no fim do caderno

Escrever nossos nomes juntos no fim do caderno parecia meio bobo e infantil, mas era o único jeito de me iludir que aquele seria nosso futuro. Juntos.
—  Pieces of Madelyn.
Segunda feira

Acorde atrasada para a faculdade
E saia a tempo
Mesmo sem tomar café
Chegue antes do professor pela primeira vez
E fique olhando concursos que nunca passará
Imaginando uma vida que nunca terá
Pense nela dormindo
Não fume
Dê a volta nos campus da sua faculdade
Veja o entrar e sair de gente do ônibus
Da sua vida
Não fume
Durma numa livraria
Vá com dinheiro contado há um restaurante japonês
Pense nas mil maneiras de fugir com a comida se faltar
Sorria ao sobrar um real
E agora aprenda a gostar de comida japonesa
Se convença do que falam sobre ela
Chore na praça de alimentação
Vá ao terraço
Não fume
Se odeie por ter deixado cair umas lágrimas no prato
Internalize que o gosto ruim era por isso
Escreva um poema
Onde possa esconder suas dores
Na linha de baixo
Ninguém vai perceber
Não fume
Vá ao trabalho
Ajude uma senhora a atravessar a rua
Sorria
Pare de pensar nela
Pelo amor de deus, não fume
Pegue um ônibus lotado
Tome um banho
Chore
Chore
Chore
Se odeie por chorar por motivos tão pequenos
Chore por isso
Deite
E durma
Mas, antes disso,
Peça a algum deus para fazer o dia seguinte
Ser um pouco melhor
(Não que vá ser
Mas pelo menos você riscou
Mais um palitinho
No fim do caderno:
Sobreviver é necessário)

sobre escrever (ou crer nisso)

não é jogar um monte de palavras e citações e firulas num pedaço de papel do fim do seu caderno.

é fazer sentir,

doer,

rasgar a pele,

descer a goela a força,

dar um tapa na cara.

é despir-se.

é entregar-se.

O Boteco