organogramas

Eu penso, planejo, faço um organograma, mas quando a realidade chega, é tudo muito diferente. Tudo o que eu arquitetei parece ser uma piada, ou na verdade é, já que a vida ri de mim. O pior de tudo é que eu me sinto tão impotente pelo fato de estar vivendo essa rotina monótona, esse quase-amor-quase-correspondido e até mesmo essa crise de ódio por causa de uma espinha que nasceu bem no meio da minha testa. E aí eu fico mais desestimulado, mais preguiçoso e achando 300 vezes mais que eu não posso fazer nada em relação a essa vida meio morta. Tá, tá, tá, a gente sabe que dá pra sair dessa fria, mas a vida é assim, antes de perceber, você já tá totalmente pego em uma teia de dilemas e problemas – e a única coisa que você percebe é que essa confusão toda tá acontecendo no tempo que você esperou pra fazer as coisas saírem do preto e branco – ah, claro, sempre tem a parte dos amigos que tentam elevar a minha auto-estima, me dizem pra reeducar a alimentação, fazer uma corrida matinal, entrar num curso de inglês, mas meu amigo, no fundo, a gente também sabe que existe uma diferença gritante entre pular em um poço e sair de um.
—  Aleff Tauã.
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Aidar descarta ser "Rainha da Inglaterra" e busca R$ 100 mi

O presidente do São Paulo, Carlos Miguel Aidar, descartou perder poder de decisão sobre o futuro do clube. Em meio a um processo de reformulação diretiva no Tricolor, o mandatário explicou as funções do CEO, Alexandre Bourgeois, a criação de quatro novos cargos remunerados e um novo organograma da administração são-paulina. Todos esses, no entanto, tendo de se reportar a ele no final.

“Não vou virar uma Rainha da Inglaterra”, afirmou Aidar, rechaçando dar um poder maior aos conselhos e a criação de um comitê gestor. “Descarto qualquer chance de abdicar dos meus poderes. Passei por um processo eleitoral forte, ganhei e fui eleito. Vivemos um regime presidencialista e não parlamentarista”, explicou, dando como exemplo o governo britânico, onde não existe a figura de um presidente, mas sim de um parlamento composto por quase 1.500 membros.

Agora, o clube trabalhará com metas, em esquema parecido com o mundo corporativo. Executivos de Futebol, Marketing, Corporativo e Social serão contratados como funcionários remunerados para otimizar esses setores. Todos vão se reportar ao CEO, que estabeleceu objetivos como tornar o São Paulo o “melhor entretenimento em futebol da América do Sul” e “tornar o elenco do São Paulo competitivo a nível europeu”. “Metas bastantes ousadas, não?”, pontuou o cartola tricolor.

Dentro dessa nova organização, o cartola fez questão de frisar que o objetivo é passar pelos prejuízos de 2015 e 2016, terminando 2017 no azul. “Nós vamos melhorar aos poucos e, em 2017, teremos um grande ano para o São Paulo”, comentou. Para isso, Aidar até voltou atrás no valor que dizia ser da dívida do clube. Antes estipulado por ele próprio em R$ 270 milhões, o valor estabelecido a ser pago foi de R$ 137 milhões. “O restante é composto por passivos bancários e outros pontos que não precisam ser pagas tão brevemente.”

Mesmo assim, o dirigente reconheceu que tem uma missão importante até o final do ano: conseguir R$ 100 milhões para abater boa parte da dívida e dar segurança ao projeto. “É essencial que consigamos esse valor”, apontou o presidente, que enxerga na criação de um FIDC (Fundo de Investimento em Direitos Creditórios) a saída para angariar esse valor.

Esse investimento, comum no mercado financeiro, reúne pessoas interessadas em grande rentabilidade. De acordo com pessoas ligadas ao assunto, o lucro pode ser de até 150%. “A cota mínima será de R$ 1 milhão”, disse Aidar, que assegurou já ter contado até 50 possíveis torcedores que comprariam a ideia.

Em resumo, os são-paulinos milionários colocariam seu dinheiro apostando na valorização futura de algum jogador. Um atleta jovem teria seus direitos estipulados em uma quantia pelo clube, que repassaria uma porcentagem para o fundo. No futuro, caso ele seja vendido, o investidor pode ganhar mais que o dobro do que investiu inicialmente.

eexponews.com
Opinião: Onde a marca e a transação se unem
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por André Chueri* Quais são as fronteiras entre a indústria, o varejo e o consumidor? O que separa o mundo particular do universo corporativo? Onde acaba a experiência física e começa a digital e vice-versa? Teve um tempo em que trabalho era aquilo que acontecia dentro da empresa, em um horário fixo, estruturado rigidamente em um organograma. Nesse tempo, a criação, a pesquisa, a produção e a comercialização de um produto eram compartimentalizadas e se desenvolviam de acordo com um fluxo linear

via: http://eexponews.com/opiniao-onde-a-marca-e-a-transacao-se-unem_5112071890927616
Como a corrupção chegou até a Fifa. O futuro de Marin. De Marco Polo. Da CBF. Uma aula sobre os sujos bastidores do futebol mundial. Exclusiva com Jamil Chade, setorista do Estadão na Suíça...

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Nenhum brasileiro teve acesso às transformações do futebol mundial. A decadência moral de Joseph Blatter, a desmoralização da cúpula da Fifa, a democratização da entidade. A investigação do Departamento de Justiça dos Estados Unidos levou à prisão oito membros importantíssimos no organograma da entidade. Entre eles, o ex-presidente da CBF, José Maria Marin, preso desde maio.

São denúncias de, de 1991 até o momento, autoridades da Fifa se envolveram em vários crimes, incluindo fraude, subornos e lavagem de dinheiro. A Justiça afirma que duas gerações de dirigentes usaram suas posições para fazer parcerias com executivos de marketing esportivo que impediam outros de ter acesso a contratos e mantinham os negócios para eles por meio do pagamento de propinas.

A maior parte dos esquemas, de acordo com o departamento de Justiça, envolve recebimento de propina de executivos de marketing para comercialização de direitos de mídia e marketing de diversas competições esportivas - entre eles Copa América, Libertadores e Copa do Brasil.

Jamil Chade, correspondente do jornal Estado de São Paulo tem uma visão privilegiada. Morando na Suíça há 15 anos, ele não só conhece, como já entrevistou várias vezes esses atormentados personagens. E tem toda a condição de fazer uma análise profunda deste intrincado caso.

A exclusiva de Jamil ao blog é oportunidade rara de compreender que o futebol não é lugar para ingênuos. Muito pelo contrário. Não é entrevista. É uma aula…

O quanto você foi surpreendido com tudo o que aconteceu com a Fifa?

As prisões foram surpreendentes. Não me surpreendi com as acusações do FBI. Muito do que estava no indiciamento de 166 páginas do Departamento de Justiça dos EUA era conhecido de quem cobre os temas da Fifa. A compra de votos e os esquemas de corrupção. Mas, até aquele dia 27 de maio, eram apenas supostas acusações de « jornalistas irresponsáveis ». Agora não. É a constatação do FBI. O que sim surpreendeu foi o fato de isso ter resultado em prisões. Lembro-me de estar do lado de fora do hotel Baur au Lac quando as prisões ocorreram, com vários outros jornalistas. O comentário que mais se escutava naquela calçada era o de que « até que enfim » tudo o que nós denunciávamos havia resultado em uma ação real. Obviamente, o que surpreendeu a todos foi a operação de prisões e como ela ocorreu, em plena sede da Fifa.

Havia algum indício?

Eu sabia que o FBI estava investigando a Fifa. E isso vinha ocorrendo desde o final de 2014. Mas não imaginava que a operação resultaria numa prisao como aquela. Por anos, a Fifa não apenas construiu um império, mas também se aliou de forma estratégica à polícia. Não podemos esquecer que a entidade deu US$ 10 milhões para a Interpol e achava que, com as alianças políticas que forjou, havia comprado sua proteção.

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Porque a situação chegou a este ponto de corrupção?

O império desses cartolas não foi construído da noite para o dia. E isso é o que eu tentarei mostrar em meu novo livro que saie m outubro no Brasil. O que ocorreu foi a convergência de 3 fatores que, em 30 anos, transformaram o futebol mundial. Ele passou a ser transmitido pela TV e patrocinadores entenderam que a Copa do Mundo seria a maior plataforma de marketing do planeta. Ao mesmo tempo, Africa e Asia passaram nos anos 70 por um período de descolonização. Assim, enquanto a Fifa enchia seus cofres com a TV e multinacionais, os dirigentes no poder incentivaram cada novo país a formar uma seleção nacional. Em um espaço de 30 anos, a entidade que tinha apenas 13 funcionários quando Joseph Blatter foi contratado para trabalhar em Zurique passou a monopolizar o esporte mais popular do planeta. E com dezenas de países pelo mundo que passaram a ser aliados incondicionais daquela estrutura. O resultado foi o sequestro do futebol por um grupo de oligarcas da bola que entenderam que ficariam milionários com o futebol.

Você acredita que a origem das investigações nasceu quando os Estados Unidos ficaram da disputa para sediar novos mundiais?

Essa é a tese de Blatter, que insiste que essa foi uma revanche dos EUA por ter pedido a Copa de 2022 para o Catar. Mas tenho sérias dúvidas de que isso possa ser a explicação para o terremoto que ocorreu. Em primeiro lugar, o Catar é um aliado fundamental dos EUA no Oriente Médio. A Casa Branca não teria interesse em minar o poder do emir, retirando dele agora a Copa do Mundo. Isso desestabilizaria o país e um dos poucos governos que apoiam os americanos no Golfo. Em segundo lugar, algumas das maiores empresas afetadas pela crise são justamente as americanas, entre elas a Coca-Cola, McDonalds e Visa, que patrocinam a Fifa e os Mundiais. Para completar, os crimes existiam. Não foram criados. Se você é a polícia e precisa prender pessoas de uma entidade internacional, você duas alternativas: enviar um pedido de prisão para cada um dos países ou esperar que eles estejam todos no mesmo lugar e fazer um só pedido. Ou seja, por questões logísticas, a prisão em Zurique era a mais eficiente. Não vejo um complô. Mas uma bela estratégia. Existe um outro aspecto que me faz duvidar dessa tese. Em 2026, os americanos querem sediar a Copa do Mundo. Se eles quisessem uma revanche, o resultado é que certamente perderiam o Mundial em dez anos. Mesmo aqueles que não foram presos na Fifa serão os cartolas que votarão pelas novas sedes e, pelo que eu tenho visto, o que existe é um sentimento anti-americano profundo hoje na entidade.

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Como você viu a reação do Blatter diante de tudo o que aconteceu?

Ele ficou desorientado. Eu estive com ele no final de agosto e me surpreendeu como ele havia envelhecido em três meses. Ao me dar a mão, ela tremia. Sua voz, sua energia é outra. Ele sofreu de fato um sério golpe. Depois das prisões, ele insistiu em ser eleito. Mas, quatro dias depois, renunciou. Ele deu provas de que estava desorientado e que a pressão por sua saída foi imensa. Sua vida se confundia com a da Fifa. Ele era o equivalente do monarca que diria : « o futebol sou eu ». Por isso, uma de suas reações mais frequentes em entrevistas é a de dizer que a « Fifa foi atacada ». Ele torna coletivo um problema que é pessoal.

Para você onde tudo isso vai parar? Aliás, porque o processo foi interrompido?

Ele não foi interrompido. Mas a Justiça tem seu ritmo. Nos EUA, o ex-vice-presidente da Fifa, Jeff Webb, já começa a responder pelo processo. O mesmo ocorre com Aaron Davidson, o executivo da Traffic. Outros seis dirigentes presos em Zurique tentam impedir na Justiça a extradição. O processo não está parado. Mas, justamente para não sr um julgamento injusto, todas as etapas do estado de direito tem sido seguido.

Ninguém entende como Ricardo Teixeira e Marco Polo não foram indiciados ainda. Serão?

Ambos estão sendo investigados pelo FBI. O que os americanos estão fazendo é um processo por etapas, num estilo muito parecido ao Lava Jato. O que o FBI quer é que o grupo preso agora de informações e pistas sobre como funcionou o esquema e denuncie mais pessoas. Como disse o Departamento de Justiça dos EUA, esse foi o início do caso. O próprio Blatter declarou : « mais notícias ruins virão ».

Você acredita que o Marco Polo está certo em não sair do Brasil?

Existe sim o risco de uma prisão, pelo menos para questionamento. Se ele deixar o Brasil, não seria surpreendente uma prisão.

Como está a representatividade brasileira sem a presença física do presidente da CBF nas importantes reuniões da Fifa?

O Brasil desapareceu da gestão do futebol mundial. Decisões fundamentais para o futuro do esporte estão sendo tomadas sem a presença ou a voz do Brasil. A Fifa criou um grupo de trabalho para reformar a entidade. E nenhum brasileiro foi convidado para fazer parte da inicitiva. Nos tornamos insignificantes na administração do futebol.

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Por que o Marin foi preso?

O FBI indicou duas suspeitas principais : ter recebido dinheiro de propina para a Copa do Brasil e na Copa América. Em ambos os casos, as suspeitas apontam para uma espécie de pedágio que ele cobrava de empresas que quisessem ter contratos com a CBF. No caso da Copa América, havia até mesmo uma tabela de propinas, dependendo do tamanho do país.

E como é a sua rotina na cadeia? De verdade…

Os suíços, como é de constume aqui, têm preservado a privacidade de Marin e dos demais. Até hoje não divulgaram nem mesmo a prisão onde ele está. O que se sabe é que a ideia inicial de pedir uma prisão domiciliar na Suíça foi abandonada depois que outro dirigente – Eugênio Figueredo – teve sua demanda rejeitada. Marin tem direito a uma televisão, sei que um trabalho lhe foi oferecido dentro da prisão e que ele não tem recebido visitas de familiares.

Como você vê o futuro de Marin? Será extraditado para os Estados Unidos e morrerá na cadeia?

A decisão sobre uma extradição será tomada em meados de setembro. Mas Marin terá o direito de recorrer. Isso arrastará o caso até o final do ano. Caso ele va aos EUA, minha impressão é de que ele não ficará muito tempo preso. Os americanos estão dispostos a fazer um acordo. Em troca de uma multa milionária ou de informações, eles permitirão que Marin passe o final de seus dias em seu apartamento em Nova Iorque. O que talvez jamais voltará a ocorrer é uma viagem de Marin ao Brasil.

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Você como jornalista tem a sensação que a corrupção dominava a Fifa? Ainda domina?

Sim. Um grupo de não mais de 20 pessoas dominava o esporte mais popular do mundo. Isso os transformou em verdadeiros monarcas. Tudo o que precisava ser decidido passava por eles. Contratos milionários, a sede do Mundial, o calendário internacional. Cobrar propinas parece ter se transformado no « modus operandi » da entidade. Para qualquer iniciativa ou pedido que se fizesse, alguém teria de sair ganhando. É por isso que eu insisto com uma explicação relativamente simples para o que ocorre : um grupo de pessoas sequestrou o futebol e passou a lucrar de forma impressionante com o sentimento de milhões de torcedores no mundo. Vocês verão no livro que eu mostro como o torcedor é que permite o enriquecimento desses oligarcas ao comprar um ingresso, ao comprar uma camisa, ao dar a bola oficial da Copa ao filho, ao ver uma partida pela TV. Se saber, o torcedor é quem paga pelas mansões dessas pessoas. Isso não significa que devemos abandonar o futebol. Muito pelo contrário, precisamos reconquista-lo e romper com esse monopólio. A nós jornalistas, nossa missão não é apenas a de informar o torcedor a escalação de seu time. Mas o mostrar como ele estava sendo roubado. Sem saber.

O que mudará com um novo presidente da Fifa?

Nada. Mudar apenas a presidência não resolverá. A Fifa precisa passar por uma forma completa. Publicar salários, abrir contratos para licitação, divulgar os critérios para acordos e, acima de tudo, mudar a forma pela qual a Copa é escolhida. O Catar e a Rússia eram as duas piores candidaturas para 2022 e 2018. E venceram.

Platini é o favorito disparado. Sua eleição agradaria a que grupos políticos, econômicos?

Ele agrada a grupos políticos e econômicos da Europa. Mas tenho sérias dúvidas se ele seria um presidente que atenderia aos interesses do futebol sul-americano. Ao final da Copa de 2014, encontrei com ele na ala VIP e, depois de me dar um forte abraço, disse com todo orgulho : a Europa domina o futebol mundial. Isso, no fundo, é perigoso para o Brasil. A Europa quer um número menor de datas para amistosos, a Europa quer dar mais poder aos grandes clubes , a Europa não gosta do torneio olímpico de futebol, a Europa não ve problemas na importação de garotos de todo o mundo para seu continente. E o que mais me preocupa é que, por enquanto, não ouvi Platini falar de seu programa de governo para a Fifa e como ele atenderia aos interesses do futebol brasileiro.

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A candidatura de Zico é apenas simbólica?

Zico tem uma grande desvantagem : ele não circula entre os dirigentes que votam para presidente, ao contrário de Platini que por mais de dez anos tem selado alianças. Tenho a impressão de que uma pessoa de fora do esquema terá sérias dificuldades em conseguir apoio suficiente. E isso não tem qualquer relação com sua capacidade para ser presidente. Mas, infelizmente, essa eleição será disputada por pessoas que já estão dentro da estrutura.

Os patrocinadores da Fifa não estão incomodados com tantas denúncias de corrupção e prisões?

Foram os patrocinadores que empurraram Blatter para fora. Foram os patrocinadores que deram um sinal claro de que a Fifa precisa ser reformada. O problema é que, por anos, foram esses mesmos patrocinadores que bancaram uma entidade que tinha como princípio o enriquecimento ilícito de sua cúpula. É positivo que haja hoje essa pressão por parte dos patrocinadores e, numa recente carta, a Coca-Cola deixou claro : basta de tanta corrupção. Isso está afetando nossos negócios. Mas não vamos ser ingênuos. Foram essas mesmas empresas que chancelaram o sistema por anos.

Você já fez centenas de denúncias nestes anos todos de Suíça. Qual foi a mais relevante?

Acredito que tenha sido a revelação dos contratos secretos da CBF, em maio deste ano. No fundo, eles mostraram que a seleção canta o hino nacional, veste nossas cores e nós somos ensinados a torcer por ela, pois ela nos representa. Nos termos do contrato, porém, é uma empresa que não passa de uma caixa postal nas Ilhas Cayman que detém todos os direitos. O que vemos pela televisão não é a seleção do Brasil. É a seleção da CBF.

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Como foi participar da CPI?

Juizes falam por meio de seus autos. Nós, jornalistas, por meio de nossas reportagens. Ainda assim, acho que cumpri um dever de cidadão ao aceitar o convite para depor como testemunha na CPI. Apresentei todos os documentos que tinha sobre a CBF e o resultado foi a quebra do sigilo bancário de cartolas. Gostaria de acreditar que dei minha contribuição para trazer transparência ao futebol. Mas apenas o tempo dirá de que forma a CPI terá a capacidade de se confrontar com o poder político da CBF.

Qual a sua impressão, ela levará a alguma coisa? Qual a força do Romário?

Eu espero que sim. Não gostaria de adotar um tom de ceticismo em relação aos poderes da República, antes mesmo de saber o resultado. Mas ela terá sérios desafios e Romário enfrentará muita pressão. No fundo, essa CPI vai testar a força política da CBF. Há 15 anos, uma CPI investigou o contrato da Nike. Hoje, é o FBI quem investiga o mesmo caso. Espero que a atual CPI não tenha de esperar pelo FBI para poder trazer resultados concretos.

Por que a CBF é tão inatingível?

Ela mantém um time que se confunde com nossa identidade nacional, ela detém o monopólio sobre o esporte que nos define para o mundo como nação. Mas, ao mesmo tempo, ela financia candidaturas de políticos e escolhe que cidades recebem a seleção. No meu livro, vou mostrar como a Copa do Mundo foi um projeto político de cartolas e partidos. E quem pagou por tudo foi o povo. O evento foi provavelmente o saque do século.

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O quanto os bastidores do futebol são sujos?

Nesses 15 anos na Europa, descobri que o futebol e o crime organizado andam de mãos dadas. E não apenas no Brasil. Transferências pela Europa são fábricas de lavagem de dinheiro, as apostas ilegais ganham força, os clubes endividados estão prontos a fazer qualquer negõcio e, em diversos países, a máfia passou a ter voz ativa no jogo. O futebol é sedutor demais para ser excluido da vida pública. E o problema é que ele passou a ser manipulado por esses grupos.

Você tem orgulho da Copa do Mundo organizada no Brasil?

O Brasil perdeu a Copa do Mundo antes mesmo que ela fosse disputada e que soubéssemos do 7 x 1 contra a Alemanha. A maior humilhação não foi em campo.
Nelson Rodrigues insistia em apontar que a vitória do Brasil na Copa de 1958 deu um desfecho a longos anos em que vivemos um “complexo de vira-lata”, um período de Jeca Tatu. “O brasileiro se punha de cócoras diante do mundo. Isso aconteceu no curto período entre 1500 e 1958, de Cabral a Garrincha”, escreveu. Para 2014, os governantes colocaram esse fim do complexo de vira-lata uma vez mais como objetivo. Desta vez, para mostrar ao mundo que o Brasil fazia parte das nações civilizadas e que era capaz de organizar grandes eventos. De fato, a Copa foi um teste da imagem internacional do Brasil. Mas não como os dirigentes nos apresentaram. Os monumentos construídos com nosso dinheiro se transformaram em monumentos que testemunham uma oportunidade perdida.

Assim que a Copa de 2014 terminou, a Fifa fez suas malas e partiu para seu próximo empreendimento. E nos restou contar os lucros, os mortos e feridos. Mas a revolta que começou nas ruas brasileiras contra a entidade seria o início de um processo muito mais amplo contra a organização. De uma forma indireta e inesperada, foram os protestos no Brasil que acenderam as luzes entre dirigentes estrangeiros de que não havia mais lugar para tolerar um esquema corrupto. Que democracias não poderiam mais se aliar ao futebol sem prestar contas aos torcedores-cidadãos. O sentimento de indignação seria confirmado menos de um ano depois do fim do Mundial de 2014. No dia 27 de maio de 2015, uma operação da polícia suíça e americana contra dirigentes fez desmoronar um império.

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Porque o Mundial foi o mais lucrativo da história da Fifa?

Por que fomos saqueados. A Fifa montou um plano perfeito. A Constituição brasileira e até sua soberania foram violadas para permitir que a entidade pudesse lucrar. Em troca de dar o direito exclusivo a empresas e televisões para explorar comercialmente o Mundial, a Fifa prometeu leis draconianas para proteger suas marcas. Ao mesmo tempo, o evento ocorria no país do futebol e não seria uma surpresa o fato de todos os jogos praticamente terem sido um sucesso absoluto de público. Se não bastasse, a Fifa conseguiu uma isenção fiscal de R$ 1,1 bilhão. Uso uma analogia para explicar o que ocorreu na Copa. O Brasil pediu à Fifa para organizar a maior festa do futebol. A Fifa disse sim, com a condição de que não pagasse pelo aluguél da sala, a comida, a bebida, os seguranças e nem pela limpeza ao final. Quando a festa terminou, ficou com a renda de bilheteria e todos os lucros. Mas os custos foram arcados por quem ficou. Assim, até eu saio bilionário de um empreendimento.

O quanto o vexame brasileiro na Copa repercutiu na Europa?

Uns meses depois da Copa do Mundo, eu fui entrevistar a atriz italiana Sophia Loren, um mito. Quando entrei em sua sala e me apresentaram como brasileiro, ela me fez uma cara de tristeza e me disse : « como é que vocês deixaram a Alemanha ganhar daquele jeito, e na casa de voces ? ». Acho que ainda não entendemos bem o impacto que aquele 7 x 1 teve. Mas minha impressão é de que ele foi o fim de uma era de sonho do que o Brasil representava no mundo do futebol. Por mais que a seleção não estivesse bem em alguns momentos, jamais éramos humilhados. Mas aquele jogo, mesmo que tenha sido o acidente, marcou uma espécie de fim da ilusão do mundo com o Brasil.

Qual a visão dos europeus do atual momento da Seleção Brasileira?

O Brasil se transformou em uma seleção ordinária. Há um enorme respeito pelo passado e elogios a alguns craques. Mas a seleção como um todo levará anos para recuperar o lustre do uniforme. Essa é a realidade e acho estranho quando um jogador da seleção da declarações de que aquele 7x 1 « já é coisa do passado » e que « estamos muito mais maduros agora ».

Como o seu livro vai abordar a corrupção no mundo do futebol?

O livro é um trabalho de dez anos de pesquisas, investigação e apuração e com o objetivo de mostrar que o futebol passou a ser infiltrado por grupos que se apoderaram do esporte para seu enriquecimento pessoal. Oferecem ao mundo um sonho, emoção e gols. Mas lucram milhões com isso e em total obscuridade.

Como ela começou?

Ela começou quando os dirigentes se deram conta que poderiam vender caro o sonho do futebol. Vender para multinacionais o direito de ter seus nomes ligados aos eventos, vender aos políticos o direito de sediar a Copa e vender às televisões a exclusividade sobre uma mina de ouro.

Há solução ou o futebol é um esporte marcado pela sujeira?

Certamente existe uma solução. Ela se chama “transparência”. Tornar todas as decisões públicas, abrir a caixa preta da CBF, da Fifa e de dezenas de entidades pelo mundo. Nos últimos dez anos, universidades tem formado certamente a melhor geração de dirigentes de futebol da história. Essa nova geração é uma esperança de profissionalizar a gestão do esporte.

Qual será o nome do livro?

Ele será lançado em outubro e terá o nome “Política, propina e futebol”. Com muitas histórias de bastidores, dos escândalos e dos saques, o livro também um chamado à ação para que torcedores torcedores, autoridades, dirigentes e até a polícia resgatem o futebol do sequestro que ele foi alvo.

Como é que o futebol europeu está tratando essa delicada questão da imigração ilegal?

Os estádios são caixas de ressonância de uma sociedade. Portanto, temos a xenofobia europeia cada vez mais presente também nos estádios. Ironicamente, esse é o momento de maior internacionalização do futebol europeu, com dezenas de nacionalidades e religiões em campo. Mas existem também sinais de humanidade nesses locais. No fim de semana, torcidas organizadas da Alemanha levaram aos estádios cartazes dando as boas vindas aos refugiados, um gesto que rompe com a imagem que os alemãs normalmente tem pelo mundo. O futebol não é de direita ou de esquerda. Ele não é xeonofobo ou solidário. O futebol é o instrumento que pode ser usado por todos.

O quanto você tem orgulho se um jornalista brasileiro cobrindo a Fifa? Qual a sensação de ser testemunha de fatos que estão mudando a história do futebol mundial?

Nåo é uma queståo de orgulho. É um privilégio. Ser correspondente de um dos países que definiu a história do futebol no momento que a história está sendo rescrita é uma oportunidade que todo jornalista apenas pode sonhar em ter. Por isso, também me cobro diariamente por trazer ao torcedor e mesmo àqueles que não gostam de futebol o que de fato ocorre atras das cortinas do espetáculo. Já dizia o cronista e dramaturgo Nelson Rodrigues que “o pior cego é o míope, e pior que o míope é quem enxerga bem, mas não entende o que enxerga”.

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Qual a sua relação pessoal com Blatter?

Blatter é um animal político, Ele não teme perguntas, gosta do confronto e sabe que tem balha na agulha para vencer desafios. Apesar de saber o tom de minhas críticas, ele jamais deixou de me saudar, com respeito e até um certo sorriso. Na semana passada, em sua cidade natal, uma vez mais ele veio até mim para dizer bom dia em português e dar sua mão. Mas, cobrindo seu mandato por 15 anos, eu aprendi a conhecer suas fragilidades. Ele fala sempre com convicção e aparentemente convence o interlocutor. Mas basta recuperar outros discursos dele sobre o mesmo assunto para perceber que ele não hesita em ignorar a realidade, mudar a versão das coisas e omitir sempre que precisar para se fortalecer politicamente. Com 79 anos, Blatter considera que ele é o futebol e esse é seu maior erro.

Como você, de fora, vê a força da CBF no mundo?

Atuando como correspondente, percorri mais de setenta países, viajei com papas, chefes de estado, secretários-gerais das Nações Unidas (onu), visitei campos de refugiados, acompanhei resgates de vítimas da guerra, apertei a mão de criminosos de guerra e heróis. Mas em praticamente todas essas ocasiões em que me encontrei, nas diferentes culturas, religiões e línguas, cada vez que eu me apresentava como brasileiro, meu interlocutor abria um sorriso e fazia um comentário sobre a camisa amarela mais conhecida do planeta. Lembro-me de estar no interior da Tanzânia, um país da África Oriental, numa reportagem sobre o fato de que remédios essenciais não chegavam a uma população negligenciada de seus direitos. Mas, num bar miserável, um pôster estava colocado na parede com um orgulho surreal: a imagem de Cafu levantando a taça da Copa de 2002. Como é que aquele pôster tinha chegado ali, se nem mesmo existiam voos ou estradas asfaltadas até o local? Em outra ocasião, fui até a fronteira entre a Jordânia e o Iraque, no Oriente Médio, em plena guerra pela derrubada de Saddam Hussein em 2003.

Famílias inteiras haviam deixado o país diante dos bombardeios e estavam presas agora numa terra de ninguém. A areia deixava o ar, e tudo o que se poderia tocar, com uma impressão de sujeira. Até que vi, entre uma tenda de refugiado e outra, um garoto de no máximo quatro anos vestido inteiramente com o uniforme da seleção brasileira. De onde havia surgido aquilo? Seu pai, ao saber que eu era brasileiro, veio me apresentar o menino. “Esse é meu filho, Ahmadinho”. Nesse périplo pelo mundo, um fato sempre me surpreendeu: como nós, brasileiros, somos identificados por uma seleção.

Sim, trata-se de uma visão simplória, injusta, estereotipada. O Brasil é muito mais que isso, certamente. Mas também é uma realidade que revela que aquela camisa amarela faz parte de nossa identidade e, além de ser um time de futebol, faz parte de quem somos no mundo. Gostemos ou não. O problema é que esse bem cultural, essa seleção que se diz “nacional”, que usa nossas cores, canta o nosso hino e diz nos representar, foi apropriada por um grupo privado – a CBF - que se enriqueceu baseado em nossa emoção. Em nossa identidade.

Na fronteira entre meu trabalho diário de repórter e uma curiosidade intelectual, me coloquei como objetivo o de entender para além do que eu e milhões de torcedores enxergamos em campo. Para além do que sentimos. E o que descobri é que nossas paixões foram sequestradas por um grupo privado. Hoje, seu poder e reputação estão no momento mais baixo.

Procuradoria acusa presidente da Guatemala de corrupção, e ex-vice é presa

CIDADE DA GUATEMALA - A procuradoria-geral da Guatemala, junto a uma comissão da ONU contra a impunidade, acusaram formalmente o presidente Otto Pérez Molina de liderar uma quadrilha de fraude alfandegária. Pelo mesmo crime, sua ex-vice-presidente, Roxana Baldetti, foi detida nesta sexta-feira.
De acordo com Velásquez, escutas telefônicas indicam participações de pessoas citadas como “números um e dois”, que dão sustento a provas anteriormente colhidas.
- Até o presente momento, encontramos em toda a organização e no organograma da fraude a lamentável participação do senhor presidente da República e da senhora Roxana Baldetti - afirmou em coletiva de imprensa o comissário da Comissão Internacional contra a Impunidade na Guatemala (CICIG), o ex-magistrado colombiano Iván Velásquez.
Segundo a investigação, Pérez lideraria um esquema que cobrava subornos para sonegar o pagamento de impostos alfandegários. O caso começou a ser verificado em maio de 2014.
Internada em uma clínica privada, Baldetti foi detida pela manhã. Já Pérez pode encarar acusações como associação ilícita e corrupção passiva, afirmou a procuradora-geral, Thelma Aldana.
Além disso, declarou que é “altamente provável que as menções ao ‘uno’, ao 'chefão’, e ao dono da propriedade façam referência ao presidente Pérez”, completou.
Desde abril, Pérez tem sofrido com críticas e pedidos de denúncia por conta do desmantelamento da rede de fraudes aduaneiras. Na capital do país, grande manifestações contra a corrupção e pela saída de Pérez foram registradas.