minha identidade

Quem sou eu?

Às vezes eu fico pensando que merda é esse alguém que vive nesse corpo que dizem me pertencer. Ou pior. Que afirmam ser minha identidade, minhas digitais, quem eu sou e sempre serei.

Discordo.
Posso estar presente aqui agora, sou quem vos escreve e quem lê concomitante.
Sou um ser prestes a não ser mais o que está disposto a viver.

Sou mudança.
Inconstância.

Sou aquilo que dizem que sou, mas sou muito mais do que isso.

Sou eu escondida nos meus choros silenciosos.
Sou eu enquanto durmo e sonho coisas desconectadas.
Sou a que ninguém sabe que tem medo de escuro e mesmo assim treme.
Sou a com alma que quase não cabe num corpo tão frágil.
Sou a que ama quase tão instantaneamente quanto se vê.
Sou a intensidade na velocidade da luz.

Sou tão quanto falam.
Sou além do que se vê.

Não pertenço a um corpo só.

Preciso da memória externa que se funde ao meu ser.

Sou aquilo, aquele e isso e tudo o que quero ser.

Bagunças internas.

E muitas vezes me perco nos meus pensamentos, em milhares deles, mas é difícil organiza-los de forma que faça algum sentido.
No momento são apenas palavras misturadas, as vezes forma alguma frase ou outra, mas ainda sim não consigo entender.
Pode ser que esses pensamentos não me leve a conclusões satisfatórias, ou não me leve a lugar algum, mas eu me esforço para que de alguma maneira eu consiga compreender, afinal, fazem parte do que sou, fazem parte da minha identidade, mas na real eu ainda não sei muito bem quem sou, o que quero, e como chegarei no meu destino final, que aliás, eu também não sei qual é.
Entendo que vivemos em uma eterna transição, e que tudo é passageiro, uma hora as palavras vão se encaixar, conseguirei me definir e descobrir o que realmente construí pra mim.
E nessa jornada o que me consola é saber que todo o aprendizado jamais será tirado de mim, e toda a bagunça da minha alma, da minha mente e do meu coração terá sido necessário para moldar quem eu realmente sou. (Bianca Macedo)

Te amei logo que te vi passar
Não pude resistir, tive de negar
Mas meu sorriso não tardou a me entregar
E com alegria hei de falar
Amo tudo o que me fez passar
E adoro a emoção
Das histórias que um dia vamos contar
Sem pestanejar, voltaria as horas só para contigo estar
Ou desenhava um futuro, em que contigo fosse me casar
Nem tão fácil é amar, muito menos esperar
Mas por onde quer que um dia eu vá
Seja na memória, ou na minha identidade teu sobrenome habitar
Junto a mim vou lhe carregar

dear Jesus,

quero deixar quem eu sou do lado de fora fechar a porta, as janelas, e voltar para ti. me assentar no silêncio de um cômodo vazio e já não ser mais eu, só você. é que faço tanto barulho, complico as relações, embaraço cada passo, cada gesto, sentimento. eu não quero ser assim, dear, não com você. e quero externar tudo isto, me limpar de toda bagunça e barulho e  só ser você pra quem precisa de amor. me assentar frente à tua face, ler o seu rosto, seu sorriso. ouvir até o seu silêncio. ei, dear, quero deixar toda confusão de quem eu sou lá do lado de fora, quero ser aquela que você me chamou pra ser, quem sabes que posso ser.

sabe, um dia você mostrou que existe uma identidade em mim que veio do céu. não é que eu me torne em outro alguém em ti, dear  eu me torno nada menos que a sua criação. me torno quem sou de verdade. quem me criou pra ser. parecida contigo, inspirada por ti, esculpida por tuas hábeis e amorosas mãos. e eu amo quem sou de verdade em ti, dear. porque o seu amor me constrange, me leva ao início, me liberta do pecado e das garras da morte. me tira todo egoísmo, insensatez, ira, tristeza, revolta, mágoa. desnuda a minha alma, porque foi assim que me gerou. que me avistou quando eu sequer era uma menção de algo no ventre de minha mãe. então eu quero fechar a porta para aquela outra que não sou eu, a que se deixa levar pelos males deste século, que te entristece o coração. a egoísta e omissa que recusa-se a morrer para si mesma. aquela não sou eu, dear. eu sou quem você deseja que eu seja. eu sou quem você sonhou que eu fosse. é essa que sou, que quero ser. é a minha identidade em ti que desejo requerer. por favor, sopra sobre mim. somos eu e você aqui agora, sopra sua vida em mim. eu quero cheirar a seu doce perfume, eu quero a realidade do céu sobre mim, dear. no céu o imperfeito desaparece, o que antes era corruptível já não se corrompe mais, já não existem lágrimas de dor, dear, e posso te acarinhar a face na extensão dos meus dedos. traga o teu céu sobre a terra, manifesta o teu céu sobre mim; seja o meu céu, seja a minha realidade, dear. o pecado já não tem domínio sobre mim, disseste-me. seja o meu respirar, seja as minhas lágrimas de paixão, meu coração a se quebrantar, seja meu pai e meu corretor cada vez que eu te machucar. dear, por favor, eu não quero nunca mais te machucar.

e é sem olhar lá pra fora que agora eu tranco a porta. o pecado já não tem domínio sobre mim e a sua graça me alcançou, me envolveu, me abraçou. você me salvou. somos você e eu aqui, dear. eu rejeito para todo sempre aquele outro eu esculpido pelo mundo lá fora. somos eu e você aqui e agora, e seremos nós para sempre. até que não haja mais eu, até que sejamos um, até que haja só você. eu escolho você todo dia, dear. só você. só você.


De verso e alma, para Ele.

O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome.
O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos.
O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu meus testes mentais, meus exames de urina.
O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos.
Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto mas que parecia uma usina.
O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.
O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome.
O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas. O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automóvel.
O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminés. Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas coisas de que eu desesperava por não saber falar delas em verso.
O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de meu relógio, os anos que as linhas de minha mão asseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da terra, as futuras estantes em volta da sala.
O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte.
—  João Cabral de Melo Neto
crescer

Tenho pensado muito.

Sobre quem eu sou e quem eu fui. Sobre meu comportamento, minha identidade e minha forma de pensar. Sobre o que me afeta e o que passa desapercebido. Sobre um momento propício para crescer.

Crescer e abarcar uma nova mentalidade, novas responsabilidades, novas atitudes e novos projetos. Tomar decisões por conta própria e decidir o caminho a seguir, apontando para a direita ou para a esquerda.

O grande assusta, mas é deslumbrante. O futuro apavora, mas é promissor.

É por isso que se tornou preciso sair do casulo. Conduzir a alma, ainda criança, até a sua graduação. Sair debaixo das asas protetoras e desenvolver as minhas próprias — grandes o suficiente para me proteger também. Há forças para que isso aconteça?

O próximo passo me faz estremecer, mas me enche de esperança.

Estremeço porque às vezes parece incerto, errado e pesaroso. Porque tenho medo de me perder. Medo de transbordar em culpa. Mas me enche de esperança porque existem cores, possibilidades e oportunidades. Talvez exista a cura também.

A palavra “mudança” reverbera e se debate na garganta, mas não cansa de procurar uma forma de sair. O destino ainda é oscilante, mas as mãos que o conduzem estão dispostas a finalmente serem firmes.

Então, é isso. Não tô pedindo pra gente se ver, nem para combinarmos algo, não é nada disso. Só precisava te dizer, com todas as letrinhas completas: eu te amo. Precisava dizer porque já estava me sufocando, porque a minha própria identidade se perdeu depois de ti, porque a falta que tu faz tomou conta de mim. Eu te amo com todas as sílabas, com todo o significado que existe por trás dessas três palavras, com todo orgulho que antes me impediu de dizê-las, com toda dor que eu tentava evitar mas que, agora, vejo que foi inútil, esse sentimento que guardei só me sufocou, me amedrontou, me fez chorar em noites de insônia, me fez tremer a tua presença, mesmo que do outro lado da rua, da cidade, da vida. Eu te amo assim, confusa, perdida, amedrontada, mas tua, totalmente tua. Te amo, e é isso que me dá força, coragem, esse amor é o meu combustível pra continuar aqui, mesmo depois do teu silêncio.
—  Enamorava
O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu meus cartões de visita. O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minha dieta. O amor comeu todos os meu livros de poesia. O amor comeu meu Estado, minha cidade. O amor comeu minha paz, minha guerra, meu dia e minha noite, meu inverno, meu verão, comeu meu silencio, minha dor de cabeça, o meu medo da morte.
—  João Cabral de Melo Neto.
Não me parece que o fato de eu ser como sou possa ser uma causa direta de um conflito com alguém que é outro. Se eu reconheço o outro como o outro, tenho, por motivos éticos, de respeitá-lo, e então não haveria nenhum conflito. Porque quando aquilo que chamamos de identidade se transforma em agressividade, não é por culpa da diferença, mas sim da necessidade de poder. Se me torno agressivo em relação ao outro na afirmação da minha identidade, não é por sermos diferentes, mas sim porque quero exercer o meu poder sobre ele.
—  José Saramago.
Bom, Bom Pai.

Não existe outro como o Senhor e isso não é mais um clichê, é o que o meu coração tem gritado esses dias. Mesmo que eu tenha tentado abafar tudo isso, com toda força tenha tentado deixar de lado eu não consegui.

Porque não é sobre o que eu fiz, mas sobre quem Tu és. Não é sobre o que eu fui, mas quem eu tenho me tornado. Não é questão de fazer mas de ser, o meu caráter anseia refletir o Teu e tenho entendido que não tem nada que possa mudar isso.

O Senhor de todas as maneiras tem me mostrado a minha real identidade. Por vezes não consegui entender direito certos pontos, porém a cada dia eles tem ficado mais claros.

Obrigada por ser o meu Pai, porque em meio a esse caos é o Senhor que tem permanecido. É o Senhor que tem me guiado, me mostrado o caminho que não devo ir, é Tu que tens me cuidado.

És perfeito em tudo o que faz pros teus filhos e isso é magnifico. Obrigada!

A forma com que lido com meus pecados revela o quanto eu entendo o tamanho do amor de Deus por mim. Não preciso me afastar dele todas as vezes que escolho fazer o que não o agrada. Se minha culpa me faz duvidar da vontade do pai, que é permanecer constantemente do meu lado, descubro que também não ando acreditando plenamente na palavra dele, que fala “ O Senhor é compassivo e misericordioso, muito paciente e cheio de amor. Não acusa sem cessar, nem fica ressentido para sempre. Não nos trata conforme os nossos pecados, nem nos retribui conforme as nossas iniquidades. Pois assim como os céus se elevam acima da terra, assim é grande o seu amor para os que o temem, e como o oriente está longe do ocidente, assim ele afasta para longe de nós as nossas transgressões.” Salmos 103: 8-12. Não preciso ter medo de estragar tudo, nada pode me separar do seu amor. Ele sussurra em toda a sua palavra que com ele vamos conseguir e é para continuarmos correndo. Deus não se surpreende com os nossos pecados, e se fazemos o sincero exercício de colocar tudo diante dele, assim como Davi (salmos 51) ele criará em nós um coração puro. Somos uma casa cheia de defeitos, mas o construtor não tem a nossa mania de começar algo e não terminar. A vida cristã é cheia de altos e baixos, os momentos de fragilidade, de erros e falhas, expõem o quanto já conhecemos dos caráter de Deus, que não muda. Se minha fé não servir pra entender o quanto Deus me ama, certamente ela não servirá pra muita coisa, pois vai ser esse amor que me fará levantar e continuar andando. O amor que devolve minha identidade de filha todas vezes que ela se perde em meio as escolhas erradas.
Ser sábia é aprender a lidar com acertos e também com erros, afinal nunca vamos ser perfeitos, e não faz parte do plano de Deus que nossos pecados nos afastem dele, não por falta de perdão ou de arrependimento, mas por simplesmente culpa, falta de auto perdão.
Você já pecou hoje? Quero te dizer que hoje ele não vai te tratar segundo o seu pecado, independente de qual seja. É ele mesmo que apaga suas transgressões, por amor dele mesmo, não se lembra mais dos seus pecados. (Isaías 43:25)
Jesus é especialista em amar quem não merece, pois ele é cheio de favor imerecido, de graça. Ele é especialista em salvar, a cruz foi porque ele sabia que em muitos momentos iríamos falhar. Hoje, ele só quer que você tente ser melhor que ontem. Um dia por vez. Até ele terminar a boa obra.
—  Você que se sente ainda cheio de culpa, seja livre ao escutar esse louvor: Mais uma vez-Jeferson Pillar
E com o tempo, vou perdendo a minha identidade, esquecendo quem realmente sou ou quem realmente fui, distanciando das amizades pelo simples fato de não se encaixar mais, encarando a derrota de um simples obstáculo que te fez cair, desistindo de um sonho que você gastou tempo para construir. Hoje eu encaro a nova realidade, desisti de mim, aceitei os insultos e me perdi no tempo infinito de minha mente, mas só que a melhor parte é que hoje não sentirei mais nada além de um vácuo ao meu redor, hoje eu aceito a solidão como melhor amiga e o espelho como o meu melhor conselheiro.
—  Renan Tedéski.
Episódio 01:

Se você já visitou algum site com conteúdo pornográfico, deve conhecer aquelas propagandas no estilo “solteiras gostosas perto de você”. Naturalmente, sabe também o quão falsas são essas propagandas - as mulheres que aparecem nas fotos não estão perto de você, só são fotos tirados de sites de prostituição estrangeiros. provavelmente você sabe disso tão bem que não perde seu tempo clicando nessas publicidades.

Entretanto, se você clicar, uma janela de chat se abre e você pode escolher com qual garota quer conversar. No começo, o chat é de graça, mas depois de um tempo você tem que se cadastrar para continuar usando. Então tem que pagar por cada minuto em que estiver falando com uma das garotas que escolher.

Eu sei disso porque sou uma dessas garotas.

Seis anos atrás eu era um estudante sempre sem dinheiro. Meu amigo Josh disse que tinha descoberto um jeito super fácil de conseguir dinheiro. “Não é como se você fosse uma prostituta, ou algo do tipo. É completamente anônimo, eles não sabem com quem estão falando. Na verdade, metade de nós somos homens! Você só tem que fingir que é uma garota. Até que é bem divertido. E as empresas pagam bem, você pode trabalhar direto da sua casa e escolher quantas horas por semana quer trabalhar. Tudo que tem que fazer é conversar sacanagens com caras que nunca vai conhecer na vida real.”

No começo eu não estava gostando muito da ideia. Sentia que estava trapaceando. Mas então me perguntei se alguém realmente achava que “solteiras gostosas perto de você” era real. Claro que não. Era tudo uma fantasia. Como se estivesse escrevendo um conto erótico em tempo real. E ser pago pra isso. Então deixei Josh me inscrever.

O sistema era simples. A primeira conversa, a de graça, era automática. Depois que o usuário se inscrevia e começava a pagar, conversava com uma pessoa real (nós, no caso). Nosso trabalho era fazer com que eles ficassem online o maior tempo possível.

No começo era bem divertido. Eu me tornava bem criativo enquanto interpretando “Sally” (uma universitária tímida que estava desesperada por dinheiro), “Kaylee” (uma garota nerd com óculos, muito safada e flexível), e “Rhonda” (uma garota negra gordinha, apaixonada e maternal).

Era hilário e logo parei de sentir vergonha por estar fazendo aquilo. Claramente, meus clientes estavam gostando, e como eu ficava anônimo, não sofria risco nenhum de ferrar com minha carreira futura - com toda certeza não colocaria esse emprego nos meus currículos seguintes. O dinheiro era bem interessante, assim como Josh já tinha me avisado, e como eu podia escolher os horários em que trabalhava, achei ser uma escolha perfeita para alguém como eu, que estudava bastante também.

Mas obviamente existiam pontos ruins. Como você pode imaginar, alguns caras não pegavam leve. Eu não era virgem, mas tive que explorar coisas que eu nem sabia que existia. Haviam alguns que eram extremamente violentos, aqueles que queriam machucar sua parceira (ou ser machucado). Daí existiam caras que queriam que eu interpretasse uma menina de 13 anos. E outros que ainda gostavam de coisas bem mais doentias.

Não acho que seja legal eu reescrever essas coisas aqui, mas quero que você saiba que nem sempre foi um mar de rosas. Algumas conversas eram bastante desconfortáveis e algumas vezes eu não sabia se devia deslogar, dispensar o cliente ou continuar. Mas insistia em falar para mim mesmo que era apenas um tipo de jogo, um jeito inofensivo desses caras realizarem suas fantasias. Era só conversa, eles não estavam machucando ninguém de verdade. As vezes fazia esse tipo de “programa”, e o quanto mais eu fazia, mais fácil ficava. Me impressionei comigo mesmo quando me encontrei conversando casualmente sobre sexo com facas e sobre chutar as bolas de outro cara para gerar prazer.

Depois de um ano nesse emprego era muito raro ficar surpreso com alguma coisa. Haviam três tipos principais de clientes: a maioria queria conversar sobre putaria “normal”, os solitários que estavam mais precisando de um amigo ou terapeuta (conversavam sobre coisas do cotidiano) e os que eram muito pervertidos. Logo aprendi a lidar com todos eles.

Entretanto, um cara realmente estranho apareceu. Ele não parecia se encaixar em nenhuma das categorias acima. Ele não queria conversar sobre sexo, mas também não se encaixava nos caras solitários. É muito difícil descrevê-lo, então vou tentar reescrever um pouco do que lembro da nossa primeira conversa. Ele se chamava “O pescador”. Ele sempre queria conversar com “Rhonda”:

Eu: Oi querido. É a Rhonda aqui, como você está?
Ele: Fale comigo.
Eu: Okay… O que você tem em mente? Emoticon wink
Ele: Apenas converse comigo. Não aguento mais essa casa. Não aguento mais essas vozes. Apenas fale qualquer coisa.
Eu: Bem… Você está afim de que? Está bem quente aqui Emoticon wink Quer saber o que eu estou vestindo?
Ele: Não! Não. Só… Fique aqui. Por favor.
Eu: Okay, querido. O que aconteceu? Você está bem?
Ele: Não, eu não estou bem. São essas pessoas. Eles fazem tanto barulho! Não aguento mais.
Eu: Então… você tem colegas de quarto barulhentos?
Ele: Sim! Só quero silêncio. Só quero a porra do meu silêncio.
(Nesse ponto eu estava bastante confuso, mas continuei).
Eu: Talvez você devesse conversar com eles? Falar que você precisa de um pouco de privacidade.
Ele: Não consigo me livrar deles. Sempre tem alguém.

E continuou assim. Logo desenvolvi a ideia de que provavelmente ele não estava completamente são. Pessoas loucas de verdade eram raras nas conversas, mas não inexistentes. Eu não me qualifico como terapeuta, mas dava o meu melhor para fazê-los se sentirem bem.

O Pescador voltava sempre. Eu o reconhecia pelo jeito que escrevia. Usava o chat por horas (nessa época eu comecei a me sentir mal, essa pessoa estava claramente doente e eu estava usando-o em um site pornô para conseguir dinheiro), sempre falando sobre querer silêncio e as pessoas barulhentas em sua casa. Comecei a pensar que não existia ninguém na casa dele - provavelmente era coisa da cabeça dele.

O Pescador virou um cliente tão assíduo que raramente tinha tempo para outros. Ele agendava com Rhonda por horas a fio. Parecia também que não conversava com nenhum outro funcionário além de mim - mesmo quando eles estavam interpretando Rhonda. De algum jeito ele me reconhecia e deslogava quando percebia que era outro funcionário dizendo “Você não é a Rhonda!”. Josh começou a fazer piadas dizendo que O Pescador estava perdidamente apaixonado por mim, mas eu não via graça nenhuma naquela situação. Meu trabalho não era mais divertido, tinha me tornado um terapeuta pessoal para uma pessoa aleatória. Perguntei para meu patrão se poderia parar de interpretar Rhonda, mas O Pescador estava dando muito dinheiro para o site e insistiu que eu continuasse.

Então continuei. E para meu pavor, descobri que estava desenvolvimento algum tipo de sentimento por ele. Não algo romântico, nada desse tipo. Mas me pegava pensado quem ele era. Acho que não é possível passar hora e horas conversando com alguém sem criar algum tipo de conexão. Mas ao mesmo tempo conversar com ele me deixava tenso, e ficava feliz por ser apenas “Rhonda” para ele.

Essa foi uma das últimas conversas que tive com ele:

Ele: Não sei como me livrar deles. Não tenho saída. Só quero que vão logo embora.
Eu: Ouça, querido, acho que essas pessoas que você tanto fala… Não acho que sejam reais.
Ele: Eles não são reais?
Eu: Não. Acho que você os inventou. E se eles estão só na sua cabeça, você pode só parar de pensar neles, daí vão desaparecer!
Ele: Posso fazê-los desaparecer?
Eu: Sim, você pode.
Ele: E isso é o que você quer que eu faça, Rhonda? Que eu faça eles desaparecerem?
Eu: Se isso te fazer feliz, sim, querido.
Ele: Você está certa. Posso me livrar deles. Posso fazê-los desaparecer. Eu posso. Obrigada, Rhonda. Eu te amo, Rhonda.
Eu: “Amar” é uma palavra muito forte, querido.
Ele: Vou fazê-los desaparecer agora mesmo.

Ele deslogou. Foi o tempo mais curto que tinha ficado conversando comigo. A conversa me deixou estranhamente preocupado. Sabe, aquela sensação que você sente que fez algo muito errado, mas não consegue definir o que? Me sentia exatamente assim.

Mais tarde naquele mesmo dia ele entrou novamente. Foi a última conversa que tive com ele. E também a última de todas - me demiti logo em seguida.

Ele: Rhonda… O que eu fiz? O que você fez? Por que você me falou para fazer isso?
Eu: Que? Do que você está falando?
(Eu estava tão apavorado que nem entrei no personagem)
Ele: Eu matei todos eles… como você disse que eu tinha que fazer… agora estão todos mortos.
Eu: Não entendi.
Ele: Eles não paravam de falar, depois não paravam de gritar. Continuei e continuei até que eles pararam. E agora só tem silêncio… finalmente meu silêncio.
Eu: Isso está me deixando desconfortável. O que você fez?
Ele: Eu os matei que nem você falou que eu devia fazer. E agora tem sangue pra tudo quanto é lado. Matei minha mulher e meus filhos. Porquê você mandou. É sua culpa.
Eu: Para com isso.
Ele: É sua culpa. Você fez isso. E você vai pagar. Você vai pagar, porra! Rhonda! Vou te encontrar e você vai pagar por isso!
Eu: Vou sair agora.
Ele: Não tente escapar. É sua culpa. Você me fez fazer isso. Esse era seu plano desde o começo. Você que me colocou contra eles. Você fez isso. Você fez isso. Você. Vou te encontrar e fazer você pagar por isso.

Me desconectei. Liguei para Josh e para meu chefe imediatamente e disse que estava me demitindo. Contei honestamente o que tinha acontecido e também que dentro de nenhuma circunstancia eles poderiam dar minha identidade real para ninguém. Fiquei em pânico e Josh teve que vir até minha casa para me acalmar, me assegurando que O Pescador não poderia me encontrar nem se fosse um super hacker, pois meu nome não estavam em nenhum lugar do site.

Meu chefe também me assegurou que a companhia era bem rigorosa com o anonimato de seus empregados. Volta e meia os clientes contatavam a empresa tentando descobrir os nomes reais das pessoas que tinham conversado, mas eles nunca falavam. Faziam isso tanto pela privacidade do empregado e para não quebrar a “ilusão” que o site criava. Meu chefe me explicou diversas vezes que era totalmente seguro e que sentia muito por eu ter que ter passado por aquilo. Ele não queria que eu me demitisse e perguntou se eu queria ficar e apenas não fazer mais o papel de Rhonda, mas eu não quis.

Eu não conseguia parar de pensar no O Pescador e se ele tinha realmente matado alguém, ou se talvez aquilo fosse apenas uma piada de mal gosto. Talvez esse tipo de coisa o excitava? Josh falou que provavelmente era isso mesmo. Fiquei acompanhando os jornais naquela semana, mas nenhum homicídio que foi noticiado se encaixava naquela situação. Considerei ir até a policia, mas eu não sabia nada sobre aquela pessoa. Poderia ser qualquer pessoa em qualquer lugar do mundo. Talvez nem estivesse no mesmo país que eu? Ele poderia ser Chinês pelo o que eu sabia.

Uma coisa era certa: Se O Pescador tinha matado alguém, fez de um jeito que não chegou a ser noticiado aonde eu morava. Tentei até procurar no Google coisas como “assassinato de família” naquele dia, mas não achei nada. Josh continuou a trabalhar no site e volta e meia eu perguntava se O Pescador tinha voltado, mas estava desaparecido. Fiquei feliz que aquilo tinha acabado, e com o tempo deixei isso para lá.

Fiquei sem pensar no O Pescador por anos. Até que ontem aconteceu uma coisa que fez isso tudo voltar a minha mente.

Depois de um longo dia de trabalho decidi ir no cinema, sozinho. Só queria um tempo para mim mesmo, sendo que tinha terminado um relacionamento a algumas semanas e tudo estava bastante confuso desde então. Escolhi um filme que já estava a algum tempo em cartaz, assim a sala não estaria cheia. Tive sorte - estava quase vazio quando entrei. Escolhi o melhor lugar (última fileira bem no meio), e comecei a tirar minha jaqueta quando um cara veio até mim.

“Esse lugar está vago?” Falou. Pelo sotaque, pude perceber que ele era estrangeiro. Estava bastante escuro na sala, então não tive como avaliar seu rosto para ver de onde ele parecia ser ou quantos anos tinha.

Fiz que sim com a cabeça e ele se sentou. Fiquei um pouco irritado, o cinema estava quase todo vazio e nesse momento estava afim de ficar sozinho. Tinha que se sentar bem do meu lado? Havia um monte de lugares. Então ele falou de novo.

“Você gosta de filme de terror?”

Sendo que não estava com vontade de fazer amizades naquele momento (e parecia que ele estava dando em cima de mim), educadamente falei que gostaria de ficar sozinho. Ele não respondeu, só pegou um pedaço de papel do seu bolso e começou a escrever ( o que achei ser um número de telefone). Então colocou o pedaço de papel no bolso da minha camisa (o que achei bastante invasivo) e saiu andando. Foi bem estranho. Não mudou de lugar, simplesmente foi embora do cinema. Não assistiu o filme.

Fiquei bastante irritado com aquela situação, mas assim que o filme começou esqueci completamente. Só lembrei novamente do cara esquisito que havia me dado seu número quando cheguei em casa. Peguei o papel do meu bolso para jogar fora, mas antes percebi que não havia números e sim uma frase.

“Te achei, Rhonda. E vou te achar de novo.”

E se eu acordar e não te ver mais? a cama do lado direito ficaria vazio, com os lençóis bagunçados, o travesseiro com o cheiro do seu suor, e os sonhos ali deixado, jogados de baixo da cama. E se eu acordar e não poder ver seu cabelo bagunçado, seus olhos pequenos ao acordar, e receber seus beijos e abraços que me fazia sentir tão viva?
Eu perderia a minha identidade, a face, o nosso mundo, pois nada mais teria sentindo, nada mais teria cor, seria tudo no preto e no branco. E se eu acordar espero que em seus braços irei me encontrar, com seu sorriso lindo  a brilhar e a nossa felicidade poder deslumbrar.
—  Maiara Pietra Tomaz
Hoje cheguei a uma conclusão, nos limitar e disfarçar os nossos erros não fazem com que eles sumam, eu me escondi atrás de várias máscaras durante o caminho, que nem sei se agora uso uma, eu não sabia da minha identidade, agora em uma cama vazia e sem graça, me perdi em uma desgraça, agora eu estava vazio e sem uma carcaça, de cima via meu corpo pálido e mudo, eu não sabia que aquilo era possível, esperimentava essa sensação de ser uma alma vaga, vagando no espaço, depois de ter causado a peça de teatro perfeita e todos me odiavam, usavam o meu suicídio como desculpa para os seus ódios inúteis. Chega agora quero ser mais que mais alguém usando uma máscara, quero ser um bom fantasma, fazer amizades e viver aventuras inesperadas. E em um deslumbre, me iludi como sempre, pois de nada adiantava, tudo continuava como estava, as pessoas me vêem se assustam e se afastam.
—  Um escritor que só quer um leitor