noites nas ruas

A Noite dissolve os homens
A Noite desceu. Que noite!
Já não enxergo meus irmãos.
E nem tão pouco os rumores que outrora me perturbavam.
A noite desceu. Nas casas, nas ruas onde se combate,
nos campos desfalecidos, a noite espalhou o medo e a total incompreensão.
A noite caiu. Tremenda, sem esperança…
Os suspiros acusam a presença negra que paralisa os guerreiros.
E o amor não abre caminho na noite.
A noite é mortal, completa, sem reticências,
a noite dissolve os homens, diz que é inútil sofrer,
a noite dissolve as pátrias, apagou os almirantes cintilantes!
nas suas fardas.
A noite anoiteceu tudo… O mundo não tem remédio…
Os suicidas tinham razão.
—  Carlos Drummond de Andrade.

Satine andou trôpega até o banheiro, apoiou-se na pia. As mãos tremiam. Fitou sua imagem no espelho, os lábios esbranquiçados, olhos vermelhos. Tentou recordar o que deixou-a naquele estado. Infortunadamente não fora o resultado da uma noite na rua, tampouco uma discussão acalorada sobre pequenices da vida. Segurou-se o mais firme que pôde na pia. Um tremor. Ultimamente ela vinha sentido esses arrepios melancólicos. Não havia cura, o máximo que podia fazer era abraçar-se e aguardar até que tivesse fim. Pensou no quão triste e desamparado era o ato de se abraçar, não ter a quem recorrer em caso algum, todos desapareciam. Além do que, Satine concluiu, não há ninguém que eu queira chamar. Solidão só não é mais triste que essa agenda repleta de nomes que não ligaria numa emergência. Olhou-se, os braços e pernas sem força. Se viu escrevendo no vidro com um batom antigo: “Você as vezes não adoece de ser você?”, e sentiu os olhos arderem porque ninguém jamais responderá.

São momentos passageiros, desses que fingimos não ter enquanto sorrimos na mesa do bar. Satine dá um gole n’alguma bebida que ofereceram e sente o líquido descer rasgando. As pessoas sorriem entre si, o conhecido de um amigo pergunta sobre o trabalho, dessas perguntas que ela detesta. Ninguém em sã consciência quer falar disso na mesa do bar. A resposta é educada. Não importa o decorrer da noite, é a conclusão que sempre chega quando amanhece. Satine não sentiu vontade de detalhar sobre como ele fora divertido até o final da noite, fazendo pilhérias sobre acontecimentos cotidianos. Ela não quis explicar porque o convidou para entrar quando meia dúzia de conhecidos a deixaram na porta de casa. Talvez nem todas as coisas tenham explicação lógica, fora o que ela pensou quando viu um post-it com um número de telefone na caneca de café. As pessoas passam e fazemos questão de não notar. Deixamos entrarem, vezenquando até abrem nossa agenda e anotam o nome, tateiam a despensa procurando café, encostam na bancada da cozinha fazendo graça sobre as notícias do jornal. Mas ninguém ultrapassa todas as barreiras. Sequer é possível, Satine faz questão de levantar muros novos a cada um que cai. Ela tem pensado sobre essas coisas com frequência. Sua mão circula com a colher pelo café, o dia nesses momentos parece tão vazio. 

G.

Ninguém ensina um homem a respeitar uma mulher, mas ensina a mulher a temer à noite, por não termos um pênis não somos livres pra passar à noite na rua sem temer que a qualquer momento pode sair da esquina aquele cara que vai abusar de ti sexualmente e fazer com que você se sinta suja pelo resto da vida e ele continue a dele normalmente, como se nada tivesse acontecido, como se ele não tivesse feito mal nenhum a ninguém, como se ele fosse um ser inocente e puro. Ele vai tá em altas festas rindo com os amigos, dançando, pegando outras garotas e voltando em segurança para casa, mas você vai tá deitada em uma cama tentando escapar dos pesadelos que ele deixou, tentando se livrar da dor e das marcas, daquele maldito nojo que agora você sente de si própria. É triste não é? Porém é a nossa realidade, é normal sentirmos medo da noite assim como é normal para eles surgirem do nada e te forçar a ser um brinquedo sexual por alguns minutos.
Calma garoto, não é assim que se faz. Um dia de cada vez; o coração não é instantâneo, sentimentos são feridas que demoram para sarar.
Não será hoje nem amanhã que tudo vai passar e esquecerá dos carinhos e das noites manhosas na rua. Eu sei, eu sei, o quanto clichés são porres, mas não deixam de ser verdade.
Se lave na cachoeira do tempo, meu amigo, deixa a vida carregar teu coração cansado e levar, devagarinho… Esse agridoce amor.
—  Hermes e Hefesto numa mesa de bar.

É porque eu continuo aqui
Ouvindo aquele nosso velho blues
E eu continuo lembrando dos teus olhos tão gigantes
E da sua boca tão gostosa
E fico dizendo que a gente voltou
É irônico, não?
Porque somos nós
E só nós
O nosso pra sempre é a gente
E eu jurei sermos infinitos
Naquela noite que passamos na sua rua, Saturno
Por incrível que pareça
Olhando o céu
Agora amigo,
Eu tô em outra
E mais uma coisa,
Polícias abaixem as armas
Que a gente voltou
Porque é um sonho bom
Que mudou o tom
Da minha vida

tava andando de noite na rua sozinha. quando vi uma sombra, corri mt, mas depois percebi que a sombra era minha. aí voltei a só andar mesmo, mas o medo não passou.