nota ruim

Odeio como as notas influenciam a minha vida, odeio ficar triste por isso e por ter que gastar meu tempo curto com assuntos inúteis, de verdade. Em meio a tanta coisa tão mais importante, eu tenho que justamente ficar triste por isso? E só acontece porque eu sei o grande e errado lugar que elas ocupam na minha vida. Notas não são o que parecem ser, elas não dizem se você é bom ou ruim, se você é bom estudante ou não, elas só, de maneira agressiva, nos roubam a auto estima, ou nos colocam sorrisos nos rostos por termos tirado um número qualquer, que ganham valor, não que ele vá significar muita coisa, só para quem se importa com esse tipo de número.
—  A.G.
Sumir, sumir e sumir.
Talvez essa seja a opção mais certa que existe, e a mais errada também. Todos querem sumir quando alguém descobre o que você é, e o que você sente. São muitos motivos válidos e inválidos também, que levam à essa razão de sumir, são tantos que nem valham a pena a ser ditos. Eu por exemplo, já quis sumir quando um professor gritou comigo, quando minha família me colocam pra baixo e pisam em cima de mim quando alguém novo aparece, visitas. Ou quando tirei nota ruim no colégio, ou quando um amigo me traiu. O que seria sentir a vontade de sumir? Uma angústia por dentro de si, um coração apertado, que a sua vontade se baseia em apenas sumir, sumir e sumir? Sei lá, cara. Quantas vezes sentimos essa vontade de sumir, quantas vezes fizemos coisas sem pensar no que ocorreria depois ou daqui algum tempo, sumir não é a melhor opção, às vezes é sim, mas como ficaria nossos amigos? Preocupadíssimos, nossas famílias ficariam tristes, ou não. Não importa, você tem sempre alguém do seu lado, não importa quantos. O que importa é que você não está sozinho, e que sumir só vai trazer mais solidão à você.
—  Carla Santos.
Depois que você leu Percy Jackson, você começou a culpar os deuses por tudo de ruim que acontece em sua vida. “Choveu forte e caiu a luz?" É culpa de Zeus. “Você não tem um namorado (a)?" Afrodite te despreza. “Você foi para a praia e o mar estava brabo?" Poseidon está de mau humor. “Seu objeto favorito desapareceu?" Hermes roubou. “Você tirou uma nota ruim em alguma prova?" Atena não quis te ajudar. “Você está fritando de calor?" Apolo está te torturando. “Algum eletrodoméstico seu estragou e não tem mais conserto?" Hefesto não está colaborando para sua felicidade. “As garotas da sua escola estão te desprezando?" Ártemis está convertendo-as para a caçada. “Problemas familiares?" Hera está de mal com você. “Alguém quer te bater?" Ares quer assistir sua desgraça. “Sua mãe quer que você seja saudável e cortou todos os doces?" Obrigado (a) Deméter, pela “consideração". “Você não vai a festas legais?" É amigo (a), Dionísio e todos os outros deuses nos odeiam.
Eu juro que queria ser aquela mina perfeita, aquela que nunca magoa os pais, aquela que só tira notas boas na escola e entre outras coisas mais, mas é como se diz né: "querer não é poder", infelizmente. Eu sou aquela mina que gosta de ouvir rap que aos olhos dos pais é "música de mano". Aquela que fala gírias. Aquela que tira nota ruim na escola e deixa os pais com vontade de arrancar o pescoço fora. Aquela que odeia cor de rosa e ama cor preta. Aquela que sai na rua totalmente largada, e não ta nem aí pro que os outros vão falar dela. Aquela que quando ta "naqueles dias" só quer saber de ficar deitada, ouvindo música.. quietinha, ficar na dela. Aquela que fala palavrão, quando se irrita com algo. Aquela que sente ciúmes bobo. Aquela que não precisa humilhar ninguém pra subir na vida.... E mesmo assim tão brava e durona, é a mina mais sensível que já conheceu na vida.
Perder a mãe não é como, terminar um namoro, tirar uma nota ruim, perder o show do seu ídolo. Perder a mãe vai muito mais além que isso, é como se uma parte de você fosse embora, uma parte que nunca mais irá voltar. É uma dor que não desejo a ninguém.
—  Jen

José Cláudio, estudante de Pedagogia.

“Eu morei na minha vida quase toda numa das periferias mais pobres do Rio de Janeiro, numa das cidades mais pobres, Magé. Eu estudei nas piores escolas possíveis. Por exemplo, no segundo grau, nos três anos tinha algum professor que eu não tinha: ou professor de matemática, ou professor de português… e também o ensino fraco mesmo. Por muito tempo eu quis fazer a universidade mas eu achava que era algo muito difícil e muito complexo, mas eu sempre ficava nessa “que eu tenho que fazer, eu tenho que fazer” e, um dia, me deu uma loucura na minha cabeça e eu me inscrevi num cursinho popular pra prestar o vestibular. Quando eu cheguei lá aí fui entender o que é o vestibular, porque eu, como todo mundo que entrou lá, por falta de conhecimento, achava que era mais uma prova fácil de colégio. Aí você vê… Eu tinha muita dificuldade com as matérias de exatas.

Eu sempre soube que tinha um vestibular, eu sempre comentava que ia fazer faculdade e todo mundo comentava principalmente do vestibular da UFRJ, mas eu nunca tinha visto a prova, nunca sentei pra fazer ela. Eu sabia do vestibular porque eu gostava muito de ler, eu gostava muito de História, tanto que na minha quarta série, eu lia livros de História que falavam da Segunda Guerra Mundial porque eu achava muito bonitas as imagens, eu achava que eram soldadinhos de chumbo. Eu não entendia nada, mas eu lia e sempre gostava muito. Então, apesar de vir da periferia, as pessoas acabavam comentando que eu devia sim correr atrás, então mesmo muito novo e na periferia, eu já falava que ia fazer faculdade de História. Sempre acabavam comentando mas eu não sabia o tamanho do rolê que seria. Aí eu entrei em cursinho popular, foi uma época bem difícil. Eu não tava trabalhando, tava vivendo de um dinheiro que recebi por ter saído do emprego porque eu sofri um acidente e o INSS saiu atrasado, então eu tava meio que vivendo disso. Eu lembro que foi bem tenso porque eu não tinha dinheiro nem pra comprar roupa.

Quando eu entrei no [Cursinho Popular] Herbert de Souza, eu tinha 25, eu tenho 28 hoje, eu estudei e cheguei a passar na UNESP em vagas remanescentes mas eu não quis ir porque eu não queria me mudar de novo, já tinha me mudado do Rio pra cá. Com 26, no segundo ano que fiz cursinho, eu passei na UNICAMP. Eu queria História, mas História aqui na UNICAMP é um curso muito concorrido e eu sabia que eu não tinha capital cultural [risos] suficiente para passar em História aqui, em outras universidades talvez eu passasse. E eu resolvi colocar Sociais em primeira opção e Pedagogia em segunda. E eu passei em Pedagogia mas não fiquei muito feliz quando eu passei porque rolava um preconceito que Pedagogia era um dos cursos mais fáceis de passar na UNICAMP, qualquer um passaria, e isso me deixou um pouco triste na época, tanto que minha mãe ficou mais feliz que eu e também porque eu queria outra coisa. Mas aí eu comecei a fazer as aulas e acabei gostando do curso e da vida universitária e eu já estava relativamente velho, não velho, mas já tinha uma certa idade, e eu não queria fazer cursinho de novo, então aproveitei. E aí vieram vários choques de realidade. O primeiro choque, que mais senti, foi em relação aos meus colegas de classe. Tanto que hoje em dia eu me dou um pouco melhor com eles, mas assim, é uma diferença muito grande de vida, de mundo. O mundo que eles vivem parece que não é o mesmo que o meu, parece que o mundo que eles viveram, as coisas que fizeram parecem outras. Parece que estamos em polos totalmente diferentes. As coisas que eles falam, que eles viveram, até as regalias que eles tiveram… E não só, eu não sou muito enturmado com eles. Rola uma questão um pouco de gênero, eu sou o único menino da sala, elas são todas meninas, o que facilita a convivência. E não só isso, é difícil lidar com toda a estrutura… É… Eu passei muita dificuldade na vida, eu já fui muito pobre, nos dias da semana a gente não via carne, a gente comia arroz, feijão e ovo, arroz, feijão e fritada de cebola… E sei lá, são pessoas que já moraram em outro país, que têm outra vivência…

E o segundo choque é que eu esperava muito mais, eu achava que eles eram muito mais críticos, não ‘inteligentes’ porque acho essa palavra muito ruim, mas muito mais críticos. Eu achava que eles eram o crème de la crème intelectual e vi que… na minha opinião, a maioria deles é um bando de adolescentes mimados… a maioria, não são todos. Que tá fazendo faculdade com que sei lá que objetivo, não se preocupam em questionar as coisas, ou de tentar (não tô falando de concordar ou discordar) mas de questionar, sabe? Eu sinto muita falta disso. Por exemplo: “pra quê ler Marx se eu quero dar aula?”. Eu já ouvi isso. Como se tivesse formações mais valiosas e menos valiosas. Eu esperava muito mais das pessoas da academia. Fora outros rolês.

Eu já fui humilhado duas vezes por professores aqui dentro. Uma professora uma vez falou que eu tirei nota ruim porque era um estudante preguiçoso e foi na primeira prova que eu tinha feito na academia, eu não tinha nenhuma noção de como seria, como era pra ser uma prova acadêmica. Foi algo que me marcou muito, essas humilhações… Eu até pensei em sair da UNICAMP porque foi bem tenso…

Pra mim a universidade não está preparada pra receber essas pessoas. Poucos professores na FE, alguns, poucos, são muito legais e te ajudam e te ensinam a fazer as coisas que você não sabe e tem interesse em perguntar. Mas a maioria dos professores não estão interessados em ensinar coisas que pressupõe-se teoricamente que eu deveria saber, mas eu não sei porque as escolas que eu frequentei não me ensinaram. Eu cheguei aqui eu nem tinha muita ideia do que era um fichamento, uma prova de academia, e outras coisas, como resumo… Tive que aprender muita coisa na marra. Eu tenho, eu tive muito mais, eu tenho uma dificuldade muito grande com nossa língua pátria por problemas de escolarização bem sérios. Então eu tô penando muito pra aprender por conta própria, tô lendo muito, escrevendo muito e prestando atenção nas leituras, nas pontuações, porque eu tenho muita dificuldade mesmo que eu nem percebia, só percebi quando entrei aqui. Porque quando você vive entre os seus e todo mundo tem as mesmas dificuldades que você, você não percebe a sua deficiência.

Parece que as escolas públicas não te preparam para estar aqui dentro, elas te preparam não sei pra quê, pro mercado de trabalho menos remunerado possível. Elas não te preparam para estar aqui dentro, pra escrever uma resenha, um resumo, até mesmo pra fazer um fichamento… eu tive que pedir ajuda. Não acho que a função da escola é só preparar para isso, mas também. Acho que a escola, na verdade a Hannah Arendt fala isso, a escola devia preparar dentro de um arcabouço cultural. Deveria ser o lugar onde o legado cultural seria transmitido pra próxima geração. Eu não falo isso só numa questão burguesa, porque eu considero como legado cultural o funk e o RAP, que também deveriam ser conteúdos da escola. Eu acho que a escola deveria preparar para a vida como um todo e para dar opções. Se o aluno quer ser cantor de RAP, também prepara pra isso, mas também prepara se ele quiser entrar na universidade, também se ele quiser ser padeiro. Que preparasse para as opções. Eu conheço pessoas que gostariam, mas não tiveram oportunidade, gostariam muito de estar aqui e são muito mais espertas e inteligentes do que eu. E conheço pessoas que têm e tiveram todo esse preparo e não querem estar aqui, é uma opção, não é só isso aqui, mas também é isso aqui. Não se pode negar essa oportunidade. A escola está negando essa oportunidade de maneira muito clara e eu sinto muito isso.

Primeiro, isso aqui é muito longe do centro da cidade, só a passagem é muito cara e pesa muito. Morar aqui também não é uma solução viável porque é muito caro, morar aqui não é uma opção. Sinceramente…o Serviço de Apoio ao Estudante, vou por entre aspas, é uma “merda” e poderia ser mais eficiente. Porque qualquer um sabe que não tem bolsas suficientes de trabalho pra todo mundo que pede, eu conheço várias histórias de pessoas que foram humilhadas lá no processo de bolsa, não tem bolsa pra todo mundo que precisa, não tem moradia pra todo mundo que precisa… E a moradia tá caindo aos pedaços e tem muitos problemas. Quer dizer, eu acho que não ajuda. Acho que a coisa que funciona melhor e que eu precisei algumas vezes é o SAPPE, realmente eles se desdobram pra socorrer.

Quando a gente entra, é o como se o vestibular dissesse que todo mundo é igual, que todo mundo partiu do mesmo ponto de partida e que todo mundo tem as mesmas condições de estar aqui, e você pode correr atrás de alguns auxílios. E a universidade deixa você por si só, você e o que consegue fazer e com quem consegue se enturmar. O vestibular é o primeiro dos obstáculos e a graduação em si é um obstáculo muito grande. Primeira coisa, se você vem de uma origem muito humilde, você sente uma solidão muito grande por que você não vê praticamente ninguém que vem de uma origem muito humilde… você não tem nem com quem reclamar da vida. Ou alguém que entenda o seu sofrimento. Outra coisa: como negro você não se reconhece nesse espaço, porque eu sempre faço isso, quando eu entro na sala, eu sempre conto a quantidade de negros que tem na sala e depois eu subtraio dos negros haitianos. Não que eu tenha alguma coisa contra os haitianos, mas eu percebo que tem mais negros estrangeiros em sala do que negros brasileiros. Eu gostaria que trouxesse até mais, mas se faz tanto esforço pra trazer pessoas negras de fora e se faz tão pouco esforço pra trazer e manter tanta gente negra [brasileira] que tem fora aqui dentro … e eu conto… Tem pouquíssimos estudantes de escola pública, alguns professores perseguem sim esses estudantes e dão notas mais baixas. Tá com um problema na FE que já foi detectado, e tem professores reclamando que, alunos de escola pública, mesmo com projetos de IC, não tão conseguindo bolsa. Isso aconteceu comigo. Meu projeto foi bem qualificado (se eu chorar… não liga) e isso me magoou muito. E isso mais outros fatores ajudou a desencadear meu processo de depressão. Meu projeto foi bem qualificado e eu não consegui a bolsa e isso me deixou muito triste, muito arrasado, foi muito difícil, foi uma correria danada. Eu me matei pra fazer aquele projeto, tinha algumas falhas, mas conseguiu ser bem qualificado e eu não consegui a bolsa. E outros alunos de escola pública, com projetos bem qualificados, também tiveram as bolsas negadas. Eu consegui aceitar e digerir muita coisa daqui de dentro, mas isso eu não consegui digerir. Tanto que eu fiquei de fazer a IC por conta própria mas não consegui, eu fiquei muito desmotivado e eu tô tentando encontrar motivação pra fazer a IC. Depois, eu tenho que obrigatoriamente fazer um TCC, mas até agora eu tô desmotivado. Isso foi a coisa mais difícil de lidar aqui dentro. Porque você perceber que as bolsas vão pra quem tem tudo na vida e quem precisa e se esforçou pra fazer um bom trabalho não é recompensado. E quem tem a obrigação de fazer um bom trabalho, porque tem tudo na vida, é recompensado assim tão facilmente pelo sistema. Quer dizer, as bolsas já vão pra eles e eles nem precisam. Ganham a bolsa porque ter bolsa PIBIC, ter bolsa FAPESP faz bem pro Currículo Lattes, pra poder ir pra festa sendo que os pais podem pagar. E pra quem precisa usar metade do dinheiro pra passagem, a bolsa é negada. É muito esquizofrênico porque teoricamente quem deveria ganhar é quem mais precisa e não quem já tem.

Eu tenho consciência que eu me esforcei muito mais que 80% das pessoas que eu conheço aqui dentro para estar aqui. E não só, eu ainda me esforço. Eu abri mão de um monte de coisa. As pessoas defendem a meritocracia da prova… eu vejo pessoas aqui que falam na minha cara que tiram notas maiores do que eu, que leram os resumos dos textos e escreveram, mas isso porque tiveram escolarizações excelentes e conseguem engabelar o professor e tiram nota. E eu me mato de ler os textos mesmo. E as pessoas que leem resumo da internet tiram notas melhores que as minhas e ainda dizem que o sistema é correto, que o sistema realmente avalia quem se esforça mais. Que esforço é esse então que as pessoas tão lendo resumo e tão tirando notas excelentes, porque tiveram uma escolarização melhor? Sabe, tá na hora de começar a rever esses conceitos de mérito. O que que é mérito?

É muito difícil todo dia estar aqui. Eu até brinco com a minha psicóloga: parece que tô num lugar que não é meu, eu tô aqui o tempo todo achando que esse lugar não foi feito pra mim, muitas vezes querendo ir embora daqui logo, porque não foi feito pra gente da minha classe. Quando um pobre entra na academia, não é a academia que muda, é o pobre. Não pode mais falar gíria, não pode mandar ninguém se foder, porque isso não é argumentação que se faça na academia. Você tem que aprender a escrever do jeito deles… Você descobre que tudo que você faz é errado: fala do jeito errado, escuta música errada, escreve errado, você mora no lugar errado, você não é esforçado porque não foi pra França, porque não sabe falar alemão… “Ah, pelo amor de Deus, como você quer ficar na academia se não sabe nem falar um inglês?”. Aí você sabe que tem que se esforçar muito mais porque você já entra atrás, tem que se esforçar muito mais pra ler, pra escrever, até mesmo rotina de estudos. Depressão eu já tinha, mas eu desenvolvi também crise de pânico, então é muito difícil às vezes. Eu me esforço muito pra fazer coisas que são emocionalmente estressantes, às vezes estar aqui e olhar alguns professores é emocionalmente estressante. E isso se tornou assim por causa da estrutura disso aqui, porque é uma estrutura muito desumana. A academia nunca tá errada, o tempo todo eu que tô errado. E a academia não mexe uma palha pra ajudar, pra fazer algum tipo de assistência. Eu brinco que é “onde os fracos não têm vez”, ou você se vira, ou você se fode.

E você percebe que isso aqui é construído pros herdeiros, pras pessoas que têm dinheiro. Olha só, a gente tá sentado aqui e olha a quantidade de carro parado ali. Ninguém na minha família nunca teve um carro, não é “eu não tenho carro”, ninguém da minha família teve carro. Minha mãe e meu pai nunca compraram uma casa pra eles. Meu pai é pedreiro por sinal. Isso aqui não é pra gente.

Ao mesmo tempo que aqui me deprime, aqui eu afirmo minha autoestima porque é um ato de petulância estar onde não querem que você esteja. Estar aqui é um ato de arrogância. Como isso aqui não era meu destino, eu tive que colocar isso na minha vida, eu não tenho muito medo de perder às vezes. Eu brigo com professor, eu falo o que eu penso, chuto o pau da barraca mesmo. Mando o protocolo às favas com algum nível de esperteza, porque a periferia não cria filhos burros. Com esperteza, com jeito, mas não deixo de falar o que eu penso, o que sinto. Pode estar em reuniões com professores, eu sempre me imponho, digo minha opinião. E pros colegas, como a maioria deles não são da minha classe, eu ligo o botão do foda-se, quer gostar de mim gosta, não quer gostar, foda-se, vai ouvir se estiver no mesmo espaço que eu, vai ouvir, problema é seu. Se eu tenho que aguentar isso aqui porque eles não têm que aguentar minhas opiniões? É um ato de petulância, é uma luta para que a academia mude e até mesmo que as pessoas acordem um pouco.

Eu tenho uma sobrinha e irmãos mais novos, e um eu sei que nunca provavelmente vai estar aqui, mas ele se vira bem sem isso, a pegada dele é outra. Mas eu tenho um irmão com 15 anos e ele pode querer estar aqui ou não, eu tenho uma sobrinha e outras pessoas… E eu tenho que dizer pra elas, apesar de toda tristeza que sinto aqui dentro às vezes, que é possível sim estar aqui se você quiser muito, se achar que isso é muito importante pra sua vida, como eu achava que era. Hoje em dia não acho que é tanto. Quando você mora na periferia e não entende muitas coisas, você quer muito sair de lá. Porque o problema de ser pobre não é só a pobreza, é o que as pessoas pensam de ser pobre. Porque você ouve toda hora que pobre não se esforça, que não é esforçado… então tudo que você quer é não ser essa pessoa. Tudo que você quer é ser essas pessoas que estão aqui dentro e, quando você entra aqui, você descobre que as pessoas que estão aqui não são tudo aquilo que falavam pra você. E você gostaria de voltar [risos] praquelas pessoas que você tentou fugir a vida inteira.

Eu já tive oportunidade de fazer coisa errada, não fiz, mas eu já tive muitas. E eu olho assim e penso que, se eu tivesse feito, as pessoas que estão aqui dentro seriam as pessoas que eu assaltaria, com certeza. Eu poderia encontrar um estudante da UNICAMP caso eu decidisse pegar um cano por aí pra resolver minha vida financeira desse jeito, como algumas pessoas que conheci.

E a importância de estar aqui, além da chance da academia mudar, é de marcar território e dizer “sim, se você quiser muito, você pode estar”. Você tem uma responsabilidade muito grande quando entra na academia porque você tem que representar quem não teve a possibilidade de entrar aqui. E às vezes você se sente muito culpado porque você entrou, mas conhece pessoas tão mais inteligentes e geniais que você e não entraram, e se questiona porque você se esforça a contragosto do sistema pra ficar.

A importância da minha trajetória de vida é que eu nunca vou ser um escroto meritocrático que fica cuspindo e vomitando regras de que você tem que se esforçar porque senão você não vai conseguir nada na vida. Porque você pode se esforçar e não conseguir nada na vida! Acho que a academia me deu uma propriedade muito grande, que é capacidade argumentativa e o“capital cultural burguês”, porque quando você lida com a sociedade burguesa e quer algum tipo de transformação isso é importante. E a academia te ensina a como procurar e onde procurar. O rolê fora da academia me deu uma sensibilidade de ver as coisas de maneira não tanto “céu e inferno”, de ver que a realidade é mais complexa e minuciosa que simples preconceitos. Tipo, “é pobre porque não se esforça”. Mas o que é se esforçar? Meu pai é uma pessoa que tem vários defeitos (eu tenho vários problemas com ele), mas eu não conheço ninguém mais trabalhador que ele. Nenhum pai de um FDP classe média daqui é mais trabalhador que meu pai. Se tivesse que trabalhar das 5h da manhã até 22h, pegar trem pra ir pro centro, de segunda a domingo, ele iria. Até hoje, ele tá velho, acabado, os filhos dele não se formaram e não ganham dinheiro pra dar uma vida melhor pra ele e mesmo assim meu pai nunca negou trabalho e ele nunca enriqueceu. Pera lá, então o que é esforço?

Então quando eu leio algo, sempre faço um paralelo com as coisas que eu li, que eu vivi, com as conversas que eu tive. Por mais que tenha me trazido malefícios, eu tive o benefício de andar em dois mundos diferentes: o mundo de pessoas humildes, pobres e trabalhadoras e isso aqui que, pra mim, é estar em Beverly Hills. Eu me sinto morador de rua em Hollywood, em Beverly Hills [risos], quase um pedinte, um mendigo andando pelas ruas do sonho”.