no meu quintal

eu não sou o suficiente

nunca fui. nunca serei. não tenho início, nem meio, nem fim. 

não começo com letra maiúscula. não me encaixo em um ponto final

mas eu sou poesia

sou imagem de uma vida vazia

enquanto atravesso o seu quintal


[adeus]

Dou respeito às coisas desimportantes e aos seres desimportantes. Prezo insetos mais que aviões. Prezo a velocidade das tartarugas mais que a dos mísseis. Tenho em mim esse atraso de nascença. Eu fui aparelhado para gostar de passarinhos. Tenho abundância de ser feliz por isso. Meu quintal é maior do que o mundo.
—  Manoel de Barros. 

Estávamos todos lá fora na área, conversando, dando risadas de vários assuntos idiotas, seus amigos estavam curtindo um funk como se o mundo fosse literalmente acabar. Dançando da maneira mais vergonhosa possível, o que me fazia rir muito. E de repente percebi que você sumiu. Comecei a te procurar entre as pessoas e nada, percorri meus olhos sobre o quintal, sobre onde seu carro estava estacionado, até perceber que você havia sumido porque tinha entrado dentro de casa. Resolvi ir atras de você, quando entrei, fiquei estática na porta e te fitei deitado no sofá olhando exatamente para onde eu estava. Foi só você me ver ali parada pra abrir um de seus sorrisos que me tiram o fôlego. Até parecia que você tava me esperando chegar. Eu sentia meu subconsciente conectado ao seu como se fossemos sinal de wi-fi. Você acenou com a cabeça pra eu me aproximar, e apontou para o sofá onde eu poderia me sentar. Quando sentei, você ficou me olhando de uma maneira tão serena, tão calmo, e começou a brincar com meus dedos. Comecei a passar minha mão no seu cabelo, mesmo sabendo que você não gostava, porque iria bagunçar tudo. Conforme você me observava, eu podia ver seus olhos tentando falar comigo, eu sentia seu corpo se enrijecendo conforme eu te tocava, seus músculos ficando completamente tensos, e seus olhos me perturbando quando encontravam com os meus. E novamente eu não sabia o que fazer com nós dois, até que você rompeu o silêncio entre nós e me pediu pra dormir com você, naquele sofá que mal te cabia, porque você sabia que o pessoal iria amanhecer na sua área, então não tinha problemas eu ficar. Só eu sei o quanto eu desejei que aquela noite chegasse ao fim, o quanto eu quis que o pessoal fosse embora para podermos ficar mais tempo juntos ali naquele sofá. Até que finalmente por alguma razão inexplicável todos foram embora e você teve que trancar a casa. Senti seu corpo ficar mais aliviado com isso, mesmo você não conseguindo encontrar as chaves. Me lembro de estar segurando suas mãos enquanto você procurava por elas, até que eu comecei a te puxar para a lateral da casa. Lembro do quanto eu respirava ofegante de ansiedade, porque eu só queria te tirar dali e irmos para um lugar mais calmo. Eu sentia o vento gelado da noite fria passando por entre nós. As minhas mãos estavam trêmulas e soando, meu corpo estava todo em alerta. Meu coração disparado e bilhões de sentimentos passando na minha cabeça. Lembro de você me perguntando o que eu estava fazendo e eu dizia “sshh” pedindo pra você fazer silêncio, antes que meu coração mudasse de ideia. Até que ficamos parados um de frente para o outro, na parede da lateral. Meu coração pedindo pelo seu toque, então eu coloquei uma das minhas mãos na sua nuca e a outra na sua cintura e lentamente me aproximei de você, sobrepus meu lábio superior no seu, e senti você correspondendo com seu lábio inferior selando nosso primeiro beijo. Eu pude sentir seu corpo queimando, seu coração acelerando, até que coloquei minhas mãos sobre seu peito e pedia baixinho no seu ouvido repetidas vezes pra você se acalmar. Era como se você estivesse finalmente saindo da abstinência e provando de uma droga diferente, só que muito melhor, a qual você desejava tanto. Senti meu corpo incendiar quando você me correspondeu com tamanha intensidade, encostei você contra a parede, e você me beijava de volta com tanta vontade, foi um momento de violência pacífica entre nossas bocas. Até que nos afastamos e eu só me vi voltando pra sua direção, passando minha língua sobre os seus lábios e colocando minhas mãos sobre a sua cintura, até nos beijarmos de novo, e de novo, e de novo… Você disse que nunca havia desejado tanto me beijar, mas eu acho que foi o contrário.

s0lum

- conto dois.
Eu estou esperando você entrar na minha vida. Você mesmo, a desconhecida que vai salvar a minha vida da inércia. Estou esperando você cair de paraquedas no meu quintal, exatamente como em uma cena de algum filme americano estrelado por um ator com consoantes demais no sobrenome, tudo isso só para me convidar para tomar café e assistir a um filme antigo, deitados juntos em um sofá velho. Estou esperando poder te chamar para sair, e beber contigo toda a nostalgia das nossas infâncias aparentemente felizes das quais vivemos em lugares diferentes, quero conhecer toda a parte da tua vida que aconteceu longe da minha, a parte que eu perdi enquanto te esperava.
Eu ainda espero teu beijo em um sábado à noite, enquanto assistimos a um seriado qualquer do qual eu nunca vou me esquecer. Eu estou esperando para conhecer a tua família, fazer tua mãe rir e comentar futebol com o teu pai durante um almoço sob o sol de um domingo qualquer. Espero para ver quanto tempo vai demorar para eu me apaixonar pelo teu sorriso sem jeito, ou pela forma que tu arruma o cabelo, e quantas vezes tu vai me fazer rir até minha garganta começar a doer…
Eu espero te conhecer em breve, antes que eu desista e acabe ficando com alguém que não me faça querer esperar. Eu estou te esperando, e espero que você me espere.

do meu quintal dá pra ouvir o barulho do carnaval no centro da cidade, m., e eu sei que você gosta de carnaval. e sei que, onde quer que esteja, está pulando carnaval com os seus amigos e bebendo o que encontra pela frente. e eu sei também que por mais que você encontre no meio da folia meninas muito mais atraentes do que eu, você vai lembrar de mim todas as vezes que olhar pro céu. porque eu sou o lugar pra onde você sempre volta, babe, e eu te espero voltar.

No quintal dos meus desejos
Tem um pé de devaneios
Repleto de sonhos de céu
De passeios de carrossel

Lá eu planto umas quadrinhas
Versos enfeitados de rimas
Para nascer alguma poesia
E enfeitar também o teu dia

No quintal dos meus desejos
Tem um arbusto de beijos
Que brotam quando você vem
E me traz o gosto do seu bem

Lá eu planto este querer
Este desejo de te viver
Como um quintal de sonho
Onde por ti me apaixono


Edison Botelho

4

Meu quintal tem árvores demais, quase não dá pra ver o céu. De manhã tem muitos pássaros, a maioria fica comendo jambolão ou goiaba, a outra parte fica pulando de galho em galho pra fazer minhas cachorras latirem. De noite vem uma família de gambás comer frutinhas. Quando nós colocamos banana/maçã/mamão/semente pros pássaros chega a ter mais de trinta pelo quintal. Tem um casal de tucanos que vem aqui todo dia no fim da tarde. Uma vez um lagarto entrou aqui, ele tinha uns sessenta centímetros, era bonitinho - esse lagarto já entrou ou caiu na nossa piscina. Aqui tem um pé de banana que não dá banana.

Roseira

Minha bela roseira,
De sorriso colorido,
De várias rosas formosas.
Espinhos aparecem na roseira,
Mas de que maneira vou cuidar da minha roseira?
Olha só, que coisa diferente,
A minha roseira é gente,
Como posso colher uma rosa de uma roseira que gente é?
Não posso, mas ofereço para ela o meu coração como quintal
E quando os espinhos aparecerem,
Serei eu quem protegerei a minha doce linda roseira.

Chéri,

há coisas que você tem que cortar pela raiz, como aquela árvore que já não dava mais fruto e sujava com folhas secas o quintal inteiro dos meus avós. vovó insistia em só aparar os galhos, mas esses sempre cresciam novamente e rápido demais, dando sempre o mesmo trabalho, até que vovô resolveu cortá-la pela raiz e acabar de vez com o problema. houve centenas de discussões entre eles após a morte da árvore, até que minha vó viu o quanto de trabalho ela tinha parado de ter sem a tal da árvore. você é como essa árvore e o meu peito é o quintal, entende? e eu não posso mais deixar tu sujar tudo em mim.


“não dá pra abandonar
a posse do sentir,
mas hoje estou aqui
disposto a te apagar”


hoje te corto e dessa vez pela raiz. porque percebi o óbvio: meu coração não bate por você, bate por mim.

GAVETA DA SUA AVÓ

Quem diria, pois
Um dia, as vozes na minha cabeça
Que um dia fariam sentido e eu as escutaria e faria.
Quem um dia diria que as cicatrizes
Aquelas dos pulsos
Um dia faria a diferença
Para os expulsos do meu quintal
E por cima quem um dia diria que
Minha melancolia iria
Fazem falta para os frouxos
Os da rua 2
Aqueles das casas brancas
E pra ver que ainda ha
Felicidade nas luzes apagadas dos vagalumes
Das praças compradas
Das ruas alugadas e da vida vendida
Pois quem diria que um dia eu iria estar de volta e tu também, aqui.
Quem diria
Que o amor ficaria guardado na gaveta daquela escrivaninha de sua avó
E que ele se libertaria pra nos afetar novamente
E uma vez que eu quisesse te esquecer
Eu pudesse conseguir
Te amar de volta mais tarde
Depois há um tempo
Sem você

_ Mateus Gonçalves

Eu sabia que você escrevia pra mim, B. Eu sempre soube. Acredite, parece meio impossível, mas eu já li tudo que saiu das suas mãos meio trêmulas e calejadas numa das tantas noites que você perdeu na cafeteria do seu bairro. Eu li cada linha, cada palavra, cada virgula, cada acento, cada parágrafo. Eu não dizia nada porque eu nunca soube me expressar tão bem quanto você, sabe, essa coisa de conseguir externar o que pensa ou sente. Eu sempre guardei tudo pra mim, observando e decifrando cada passo que você dava. E o máximo que eu conseguia fazer era agir daquela maneira imbecil que fazia com que você escrevesse vários textos raivosos depois. Eu lia todos eles quando acordava de ressaca na manhã seguinte e sem saber qual a burrada que eu tinha feito na noite anterior. Aí eu chorava. Você não sabia, mas eu colocava a nossa música pra tocar e me arrependia de ser a pessoa que você escolheu. Eu nunca devia ter sido sequer a sua opção, B. Porque nenhum cara merece fazer com que você ande assim, cabisbaixa e desacreditada no amor, escrevendo palavras soltas em pilhas e mais pilhas de papeis amassados. O problema é que eu também não consigo me controlar e acabo te ligando. E dizendo que foi mal, vamos sair de novo, tô com saudade do cheiro de framboesa do seu batom. E você aceita. E escreve um texto feliz. Daí eu leio e encho o meu peito de orgulho, como se tivesse feito o dever de casa completo. Aí você chora, logo em seguida. E escreve um texto triste. Porque eu não sei onde alojar todo esse amor que você jorra na minha cabeça e ele acaba escapando pra todos os outros lados sem ser o nosso. Você chora porque me ama e eu não sei dizer o que é o amor, só sentir. Eu te juro que eu só queria que as nossas extremidades se bastassem, se coubessem, se encaixassem. Mas enquanto eu extravaso todas as minhas dores e angustias e medos e alegrias na bateria do fundo do meu quintal, você cospe todas as suas dores e angustias e medos e alegrias numa folha de papel. Não dá certo. Nunca deu. E essa é uma coisa que nós dois, enfim, sabemos. É difícil amar alguém como eu, mas também é difícil entender alguém como você. Então me diz, pelo amor do nosso quase amor, o que você quer que eu faça. Porque eu não aguento mais te ver e te ler e tentar te achar nas entrelinhas. Eu só queria saber falar a sua língua pra que as nossas línguas não estivessem tão longe uma da outra. Por isso escrevi esse texto, B. Vai ver você só acredita no meu amor se ele também estiver traduzido em palavras como o seu.


J.

—  Capitule.
1702

O sol nasce para todos
Mas se põe para alguns
Nos becos, vielas, valas
São todos iguais, comuns

Existe poesia
Da água salubre
Que supera mente branca
De quem ainda acha que cure

A flor no meu quintal
Sai da fresta do cimento
O choro desigual
Anuncia meu lamento

O mal, a chaga
Apatia social
Meu menino, sobe lage
Transformado em animal

Veja as pipas, veja as minas
Veja o fim correndo trágico
Veja o olho do menino
Olho, olheiro do tráfico

Igualdade de tevê
Propaganda de jornal
Atrocidade pra se ver
Romance policial

Caminhada elitista
“Só tentar pra conseguir”
Deu dois passos, sete palmos
Nem chegou a existir.

R. Nery

De tarde um homem tem esperanças.
Está sozinho, possui um banco.
De tarde um homem sorri.
Se eu me sentasse a seu lado
Saberia de seus mistérios
Ouviria até sua respiração leve.
Se eu me sentasse a seu lado
Descobriria o sinistro
Ou doce alento de vida
Que move suas pernas e braços.

Mas, ah! eu não vou perturbar a paz que ele depôs na
praça, quieto.

Manoel de Barros, no livro “Meu quintal é maior do que o mundo”

As margaridas do quintal do meu avô

Você nunca entendeu o porquê eu tacava a bola com força em você, então. Não era pra te castigar, mas para te mostrar que você é tão frágil quanto uma margarida. E que dependendo da força que você tacava a bola, deixava marcas, eternas. Mesmo que a eternidade da margarida durasse um dia. 

eu não tenho interesse
em objetos materiais e dinheiro
ou apego em pessoas de outros carnavais
pelo cabelo me apresento como medusa
rastafári, musa da beleza selvagem
meu quintal é o combustível
pro mundo
minha mente, minha cria
minha casa
não fico à mercê
dessa falsa glória estagnada
que chamam de estabilidade
a realidade não me surpreende

o ter é uma ilusão
quem possui é possuído
vou largando tudo pela estrada
não tenho armazém
não tenho conta bancária
só carrego comigo meu corpo 
e momentos guardados no bolso
do jeans surrado ou na meia furada
quando não estou descalça
e é o que mais pesa porque
me aprisiono nessa zona de conforto
e momentos não se fazem presentes 
no mundo objetivo
como entes e pertences 
que estão aqui pra ocupar o vazio existencial
e preencher aquele lado
mal amado e reprimido
de querer se sentir protegido
eu quebrei a casca do ovo
só resta o oco

quem não se prende a nada sofre mais por não ter nunca onde se apoiar.

—  brisa, 30-10