no ar rarefeito

mais do que os 0° de ontem

teus lábios permeiam a minha fria
                                                 e densa, (in)existência
e me lembro do cruzar das linhas inescusáveis
e de como o amargo de suas rachaduras impregnava meus poros
com o gosto quente da tua saliva
 
e o teu hálito cor de lírios
que me embriagava em meio ao sangue
e despertava meus vícios
de prazeres errantes e fincados
 
o roçar de nossas almas, e a coexistência de nossas línguas
que condiz com o brilho dos teus olhos
 
e nessa dança de pH’s básicos,
tu me és como nunca me fui
e te busco como quem busca o ar
já rarefeito
em nossas trocas carnais

urbanus vulgaris

Depois de ter o coração quebrado, a gente fica tão sem graça, tão vazio e tão só. E acaba sendo engraçado e triste ao mesmo tempo, porque o que antes era balões vermelhos, flor e cheiro de primavera. Agora é só o ar seco, rarefeito, sem sentido e sem cor. E eu só consigo pensar no quanto, depois disso, eu fiquei medrosa, fraca e parecendo uma criança que se perdeu da mãe no super mercado.
—  Flores e Poesia

Senti-me, naquele momento, como um copo de água gelada. Todos pensavam que as gotas na superfície do vidro eram um pouco do que havia dentro de mim, mas não passavam de pequenas impressões roubadas do ar rarefeito dali.

Elisa, deixa eu te dizer uma coisa. Eu conheci o oxigênio das palavras quando eu tive uma asma misturada com ânsia de vômito e sonolência programada pela minha TV. Quando a noite vai chegando o ar vai ficando rarefeito, o cérebro se enche de gás carbônico e a pele começa a descamar, vem junto um sangramento nasal e uma tonelada de pensamentos elefantônicos que sai do travesseiro para a cabeça, da cabeça para a fronha e de lá para algum mundo minúsculo dentro da poeirinha que faz o cochilo aparecer e a faxineira ter trabalho para limpar no dia seguinte. Aí a gente acorda gritando, correndo por dentro, travadas as pernas, movimentando as mãos, coçando os olhos, querendo que o mundo se cale e o ar volte a entrar nos pulmões como se na chuva ao invés de água caíssem partículas de O2 respirável. A gente vai descobrindo que é escritor nessas crises. Quando eu era criança e tinha isso lembro o que fazia para passar. Minha memória é até boa para essas coisas. Ela só trava para fórmulas de matemática e continhas de física quântica. Eu desenhava historinhas de gibi, fazia desenhos quadráticos tomados por enfadonho para crianças da minha idade. Tinha oito anos e soube que não seria um Picasso, mas sim uma obra em construção, um poeta se criando nos olhinhos amendoados de um moreno com sardas infantis nas bochechas gorduchas. Consegui respirar aos catorze quando fiz meu tratamento experimental para renite alérgica. Escrevi também. Não sei o que curou minha falta de ar e minha intolerância ao oxigênio comum. De tempos em tempos eu uso um respirador para dormir. Não porque tenho problemas com o ar, com a entrada e saída desses gases, mas sim porque a palavra me faz dormir melhor.

Theu, eu me lembro como se fosse ontem, foi numa madrugada de sexta feira a primeira vez que eu te vi. Mirei firme, segui teus rastros rabiscados em tantas linhas infinitas. A leveza do eufemismo, a textura aquarelada da atmosfera que encobria as tuas mãos. Era tão bonito te ver ali, sob o céu todo colorido, em meio à uma tempestade de balões. Entre tantos versos e desencontros, o pulmão sufocado querendo gritar, respirar, a falta do oxigênio, tantas idas sem vindas, viagens loucas e desilusões. Acredite, eu te entendo inteiramente, as miudices e as grandices, as palavras tem mesmo esse dom. Me reconheci no ato do teu conto, dos teus olhos, dos detalhes. E no peito a solidão bate forte, se precipita, frágil e doce, tão comum à nossa pele. A falta de ar, o corpo exarcado sobre a cama, o pesadelo ao acordar. E mesmo depois de tudo, bem ali na minha frente, você fica, está mais velho, com certeza, as bochechas mais sisudas e sérias, nos cadernos mais sexo, quadrinhos exotéricos, talvez mais alegres por excelência, um humor requintado cheio de issos e aquilos. Os meus olhos encantados, a neblina que paira sobre o quarto, o noticiário de pano de fundo vindo da tv embaralhado, um cenário inesquecível de paredes desenhadas, cortinas tão inertes, tão imóveis entre os móveis, nossas pendências sentimentais. E o estômago, apesar de fraco, ficou mais ácido e intacto. Nos dias de hoje, quando te leio, eu me calo sem desespero, as estradas ficam largas, o pulmão se enche de ar com suas palavras. Então saiba, que mesmo ainda precisando de tempos em tempos de um respirador, mesmo em dias que a inspiração pede licença e se extravia, eu fico da sacada do meu quarto a te esperar, e a chuva fina me traz teus versos, respiro fundo, me refresco.
—  Theu Souza e Elisa Bartlett
Sinto-me esgotada por completo. Não suporto mais o peso do meu próprio corpo, somado com o de minha mente. Estou definhando. Sinto-me sangrar internamente e sinto, também, dor. Estou fraca, mais do que um dia fui. Sei que posso cair a qualquer instante. As paredes parecem se fechar a minha volta, tornando o ar rarefeito em meus pulmões. Meu coração está sendo dilacerado, pouco a pouco, como se alguém o segurasse em punho e o esmagasse lenta e sofregamente. Meu tempo se esgota, posso sentir. Minhas esperanças se esvaem e, junto com elas, se vai meu desejo de sobreviver. O mundo é cruel. As pessoas estão preocupadas demais consigo mesmas para perceber o que se passa com as outras à sua volta. Porém, estou acostumada. Antes costumava doer mais ao ver o descaso com que era tratada, até perceber que não era pessoal. Fazem o mesmo com qualquer um que seja, sem se importar com as consequências. E aqui estou eu, a consequência de um ato simples e costumeiro, mas que com o tempo, foi somado à diversos outros problemas e diversas outras situações. Sou a consequência de uma fraqueza eminente. Sou a tristeza, o soluço de dor, o choro, o desalento, a desesperança. Sou a consequência da vida. E ao mesmo tempo, não sou nada. Não sou ninguém.
—  Laís M.

A calma do verso é efêmera
Ele logo se precipita
Perde a linha
(Geme e grita)
A pressão das palavras o deixa insano
O ar rarefeito dos males o deixa sem fôlego
Os obstáculos à verdade o fazem deslizar
As escolhas se limitam
Ele se comprime:
O verso se cala
O silêncio seguinte é um espaço fatal
Nesse instante, o poeta chora.

As hélices dos ventiladores nos quartos escuros ultimamente estão bem mais bonitas que o sol

Faz calor
Você, sentado na frente do ventilador, sua;
Suas mãos suam;
Você inteiro sua e não sabe
se é castigo ou falta de sorte,
ter que morar nesse inferno na terra

Faz calor
e você sente seu corpo fervendo por dentro
seu abdômen doendo e
suas pernas tendo
espasmos

Faz calor
enquanto você toma chá quente
pra se convencer de que
não precisa de comprimidos sintéticos

Faz calor
e você sua frio
enquanto vomita
no vaso sanitário decorado da sua avó

Faz calor
e você não consegue respirar
(o ar é rarefeito em grandes alturas)
sua mão treme
e você sua

Faz calor
e seu coração bate forte
talvez se você se mexer
seja capaz
de derrubar o prédio abaixo

Faz calor
e você quer estar sozinho, mas não tanto
quer estar com um monte de gente, mas
consigo mesmo

Faz calor
e não saber o que quer
te faz querer demais muitas coisas

Faz calor.
Mas lá fora a temperatura é negativa,
as pessoas usam agasalhos,
e as crianças brincam na neve

Faz frio
você sabe que queria sentir frio,
mas nessas guerras de neve,
você sempre foi café-com-leite
e descobriu o quão mais fácil é olhar de longe sem se envolver
(mas nem sempre o que é mais fácil é o que te faz bem)
E faz calor.