na natureza in nature

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Into The Wild (2007) - Sean Penn

5 bullets on this film:

  • No, sweetheart, this film is not for “dirty hippies”. I hate it when people are like ‘oh it’s a movie for people who don’t want to pay their taxes’. Like, no. A big no. It’s based on a true story and it’s really beautiful, ok? And I think people who pay their taxes would like it. 
  • I cried watching it. oh, what a surprise. me, crying! But really, it’s a very moving movie and it causes different feelings. Like, ‘I want to run away from society! But I want to sleep in my bed and have a toaster! but I want to explore nature and  find myself! But I want to shower everyday and open the fridge whenever I like!’ 
  • Sean Penn did a great work and I’m impressed. I know the story is based on a book, but I think it couldn’t have been better directed. The protagonist’s journey doesn’t get boring at any point of the story and you end up relating to the characters that are presented during the film. 
  •  The scenes showing nature are really beautiful. You will want to hug a tree or run away to Alaska or something after watching it. 
  • The soundtrack <3 Eddie Vedder is in my heart
diário de fluxo mental noturno p.2

tem um poeta amigo meu que calhou de me contar uma história no dia que a gente sentou pra beber uma naquele bar novo lá no centro, aquele que todo mundo vai. ele me disse que queria que eu conhecesse um professor de filosofia que anda fazendo umas palestras na cidade, me disse que o cara tem um papo legal, que somos ambos meio esquerdalhas, e apesar do Lenin avisar sobre a doença infantil, nem sempre é fácil ser o maior comunistão, as vezes a gente só quer beber uma e calar a boca. ele foi lá chamar o cara pra sentar na mesa e voltou de cabeça baixa - encheu o copo e reclamou da vida. “cadê o cara?”, perguntei.

“o cara não quer trocar ideia com você”, tomou um gole.

puta que pariu. que que eu fiz nessa porra. todo mundo nessa cidade {itálico}ainda{/itálico} me odeia?

“não cara, não é isso, é que você tem uma fama sabe. fama de que curte uma treta.” eu tomei um gole e refleti. se pá era verdade, se pá não era, eu queria trocar ideia com aquele mano mas do jeito que as coisas tavam era capaz d'eu virar o próprio Lenin e começar com aqueles meus papos políticos esquisitos que morrem na cama quando eu deito. tenho medo de briga, no fim das contas, sou meio cagão -

eu não ia escrever sobre isso, não no meu diário, até porque já faz um tempo. tem uns meses, foi nas férias, eu era um cara diferente - o tempo passou muito rápido e um buraco negro abriu no meu peito. cê viu interestellar? perto do buraco negro a gente vive anos em horas, e todo mundo parece que caiu de velho do meu lado. resolvi entiozar* pra dar aquela acompanhada.

acontece que outro poeta amigo meu me mostrou um vídeo do Parolini numa autocrítica irreal da poesia. aquelas coisas que a gente que escreve sussurra nos saraus e depois dos goles de vinho. que a gente nunca assume. aquele tipo de argumento que a gente tenta esquecer depois do almoço - a ideia de que fazemos uma arte morta. quando chega o interesse amoroso de qualquer parte e a pose de poeta salta “veja só, sou um prolixo de merda cultivando uns caras mortos que ninguém mais lê”, mas na verdade a gente tá desesperado por atenção, ou quando entra na saraiva querendo um livro do Afonso Romano e só acha na sessão da L&PM. na única estante com poesia tem três livros: o toda poesia do Leminski, o poeta morto da vez e agora a coletânea da Ana Cristina Cesar. ah, e tem o “eu me chamo antônio”, puta que pariu como a gente decaiu.

meu professor de população afirmou categoricamente que os poetas inventaram nações no passado. é, tipo Dante com a Itália e a popularização do Toscano. tipo Goethe na Alemanha. porra. naquela época era um vale tudo contra o absolutismo, o estado moderno parecia uma boa ideia, deu tudo errado e tudo no fim é culpa nossa. uns treteiros da porra.

éramos nós que cantávamos baladas e criávamos musas. éramos nós os caras que sentavam no canto. até Platão escrevia poemas. a gente tinha fama de pensador quando pensador era o contrário de vagabundo. sinceramente não tem coisa lá muito mais subversiva hoje do que ser chamado de vagabundo, mas nem isso eu consigo ser. sou um nerd da porra, faço pesquisa pra fapesp e participo de grupinho de estudo. minha média é 8.1, podia ser melhor, mas sinceramente, eu não consegui. isso porque teoricamente vivemos numa época de vazio existencial, devíamos ter uma função social, sei lá ou algo do tipo. eu meio que só tenho amigos poetas. nós não estamos muito bem na fita.

daí eu fiz um curso de poesia e xamanismo. devia chamar ‘poesia e bibliografia’, porque conheci livro pra caralho. anotei as coisas no meu grimório - gostei da parada de reciprocidade, mas me perdi na vibe de que para ser xamã tem que colar só na natureza. o poeta é um ser natural cagado pelo Espírito da Razão e levado pela Grande enxurrada da descarga, a gente aponta as merdas porque no fundo no fundo a gente fede. saca? eu queria ser um xamã de poetas. me conectar com esses seres com reciprocidade alcoólica. eu queria ser o Constantine. mas não, eu criei um movimento junto com outros poetas. um movimento que na sua proposta deve ..nascer morto.

eu sei, eu sei, tô indo longe demais, misturando as coisas. mas fiquei realmente bolado com aquela coisa do professor de filosofia. e ainda por cima terminei um namoro de três anos - o buraco negro aumentou. tô sugando tudo. o antidadaísmo faz parte disso, a coisa tá perdendo o controle, não sei como alguém botou fé. não sei mesmo. ou sei.

é porque eu prometi novidade. poetas amam novidade, apesar do saudosismo, é só aparecer uma coisinha nova e a gente se assanha. só que a poesia de hoje tá cambaleando e respirando por aparelhos, não porque não existem pessoas ótimas escrevendo, mas porquê a gente não consegue vender livro. tá faltando empreendedorismo nessa porra, não? não.

mas qual foi a história contada pelo primeiro amigo poeta? era sobre um mano que não gostava de falar português e vivia arranhando num portunhol safado que era o máximo que ele conseguia arrumar. isso, tipo chamando as gurias de chicas e puxando o L, tentando ser Antônio Banderas e conseguindo no máximo um capanga B do Wagner Moura naquela série sobre o Escobar. meu mano conheceu esse cara na padaria que ele mais curte - porque lá o wifi é aberto pros clientes.

eu tô tipo esse cara. tentando falar outra língua. na real tentando inventar uma, saca? coisa de vanguardíssima. como se eu valesse alguma merda. o futuro é brilhante demais pra que um trouxa controle tudo, então eu soltei a fita pro mundo e a razão máxima do antidadaísmo se resumiu naquele puta argumento sobre o hang loose. as pessoas riem de nervoso quando eu explico. o papo é sério mas não se leva a sério de propósito -

tem que estimular esse buraco negro antes que a gente se engula, sei lá, e vire tiozão de vez.

ouve aê My Jelly Roll da Sweet Emma Barret. vem comigo na vibe, vou sair pela noite agora. é, na minha cama mesmo. eu ronco.

* en tio za mento: processo de se tornar tiozão