ouvi na rua

Uma história de amor

Ela - Eu começo estalando meus dedos. Tiro minha blusa branca de seda e respiro o ar do apartamento. É uma surpresa. Continuo tirando minha mini saia que ele adora. Fico pensando onde eu deixo as peças de roupa como pistas. Dou um risinho e fico pensando qual seria melhor lugar de ficar, na cama dele ou na sua poltrona preferida.
Ele - Faz quatro anos hoje que eu a encontrei e isso me enche com um fluxo de pura esperança. Não é sempre que conseguimos achar o amor. O amor mais sexy e sacana de todos. Daqueles que quando você geme ela sabe exatamente o que fazer, mesmo que o seu maior interesse no momento seja satisfazê-la. Entro no metrô e observo aquelas pessoas que estão sempre com cara de entendiada ou lendo, me apoio em um suporte perto e abro o jornal que comprei com a finalidade de lê-lo naquele momento, mas na verdade penso nos cabelos negros dela caindo sobre seus ombros  , ela sempre fica me perguntando se deve deixar crescer e eu respondo que eu não ligo quanto a isso , mas a verdade que ela tendo aqueles olhos castanhos misteriosos, pra mim tanto faz o resto. Foram eles que me conquistaram naquele dia da festa da piscina.
Ela - Eu tiro a calcinha vermelha que ele adora, mas meu propósito é ficar do jeito que ele “realmente” gosta nesse aniversário. Tiro o sutiã e vejo o reflexo do sol batendo sobre minhas coxas e dou uma risada. Lembro da festa da piscina, o dia que nos conhecemos, o olhar fervoroso que ele lançou nelas, mas mesmo assim ele fez algo diferente: olhou nos meus olhos e com seus olhos azuis como o mar abriu sua boa e disse: “Nunca vi olhos como esses, são castanhos?” Sei que parece cantada, mas a intensidade da voz dele foi a mais pura possível. Suspiro e penso que eu sei que ele vai chegar, jogar seu casaco no banco da cozinha e vai retirar sua camisa daquele jeitinho sexy engraçado que vai acabar deixando os cabelos pretos dele bagunçados, assim como seus óculos. Não sei porque , mas homens de óculos sempre me atraíram. Ainda mais quando ele tá lendo. Depois do sexo, ele coloca só os óculos e fica lá , todo sexy lendo e nu, e eu fico horas reparando, mesmo que ele não perceba. Tiro o vinho da geladeira e pego as taças no armário. Adoro andar nua na casa dele, pode parecer bobeira, mas é como se estivesse marcando meu território.
Ele - Consigo, finalmente, um banco no metrô, depois de ver se não nenhum idoso ou grávida está por ali,  me sento confortavelmente no lugar. Meu coração se acelera e eu já sei o porque, hoje é dia de comemorações e ela vai estar lá. Mesmo depois de quatro anos, ela não desistiu. Houve brigas, é claro, as quais ela queria todo o tempo assistir comédias românticas enquanto eu queria os velhos filmes de terror , meus favoritos. No final, ela sempre vencia todas. Eu, é claro , nada podia fazer, ela usava a retórica melhor que Aristóteles e Platão, o que me deixava sem palavras de tão apaixonado , então eu dormia enquanto ela assistia aqueles filmes que sempre terminam do mesmo jeito, sem nenhum susto ou suspense. Olho para o relógio e são quinze para às seis , combinamos às seis no meu apartamento. Confiro os ingressos no meu bolso e sorrio ao imaginar a reação dela ao recebê-los , é o filme mais romântico e chato do século, mas só de ver a felicidade dela, vai valer a pena. Vejo que a próxima parada é a minha, então me levanto.
Ela - Sento e seguro meus joelhos pensando no atraso dele, já são seis, mas estou acostumada com os atrasos, então deixo apenas uma taça de vinho em cima da mesa, já que devido a minha situação não posso beber. Pensando em qual será a reação dele a saber das novidades sorrio comigo mesma, afinal ele sempre foi um bobo e vai rir até o amanhecer. Aliás , com o que eu estou preparando, ele vai ter orgasmos até o amanhecer. Acho que o amor é isso, você querer ver a felicidade no outro sempre, querer fazer parte da felicidade  dele. Imaginando o sorrisinho tímido dele de quando ele me chamou pra sair pela primeira vez, o mesmo quando eu o pego no banheiro ou me olhando quando eu estou viajando nos meus pensamentos, vou para cama e me preparo para sua chegada. Me deito e me arrumo de forma que meus cabelos caem sobre meu rosto, preferi não usar maquiagem, já que ele sempre diz que minha beleza vai muito além disso. E sei que o amo, assim como na primeira vez que eu disse a ele, nesse dia estávamos debaixo das cobertas tentando nos esquentar enquanto a neve caia do lado de fora, eu simplesmente olhei para aqueles óculos embaçados dos nossos sussurros em meio ao frio e falei: “eu te amo”. E foi a coisa mais natural do mundo. Ele me olhou de volta e com o sorrisinho tímido e rindo de mim por dentro , tenho certeza que por causa da touca ridícula que ele tinha me emprestado, ele voltou: “eu te amo mais.”
Ele - Saio do metrô e subo as escadas em direção a rua ,e, com de repente uma sensação estranha. Sinto que algo vai acontecer hoje, algo especial. Assim como senti ao ir naquela festa da piscina, que se não fosse meu amigo Christian me enchendo eu nem teria ido. Aliás , amanhã tinha pedido a ele pra me substituir no escritório, porque hoje a noite seria nossa e poderia demorar. Sorri pensando no sorriso dela e atravessei a rua.
Ela - Já estava com sono, coisa recorrente ultimamente, quando ouvi gritos na rua. Coloquei minhas roupas desajeitadamente com o coração disparado e sai pra rua correndo e vi uma multidão. Uma multidão em volta de um corpo. Mesmo o meu corpo não querendo sair do lugar, eu me controlei e fui ao encontro das pessoas assustadas com o acidente, fui de encontro, então, do final dos sorrisinhos tímidos, dos óculos tortos, dos filmes chatos de terror,dos videos games do final de semana e para o final dos meus sonhos. Há alguns metros do corpo que era meu e por isso doía mais do que eu podia suportar, eu achei no chão em meio ao sangue: óculos tortos e dois ingressos para o filme mais esperado do ano, isso pelo menos, na minha opinião. 

Bruna Pilati