os poeta

Não dá para fingir que ninguém nos avisou. Ouvimos os provérbios, os filósofos, ouvimos nossos avôs nos avisar sobre o tempo perdido, ouvimos os malditos poetas nos urgindo a aproveitar o dia. Mesmo assim, às vezes, precisamos ver com nossos próprios olhos. Temos que aprender nossas próprias lições. Temos que varrer as possibilidades de hoje debaixo do tapete de amanhã, até podermos mais, até finalmente compreendermos o que Benjamin Franklin quis dizer. Que saber é melhor que imaginar. Que acordar é melhor que dormir. E que até mesmo o pior fracasso, até o pior irremediável erro, é mil vezes melhor que nunca tentar.
—  Grey’s Anatomy.
Acho que você tem que enfiar a cara na lama, de vez em quando, acho que você tem que saber o que é uma prisão, o que é um hospital. Acho que você tem que saber o que é ficar sem comer por quatro ou cinco dias. Acho que viver com mulheres loucas faz bem para a espinha. Acho que você pode escrever com satisfação e liberdade depois de passar pelo aperto. Só digo isso porque todos os poetas que conheci têm sido uns frouxos, uns parasitas. Não tinham nada pra escrever, exceto sua egoísta falta de persistência.
—  Charles Bukowski.
Chego, às vezes, a suspeitar que os poetas, os verdadeiros poetas, são uma espécie de erro de programação genética. Aquele produto que saiu com falha, entre dez mil, um sapato saiu meio torto. O poeta é aquele sapato que tem consciência de linguagem, porque somente o torto sabe o que é direito. Então o poeta seria um ser dotado de erro, donde essa tradição romântica de marginalidade, do poeta como bandido, banido, perseguido.
—  Paulo Leminski.
Acho que você tem que enfiar a cara na lama, de vez em quando, acho que você tem que saber o que é uma prisão, o que é um hospital. Acho que você tem que saber o que é ficar sem comer por quatro ou cinco dias. Acho que viver com mulheres loucas faz bem para a espinha. Acho que você pode escrever com satisfação e liberdade depois de passar pelo aperto. Só digo isso porque todos os poetas que conheci têm sido uns frouxos, uns parasitas. Não tinham nada pra escrever, exceto sua egoísta falta de persistência.
—  BUKOWSKI, Charles. O capitão saiu para o almoço e os marinheiros tomaram conta do navio
Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura. Essa intimidade perfeita com o silêncio. Resta esse sentimento de infância subitamente desentranhado de pequenos absurdos, essa capacidade de rir à toa. Resta essa distração, essa disponibilidade, essa vagueza de quem sabe que tudo já foi como será no vir-a-ser. Resta essa faculdade incoercível de sonhar, de transfigurar a realidade, dentro dessa incapacidade de aceitá-la tal como é, e essa pequenina luz indecifrável a que às vezes os poetas dão o nome de esperança. Resta esse constante esforço para caminhar dentro do labirinto, esse eterno levantar-se depois de cada queda, essa busca de equilíbrio no fio da navalha, essa terrível coragem diante do grande medo, e esse medo infantil de ter pequenas coragens.
—  Vinicius de Moraes.
Eu sinto tanto a sua falta que às vezes ouço as minhas entranhas gritarem pra eu ir atrás de você, mas aí eu já não sei mais o que fazer, já foram mais de três copos desde a última vez que eu recomecei a contar, eu estou fedendo a álcool, meu corpo está um caco, meu coração se quer bate, parece que ele nem está mais aqui. Me arrisco em dizer que ele pulou fora e, foi atrás de ti. Eu sempre odiei cigarros e você sabe que alguns tipos me deixam com dor de cabeça, mas eu ando há meses na área de fumantes de todos os lugares que costumávamos ir, só pra tentar me esbarrar com você sem querer. Meus olhos estão miúdos e cansados, algum poeta barato os transformariam nos “malditos olhos de ressaca” e talvez sejam mesmo, todo dia é um porre novo, já levei três tapas na cara em uma dessas doses de desespero. Resto de alguém, que um dia foi eu, você não quer isso, nem eu quero isso. Mas é que as pessoas não entendem, você era a melhor parte de mim e, você foi embora, depois disso não sobrou mais nada.
—  Bianca Autran
Os poetas tornam a vida mais leve, os poetas, na medida em que também querem tornar mais leve a vida das pessoas, ou desviam o olhar do trabalhoso presente ou ajudam o presente a adquirir novas cores, graças a uma luz vinda do passado que fazem irradiar sobre ele. Para poderem fazê-lo, têm eles próprios de ser, em muitos aspectos, seres voltados para trás: de maneira que se os pode utilizar como pontes para chegar a tempos e concepções muito distantes, a religiões e civilizações em vias de extinção ou já extintas. É certo que há algumas coisas desfavoráveis a dizer quanto aos meios de que eles se servem para aligeirar a vida: apenas sossegam e curam provisoriamente, só de momento; até impedem as pessoas de trabalhar na realidade por uma melhoria da sua situação, precisamente enquanto suprimem e descarregam, por meio de paliativos, a paixão dos insatisfeitos, que incitam à ação.
—  Friedrich Nietzsche.
Os poetas não são azuis nem nada, como pensam alguns supersticiosos, nem sujeitos a ataques súbitos de levitação. O de que eles mais gostam é estar em silêncio - um silêncio que subjaz a quaisquer escapes motorísticos e declamatórios. Um silêncio… Este impoluível silêncio em que escrevo e em que tu me lês.
—  Mario Quintana
Às três da manhã caiu a primeira lágrima, cinco minutos depois eu já não sabia quem eu era, a tristeza diluída que escapa por meus olhos enfermiços tem a capacidade única de me deformar. Eu não sei porque choro, não imagino porque sinto tanto, as coisas que me cercam não deveriam me importunar desta maneira. A quem recorrer neste momento? Às três da manhã só as putas e os poetas estão acordados e eu não quero encontrar ninguém que possa foder comigo. Busco o espelho, mas ele não me conhece, eu não me conheço, quem eu era antes deste rio invisível sangrar? Eu sinto medo do pranto, muito mais do que sentiria da dor, da angústia, do desprezo, da incompreensão. Sinto medo porque ele revela um homem que não costumo ser, um homem que por alguns instantes parece ser humano, frágil, real, incapaz… As lágrimas me arrancam as máscaras, o dilúvio implacável que escorre por meus olhos arrasta tudo o que não faz parte de mim. Nenhum homem é capaz de negar sua dor enquanto chora. Não serás capaz de mentir, negar o próprio sofrimento, se teus olhos involuntariamente derramam tudo aquilo que não pode se tornar palavra. Às três da manhã eu chorei. Às três da manhã eu me despi de mim mesmo. Às três da manhã… De um dia que foi ontem, de uma madrugada que será hoje, de uma realidade que também será amanhã.
—  Gabriel Vargas

Ainda que eu fizesse mil poesias ou reunisse todos os poetas do mundo, nenhum conseguiria descrever esse teu sorriso e olhos castanhos que você tem.

Há poetas, há certos poemas radioativos. São os que, sem querer, vem operando as transmutações, as mutações humanas. Não eram cogumelos súbitos. Agitava-os o vento shakesperiano de todas as paixões, de todos os cuidados. Não sei se ficamos melhores ou piores: ficamos mais profundos. Mas há, neste mundo, os que sofrem a vertigem das profundezas ou das alturas. Para esses, inclinam-se à beira da estrada umas florinhas silvestres que sempre estão se oferecendo: colhe-me, colhe-nos! E os poetas da planície fazem buquês com elas! Alguns até belíssimos, mas sem perigo algum. Pudera! Eram flores de retórica.

Mário Quintana, em Porta Giratória.

Estão sendo atropelados 
em seus caminhos, 
os que nada mais têm a encontrar.
Os que sentiram amargura de fel
escorrendo da boca,
os que tiveram os lábios
macerados de amor. 
Estão terrivelmente sozinhos 
os doidos, os tristes, os poetas. 

Só não morro de amargura
porque nem mais morrer eu sei. 

- Trecho de Presságio (1950), Hilda Hilst.