num lugar sozinho cmg mesmo

Nessas curvas da vida acabei me deparando com meus pensamentos em forma humana. Admito que não era uma figura tão ruim de se observar, diria até que tinha uma beleza interessante, exótica; mentira, era linda. As marcas no seu rosto lhe davam um ar mais rude, transpassando por mim a sensação de seriedade afundada em força. Força conquistada, jamais concedida.

Nos olhamos por um segundo, mas foi suficiente para querer juntar aquele ser ao meu, pra conseguir manter o equilíbrio. Suas roupas com uma grave monocromia me chamaram atenção, sua estabilidade era quase mórbida, seu olhar suave só era percebido ao meio-dia e quando o sol refletia a parte mais interna do seu olho. Senti naquele ser a mesma coisa que me faz me manter nesse mundo, não sei o nome e nem definir em sensações, mas eu queria sentir o que aquela pessoa sentia, queria buscar a definição ao seu lado.

Na verdade ela nada tinha de minha, nada tinha de próxima, conhecida ou sonhada, mas nos pertencemos completamente por 5 ou 6 segundos.

E o ônibus saiu.

Voltei lá mais 4 vezes, no mesmo horário, no mesmo dia da semana, mas o ônibus parecia nunca ter feito o caminho de volta.

Por um tempo, as vezes curto, me sinto com frio. Nesses momentos estou mesmo com frio, já é noite, tudo escureceu, luzes amarelas iluminam meus passos sempre sozinhos, sem música ao ouvido, sem alguém para rir. Recorro às lembranças, tão minhas quanto o ar que respiro, apenas recorro até que logo fogem de mim pois só podem passar, assim como o ar. Por falar em ar, preciso aquecer esse que puxo com algumas coisas torpes e com gosto amargo, uma fumaça. “Culpa do frio”, essa é a minha desculpa pessoal, assim me convenço que não me satisfaço quando realizo esse mero desejo. Digo que é uma vontade e nada mais que isso, assim ainda me engano achando que estou no controle total das coisas.

São sentimentos, lógico, até a possível ausência pode ser um sentimento guardado. Ausente, vazio, solitário e frio, uma bela combinação pra quem passa ao lado da estrada. Capaz de fechar os olhos e me deixar levar pela mecânica das pernas até um ponto limite do real e da esperança, mas sempre fui o primeiro a não ser inconsequente, por agora digo infelizmente. Certo que vou vislumbrar a imagem que me mostre a verdade das coisas, das pessoas e a minha, pois consegui me enganar por tanto tempo que desconheço meu próprio molde, minha própria forma.

Só resta o vento, a sensação de suar frio mesmo estando com o corpo quente.

 - Declarações de um fumante esporádico

Ah, se o que eu sou é também o que eu escolhi ser, aceito a condição ♪

Numa noite dessa ele conversou com uma amiga sobre as suas novas atitudes. Ela chegou à conclusão de que ele havia arrancado o coração para ter conseguido se tornar tão frio, indiferente e, às vezes, tão ignorante.

Ele ouviu isso e pensou que poderia prejudicar sua relação com todos à sua volta, porque as coisas iam perder o “gosto”. Mas se era esse o preço para não sentir o gosto do seu próprio sangue na boca, então nem era um custo muito alto a se pagar.

Visto de fora ele parecia normal, visto de perto ele parecia muito forte, um exemplo, mas a grande questão era por dentro. Nenhum dos seus mais próximos, nem mesmo aqueles à quem ele confidenciava suas vontades, desejos, conversas e sonhos, tinham noção exata do seu estado. Claro que não tinham, ele era uma mistura de confusão e bom ator. Até para si mesmo ele era um incerteza, ele culpava sua educação e a incrível, e sempre presente, falta de coragem. Pobre rapaz, queria ter um ponto fixo mas não tinha coragem de apostar num porto remendado, mesmo que todos jurassem que esse seria o melhor.

Com um certo tempo ele acabou achando o nada, o vazio, uma possibilidade muito agradável ou, talvez, a mais fácil para ocupar sua mente e seu peito agora oco, por não ter mais um coração; pelo menos não mais um que se aqueça, ame, acelere por um pensamento e o mais importante: sinta dor e chore.

Quando ele coloca algumas palavras para fora, alguns dos seus mais próximos dizem que já estava na hora de falar o que sente. Eles não sabem é que esse sentir está se confundindo com viver. Algo muito cômico de ver acontecer, principalmente quando se está usando as carnes do pobre rapaz.

Ele leu uma coisa, uma vez, que o fez pensar. Uma frase que dizia mais ou menos como era era bom nos tempos em que joelhos ralados doíam mais que corações feridos. Com isso ele olhava para os braços não mais como apoios, mas também como saídas. Saídas para mudar o foco da dor. Depois de um tempo ele agradeceu por não poder esconder suas “maneiras” dos outros e, graças à isso, não ter feito os desenhos da sua terapia. Apesar que uma vez ou outra ele queira ver se o metal e cor da sua pele combinam com o vermelho-sangue que ele quer usar no seu quadro.

Os seus desejos e vontades estão ainda dependentes da sua dor passada. É como um fantasma que traz um frio incomum, mas um frio solitário e aconchegante. Pobre rapaz, já vi em seus olhos a sua conclusão sobre o futuro, pena que nem ele mesmo consiga vê-la sem misturar a ‘cor’ com a ‘dor’, o 'sim’ com o 'quem sabe’ e até mesmo com o mais que presente 'talvez’.

O seu olhar mudou, sua respiração sumiu, suas mãos pararam de segurar as lembranças e ele começa a se afastar. Ele sabe disso e até ensaia o que deve fazer para que dê certo. Para enfrentar essa tão densa realidade, o pobre rapaz se entrega à alguns vícios, alguns prazeres, mas nada que use de outrem, afinal ele conhece o caminho depois do engano.

Como um conto inacabado, talvez uma nova história sem fim, ele segue. Porque seguir é mais fácil do que procurar uma estrada própria. Pobre rapaz, acostumou-se com o andar e com a frieza que ele passou a soltar pelos olhos, ao invés daquelas românticas lágrimas de saudade. Talvez ele chore algumas vezes, sozinho, no futuro, por saudade de alguém, mas será dele mesmo e do que ele já foi antes do novembro de uma outra primavera.