noites nas ruas

A Noite dissolve os homens
A Noite desceu. Que noite!
Já não enxergo meus irmãos.
E nem tão pouco os rumores que outrora me perturbavam.
A noite desceu. Nas casas, nas ruas onde se combate,
nos campos desfalecidos, a noite espalhou o medo e a total incompreensão.
A noite caiu. Tremenda, sem esperança…
Os suspiros acusam a presença negra que paralisa os guerreiros.
E o amor não abre caminho na noite.
A noite é mortal, completa, sem reticências,
a noite dissolve os homens, diz que é inútil sofrer,
a noite dissolve as pátrias, apagou os almirantes cintilantes!
nas suas fardas.
A noite anoiteceu tudo… O mundo não tem remédio…
Os suicidas tinham razão.
—  Carlos Drummond de Andrade.

Ih 
Nasceu
Parabéns, é uma menina 
Vai dar trabalho, hein 
Enche de rosa, florzinha
Põe brinquinho
Entucha uma boneca
Ah, que lindo o instinto materno
De aniversário dá uma mini tábua de passar roupa
Um mini fogão com várias panelinhas 
Que é pra aprender desde cedo
É do-lar
Do-marido
De outrem
Nunca sua

Cresce
Senta como mocinha! 
Tenha modos 
Menstrua esse sangue sujo 
Vaza
Denuncia
Esconde esse absorvente

Absorva
Não é gente
Tem que estar bonita, arrumada
De peitos de fora na propaganda de cerveja
De mãos decepadas pelo “companheiro”
De sonhos castrados logo na maternidade

Põe mais maquiagem 
Tem que ser mais feminina
Vai sair sem batom?
Esconde essas espinhas 
Arranca esses pelos que saem de você 
São sujos
Imundos
Sua porca!

Gostosa
Meus olhos te devoram
Te constrangem
Te fazem trocar caminhos
Por que anda sozinha na rua? 
Não te ensinaram 
Que é do-lar?

É minha também 
Como uma carne exposta no açougue
Ou uma roupa na vitrine
Te avalio
Acho que tenho direito
Posso te tocar? 
Te comprar?
Te comer?
Vadia

Estuprada
Mas com que roupa tava?
Andando a noite na rua?
Também…
Tava pedindo
Provocou com o decote
A saia devia ser curta demais

Morta pelo ex namorado
Ah, crime passional 
Ciúmes
Em menos de um mês tava com outro
Merecia
Coitado do homem,
Amava tanto a moça!

Mortas 
Todos os dias 
Mas renascemos
Nossas raízes são mais profundas
Não vão calar nossa voz, nosso grito
Somos gente!
Existimos!
Resistimos!

—  Via Beatriz Gon Perez Nardoque

Ela era como um ice berg, tinha mais do que mostrava
Ela era fria porque quando era quente, se queimava
E fazia tudo como inconsequente, se arriscava
Se a coisa ficasse feia pra ela, ela nem ligava
Saía, virava a noite na rua, altas madrugadas
Corria até seu peito queimar, nem respirava
Eu dizia pra ela me esperar, nem esperava
Pedia pra ela se acalmar, não se acalmava
Fazia sem medo de machucar, mas machucava
Eu queria fazer ela melhorar e ela não deixava
Eu pedia pra ela me escutar e ela ignorava
Eu fazia de tudo pra me aproximar e ela me afastava
Eu sabia que era sua arma de defesa, ela se fechava
Como tinta que escreve poesia, se derramava
Sorria pra demonstrar uma melhora, eu não acreditava
Dizia que tudo ia ficar bem, até ficava
Mas quando estava no quarto sozinha, ela desabava
Chorava como se fosse o mar, ela se inundava
Depois ela tentava disfarçar, não funcionava
Dizia que ela estava melhor, mas não estava
Tinha um bolo de mágoa no coração, ela guardava
Tinha ódio, era pura confusão, se maltratava
Sempre fazendo piada de tudo, só disfarçava
Dizia que não me queria por perto, mas precisava
Por mais que ela me mandasse embora, eu sempre ficava
Então um dia ela me perguntou, mesmo com raiva
Porquê ela me tratava tão mal e eu voltava
Eu tentava achar as palavras certas, mas nunca achava
No fundo ela sabia o motivo, eu demonstrava
A minha voz ficava diferente quando ela me olhava
A respiração começava a falhar quando ela se aproximava
Sempre que ela tocava minha pele, arrepiava
Meus olhos vidravam na sua boca quando falava
O meu sorriso ficava todo bobo quando ela me encarava
Eu fazia de tudo só pra ver se ela me notava
Tava na cara desde sempre o quanto eu a amava

na falta

eu sinto sua falta 
e sinto falta dos tempos felizes também
ou menos piores
sinto falta do frio de são paulo
e da vó tereza e do vô orlando
e de vir pra casa deles
na praia no fim de semana
sinta falta de quando eu ia pra escola com treze anos e era tudo um pouco mais suportável
sinto falta da leveza no rosto da minha mãe que hoje não existe mais
sinto falta de ter esperança, confiança
sinto falta das festinhas em jundiaí
de escorregar o colchão na escada
do sol e dos jogos de tabuleiro
do futebol de noite na rua
do macarrão da tia tânia e do brigadeiro da tia rita
sinto falta de não ter responsabilidade e querer ter
de me desesperar por coisas bobas que não eram nada comparadas às de hoje
sinto falta de fazer caligrafia e pintar a casa e me sujar de tinta
sinto falta de não saber o gosto do tabaco e o sabor da tequila
sinto falta de gente que nem lembra mais de mim e de outros que eu já esqueci mas todo mundo que vai deixa buraco
e quando a gente vai o buraco é maior ainda;

sinto sua falta
todos os dias
e mesmo que sua falta me falte com a alegria
me adoeça em agonia
me deprima;
te coloco na lista
te dou um lugar.

Satine andou trôpega até o banheiro, apoiou-se na pia. As mãos tremiam. Fitou sua imagem no espelho, os lábios esbranquiçados, olhos vermelhos. Tentou recordar o que deixou-a naquele estado. Infortunadamente não fora o resultado da uma noite na rua, tampouco uma discussão acalorada sobre pequenices da vida. Segurou-se o mais firme que pôde na pia. Um tremor. Ultimamente ela vinha sentido esses arrepios melancólicos. Não havia cura, o máximo que podia fazer era abraçar-se e aguardar até que tivesse fim. Pensou no quão triste e desamparado era o ato de se abraçar, não ter a quem recorrer em caso algum, todos desapareciam. Além do que, Satine concluiu, não há ninguém que eu queira chamar. Solidão só não é mais triste que essa agenda repleta de nomes que não ligaria numa emergência. Olhou-se, os braços e pernas sem força. Se viu escrevendo no vidro com um batom antigo: “Você as vezes não adoece de ser você?”, e sentiu os olhos arderem porque ninguém jamais responderá.

São momentos passageiros, desses que fingimos não ter enquanto sorrimos na mesa do bar. Satine dá um gole n’alguma bebida que ofereceram e sente o líquido descer rasgando. As pessoas sorriem entre si, o conhecido de um amigo pergunta sobre o trabalho, dessas perguntas que ela detesta. Ninguém em sã consciência quer falar disso na mesa do bar. A resposta é educada. Não importa o decorrer da noite, é a conclusão que sempre chega quando amanhece. Satine não sentiu vontade de detalhar sobre como ele fora divertido até o final da noite, fazendo pilhérias sobre acontecimentos cotidianos. Ela não quis explicar porque o convidou para entrar quando meia dúzia de conhecidos a deixaram na porta de casa. Talvez nem todas as coisas tenham explicação lógica, fora o que ela pensou quando viu um post-it com um número de telefone na caneca de café. As pessoas passam e fazemos questão de não notar. Deixamos entrarem, vezenquando até abrem nossa agenda e anotam o nome, tateiam a despensa procurando café, encostam na bancada da cozinha fazendo graça sobre as notícias do jornal. Mas ninguém ultrapassa todas as barreiras. Sequer é possível, Satine faz questão de levantar muros novos a cada um que cai. Ela tem pensado sobre essas coisas com frequência. Sua mão circula com a colher pelo café, o dia nesses momentos parece tão vazio. 

G.

Meus Dias Sem Você

Os discos empoeirados que não tenho mais
Os livros abandonados, fora de ordem,
Na velha estante (que não está comigo)
As poesias que escrevi para você
                                     [em papel almaço,
Desbotam na lixeira que foi embora
                                    [com nosso chih tzu,
Já cego e cheio de tumores
Ficou apenas o céu estrelado, noite fria
Cigarro e uísque,
Na rua, transeuntes que me ignoram
Num canto sujo de uma calçada qualquer
Do centro da cidade.

Ninguém ensina um homem a respeitar uma mulher, mas ensina a mulher a temer à noite, por não termos um pênis não somos livres pra passar à noite na rua sem temer que a qualquer momento pode sair da esquina aquele cara que vai abusar de ti sexualmente e fazer com que você se sinta suja pelo resto da vida e ele continue a dele normalmente, como se nada tivesse acontecido, como se ele não tivesse feito mal nenhum a ninguém, como se ele fosse um ser inocente e puro. Ele vai tá em altas festas rindo com os amigos, dançando, pegando outras garotas e voltando em segurança para casa, mas você vai tá deitada em uma cama tentando escapar dos pesadelos que ele deixou, tentando se livrar da dor e das marcas, daquele maldito nojo que agora você sente de si própria. É triste não é? Porém é a nossa realidade, é normal sentirmos medo da noite assim como é normal para eles surgirem do nada e te forçar a ser um brinquedo sexual por alguns minutos.
CANÇÃO DO BOÊMIO

RECITATIVO DA MEIA HORA DE CINISMO

COMÉDIA DE COSTUMES ACADÊMICOS
Música de EMILIO DO LAGO

Que noite fria! Na deserta rua
Tremem de medo os lampiões sombrios.
Densa garoa faz fumar a lua,
Ladram de tédio vinte cães vadios.

Nini formosa! por que assim fugiste?
Embalde o tempo à tua espera conto.
Não vês, não vós?… Meu coração é triste
Como um calouro quando leva ponto.

A passos largos eu percorro a sala
Fumo um cigarro, que filei na escola…
Tudo no quarto de Nini me fala
Embalde fumo… tudo aqui me amola.

Diz-me o relógio cinicando a um canto
“Onde está ela que não veio ainda?”
Diz-me a poltrona “por que tardas tanto?
Quero aquecer-te rapariga linda.”

Em vão a luz da crepitante vela
De Hugo clareia uma canção ardente;
Tens um idílio  —  em tua fronte bela…
Um ditirambo —  no teu seio quente…

Pego o compêndio… inspiração sublime
P'ra adormecer… inquietações tamanhas…
Violei à noite o domicílio, ó crime!
Onde dormia uma nação… de aranhas…

Morrer de frio quando o peito é brasa…
Quando a paixão no coração se aninha!?…
Vós todos, todos, que dormis em casa,
Dizei se há dor, que se compare à minha!…

Nini! o horror deste sofrer pungente
Só teu sorriso neste mundo acalma…
Vem aquecer-me em teu olhar ardente…
Nini! tu és o cache-nez dest'alma.

Deus do Boêmio!… São da mesma raça
As andorinhas e o meu anjo louro…
Fogem de mim se a primavera passa
Se já nos campos não há flores de ouro…

E tu fugiste, pressentindo o inverno.
Mensal inverno do viver boêmio…
Sem te lembrar que por um riso terno
Mesmo eu tomara a primavera a prêmio..

No entanto ainda do Xerez fogoso
Duas garrafas guardo ali… Que minas!
Além de um lado o violão saudoso
Guarda no seio inspirações divinas…

Se tu viesses… de meus lábios tristes
Rompera o canto… Que esperança inglória…
Ela esqueceu o que jurar lhe vistes
Ó Paulicéia, ó Ponte-grande, ó Glória!…

Batem!… que vejo! Ei-la afinal comigo…
Foram-se as trevas… fabricou-se a luz…
Nini! pequei… dá-me exemplar castigo!
Sejam teus braços… do martírio a cruz!…

São Paulo, junho de 1868.    

Castro Alves

nasceu
Parabéns, é uma menina
Vai dar trabalho, hein
Enche de rosa, florzinha
Põe brinquinho
Entucha uma boneca
Ah, que lindo o instinto materno
De aniversário dá uma mini tábua de passar roupa
Um mini fogão com várias panelinhas
Que é pra aprender desde cedo
É do-lar
Do-marido
De outrem
Nunca sua
Cresce
Senta como mocinha!
Tenha modos
Menstrua esse sangue sujo
Vaza
Denuncia
Esconde esse absorvente
Absorva
Não é gente
Tem que estar bonita, arrumada
De peitos de fora na propaganda de cerveja
De mãos decepadas pelo “companheiro”
De sonhos castrados logo na maternidade
Põe mais maquiagem
Tem que ser mais feminina
Vai sair sem batom?
Esconde essas espinhas
Arranca esses pelos que saem de você
São sujos
Imundos
Sua porca!
Gostosa
Meus olhos te devoram
Te constrangem
Te fazem trocar caminhos
Por que anda sozinha na rua?
Não te ensinaram
Que é do-lar?
É minha também
Como uma carne exposta no açougue
Ou uma roupa na vitrine
Te avalio
Acho que tenho direito
Posso te tocar?
Te comprar?
Te comer?
Vadia
Estuprada
Mas com que roupa tava?
Andando a noite na rua?
Também…
Tava pedindo
Provocou com o decote
A saia devia ser curta demais
Morta pelo ex namorado
Ah, crime passional
Ciúmes
Em menos de um mês tava com outro
Merecia
Coitado do homem,
Amava tanto a moça!
Mortas
Todos os dias
Mas renascemos
Nossas raízes são mais profundas
Não vão calar nossa voz, nosso grito
Somos gente!
Existimos!
Resistimos

É porque eu continuo aqui
Ouvindo aquele nosso velho blues
E eu continuo lembrando dos teus olhos tão gigantes
E da sua boca tão gostosa
E fico dizendo que a gente voltou
É irônico, não?
Porque somos nós
E só nós
O nosso pra sempre é a gente
E eu jurei sermos infinitos
Naquela noite que passamos na sua rua, Saturno
Por incrível que pareça
Olhando o céu
Agora amigo,
Eu tô em outra
E mais uma coisa,
Polícias abaixem as armas
Que a gente voltou
Porque é um sonho bom
Que mudou o tom
Da minha vida

Às vezes demora pra ficha cair, mas ela sempre acaba caindo alguma hora. Pode ser logo, ou podem demorar anos e anos, mas cai, sempre cai. Sabe, num dia qualquer, talvez pela manhã, ou durante a noite, em casa ou na rua, enquanto estiver sozinha ou acompanhada, você vai fechar os olhos e vai sentir que tem algo faltando, algo que você não saberá dizer o que é. E você vai passar dias com esse incômodo, essa sensação estranha de falta, de vazio. Vai se indagar e procurar o que falta, vai sentir uma certa agonia, vai se sentir confusa, ter algumas noites de insônia, chegar a algumas conclusões erradas, mas depois de um tempo, você finalmente vai descobrir, esse algo sou eu.
—  Aluador
Foram dias difíceis de suportar. Tinha vezes que dava vontade de chorar e então eu corria para casa para que não vissem o quanto estava mal, mas de repente comecei a perceber que me sentia estranha por lá também. Não conseguia mais colocar a cabeça no travesseiro e me afogar como estava acostumada fazer, então comecei a ficar dias e noites na rua, tudo para não ter que voltar para aquele lugar que estava me deixando cada vez mais ainda terrivelmente triste. E em todo esse tempo que fiquei por lá eu só conseguia pensar em duas coisas: a primeira era no quanto te amava e precisava de você pelo resto da vida. A segunda era em como gostaria que um raio cortasse os céus e me acertasse em cheio por sempre perdoar o que já deveria ter tido um fim.
—  Os porquês de Amélia Roswell.
Hoje não segurei as lágrimas, mais um caso de estupro e dessa vez coletivo, envolvendo 30 homens. Algo dentro de mim desmoronou, foi como sair de mim e sentir tudo o que uma mulher sente quando se é violentada, suas forças se esvaziando, sobrando o medo, a repulsa, acaba pensando que tudo poderia ser um pesadelo e que quer acordar, mas não, todos aqueles momentos foram reais, então você chora como se quisesse que tudo fosse mentira, mas percebe nem chorar mais é reconfortante, nada que se faça apagará aqueles momentos, não adiantaria fugir, correr, porque no final tudo fica vazio e sombrio, acabamos pensando que estamos protegidas, que onde se mora é seguro, mas não, estamos todas sujeitas a um estupro ou um assédio, até mesmo nas ruas quando se buzinam ao passaram por você, quando soltam “que gostosa”, quando viram pra você e falam da sua roupa ou do seu batom, ou se perguntam “o que uma mulher está fazendo ali?” estamos sempre sendo sujeitas a sofre assédios todos os dias, e muitas ficam caladas por medo, vergonha, a verdade é que não sabemos o que pode ou não acontecer. De noite na rua, uma mulher sente medo, cada barulho já é motivo para seu coração acelerar, álias, nunca se sabe quem é que pode está atrás de você ou o que pode acontecer, então se vê outra mulher, e automaticamente desacelerar o para que acompanhe, juntas talvez estejam mais seguras. Minhas lágrimas hoje são derramadas por todas as mulheres que se calam, que aguentam assédios no trabalho por medo de serem demitidas, pela história de abusos que as mulheres carregam nas costas, é xocante algumas pessoas fecharem os olhos e ignorarem, é triste ver muitas vezes esses seres humanos desprezíveis saírem muitas vezes impune aos seus atos. MULHERES, estamos todas juntas para ajudarmos uma as outras, vamos lutar para a melhoria das leis, para a punição dessas pessoas porque a culpa nunca é da VÍTIMA, podem nos chamar quantas vezes quiserem de “loucas feministas” que sairemos sorrindo e segurando a mão uma das outras.
—  Ester Gosaves
É bom ter mãe quando se é criança, e também é bom quando se é adulto. Quando se é adolescente a gente pensa que viveria melhor sem ela, mas é um erro de cálculo. Mãe é bom em qualquer idade. Sem ela, ficamos órfãos de tudo, já que o mundo lá fora não é nem um pouco maternal conosco. O mundo não se importa se estamos desagasalhados e passando fome. Não liga se virarmos a noite na rua, não dá a mínima se estamos acompanhados por maus elementos. O mundo quer defender o seu, não o nosso. O mundo quer que a gente fique horas no telefone, torrando dinheiro. Quer que a gente case logo e compre um apartamento que vai nos deixar endividados por vinte anos. O mundo quer que a gente ande na moda, que a gente troque de carro, que a gente tenha boa aparência e estoure o cartão de crédito. Mãe também quer que a gente tenha boa aparência, mas está mais preocupada com o nosso banho, com os nossos dentes e nossos ouvidos, com a nossa limpeza interna: não quer que a gente se drogue, que a gente fume, que a gente beba. O mundo nos olha superficialmente. Não consegue enxergar através. Não detecta nossa tristeza, nosso queixo que treme, nosso abatimento. O mundo quer que sejamos lindos, sarados e vitoriosos para enfeitar ele próprio, como se fôssemos objetos de decoração do planeta. O mundo não tira nossa febre, não penteia nosso cabelo, não oferece um pedaço de bolo feito em casa. O mundo quer nosso voto, mas não quer atender nossas necessidades. O mundo, quando não concorda com a gente, nos pune, nos rotula, nos exclui. O mundo não tem doçura, não tem paciência, não pára para nos ouvir. O mundo pergunta quantos eletrodomésticos temos em casa e qual é o nosso grau de instrução, mas não sabe nada dos nossos medos de infância, das nossas notas no colégio, de como foi duro arranjar o primeiro emprego. Para o mundo, quem menos corre, voa. Quem não se comunica se trumbica. Quem com ferro fere, com fero será ferido. O mundo não quer saber de indivíduos, e sim de slogans e estatísticas. Mãe é de outro mundo. É emocionalmente incorreta: exclusivista, parcial, metida, brigona, insistente, dramática, chega a ser até corruptível se oferecermos em troca alguma atenção. Sofre no lugar da gente, se preocupa com detalhes e tenta adivinhar todas as nossas vontades, enquanto que o mundo propriamente dito exige eficiência máxima, seleciona os mais bem-dotados e cobra caro pelo seu tempo. Mãe é de graça.
—  Martha Medeiros.
Calma garoto, não é assim que se faz. Um dia de cada vez; o coração não é instantâneo, sentimentos são feridas que demoram para sarar.
Não será hoje nem amanhã que tudo vai passar e esquecerá dos carinhos e das noites manhosas na rua. Eu sei, eu sei, o quanto clichés são porres, mas não deixam de ser verdade.
Se lave na cachoeira do tempo, meu amigo, deixa a vida carregar teu coração cansado e levar, devagarinho… Esse agridoce amor.
—  Hermes e Hefesto numa mesa de bar.
Mãe é de Graça

É bom ter mãe quando se é criança, e também é bom quando se é adulto. Quando se é adolescente a gente pensa que viveria melhor sem ela, mas é um erro de cálculo. Mãe é bom em qualquer idade. Sem ela, ficamos órfãos de tudo, já que o mundo lá fora não é nem um pouco maternal conosco. 

O mundo não se importa se estamos desagasalhados e passando fome. Não liga se virarmos a noite na rua, não dá a mínima se estamos acompanhados por maus elementos. O mundo quer defender o seu, não o nosso. 

O mundo quer que a gente fique horas no telefone, torrando dinheiro. Quer que a gente case logo e compre um apartamento que vai nos deixar endividados por vinte anos. O mundo quer que a gente ande na moda, que a gente troque de carro, que a gente tenha boa aparência e estoure o cartão de crédito. 

Mãe também quer que a gente tenha boa aparência, mas está mais preocupada com o nosso banho, com os nossos dentes e nossos ouvidos, com a nossa limpeza interna: não quer que a gente se drogue, que a gente fume, que a gente beba. 

O mundo nos olha superficialmente. Não consegue enxergar através. Não detecta nossa tristeza, nosso queixo que treme, nosso abatimento. O mundo quer que sejamos lindos, sarados e vitoriosos para enfeitar ele próprio, como se fôssemos objetos de decoração do planeta. O mundo não tira nossa febre, não penteia nosso cabelo, não oferece um pedaço de bolo feito em casa. 

O mundo quer nosso voto, mas não quer atender nossas necessidades. O mundo, quando não concorda com a gente, nos pune, nos rotula, nos exclui. O mundo não tem doçura, não tem paciência, não pára para nos ouvir. O mundo pergunta quantos eletrodomésticos temos em casa e qual é o nosso grau de instrução, mas não sabe nada dos nossos medos de infância, das nossas notas no colégio, de como foi duro arranjar o primeiro emprego. Para o mundo, quem menos corre, voa. Quem não se comunica se trumbica. Quem com ferro fere, com fero será ferido. O mundo não quer saber de indivíduos, e sim de slogans e estatísticas. 

Mãe é de outro mundo. É emocionalmente incorreta: exclusivista, parcial, metida, brigona, insistente, dramática, chega a ser até corruptível se oferecermos em troca alguma atenção. Sofre no lugar da gente, se preocupa com detalhes e tenta adivinhar todas as nossas vontades, enquanto que o mundo propriamente dito exige eficiência máxima, seleciona os mais bem-dotados e cobra caro pelo seu tempo. 

Mãe é de graça.

Martha Medeiros

tava andando de noite na rua sozinha. quando vi uma sombra, corri mt, mas depois percebi que a sombra era minha. aí voltei a só andar mesmo, mas o medo não passou.

Àqueles que esperam o amor

Para aqueles que esperam o amor: ele vem dentro das esperas desesperadas de quem beija o próximo na esperança de encontrar, encontrar-se. E, caminhando rumo à solidão etérea, morre lento até equilibrar-se sobre o sentimento. O amor, para quem o espera calmo quase-agonizando quase-parando no meio do caminho quase-fugindo de si por não caber-se: ele vem saído de uma fossa com flores numa noite de terça-feira na rua augusta no centro de São Paulo. Vem ele caminhando por entre os moribundos deitados no chão que, revestidos de insensibilidade, não sentem o frio e os gritos dos adolescentes que enfiam suas línguas nos mais diversos lugares; vem ele caminhando por entre batidas de músicas eletrônicas e becos sem saídas aonde há palavras anticristãs e gestos de quem perde o tempo mas não perde o corpo. Este, apodrecido e breve, e que não espera tão somente o amor.

Para aqueles que o esperam: ele vem rastejando-se por entre as mais sujas valas das ruas, silente e triste, ao perceber que quase todos já o dispensaram da festa, do banquete de deus, das orações e aclamações cheias de espíritos, que não os divinos. E ele vem, calando extremidades, solvendo risos mãos e bocas daqueles que, também silentes e defeituosos, aguardam. O grande impacto, o grande milagre sob os olhos coloridos da noite; o grande momento para ele, eu, você, sentirmos o amor: o toque raso, a superfície densa, e o clássico que não está nisso, nesse mundo todo empoeirado embriagado de drinques dedos dispersos, dores disponíveis. 

Para aqueles que esperam o amor: sofrerão mais ainda com sintomas de saudade, culpa, pressa, tristezas agudíssimas e falta de atenção. Demorarão para se recompor em meio ao caos das teorias que ouvem das pessoas que lambem umas às outras mas que morrem. Demorarão, sim, para encontrar alguém - um alguém limpo puro e alvo de todas as asperezas que o mundo traz e emana. Para aqueles que agarram os próprios joelhos e sentam-se, lacrimosos, o amor virá de um abraço respirado em meio à sujeira das putas que não sabem o que é doar-se. Virá, sim, o amor. Por entre os poros clandestinos da terra, dos buracos estreitos por onde ninguém se arrisca, e pelos olhos de quem entende as esperas esperançosas da vida.

O amor vem. E ele entra pelos olhos.

(Floresinexatas)