o amor e um cao dos diabos

Em determinado dia você acorda cansado e as razões já não fazem o menor sentido. Olha para o teto, toma o café, encara as roupas. Pensa na existência, na ilusão, e até mesmo nas palavras de amor que drogam a alma. Pensa na morte e na vida, no caos e nas atitudes que virão depois. Foge do desespero como o diabo da cruz e amaldiçoa a cena do crime onde você mesmo se feriu. Por dentro, por fora, aos cacos, aos pedaços. Então olha para o relógio e pergunta quantas horas ainda restam, se pergunta com quantos tombos é possível se reerguer de um caixão nunca selado. Mas é um fato, não é possível retornar ao dia de ontem. Sonhos frustrados, a busca de pessoas reais, o caminho certo para descobrir que talvez você pegou o caminho errado, é tudo a mesma coisa. Os dias mudam caso você mude, a guerra se vai quando você luta por ela. Pode não parecer, mas é possível usar suas melhores armas para encarar os olhos da indiferença.
—  Emerson Mollin

Shirley chegou à cidade com uma perna quebrada
e conheceu o chicano que fumava
longos charutos slim
e eles foram morar juntos
na Beacon Street
5º andar;
a perna não atrapalhava
muito e
eles assistiam televisão juntos
e Shirley cozinhava, de
muletas e tudo;
havia um gato, Bogey,
e eles tinham alguns amigos
e falavam sobre esportes e Richard Nixon
e de como era difícil tocar
as coisas.
funcionou por alguns meses,
Shirley se livrou até do gesso,
e o chicano, Manuel,
conseguiu um emprego no Biltmore,
Shirley costurava todos os botões caídos
das camisas de Manuel, remendava e emparelhava as meias
dele, então
um dia Manuel retornou para casa, e
ela havia sumido -
sem discussão, sem bilhete, apenas
sumira, levando todas as roupas
e pertences, e
Manuel sentou-se juto à janela e olhou para a rua
e não foi ao trabalho
na manhã seguinte nem
na outra e nem
na outra, sequer ligou para avisar,
perdeu o emprego,
recebeu uma multa por estacionamento proibido, fumou
quatrocentos e sessenta cigarros, foi
preso por embriaguez, saiu por
fiança, foi
a julgamento e se confessou
culpado.

quando o aluguel venceu ele
se mudou da Beacon Street,
deixou o gato e foi viver com
seu irmão e
os dois enchiam a cara
todas as noites
e falavam sobre o quão
terrível
era a vida.

Manuel jamais voltou a fumar
aqueles longos charutos slim
porque Shirley sempre dizia
como
ele ficava bonito
com eles na boca.

—  Charles Bukowski; uma mudança de hábito em O amor é um cão dos diabos.

conheço uma mulher
que segue comprando quebra-cabeças
quebra-cabeças
chineses
blocos
arames
peças que finalmente se encaixam
numa espécie de ordem.
ela se dedica à questão
de modo matemático
resolve todos os seus
quebra-cabeças
vive perto do mar
põe açúcar para as formigas lá fora
e acredita
definitivamente
num mundo melhor.
seu cabelo é branco
raramente o penteia
seus dentes são podres
e ela veste macacões frouxos
e amorfos sobre um corpo que a maioria
das mulheres desejaria ter.
ao longo de muitos anos ela me irritou
com o que eu considerava suas
excentricidades:
como mergulhar conchas na água
(para que ao regar as plantas elas
recebessem cálcio).
mas finalmente quando penso na sua
vida
e a comparo a outras vidas
mais deslumbrantes, originais
e belas
percebo que ela machucou menos
gente do que qualquer outras pessoa que conheço
(e com machucar quero dizer simplesmente machucar).
ela enfrentou alguns momentos terríveis,
momentos em que talvez eu devesse tê-la
ajudado mais
porque era a mãe da minha única
filha
e uma vez fôramos grandes amantes,
mas ela havia superado essas dificuldades
como eu disse
das pessoas que conheço ela foi a que machucou
menos gente,
e se você olhar para isso pelo que isso significa,
bem,
ela criou um mundo melhor.
ela venceu.

Frances, este poema é pra
você.

—  Charles Bukowski; um poema para a velha dente-podre [o amor é um cão dos diabos]
nasci há mais de 50 anos,

acompanhada da psicodelia
e do som da guitarra de Sérgio Dias.
Injetei em minhas veias as paranóias
de Roberto Piva.
Viajei por milhões de galáxias
descobrindo planetas e vidas.
Me tornei amiga de um marciano
que não quis visitar a Terra em
espanto por tanta guerra.
Acompanhei Jesus abraçando
as prostitutas e morrendo por elas.
Vi o Buda nascendo de Maya
e Ogum lutando por eras.
Conheci o diabo como anjo
e anjos criando um câncer com
a falácia de paraíso, os enganados
lambem suas feridas e ainda 
esperam por seus milagres.
O mundo acabou três vezes e eu
não estou perto do fim.

Mais de 50 anos carregando
caos, amor e vidas.
Sendo refém da psicodelia.
Acreditando que a arte é o deus
da salvação eterna.
Que gritar poesias é menos louco
que adultério.    
Que classificar não serve.
Tudo é humanização.
A arte abre um vácuo que cabe
de tudo.

Nasci há mais de 50 anos,
carrego um mundo.

A carne cobre os ossos e colocam uma mente ali dentro e algumas vezes uma alma, e as mulheres quebram vasos contra as paredes e os homens bebem demais e ninguém encontra o par ideal mas seguem na procura rastejando para dentro e para fora dos leitos.
A carne cobre os ossos e a carne busca muito mais do que mera carne.
De fato, não há qualquer chance: estamos todos presos a um destino singular.
Ninguém nunca encontra o par ideal.
As lixeiras da cidade se completam,
os ferros-velhos se completam,
os hospícios se completam,
as sepulturas se completam.
Nada mais se completa.
—  Bukowski, Sozinho com todo mundo em O amor é um cão dos diabos.

eles seguem escrevendo
despejando poemas…
jovens garotos e professores universitários
esposas que bebem vinho durante a tarde
enquanto seus maridos trabalham,
eles seguem escrevendo
os mesmos nomes nas mesmas revistas
todos escrevendo um pouco pior a cada ano,
lançando uma coletânea de poesias
despejando mais poemas
é como um concurso
é um concurso
mas o prêmio é invisível.

eles não escreverão contos ou artigos
ou romances
apenas seguirão
despejando poemas
cada um soando mais e mais como os outros
e menos e menos como eles mesmos,
e alguns dos garotos se cansam e desistem
mas os professores nunca desistem
e as mulheres que bebem vinho durante a tarde
nunca nunca nunca desistem
e novos garotos chegam com novas revistas
e há alguma correspondência entre homens e mulheres
algumas fodas
e tudo é exagerado e estúpido.

quando os poemas são recusados
eles os reescrevem
e mandam para a próximo revista na lista,
e eles fazem leituras
todas as leituras que conseguem
de graça na maioria das vezes

esperando que alguém finalmente os reconheça
finalmente os aplauda
finalmente os congratule e reconheça o
talento deles
estão tão certos de suas genialidades
há tão pouco autoquestionamento,
e a maioria deles vive em North Beach ou Nova York,
e seus rostos são como seus poemas:
iguais,
e conhecem uns aos outros e
se congregam e se odeiam e se admiram e se escolhem e se
descartam
e seguem despejando mais poemas
mais poemas
mais poemas
o concurso dos cretinos:
tap, tap, tap, tap, tap, tap, tap, tap, tap, tap…

—  Charles Bukowski; um poema rude [o amor é um cão dos diabos]
Agora recebo muitas chamadas de telefone.
Todas iguais.
‘É Charles Bukowski, o escritor?’
'Sim,’ eu lhes respondo.
E eles dizem que entendem minha escrita.
Alguns deles são escritores ou querem ser escritores
e estão em empregos estúpidos e horríveis
e não conseguem nem encarar a sala
o apartamento
as paredes
essa noite…
Querem alguém com quem possam conversar,
não podem acreditar que não posso ajudá-los
que não conheço as palavras.
Não podem acreditar que agora mesmo me dobro em meu quarto
segurando minhas entranhas e dizendo. 'Jesus Jesus Jesus, de novo não!’
Eles não podem acreditar que as pessoas mal-amadas
as ruas
a solidão
as paredes
também são minhas e quando desligo o telefone
eles acham que escondi o jogo.
Não escrevo a partir da sabedoria.
Quando o telefone toca eu também gostaria de ouvir palavras
que pudessem aliviar um pouco alguma dessas coisas.
É por isso que meu nome está na lista.
—  Bukowski, 462-0614 em O Amor é um Cão dos Diabos.

demais
tão pouco

tão gordo
tão magro
ou ninguém.

risos ou
lágrimas

odiosos
amantes

estranhos com faces como
cabeças de
tachinhas

exércitos correndo através
de ruas de sangue
brandindo garrafas de vinho
baionetando e fodendo
virgens.

ou um velho num quarto barato
com uma fotografia de M. Monroe.

há tanta solidão no mundo
que você pode vê-la no movimento lento dos
braços de um relógio.

pessoas tão cansadas
mutiladas tanto pelo amor como pelo desamor.

as pessoas simplesmente não são boas umas com as outras
cara a cara.

os ricos não são bom para os ricos
os pobres não são bons para os pobres.

estamos com medo.

nosso sistema educacional nos diz que
podemos ser todos
grandes vencedores.

eles não nos contaram
a respeito das misérias
ou dos suicídios.

ou do terror de uma pessoa
sofrendo sozinha
num lugar qualquer

intocada
incomunicável

regando uma planta.

as pessoas não são boas umas com as outras.
as pessoas não são boas umas com as outras.
as pessoas não são boas umas com as outras.

suponho que nunca serão.
não peço pra que sejam.

mas às vezes eu penso sobre
isso.

as contas dos rosários balançarão
as nuvens nublarão
e o assassino degolará a criança
como se desse uma mordida numa casquinha de sorvete.

demais
tão pouco

tão gordo
tão magro
ou ninguém

mais odiosos que amantes.

as pessoas não são boas umas com as outras.
talvez se elas fossem
nossas mortes não seriam tão tristes.

enquanto isso eu olho para as jovens garotas
talos
flores de acaso.

tem que haver um caminho.

com certeza deve haver um caminho sobre o qual ainda
não pensamos.

quem colocou este cérebro dentro de mim?

ele chora
ele demanda
ele diz que há uma chance.

ele não dirá
“não”.

—  Charles Bukowski; o estouro [o amor é um cão dos diabos]
Encurralado

não dispa o meu amor
você pode encontrar um manequim;
não dispa um manequim
você pode encontrar
o meu amor.

ela há muito tempo
me esqueceu.

ela experimenta um novo
chapéu
e parece mais
coquete
do que nunca.

ela é uma
criança
e um manequim
e
é a morte.

não tenho como odiar
isso.

ela não faz
nada fora do
comum.

queria apenas que ela
fizesse.

— Charles Bukowski, em O amor é um cão dos diabos.

Você

você é uma fera, ela disse
sua enorme barriga branca
e seus pés cabeludos.
você jamais corta as unhas
e tem mãos gordas
como as patas de um gato
seu nariz vermelho e brilhante
e os maiores bagos que
eu já vi.
você lança esperma como
uma baleia lança água pelo
buraco das costas.

fera, fera, fera,
ela me beijou,
o que você quer para o
café-da-manhã?

Charles Bukowski, O amor é um cão dos diabos.

aquele ali ensina
aquele outro vive com a mãe.
e aquele outro é sustentado por um pai alcoólatra e rubicundo
dono de um cérebro de mutuca.
aquele ali toma boletas e vem sendo sustentado pela mesma mulher há 14 anos.
aquele outro escreve um romance a cada dez dias
mas ao menos paga o próprio aluguel.
aquele ali vai de lugar em lugar
dormindo em sofás, bebendo e proferindo seus discursos.
aquele ali imprime seus próprios livros numa máquina copiadora.
aquele outro vive num vestiário abandonado num hotel de Hollywood.
aquele parece saber como arranjar tostão depois de tostão, sua vida é um preecher de formulários.
aquele ali simplesmente é rico e vive nos melhores lugares enquanto bate às melhores portas.
aquele lá tomou café com Willian Carlos
Willian.
e aquele ali ensina.
e aquele ali ensina.
e aquele ali publica livros de auto-ajuda sobre como fazer as coisas e usa uma voz dominadora e cruel.
eles estão em todo o lugar.
todos são escritores.
e quase todo escritor é um poeta.
poetas poetas poetas
poetas poetas poetas
poetas poetas poetas
a próxima vez que o telefone tocar será um poeta.
a próxima pessoa a bater à porta será um poeta.
aquele ali que ensina
e aquele outro vive com a mãe
e aquele lá está escrevendo a história de Ezra Pound.
oh, irmãos, somos as mais doentes e as piores criaturas da raça.
—  Charles Bukowski, O amor é um cão dos diabos.