mandei. Você. Calar. Essa. Boca! - Ele disse pausamente,segurando o meu queixo com força. Aquilo estava me machucando e eu não podia estar mais assustada. E então ele soltou meu cabelo e se dedicou a rasgar selvagemente meu vestido,enquanto eu gritava,assustada. Suas unhas arranhavam a minha pele e eu tentava impedir ele,colocando minhas mãos na frente do meu corpo. E então o vestido se acabou,mas ele continuou o ataque,me dando tapas por todo o meu corpo,enquanto eu me encolhia,diante da dor. Nunca pensei que isso pudesse acontecer,mas aqui estava eu,apanhando dele. - PARA DE GRITAR SUA CADELA! - Zayn berrou e novamente me agarrou pelos cabelos,me arrastando até o chão,onde ele me colocou ajoelhada. E então veio o primeiro tapa e eu caí. Zayn era extremamente forte,e eu era extremamente fraca. O tapa no rosto ardia e corroía minha alma,acabando com tudo aquilo que eu sonhei. Quando eu tentei me levantar veio o segundo tapa,me deixando sem reação,minha mente estava em branco,eu não sabia o que fazer ou por quem chamar. O terceiro tapa e eu me encolhi novamente,abaixando minha cabeça e a protegendo com os meus braços. Então veio algo mais forte que o tapa,senti sua mão fechada batendo contra minha cabeça num soco forte,parecia que ele ainda estava batendo no homem loiro. Zayn estava usando seus aneis,e eu berrava para que ele parasse. E então a dor estava se espalhando pelo meu corpo,ele me dava tapas e socos,puxava meu cabelo e gritava comigo,jogando tudo na minha cara,me humilhando,chutando minhas pernas e costelas. E ficamos assim por uma eternidade,eu estava lá,chorando,encolhida ao pé do sofá,sentindo o sangue escorrer da minha nuca pelas minhas costas quando os golpes cessaram. Eu podia ouvir a respiração ofegante de Zayn,junto com os meus soluços abafados.

Nunca achei que isso fosse acontecer,jamais. Eu não sabia como lidar com isso,não sabia se eu queria olhar para ele,ou se eu ainda queria viver. Eu me sentia suja e humilhada,todo o meu corpo doía e droga,eu não tinha feito absolutamente nada! E mesmo que eu tivesse,nada justificaria aquilo. Zayn tinha me batido como se eu fosse um homem,com a mesma força dele.

Lentamente a respiração de Zayn foi se acalmando,e eu o ouvi suspirar. Pra então se sentar no sofá. Tudo o que eu mais queria era morrer,deixar de existir. Mais um tempo se passou e eu senti Zayn saindo de perto de mim,indo para a cozinha,abrindo a torneira,tomando água. E eu ainda não sabia o que fazer. Zayn retornou e se agachou ao meu lado,e então eu senti um pano gelado na minha nuca,fazendo pressão,estancando o sangue.  Zayn se sentou ao meu lado e ficou segurando o pano,limpando o sangue,enquanto eu controlava as minhas lágrimas.

Minutos se passaram,talvez horas,e então eu finalmente levantei o meu rosto,devagar. Os olhos de Zayn pareciam arrependidos,e de repente tudo o que eu queria era estar sem seus braços.

- Eu… - Ele sussurrou e eu explodi em lágrimas,enquanto Zayn me abraçou e beijou o topo da minha cabeça. A pior sensação de todas era saber que mesmo depois daquilo,eu ainda precisava dele,mais do que antes até. - Eu amo você,por favor,me perdoa - Ele sussurrou no meu ouvido e tudo o que eu consegui fazer era chorar mais,até o ponto em que eu estava soluçando e tremendo,enquanto Zayn me abraçava mais forte e me ninava.

Ficamos uma eternidade daquela maneira.

E então Zayn se levantou e me pegou no colo,me levando para cima,passando pelo nosso quarto e indo direto até o banheiro. Lá ele me colocou no chão e acendeu a luz,examinando meu rosto. Eu não queria me ver no espelho,nunca mais. Zayn suspirou como se fosse começar a chorar,e então passou a mão carinhosamente pelo meu rosto. Ele ligou o chuveiro e me deu um banho rápido,me enrolou numa toalha felpuda e me levou até a cama. Lá ele enxugou meu corpo com cuidado e me vestiu com a sua camiseta velha e furada do Pink Floyd. Ele me sentou na cama e amarrou o meu cabelo,depois foi até o closet e pegou o kit de primeiros socorros,limpando e tampando o meu machucado na nuca. Eu me deitei e o observei,seu olho já estava bem inchado e roxo,e o sangue da sua boca já estava praticamente seco. Ele estaria lindo,se eu não estivesse tão magoada. E então ele ficou só de cueca e se deitou ao meu lado,me puxando para os seus braços,beijando minha testa e mexendo cuidadosamente no meu cabelo. E as lágrimas não paravam de cair. Lentamente meu choro foi aumentando,e eu estava me agarrando à ele,que cantarolava “The Scientist” baixinho no meu ouvido. E com o tempo o choro foi ficando mais fraco,meus olhos mais pesados,o cansaço estava me vencendo e eu estava adormecendo,sabendo que no fundo,aquela seria a última noite que nós teríamos.

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Zayn P.O.V

Mesmo dormindo ela ainda soluçava,estremecia e gemia de dor. Seu corpo iria ficar com marcas roxas,e por sorte eu não havia machucado ela mais seriamente. Não sei o que me deu,não sei como eu fui capaz,eu conseguia me lembrar de absolutamente tudo,sabendo que desde o início,não havia motivos ou justificativa para aquilo. Eu fui um monstro com ela,e meu coração se apertava em pensar que talvez quando ela acordasse,ela iria embora e nunca mais olharia na minha cara. Ela teria motivos pra isso,e eu não tinha como pedir perdão. Meu rosto doía,e eu imaginava a dor que ela estava sentindo naquele momento. O modo como ela se encolheu diante dos meus ataques,e o modo como ela me abraçou depois partiam meu coração ao meio,assim como o dela. Fechei os olhos e eu sabia que não ia conseguir dormir,precisava amenizar a dor dela,precisava fazer ela se sentir segura,precisava mostrar pra ela que eu e amava,e que isso jamais ia se repetir. Eu não sabia da minha própria força. E no fundo,eu rezava para que a noite se arrastasse e o dia nunca chegasse,pra que ela nunca fosse embora.

Look what you made me do❞ || Godfrey + Ashton

@gvdfreys

Não deveria ser o dia mais chuvoso do ano mas com certeza estava tentando competir com ele. Ash por sorte não demorava muito do caminho da faculdade até o apartamento não muito grande que dividia com o namorado. O lugar não era refinado, a decoração era bem simples, paredes de tijolos como Ashton sempre gostou, os sofás brancos escolhidos pelo namorado que completamente destoavam com a decoração rústica, e algumas coisas fora do lugar. A chuva caia lá fora, e Ashton caia lá dentro, direto no sofá, ligando a televisão e esperando ao menos alguns minutos antes de começar a tentar arrumar o lugar, mas a utopia que o cercava era certeira, na televisão era apenas noticias sobre inundações e algumas árvores caindo sobre carros, aquele tipo de notícia trazia más recordações ao jovem, mas pouco antes de mudar de canal atrás de algo mais alegre de se ver, foi surpreendido ao notar a repórter se referir a alguém estar ajudando o grupo de resgate a retirar pessoas de uma casa onde algumas árvores ameaçavam o lugar. Ashton morava em Seatle a doze anos, e desde que o primeiro humano com algumas habilidades especiais apareceram, outros começaram a surgir e um tipo de “padrão super herói” foi criado, e até mesmo ele já havia sido parte, por um breve tempo.

— É sempre assim que acontece… pessoas em necessidade sempre precisando de ajuda, pessoas com capacidade de ajudar sempre ajudando. Até que um dia eles perdem a vida assim. — Comentou quase já ignorando a matéria até ver que a imagem focava em algo incomum, uma pessoa levantando uma árvore inteira do chão, dando passagem para uma equipe de resgate trazendo civis à área segura. Aquela pele morena, aquela estrutura física, aquela roupa…  — Isso só pode ser brincadeira. — Falou num tom preocupado, aumentando o volume da televisão e saltando para a frente da mesma, segurando as mãos uma na outra e atento à figura que ainda segurava todo aquele peso como se fosse nada. A água corria passando pelos pés do sujeito enquanto sobre ele, fios de eletricidade balançavam com o vento. Ashton estava inquieto, seu coração palpitava um pouco mais rápido que o normal e quando aquilo acabou, ele continuava da mesma forma. A repórter pareceu interessada em entrevistar o tal sujeito mas uma jovem, de idade talvez igual à Ashton, foi um pouco mais rápida, saltando no sujeito e dando-lhe um abraço tão afetivo que transformou parte da preocupação do rapaz em algo um pouco diferente. Ashton parou de preocupar-se por um instante, seus olhos observavam como a jovem parecia se esfregar no sujeito agradecendo por o que quer que seja que aquele tal tenha feito. E num sorriso astuto ele apenas desligou a televisão. Ele ficou sentado ali por algum tempo, até que apenas levantou-se e andou até a varanda, ficando de pé ali, recostado no parapeito de ferro, tomando chuva e vento, olhando a rua deserta e chuvosa até ouvir alguém entrar pela porta e completamente mudar o semblante para algo mais sarcástico. — Brilha brilha, estrelinha, quero ver você brilhar… Faz de conta que eu sou solteiro, só pra ti irei olhar…

Os dias tornaram-se monótonos, assim como o amor. A rotina é a mesma e os pensamentos, pra lá de desgastantes. Algumas pessoas sufocam, enquanto poucas entendem a importância de deixar ir. Nem tudo se resume a um adeus, é apenas uma vontade imensa de se afastar, deixando que o silêncio fale por tudo e por todos. Poucos entenderiam o significado de levantar uma parede de tijolos ao redor de si e quebrar coisas de tão mísero valor. Abrir um zíper nas costas e sair do próprio corpo torna-se inquestionável, a vontade de desaparecer, incontestável. Estamos em pedaços, mas quem é que pode entender? Vivemos uma guerra interna todos os dias, onde nossos neurônios espancam uns aos outros. Eles abatem nossos sonhos, matam a nossa confiança e a nossa autoestima, e ainda, muitos intitulam que nossos pulmões respiram vida. Será mesmo que conseguimos sentir a nós mesmos?
—  Emerson Mollin
Amou daquela vez como se fosse a última. Beijou sua mulher como se fosse a última. E cada filho seu como se fosse o único. E atravessou a rua com seu passo tímido. Subiu a construção como se fosse máquina. Ergueu no patamar quatro paredes sólidas. Tijolo com tijolo num desenho mágico. Seus olhos embotados de cimento e lágrima. Sentou pra descansar como se fosse sábado. Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe.Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago.Dançou e gargalhou como se ouvisse música. E tropeçou no céu como se fosse um bêbado. E flutuou no ar como se fosse um pássaro. E se acabou no chão feito um pacote flácido. Agonizou no meio do passeio público. Morreu na contramão atrapalhando o tráfego.
—  Chico Buarque