minha biblioteca

Eu era um jovem, passando fome e bebendo e tentando ser um escritor. Fiz a maior parte das minhas leituras na Biblioteca Pública de Los Angeles, e nada do que eu li tinha a ver comigo ou com as ruas ou com as pessoas em minha volta. Parecia que todo mundo estava brincando de jogar com as palavras, que aqueles que não diziam quase nada eram considerados escritores excelentes. Seus escritos eram uma mistura de sutileza, artesanato e forma, e era lido e era ensinado e era ingerido e acabou. Era um esquema confortável, uma Cultura da Palavra, muito malandra e cheia de nove-horas. Era preciso voltar aos escritores da Rússia pré-revolucionária para achar alguma ginga, alguma paixão. Havia exceções, mas essas exceções eram tão poucas que a gente as lia logo, e lá estava você olhando para filas e filas de livros chatos pra caralho. Com séculos para olhar para trás, com todas as suas vantagens, os modernos não davam pra saída. Tirei livro após livro das estantes. Por que é que alguém não diz alguma coisa? Por que é que ninguém sai gritando? Tentei outros livros na biblioteca. A seção sobre religião era um pé no saco. Fui pra filosofia. Encontrei alguns alemães amargurados que me animaram um tempo, mas não passou disso. Tentei matemática, mas matemática superior era igualzinho religião: não saquei bulhufas. O que eu precisava parecia não existir em lugar algum.
—  Charles Bukowski.
Contrato Inviolável - Capítulo X

Nada como namorar as estrelas da escola, só que não


Acordei no dia seguinte ainda ouvindo as reclamações do meu pai no meu subconsciente.

Ok, eu era meio difícil com ele mesmo, mas poxa! Não precisava exagerar né…

 Me levantei desejando voltar para a cama, mas sabia que dois dias sem aula seria limite rígido para os meus pais. Aliás, o que tinha naqueles analgésicos que pareciam mais potentes do que tudo que já tomei?

Devia ser coisa da América, talvez, conclui finalmente arrumado e saindo do meu quarto. Jongin não tinha feito meu café ou seja, ainda estava bravo. Que ótimo…

— Bom dia, Yutie… – Pai Channy saiu do closet dele e veio para mim me dando seu beijinho de testa matinal. Tentava como sempre dar o nó da gravata de forma perfeita, mas falhando. Ele tinha várias gravatas de zíper, que não precisavam dar nós, mas ele sempre preferia as tradicionais que nunca atava certo – Não me olhe assim, eu tenho uma reunião super chata com acionistas pré históricos essa manhã e eles reconhecem uma gravata falsa quando veem uma.

Ele disse rolando os olhos e eu sorri indo para ele que abaixou automaticamente para mim dar o nó perfeito.

— Pronto pai, resolvido.

— Obrigado, Yutie!

— Pai Jongin ainda está bravo?

Perguntei baixo, pai Channy assentiu fraco:

— Sehunnie já falou com ele, vai ficar tudo bem hun? Agora que tal tomar café fora, hoje?

Ele sorriu conspirador e eu assenti. Opa que comer fora com meu pai significava muito açúcar e sem ninguém para nos vigiar. Isso significava também que era melhor eu ficar fora de casa pelo resto do ano!

Foi a minha vez de rolar os olhos. Porque meu pai era tão dramático?

Horas depois e super elétrico devido ao açúcar consumido antes da sete da manhã, mas feliz que eu pude escapar da sopa diet do Jongin, meu pai estacionava na frente da escola e suspirava ao ver aparentemente um grupo de garotas rirem em um grupinho próximo do portão de entrada…

— Você cresceu tão rápido…

— Ai pai, nem é! – Sussurrei sem graça, Chan as vezes tinha aquilo e me deixava constrangido, aparentemente meu namoro não estava sendo muito bom em casa – Olha, eu vou ficar bem…

— Você tem essa coisa do seu tio Suho sabe e isso meio que preocupa o Jongin, por isso tenha paciência, combinado? Você é nosso único filho, Yutie! De início eu fiquei em pânico por ser responsável por outro alguém, contudo agora eu te amo mais do que tudo nesse mundo e os pais todos pensam o mesmo. Seu namoro… Hum… Só não beije de língua, ok?

— Pai!

Meu deus! Mas que coisa! Será que o povo ‘tava enlouquecendo?

— Você é novo, a garota parece legal, mas garotos gostam de avançar, sabe, não deixe… E é isso – Ele viu que eu já desejava pular do carro e terminou aquela conversa versão dois de ontem, rindo baixo – Sei que quer sua coleira e está empolgado porque eles sabem sobre isso e sobre enfim, a vida de dom/sub, porém você precisa ir devagar, vocês são muito jovens… E o Jongup é o galã na escola que eu sei!

— Ele não é o popular, ele é o gênio, papai!

— Pareceu ser o popular para mim!

— Popular é o Nini, só que ele é o popular legal distraído…

Respondi pensando em todos os primos deles que já tinha ouvido o nome e visto passar pelos corredores, menos a Luhana que descobri recentemente ser prima também. A família deles era mesmo grande… E agora seria minha família, ofeguei…

— Certo, o nerd é o menos ruim, acho… Não sei, não me lembro bem na escola, no meu tempo eu meio que ficava disperso pensando em desenhar carrinhos…

— Isso é a sua cara, papai.

Disse rindo, beijando ele de novo e saindo do carro desejando boa reunião e ele, boa aula para mim.

  Esperei o carro sair da rua para suspirar, adorava meus pais e sabia que eles tinham boas intenções, mas as vezes eles eram tão exagerados…

— Bom dia, cunhado! Puxa, seu pai é a cara do tio Channy!

 Eu quase dei um pulo e me virei para ver uma cópia de JYJ atrás de mim com um sorrisinho divertido. Só que ele tinha uma atmosfera quase Jongin ao redor dele e usava calça rasgada dos joelhos ainda que a escola fosse meio rígida com o uniforme.

Era o irmão do JYJ? Não tinham sido apresentados, mas já tinha visto ele na escola…

— Daehyun Zelo, mas pode me chamar de DZ – Ele disse antes que eu perguntasse e logo meus olhos viram o que eu sempre fui treinado para enxergar nos últimos anos. Uma coleira de sub quase escondida na gola da camisa. Ele sorriu de canto – Sim, somos cunhados pelos dois lados, Yuto, a irmã da Bianca é minha dome. Barbara, acho que ainda não a viu, Ba não vem para escola, medida de segurança. Vamos entrar, teremos tempo de conversar bastante no intervalo.

 E ele enganchou o braço no meu braço bom e praticamente me guiou para dentro da escola e então… E então eu senti o que era ter milhões de olhos sobre mim. Gemi internamente.

JYJ era lindo, mas tinha uma aura “não fale comigo, suas anêmonas” agora o gêmeo descolado parecia brilhar por onde andava como um flower boy dizendo “Eu sou lindo não sou? Babem”.

 Como podiam ser tão diferentes sendo iguais?

— Sabe qual a melhor coisa de ser um baby da minha família, Yuto? – Ele disse baixinho em determinado momento quando atravessamos o pátio em direção ao corredor das salas de aula. Eu neguei, estava meio perturbado pela exposição, senhor, aquilo eram as princesas da escola sorrindo como idiotas para o DZ? – Todos vão saber exatamente o que acontece quando tentam nos tocar. Só podem nos admirar a distância, porque somos intocáveis. Legal, não é?

 DZ era narcisista? Quase ri. Nos trocaram no berço e ele era filho do Jongin, só podia… E então estávamos não na minha sala, mas na biblioteca, dez minutos antes de tocar o sinal de entrada.

— Pacote entregue, priminha!

Luhana se ergueu da mesa e me sorriu animada. Ao redor dela duas pastas etiquetadas com o título do meu trabalho que eu tinha de entregar e que esqueci devido a tudo o que houve e ainda um pen drive com um post-it com a minha letra nele, escrito ‘dados importantes’.

Oi? Eu não escrevi nada daquilo…

— Mia, minha irmã sabe copiar letras com perfeição, eu dei a ela a sua ontem e ela fez todas as anotações para você. Só precisa dar uma lida caso o professor te questione. Está tudo aí, e ainda tem slides com os tópicos relevantes. Eu mudei meu lugar também, agora sento a sua frente. Dúvidas eu posso te passar por ponto eletrônico, mas vai se sair bem.

Ela apontou algo minúsculo dentro do ouvido e estendeu outro para mim. Eu só a encarei chocado. O que era aquilo, uma missão James Bond?

— Bem-vindo a nossa família, Yuto. Nos vemos no intervalo!

 E DZ saiu dali me deixando mudo com minha colega de sala à lá espiã.

Meu deus… Aquilo era real?

Quando o sinal bateu para o intervalo eu tinha uma nota dez no meu trabalho extraclasse e um olhar chocado do professor. Eu também não estava muito normal com aquilo então eu o entedia e quase o encarava com compreensão.

Não era algo comum para nenhum de nós dois.

Arrumei minha mochila de forma lenta pois meu cotovelo resolveu me dizer oi e arder, mas logo Luhana veio para mim e terminou minha tarefa.

— Precisa movimentar menos o braço até semana que vem, Yuto, senão, não vai cicatrizar, eu sei do que estou falando.

— Você cai muito?

— Eu caio sempre, na verdade – E ela me piscou risonha, como ela sorria, senhor – Minha infância foi meio selvagem, podemos dizer. E eu vivia em uma aldeia a beira da praia.

— Nossa, devia ser legal! Eu adoro praia!

— Eu também.

— Ai estão vocês! – E Nini, o tal popular alienado entrou na minha sala agora só com nós dois e veio para mim me estendendo um sanduiche caprichado da cantina. Não me passou despercebido o jeito que ele estava vestido, ninguém ficava tão alinhado como ele naquele uniforme sem graça, ele era mesmo muito, muito lindo… – JYJ me mandou entregar, ele está resolvendo um problema na diretoria, mas já nos encontra no pátio.

— Diretoria?

Congelei, eu tinha más experiências naquela sala dos demônios!

— O que aconteceu?

Luhana questionou, Nini sorriu:

— Nada demais eu acho, tio Chul está lá.

 Eu não sabia quem era esse tio deles, mas eu conhecia o olhar que trocaram, era o mesmo olhar que os doms da minha família trocavam quando queriam dizer algo sem dizer. Eu quase bufei, mas não disse nada, afinal eu ainda precisava conhecer eles mais… Ainda não sabia como agir com eles e minha timidez não ajudava, nenhum pouco.

— Ok, vamos lá!

E Luhana colocou uma mochila em cada ombro - a minha e a dela - e me empurrou com suavidade para a porta.

 Se um dia me dissessem que eu iria entrar para uma família mais estranha do que a minha eu teria gargalhado, mas eu me dei conta de que sim, existia gente mais estranha e isso ficou óbvio quando eu cheguei no pátio – Eu sempre ficava meio que sozinho pelos cantos da escola tentando ser invisível para não ter problemas – E fui recebido por uma dúzia de pessoas que nunca tinham trocado uma palavra comigo, mas que agora pareciam receber um parente querido que viajou por anos. Eram da família e Luhana apresentou uma a um para mim enquanto nos sentávamos em uma mesa espaçosa:

— Meus primos Himchan Yongguk, HY, Júnior e Júnior ou se preferir, J&J e DZ que já conhece. Essas são Júlia e Julieta, também irmãs dos trigêmeos e meus irmãos Mia, PCY, Chechen e Júnior. Meu irmão Chin já terminou a escola e ainda não começou a faculdade e prima Ba vai fazer as provas finais direto. Os quadrigêmeos, irmãos da Bi e da Bá ficaram em casa hoje.

— E você é o famoso Yuto! – HY, outro garoto a cara do JYJ, mas que parecia bem mais sério e com um olhar quase preguiçoso me disse com seus olhos cravados nos meus – Um baby, não temos muitos entre nós. Só DZ e Chechen.

— Baby?

Repeti pensando se aquilo era um elogio, um título ou algo da América. Recebi um abraço de Luhana sentada ao meu lado:

— Baby é um nome carinhoso para um sub que não é só sub… As vezes nem é sub, como tio Tao, por exemplo… Ou tia Michelle. Olha, o significado entre nós é meio diferente do significado técnico. Mas no geral é isso.

 Eu assenti embora não tivesse entendido bem. Minha mente ainda estava assimilando cara e nome. DZ e HY eram mais fáceis porque pareciam JYJ. Nini também porque eu o via mais frequente pelos corredores, os menores estudavam no outro prédio, na área dos menores mesmo, mas aparentemente todos lanchavam juntos.

 Entretanto eu precisava ser justo, ao menos todos me olhavam com carinho real. Não era forçado, ainda que fosse meio louco.

 E então eu parei de comer quando ela se aproximou. Minha ex crush, Bianca… Porque ela tinha que ser tão linda?

— Todos bem?

— Apresentações feitas, comida na mesa, trabalho entregue e com nota máxima antes do intervalo. Trabalho da manhã realizado com sucesso!

Luhana disse como se reportasse notícias para uma oficial, como um drama que eu tinha visto ano passado e eu quase ri. Mas elas eram meio doidinhas, não?

 Bianca assentiu e então se sentou à minha frente me sorrindo suave:

— Como está o braço?

— Er… bem.

Respondi evitando gaguejar, caramba, eu precisava mesmo resolver isso!

— Então hoje vamos te levar para tomar sorvete como queria, combinado?

— Nossa Bi, seu sorvete é bem melhor dos que eles têm aqui, faça em casa mesmo ué!

Nini rebateu sorrindo animado e eu ofeguei. Jesus… Que água esse povo tomou para ter aquele tipo de sorriso?

— Tomar sorvete fora de casa é uma ação social de namorados, Nini, aqui é meio que “comum” – Luhana respondeu como se fosse alguma tradutora de costumes locais fazendo aspas na palavra comum – Eles não vão tomar sorvete por tomar sorvete, eles vão ter um encontro, entendeu?

— Ahhhhhhhhhhhhhhhhhh…

 Eu sabia que tinha ficado vermelho porque as gêmeas riram baixinho e DZ piscou murmurando “Eles são assim, ignora”.

 Mas por fim um senhor se aproximou e todos se ergueram quando o homem se aproximou da mesa. JYJ estava ao lado dele e me sorriu amável. Eu alternava o olhar do meu namorado… Ahhh eu ainda não acreditava que ele era meu namorado! – Para o ajussi alto e bonito ainda que devesse estar na casa dos sessenta ou algo assim:

— Está feito, crianças. Vocês têm a segunda feira livre, vamos acampar!

 A mesa se tornou uma algazarra e eu fiquei olhando tudo aquilo de forma confusa. Hein?

— Agora só falta falar com os pais do Yuto, tio Chul!

Luhana disse animada voltando a me abraçar. Eu quase engasguei, oi?

 Então ele me olhou e eu quase dei um passo para trás. Caramba… Ele era um Dom?

— Isso será feito, será feito. Bem-vindo a nossa família, Kim Yuto.

 E por algum motivo aquilo me fez ter certeza absoluta que sim, eu tinha entrado para a família deles…

 Que loucura!

Mas quem acampava na segunda feira?

2364 palavras


Prólogo

Capítulo 1: Se você é um lobo, então, o que eu sou?

Capítulo 2: Janelas da alma.

Capítulo 3: 12 vezes maior? Eu diria 20 vezes, querido R.M. John.


“– Você não é nem um pouco assustador…

– Isso, meu anjo, depende de quando e como você me conhece…”


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O amor acaba.
Numa terca-feira chuvosa, enquanto escovo os dentes pela manhã.
Num pedido de desculpas.
Na incompreensão do meu desejo irreversível de-não-ser-mãe.
Enquanto o relógio marca três horas da madrugada.
Enquanto meus remédios para ansiedade acabam.
Enquanto descubro que tenho ansiedade.
Enquanto ouço um CD inteiro do Coldplay e, pasme-se, consigo não chorar.
Enquanto percebo que nossa intimidade é tão grande que agora somos um só. E acabou-se a individualidade, não existem mais as pessoas separadas. Agora só existe o casal.
Enquanto limpo a biblioteca da minha casa e percebo que minha coleção de obras do Caio já não está mais inteira, porque eu te disse que ele é incrível e alguns livros agora estão na sua estante.
Em outubro, quando descobri que seu amor por mim é tão grande e intenso e claro que você seria capaz até de arrumar outra profissão por mim.
Quando descubro que quero alguém tão apaixonado pelo seu trabalho que seja capaz de abrir mão de mim.
Enquanto sinto que te amar é a coisa certa a se fazer.
Numa esquina, quando viro e percebo:
O amor acaba.
Espero que seu caminho seja iluminado.

iraque

Ao chegar em casa, meus planos de organizar os resquícios de bagunça pós-mudança pareciam estar frustrados, mas, decidi que terminaria aquilo antes de dormir, não importa quanto tempo pudesse durar. Pus-me a organizar a parte mais importante de minha casa: a biblioteca. Todos os livros separados por gêneros, depois em ordem alfabética de títulos. Quanta coisa! Enfim, quando achava que não podia mais, encontrei um lugar para cada objeto de decoração que tinha, terminei de organizar a dispensa, limpei o sótão e tranquei tudo. No fim, aquele aposento ficara sem nada, a não ser pelos meus quadros, pois era muito pequena para pendurá-los nas paredes que gostaria. Exausta, finalmente dei-me ao luxo de preparar um banho relaxante, com muita espuma e sais de banho. Sempre refinada, banhei-me enquanto bebia uma champanhe e ouvia Volare, na interpretação de Pavarotti. Aquilo sim que era vida, que saudade senti de Viena! Silêncio, jardim, casa grande e eu assim, livre para ser tão exuberante naquela cidade tão simplesmente linda, pura e refinada. Sentia-me completamente dentro do contexto ali. Como era bom!
—  Trechos de Pássaro Selvagem.
— Tudo começou quando eu ainda tinha meus quatorze anos…
— Mãe! Aos quatorze?! Aos dezesseis tive que namorar escondida, porque principalmente a senhora me proibia! - interrompe Nina indignada.
— Como eu ia dizendo, tudo começou quando eu ainda tinha meus quatorze anos, eu estudava na parte da manhã e faltava apenas uma semana para a apresentação do meu primeiro seminário, então resolvi ficar um pouco mais na biblioteca decorando minhas falas. Com o roncar da minha barriga percebi o quão tarde estava, organizei minhas coisas e me levantei, quando abri a porta, me dei de cara com um rapaz, sem poder evitar, nos esbarramos, filha, pensa a vergonha que passei, os livros e papeis que estavam em minhas mãos, caíram todos, fez um grande barulho, passei a ser o centro da atenção dos que haviam ali.
— Nossa mãe, que mico! - disse Nina enquanto comia as unhas. - Mas e ai? Ele se desculpou? - complementou ela.
— Sim, enquanto eu estava abaixada pegando as folhas ouvi as mil desculpas vindas dele, era uma voz tão linda e calma, que assumo que fiquei com vergonha de manter olhar fixo nele, mas quando me levantei, o inevitável aconteceu, ele estendeu seus braços me entregando algumas das folhas do seminário, então ao me perguntar se eu iria fazer parte do seminário da semana que vem, eu acabei olhando para ele, meus olhos se perderam nos dele, devo ter ficado com cara de sonsa, não gosto nem de me lembrar desta parte. - diz Marie.
— Que fofo mãe, já estou xirpando. - diz Nina sorrindo.
— Ele se recuou, e após eu sair da biblioteca, ouvi o som da trava da porta se fechando, então eu disse que seria meu primeiro papel, e logicamente me desculpei também, ele então se apresentou e ficou esperando com que eu fizesse o mesmo, então eu disse meu primeiro nome, Marie, mas disse logo após que poderia me chamar de Jobson. O prazer foi todo meu, disse eu encerrando a conversa. Dei as costas pra ele, e foi quando eu o ouvi dizendo:
— Me espere aqui, só vou entregar um livro e já venho. - disse ele fechando a porta da biblioteca.
— Você o esperou né mãe?!
— Pior que sim, por mais que eu quisesse ir embora, algo me prendia ali. Não demorou e ele ressurgiu, me convidando ir almoçar junto a ele, no restaurante Ferrolhos. Eu recusei, é claro, um restaurante chique que ficava apenas uma quadra do colégio, mas ele insistiu tanto, que acabou me persuadindo.
— Mas mãe, ele não tinha que estudar?
— Sim, essa foi a primeira vez que ele matou aula comigo… - disse Marie olhando para o corredor. - Ali almoçamos e passei a conhece-lo, filha, pense em um garoto doce e agradável, me fez sorrir tanto. Me lembro como se fosse ontem, ele colocava folhas de alface no dente só pra me fazer sorrir. Confesso que quando fui embora, levei comigo o sorriso dele. Passei o restante da semana torcendo para o encontrar novamente, mas ele não apareceu, fiquei tão triste, tão magoada, até pensei em desistir do seminário
— Primeira? Como assim D. Marie? - diz Nina com uma cara curiosa.
— Depois que ele apareceu na minha apresentação do seminário, o que me deixou muito surpresa - sussurra Marie.
— Como foi? Me conte por favor mamãe! - diz Nina
— Foi no dia da apresentação da minha peça, ainda me lembro quando me virei e o vi sentado me olhando e por alguns segundos me perdi naquele olhar e o seu sorriso. Ah!! que sorriso! E desde daquele dia eu sabia que ele era o meu grande amor.
— E o que houve? Quanto tempo ficaram juntos? Porque se separaram? - pergunta Nina totalmente encantada.
— Bem, o suficiente para eu entender que isso não daria certo, terminamos o ensino médio juntos e quando foi pra optar o curso, decidi pela minha carreira e ele não quis vir comigo.- respondeu Marie com o olhar distante.-
— Seguimos cada um pro seu lado, eu me formei conheci seu pai, casamos e você nasceu.- continua Marie.
— Agora que ele voltou? Você esta sozinha a um bom tempo mãe, não tem como reatar? - pergunta.
— Não acredito, ele me procurou tem uns meses e começamos a ter um caso , relembramos o passado só que ele esta casado e tem uma família e não serei eu quem vai destruir isto. Acho que nossa história termina aqui. Quer mais um pedaço de bolo? - fala Sra. Jobson mudando o assunto.
— Nossa mamãe ele então quase foi meu pai, incrível uma pena que ele esteja casado. Seria lindo ter vocês dois juntos! - fala com um tom desanimado.
Marie para os olhos em Nina, e pensa: Quem disse que ele não é seu pai?
O dia amanheceu muito frio e Lua ainda deitada se perde em seus pensamentos e se pergunta por onde ele anda depois daquele dia? Será que ainda esta com raiva dela? Então a imagem daquele beijo a vem na cabeça, a raiva toma conta e pensa:
— Ele esta muito bem Lua, aliás melhor que você com essa cara amassada. - ri ao pensar.
Então se levanta e vai preparar o café. Era um domingo e Lua costumava tirar esses dia para suas leituras, e descanso, mas como Alice se mudou para sua casa nova, ela prometeu ir visita-la. Uma historia com começo, e com um meio, mas cadê o fim?.
—  Capítulo 14 - Florejus e Aniquilou em: Quando as peças não se encaixam mais, é hora de renunciar.
Imagine Harry Styles


A Bela e a Fera - MaYa


Nunca estive interessada em riquezas ou vestimentas importantes. No entanto, minhas irmãs mais velhas pareciam ser o oposto de mim, querendo sempre ostentar suas riquezas. Elas costumavam comprar vestidos finos, pérolas para seus pescoços ou sapatilhas das mais caras da cidade. Prefiro ficar em meu mundo, sozinha na minha biblioteca com livros para um acesso a outros mundos completamente diferentes deste.

Agora, tudo está acabado. Meu pai perdeu a fortuna, minhas irmãs foram obrigadas a vender seus pertences. Eu não me importava com o dinheiro, pois meu pai era a pessoa mais importante para mim e tudo o que quero é estar ao seu lado o apoiando. Nós nos mudamos para viver em uma pequena casa de campo. Comecei a ajudar meu pai a cuidar da humilde casa, enquanto ele trabalhava no campo para ganhar o suficiente para nos “sobreviver”. Minhas irmãs não fizeram nada, suas experiências passadas as manteve egoístas e arrogantes.

Dias depois, meu pai apareceu sorridente, alegando dizer que havia sido promovido. Ficamos felizes, pois poderíamos reconstruir nosso dinheiro perdido. Mas, para isso ele teria que sair por muitos dias, e só assim conseguiria o valor em ouro.

- Vocês irá trazer nossas pérolas de volta, não é papai?- Dana, uma das minhas irmãs disse de uma forma egoísta.

- Não vejo a hora de ficar bonita novamente. Claro, por parte de roupas.- Dorothy, se olhou no espelho ao lado do sofá. Meu pai concordou com desgosto, antes de se virar para mim.

- Minha querida, (S/n). O que posso trazer para você?- sorriu, segurou minhas mãos observando meu delicado rosto.

- Eu não sei.- digo pensativa e brincalhona.- Uma rosa, para me lembrar dos mais belos perfumes.

- Tudo para minha bela.- brincou, balançando meu queixo.

(…)

E no dia seguinte ele partiu em direção ao seu destino. Quando o mesmo chegou, ele descobriu que não poderia ser aceito em tal cargo de trabalho, pois o mesmo era muito pobre para adquirir o cargo adequado. De um jeito ou de outro, ele teria que voltar, poderia ser a volta mais dolorosa para ele que queria tanto poder dar a suas filhas o que elas desejavam. A caminhada foi lenta e cansativa, estava perto de se render e se sentar para descancar quando viu uma bela casa de campo, branca coberta por flores e galhos em volta dela, janelas totalmente fechadas, porém o homem pode ver o portão aberto, prontamente se dirigiu para dentro. O velho homem poderia passar a noite ali, mas como viu as porta fechadas achou melhor se acomodar em um dos arbustos que havia.

Quando o sol se pôs, levantou-se limpando-se e colocando seu chapéu em sua cabeça, pegaria seu caminho de volta, quando notou um lindo jardim de rosas, seu coração ansiava em dar a sua filha o único e simples pedido. Em um passo rápido ele pegou sua faca e segurou a pequena rosa a cortando pelo galho.

- Isso não é seu.- uma voz grossa se fez presente atrás dele, o homem se virou rapidamente para ver um homem terrivelmente desfigurado. Ele era um monstro foi o que pensou. Parecia um grande animal, seus cabelos eram grandes e desgrenhados, um rosto difícil de descrever e sua estrutura era alta e poderia ser confundido com um animal.

- Ah me desculpe. E-Eu…- o pai gaguejou, sentido começar a suar, um hábito quando estava nervoso.- Eu queria levar uma rosa para minha filha.- recuperou o fôlego que não sabia que havia prendido. O homem medonho tinha fúria em seus olhos, más suavizou quando ouviu o velho dizer “filha”.

- Uma filha?…- pensou por alguns segundos encarando a rosa na mão do velho.- Vou poupar sua patética vida se me trazer está filha em seu lugar. E se ela não vim, eu irei te encontrar.- a fera rosnou. Ele concordou rapidamente, virando-se de novo não querendo ver a aparência do ser.- Espere!- novamente aquela voz o assustou, o velho virou-se.- Leve isso para ela.- entregou a rosa e só então pode ver sua mãos com grandes unhas.

(…)

- Minha querida bela, sua rosa.- meu pai disse, fazendo uma referência em minha frente. Peguei a rosa em minhas mãos aproximando meu nariz, sorri docemente.-

- Obrigada papai.- agradeço, retribuindo a referência.

- Não há de quê, minha filha.- suspirou profundamente.- Isso me custou muito, (S/n).

- Uma rosa?- estranhei, e meu pai se recompôs se sentando na poltrona velha ao seu lado.

Ele suspirou e começou a contar a história completa para todos.

- Você está devendo sua vida ao papai.- Dorothy apontou o dedo em minha cara.

- Pai, você não deveria ter se preocupado com isso.- digo triste ignorando Dorothy, olho para a rosa em minhas mãos.- É por minha culpa que você está nesta situação.

- Não… Eu…

O interrompi me levantando do sofá lhe enviando um olhar decidido.- Eu irei no seu lugar.

- Eu não posso deixar você ir, (S/n).- meu pai gritou alto me deixando um pouco assutada.

Sem perder tempo, corri para o andar de cima as pressas trancando a porta atrás de mim. Precisava arrumar ao menos uma pequena mala com as roupas que me restaram. Não podia deixar meu pai ir no meu lugar, ele tinha que ficar e cuidar de minhas irmãs.

(…)

Estava acompanhada de meu pai em seu cavalo, uma casa grande e branca aparecia velha apareceu em nosso campo de visão, adentramos os grandes portões e só assim pude ver um jardim contemplado de rosas. Meu pai desceu em um pulo e ergueu os braços me ajudando a descer, coloquei a minha pequena bolsa em minha costas.

Ele segurou meu rosto e disse.- Deixe-me ir. Você não tem que fazer isso (S/n).

- Não papai, eu vou. Não se preocupe comigo.- respondo o trazendo para um abraço acolhedor.

- Esse destino não é seu.- sussurou, entre meus cabelos. Uma lágrima escorreu em minha bochecha.

Antes que pudesse responder um estrondo nós assusta, olhamos para o barulho e confirmamos ser a grande porta dubla da casa. Um grande ser vinha em nossa direção, não podia distinguir o que era, deste modo se aproximou da gente parou na sombra da árvore onde eu não podia ver seu rosto.

- Decidiram quem irá ficar?- sua voz rouca perguntou.

- Eu ficarei.- disse alto o suficiente para ele ouvir.

- Tem que me prometer que ficará para sempre.

Não havia mais volta, a única maneira era ir com ele.

- Deixe-me ver seu rosto.- digo, afim de descobrir o homem com quem passarei a eternidade.

Em um único passo para frente, a luz da lua bateu em seu corpo. Meus olhos se arregalaram inevitavelmente. Ele tinha uma aparência terrível. Terrivelmente terrível. Virei-me para meu pai me protegendo do ser.

- Eu fico, não se preocupe.- meu pai sussurou, eu me afastei dele e neguei, olho novamente para o homem -se assim posso dizer- caminhando até ele.

- Eu dei minha palavra.- levanto minha mão, segurando meu colar, me sentia segura assim.

- Como uma boa garota.- ele rosnou, e agarrou a barra do meu vestido nervosamente. - Agora sai, e não volte nunca mais.- a fera grita para meu pai que se assusta se encolhendo.

- Me perdoe, filha.- meu pai choramingou olhando em meus olhos aterrorizados, e com isso ele saiu.

A fera fechou fortemente as portas dublas, e virou seu corpo para mim, seus olhos pairaram em mim e por um momento sua face se suavizou.

- O que aconteceu com você?- perguntei, ainda segurando forte o meu colar.

- Eu não quero falar sobre isso.- respondeu, ele desviou seu olhar para suas grandes mãos.- Você precisa descansar.- falou, embora sua voz soou menos intimidador do que antes.

Ele continuou seu trajeto até um local desconhecido sendo seguido por mim ele desaparece em uma das portas, porém eu fico deslumbrando o local, um longo suspiro sai de meus lábios assim que vejo um grande salão, onde provavelmente era a sala, havia dois sofás médios vermelhos, algumas obras de artes eram espalhadas pelas paredes de uma cor bege opaca acompanhadas de flores de ouro que brilhavam conforme a luz. O lugar era realmente bonito apesar de estar com medo, resolvo explorar cada detalhe daquela grande casa, ou podemos dizer palácio. Era como algo fora dos livros que leio, realmente magnífico, ando pelos corredores que eram longos e ao final tinha escadas para o andar de cima, de repente vejo um quarto escrita com rabiscos “quarto da fera.” meu coração palpita e curiosamente eu afasto a porta observando o seu quarto que era bonito, com uma cama perfeitamente arrumada, uma estante com os mais requintados livros, eu corro para prateleiras, correndo minhas mãos sobre todos os títulos dos livros puxando para fora a minha história favorita, um pequena nota caiu fora do livro, pego do chão e leio. “Para você, minha bela.” meu coração disparou, está pessoa não tinha más intenções comigo, ele não queria me matar, está nota me fez pensar que ele quer apenas cuidar de mim. Além do lugar impressionante, eu confesso que me senti acolhedora aqui e não pude deixar de perceber o quanto ele deve ser solitário aqui. Minha barriga ronca me avisando que estava com fome, decido sair de seu quarto para procurar algo para comer.

Assim que saio empurrando a porta aberta um longo aroma de tal alimento delicioso entra em minhas narinas caminho para o final do corredor virando a direta, havia uma grande mesa e uma bandeja, me aproximo me sentando e puxando comida para mim, totalmente faminta.

Depois de alguns minutos comendo eu ouço uma batida forte na porta.

- Bela?- perguntou suave, estava incapaz de acreditar que essa era a voz da fera, metade do seu corpo aparece no meu campo de visão e pedi gentilmente:- Posso te ver comer?

- Si-sim, sim. Claro.- respondo de uma forma educada, ele entra por completo e se senta em um assento à minha frente e por algum tempo ele fica me encarar mastigando minha comida.

- Como se chama?- indagou, me olhando com seus grandes olhos verdes.

- (S/n) (S/s).- sorri, ele por sua vez se encosta na cadeira e olha para baixo rapidamente.

- Posso te pergunta uma coisa (S/n)?- perguntou novamente ainda olhando para baixo.

- Pode.- falei, o analisando.

- Você me acha feio?- perguntou, pegou um talher e olhou seu reflexo atráves da prata. Eu posso jurar que ele estava tímido.

- Você não tem uma beleza como uma pintura a óleo. Más, você me trata bem, nem toda beleza é física.- digo com cuidado, para não o machucar.

- Você é muito gentil, (S/n). Pois, eu sou feio por dentro também.- respondeu calmamente.- Sou um homem tolo, egoísta. Se é que eu sou mesmo capaz de chamar de homem.- havia amargura em seu tom de voz.

- Eu tenho certeza que você não é nada do que diz.- digo de uma forma acolhedora, sentindo pena da fera a minha frente.

- Você deveria comer.- comentou, voltando seu olhar para mim.- E depois você pode fazer o que quiser aqui, eu só quero que seja feliz estando aqui.

- Bom, obrigada. Você está sendo muito amigável, pensando por esse lado, faz de suas desfigurações pouco visíveis.- admito, vejo um pequeno sorisso em seus lábios se contorcer, o primeiro que vi. Mesmo que fosse um pequeno sorriso, foi maravilhoso para se ver.

- Eu sempre serei um monstro, (S/n).- ele diz a mim sério, queria saber se ele se arrependeu de ter sorrido

- Há monstros entre homens e eles se escondem atrás de uma máscara de bondade.- comento, mas ele não responde. Ele não responde nada quando se trata de outras pessoas.

Término meu jantar, e quando eu estava pronta para me levantar ele fala de novo.- (S/n), isso significa muito para mim… Quer ser minha esposa?

Minha respiração é tirada por completo. Eu não tenho certeza do que responder e sinto meu coração apertar um pouco com a apreensão de sua reação.

- Na-não.- gaguejei, antes de poder fugir novamente para o corredor comprido.

Corro em direção diferente da onde estava quando cheguei, depois de passar por duas porta chego em um quarto onde parecia que não era de ninguém. Eu deito na pequena cama aconchegante e meu corpo se relaxa pensando em como o dia tem sido emocional e longo. Agarro o travesseiro trazendo para mim, enquanto estava em tal aconchego minha mente vaguei na fera e em sua proposta. Ele realmente era aterrorizante com seu olhar, como se estivesse em um lugar dominado entre um ser e um monstro. Eu não posso deixar de pensar o quanto ele fica só aqui. De repente eu ouço um grito que soa como um lobo, mas no fundo eu sei que é um ruivo solitário da fera. Antes de ter a chance de pensar sobre suas maneiras o sono pesado cai sobre minha pálpebras.

(…)

Semanas se passaram e pude desfrutar de cada lugar da casa. Estava muito bem alimentada e a fera me forneceu os mais belos vestidos. Todos os dias ele me vista em meu quarto e nós passamos a maioria do tempo para nos conhecermos melhor.

Todos os dias ele mostra mais da pessoa que está guardada em sí e eu posso ver em seus olhos que o interior não corresponde ao seu exterior. Demorou algum tempo para deixar de notar suas desfigurações, tudo que posso ver são os olhos que brilham quando ele me ouve cantar ou o sorriso que cintila com o calor quando leio o livro que ele havia me entregado. A fera nunca soube amar alguém antes e ele levou alguns dias para entender esse sentimentos.

Ele era um animal gentil, sempre me tratou tão delicado e educado, a fera costumava a passar seus dedos grandes pelo meu rosto, nunca colocando pressão para não machucar com suas unhas. Lembro-me quando ele me olhou com suas esmeraldas e naquele momento meu coração vibrou. Porém, lembro-me de que ele ainda é uma fera, com medo de ceder seus sentimentos.

Hoje à noite não foi diferente do que qualquer outra, fui tirada dos meus devaneios quando ouvi algumas batidas na porta a exatamente oito horas. A fera fez seu caminho em meu quarto e eu sorri docemente para ele. Ele imediatamente se junta a mim na cama se sentando ao meu lado, ele me entrega uma rosa do jardim, o lugar onde passávamos tardes tranquilas passeando juntos.

Eu aceito sua rosa e ele coloca um suave beijo na parte traseira de minha mão. Sinto meu rosto corar enquanto minha respiração é tirada de mim. Pego meu livro ainda com a rosa em minha mãos e começo a ler um dos versos de poesias enquanto Ele ouvia atentamente

- (S/n)?- a fera gentilmente interrompe, sua respiração subindo e descendo com o ritmo e fluxo de meus poemas. Para ele é praticamente uma canção.- Eu tenho que te pergunta de novo, porque eu não anseio por mais nada… Será que você poderia se tornar minha esposa?- perguntou ele

- Eu… não posso dizer sim a você.- digo, embora seja difícil dizer tais palavras. Eu me preocupo com ele, mas me preocupo comigo também, não quero estar com um homem que, na verdade está me prendendo nesta casa.- Você é meu amigo e eu não procuro mais do que isso.- respondo em voz baixa, meu rosto se contorce em uma tristeza.- Fera, você me mostrou tanta bondade e quanto mais eu vejo isso em você, mais eu me preocupo com você. Mas, ainda há muito para ver em você.

- Harry.- ele respiração calmamente.- Meu nome é Harry.- disse novamente.- E eu só quero ser amado.- comentou em um sussuro quase inaudível, percebo que seus olhos estão cheio de lágrimas, e por um momento ele olha para mim desesperadamente

Me aproximo e coloco minha mão em seu rosto suavemente, algo que nunca fiz antes. Ele não se afastou sob meu toque, Harry simplesmente fechou os olhos e colocou a mão sobre a minha.

- Por favor, não me deixe.- ele diz e eu pude sentir o grande nó na minha garganta.

- Com uma condição.- sussuro.

- Qualquer coisa.- prometeu, apertando minha mão entre seu rosto.

- Eu quero ver meu pai. Vou voltar para você em breve e, em seguida, eu nunca vou deixar você de novo.- asseguro e ele se afasta de mim.

- Se você nunca mais voltar… Eu temo que irei morrer. Eu não posso viver sem você.- ele diz, e não há medo genuíno em sua voz. Concordo com a cabeça e a fera estava para sai do quarto.

- Eu estarei de volta em uma semana. Eu promento, Harry.

(…)

Visitei meu pai e minhas irmãs, e descubro que meu pai está muito doente de velhice. Ele estava muito feliz ao me ver viva e eu explico-lhe como foi minha estadia com Harry.

- Está fera lhe tirou de mim.- meu pai vociferou, tossindo em seguida.

- Papai, Harry é maravilhoso para mim. Ele… Ele me ama muito.- esclareci suavemente.

Eu passei o maior tempo com meu pai, cuidando de suas necessidades. Minha irmãs me provocavam todos os dias por estar apaixonada por uma fera, más eu sei que Harry não é verdadeiramente uma fera por baixo de tudo. Harry é a pessoa mais gentil e mais maravilhosa que já conheci e, enquanto os dias passam sem que eu o veja o meu amor e cuidado para ele cresce ainda mais.

E quando chega o dia em que eu tenho que voltar para Harry, meu pai fica gravemente doente, e eu não posso deixa-lo só. Mais um dia não iria fazer diferença, pensei, logo estarei de volta a ele.

- (S/n), se a fera te faz feliz. Você tem a minha bênção.- meu pai comunica, ele solta um pequeno suspiro de dor quando sentei ao seu lado.

- Irei fazer o que achar melhor, pai.- seguro sua mão, e explico que havia conseguido convencer as irmãs a o ajudar com o possível, e que apenas ficaria está noite.

Fico ali sentada durante toda a noite com meu pai, acariciando sua mão. Naquela noite, ele adormece e vai para longe do seu mundo, pacificamente. Eu lamentava intensamente a perda, estava desesperadamente triste ao perde meu pai, que era tão querido por mim. Depois de algumas horas que se passaram, percebo que já deveria estar com Harry, ele era a única pessoa capaz de me sentir melhor. Recolho todas as minhas e me apresso para sua grande casa.

(…)

- Harry! Harry!- chamo, assim que chego a porta principal. Procuro em todos quarto por ele, más não o encontro.

Indo em direção aos outros quartos eu ouço um gemido em uma porta atrás, me aproximo empurrando-a e revelando Harry deitado em minha cama uivando e cheirando.

- Harry, me desculpa. Meu pai adoeceu e eu não podia deixa-lo.- digo a ele, de uma forma desesperada. Me apresso para o seu lado e me deito ao lado dele, colocando meu braço em volta do seu grande corpo, me aconchegando perto.

Lentamente ele relaxa e respira fundo, inalando meu cabelo macio.- Eu… Eu pensei que você havia me deixado.- sussurou, mais calmo agora.- Doeu muito pensar que tinha perdido você, sabia?!- murmurou, inclino minha cabeça para cima olhando seus grandes olhos.

- Eu não podia te deixar, Harry. Eu te amo.- declarei baixo, sinto minhas pálpebras fecharem e aproximo minha cabeça para beijar seus lábios.

Seus lábios eram surpreendentemente macios e se moviam contra o meu ritmicamente, sinto-me derreter em seus braços fortes à medida que ele me cobre em torno do seu corpo. Não queria me afastar, más Harry quebra o beijo e eu abro meus olhos e sorriu para ele. Na minha frente possuía um jovem extremamente bonito. Seu cabelo não estava mais complicado e emaranhado, e sim caia em seus ombros em ondas brilhantes. Há um pequeno sorriso torto em meus lábios, meus olhos analisava o rosto dele todo e sabia que meu animal amado se foi, mas então eu olho em seus olhos, que são os mesmos profundos verdes que me impressionavam e tinha o mesmo brilho suave.

- Eu te amo, (S/n).- ele sorri para mim, sua voz estava mais suave qua anteriormente, mas ainda pude ouvir uma sugestão de fera nela.

- Harry… Seu rosto.- pego um espelho em minha escrivaninha e o mostro sua semelhança. Eu vejo como ele encara o reflexo pensativo

- Eu?…- ele sussurava para si, tocando seu rosto.- Que garanhão.- admirou-se ao seu reflexo e uma pequena risada cai para fora de minha boca.

- Sim.- concordo mantendo o sorisso.

- Você me fez um homem bonito, tanto no interior, quanto no exterior. E eu posso dizer que…- disse mostrando pura felicidade.- Eu te amo em ambos os sentidos. Você quer casar…

- Sim!- interrompo, o respondendo feliz e ele cobre o meu rosto com beijos doces.

Harry me puxa para seu peito e fecho meus olhos apreciando aquilo. Agora eu sei que felizes para sempre não é apenas para livros de histórias.

“Eu sou uma chama acesa! E rebrilho e rebrilho toda essa sua escuridão.” - A bela e a Fera

“Nunca devemos julgar as pessoas pela aparência, pois elas podem nos surpreender. - A bela e a Fera”


“Eu fera você a bela que me encanto me mostrando que a beleza está na essência do Amor interior.”
A Bela e A Fera.

Capítulo 124 - O Fred é maluco, tu sabe.

Antes de sairmos pra aula, tentei conversar com o Matt sobre o Fred ter saído puto de casa por eu ter usado a casa dele sem avisar, mas ele tava com tanto sono que nem me deu muita corda.

Matt: O Fred é maluco, tu sabe.
Eu: Beleza, mas não faz sentido. O certo seria ele ficar puto por eu não ter comido a mina. Mas eu comi!
Matt: Mano, o cara tem o cabelo descolorido, mora sozinho desde os dezesseis anos numa casa de dois andares e a gente só descobriu que ele tinha mãe e pai no ano passado. Alguma coisa faz sentido se tratando dele?

Fiquei quieto.

Matt: Pois é. Pega a mochila e vamo pra aula.
Eu: Mochila?

Ele pegou a mochila dele embaixo da mesa da sala e me olhou.

Matt: É, ué.

Olhei em volta.

Matt: Tá me zuando que tu não arranjou uma mochila pra faculdade até hoje?
Eu: Cara, quantas vezes tu me viu na faculdade?
Matt: Porra, Thomaz… - ele sacudiu a cabeça.
Eu: Eu sei, eu sei… Mas to melhorando, te juro. Até fui na aula de recuperação de estatística ontem.
Matt: Finanças.
Eu: Eu acho que é estatística.
Matt: Tu nem sabe o nome da matéria, velho.
Eu: Porra, te juro que to melhorando. Não vou bombar o semestre, te juro.

Ele fez cara de mãe que tá prestes a dar bronca, mas desistiu.

Matt: Beleza. Só te falo que assim vai ficar difícil te livrar do teu pai.
Eu: Eu sei. - bufei.
Matt: Tu tá dando conta de pagar a faculdade com o teu salário?
Eu: Ainda não paguei, mas vou dar conta sim.

Assim que a Layla me pagar. Se ela não me pagar, não quero nem ver o que vai acontecer comigo. Nem com ela.

Matt: Beleza. Fica esperto, cara. Não vai bombar o semestre senão tu vai ter jogado uma puta grana fora, e aí vai ter que pedir ajuda pro teu pai de joelhos. Não consigo nem te imaginar fazendo isso.
Eu: Nem eu.

Ele sorriu e continuou me olhando.

Eu: Que foi?
Matt: Porra, pega uma mochila do Fred, pelo menos!
Eu: Ah!

Pode crer. Enquanto ia pro quarto do Fred pegar uma mochila emprestada, ouvi o Matt falar da sala.

Matt: Na volta a gente te arruma um caderno e umas canetas. Nem que seja pra tu desenhar na aula.

Abri o guarda-roupa do Fred e vi a caixa do brigadeiro da Vicky de novo. É muito viado mesmo. Achei mais viado ainda quando vi que ele tinha umas quatro mochilas, uma mais esquisita que a outra. Lá vem a história das calças coladas de novo. Odeio pegar as coisas dele emprestadas.

Quando cheguei na sala com uma mochila de couro, o Matt quase teve um surto de risada.

Matt: Porra, velho! HAHAHAHHAHAHA!
Eu: Mano, era a única preta!
Matt: Hahahahahaha! Foda-se, vai. É bom pra tu aprender.

Acabou que nem tive tempo de tomar banho. Mas pelo menos eu tinha uma mochila. Parecia até um universitário de verdade.

No caminho até a faculdade, lembrei do Fred puto comigo de novo. Não conseguia entender.

Eu: Será que ele tá puto pela casa mesmo?
Matt: A gente pode falar disso depois? Eu to passado demais, cara.

O Matt tava com cara de quem não tinha dormido nem um segundo durante a noite. Eu também não dormi muito, mas tava com a cara melhor que a dele. Achei engraçado que ele falou aquilo sorrindo. Só podia ter a ver com a guriazinha.

Eu: O que vocês fizeram depois do pub?

Ele riu sozinho e eu entendi rápido.

Eu: HAHAHAH! Aí sim, Matheus. Aí sim.
Matt: Cara. Sem palavras.
Eu: Pois é, to sem palavras também. Sem querer ofender, mas não imaginei que fosse acontecer tão rápido. Não contigo.
Matt: O quê? A mina tem pós graduação em sexo.
Eu: HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA!

Ri tão alto que me olharam na rua.

Eu: Foi mal. Se pá ainda to meio bêbado.
Matt: Eu também.
Eu: Por isso que tu pareceu o Fred falando. Hahahahaha!
Matt: Hahahaha!

Atravessamos a rua e chegamos na porta da faculdade. Eu posso vir pra cá todos os dias que acho que nunca vou ter aquele sentimento da escola, de “todo dia mesma coisa”. Tem tanta gente, e tanta gente diferente. Tanta guria gata. Não me canso disso. Tu olha pro lado e se apaixona a cada 3 segundos. E pensar que na escola a Mirella era a única que causava esse sentimento na gente. Passamos pela catraca e seguimos em direção à sala da primeira aula, que eu não sabia qual era, mas o Matt sabia.

Eu: A Mirella estuda onde?
Matt: Na faculdade do sexo. Se formou com a Raíssa.
Eu: HAHAHAHAHAHAH!
Matt: Fez mestrado. Tá dando aula já.
Eu: Cara, tu precisa comer essa mina mais vezes. Tu fica muito engraçado.
Matt: Tu fez o trabalho de semiótica?
Eu: Semi… O quê?
Matt: Nem sei por que eu pergunto.
Eu: Cara, eu não to zuando quando eu falo que vim pra faculdade só umas quatro vezes.
Matt: Porra… Precisava assistir Dogville.
Eu: O trabalho era assistir um filme?
Matt: Meio que sim.
Eu: Eu amo esse lugar.
Matt: Não, mas tu tinha que assistir e fazer uma porra de uma análise semiótica, né?
Eu: Eu nem sei o que é semiótica.
Matt: Tu devia saber. Tenho certeza que tu vai gostar.
Eu: Beleza, vou me esforçar. Mas considerando que não tenho como ver um filme agora…
Matt: É a quarta aula do dia. Dá tempo de tu ver.
Eu: Ah, qual é, Matt?! Bota meu nome nessa porra!
Matt: É trabalho individual.
Eu: Então me deixa copiar do teu.
Matt: Cara, assiste o caralho do filme e faz.

Entramos no elevador do bloco C, que tava lotado como sempre.

Eu: E como eu vou pra casa ver isso?! Onde vou arrumar esse filme?
Matt: Tem sala pra assistir filme aqui na biblioteca.
Eu: Quê?
Matt: Sério. Tem várias salas com TV, poltrona e fone de ouvido na biblioteca. Daí tu pega o filme, anota teu nome num caderno lá, assiste e devolve depois.
Eu: Mano, deixa eu copiar do teu.
Matt: Não. Depois tu vai precisar fazer prova, precisa saber o mínimo da matéria. E tem outro trabalho pra fazer do filme depois.
Eu: Velho, tu acha que eu vou aprender algum caralho agora?! Eu nem sei que porra é semiótica!

A porta do elevador abriu e nós fomos os últimos a sair, depois de umas seis pessoas. O Matt me deu uma cotovelada na costela.

Matt: Aquela era a professora de semiótica, seu retardado.
Eu: Puta merda.

A mulher com a gente dentro do elevador e eu metendo o pau na matéria, querendo copiar o trabalho e deixando bem claro que nunca fui em nenhuma aula.

Matt: Agora sim tu vai precisar fazer esse trabalho sozinho.
Eu: Porra…
Matt: Sério, é suave. Te empresto o livro.
Eu: Tem livro?!
Matt: Livro de semiótica.
Eu: E tu tem?!
Matt: Peguei na biblioteca. Tu tem muito o que aprender por aqui ainda, né, cara? Tu é tipo o bixo dos bixos.
Eu: Nem me fale. Tem mais alguma coisa pra hoje?
Matt: Tem, mas são coisas tu pode dar migué. Só esse de semiótica que é mais foda mesmo.

Não sabia que isso fosse me dar tanto trabalho. Filme, análise, trabalho, prova, recuperação à tarde… Que bosta. Nem comecei a levar essa merda a sério e já queria desistir.

Matt: Entra nessa aula de agora, responde a chamada e já vai pra biblioteca assistir.
Eu: Porra, queria ir pra casa tomar um banho e dormir.
Matt: Eu também. - ele me deu uns tapinhas nas costas.

Entramos na aula, que eu também não sabia qual era, respondi a chamada e saí pra ver o caralho do filme na biblioteca. Eu ainda tava puto com o Matt por ele não querer me ajudar, mas de certa forma ele já tava me ajudando. Realmente, eu precisava saber o mínimo pra pelo menos conseguir enrolar na prova. Nunca fiz prova aqui, não sei se é foda colar, não sei como é nada. Não é tipo prova de português que tu consegue inventar alguma coisa. Dessa vez, eu não sabia nem o que significava o nome da matéria. E o Matt tava certo, eu não podia bombar nem fodendo. Ou eu ia me foder pra pagar o Z Club ou ia ter que chorar dinheiro pro meu pai. Não to disposta a fazer nenhum dos dois.

Peguei o elevador de novo e desci até o térreo. Na lanchonete que ficava perto do elevador, perguntei pra uma guria onde ficava a biblioteca. Ela me olhou estranho, mas respondeu. Minha vontade era de falar “to ligado que é estranho eu não saber onde fica a biblioteca a essa altura do semestre, mas é a vida”. E pior que ela não ficava muito longe dali. Só precisei passar em frente ao bloco B e subir um lance de escadas, e lá estava eu na recepção da biblioteca.

Minha lembrança de biblioteca era a que a gente tinha na escola, pequena e com a Cidinha na recepção, sempre nos cumprimentando com aquela voz de taquara rachada. Ali, parecia que eu tava numa livraria de shopping. No balcão, tinham duas gurias com cara de alunas como recepcionistas e, do lado, uma catraca pra entrar. Eu não sabia muito bem o que fazer, então fui falar com as gurias.

Eu: É… Eu queria ver um filme.
Guria: Oi?
Eu: Como faço pra ver um filme? Dogville.
Guria: Ah. É no terceiro andar.
Eu: E como eu faço?

Ela ficou me olhando.

Guria: Tu nunca veio aqui, né?

Fiz que “não” com a cabeça. Ela bufou, pegou um punhado de papéis numa gaveta e me deu.

Guria: Coloca aqui teu nome, matrícula, semestre, curso, sala e assinala “x” em “filmoteca”.
Eu: E se eu não souber minha matrícula?

Ela ficou me olhando com a expressão séria por uns 2 segundos.

Guria: Entra aí, vai.

Ela se levantou, passou um cartão na catraca, que acendeu a luz verde, e me pediu pra passar.

Guria: Terceiro andar. - disse isso e voltou a se sentar.

Eu fiquei parado olhando em volta, tentando descobrir como ir até o terceiro andar.

Guria: O elevador fica no final do corredor à esquerda.
Eu: Ah. Valeu.

Segui até lá e pude ouvir uma guria falando pra outra: “Ele não vai roubar nada, né?”
Era só o que me faltava. Se eu fosse roubar alguma coisa nessa vida, com certeza não seriam livros da faculdade.

Peguei o elevador com um moleque parecido com o Matt e desci no terceiro andar. Era um lugar todo branco e cheio de prateleiras. No fundo, pude ver as cabines que o Matt falou. Tinham umas 7, cada uma com TV, uma poltrona e fones. Algumas tinham lugar pra até duas pessoas. A maioria já estava ocupada. Em frente a essas cabines, tinha um balcão com outra aluna funcionária da biblioteca. Sabia que ela era aluna porque já tinha visto passando pela quadra no intervalo.

Eu: Oi.
Guria: Oi. Tudo bem?
Eu: Tudo. Queria ver o Dogville.
Guria: Agora?
Eu: Sim.
Guria: Todas as salas tão ocupadas.
Eu: Eu to vendo duas vazias.
Guria: Uma menina foi no banheiro e a outra foi comer um lanche. Mas se for urgente, tem uma pessoa que acabou de entrar pra ver Dogville na terceira sala. Pode ver com ela, se quiser.
Eu: É urgente sim. Por mim, pode ser.
Guria: Vou falar com ela. É pro trabalho da professora Carla, né? Tem bastante gente pedindo esse filme essa semana.
Eu: Pode crer.

Seja lá qual for o nome da professora, só quero terminar logo com isso. A guria foi até a terceira sala e falou com alguém, que eu não pude ver quem era. As cabines eram de vidro, mas tinham uma proteção preta que ia até metade da parede. Quando tinha alguém sentado lá dentro, não dava pra saber quem era. Só se via o topo da cabeça das pessoas.

Guria: Tu te importa de perder 10 minutos do começo?
Eu: Não.

Melhor que perder o semestre.

Guria: Então pode vir. Só anota teu nome e o filme aí no caderno, por favor.

Anotei, agradeci a boa vontade da guria da recepção e entrei na salinha pra assistir o tal filme. Só não esperava encontrar quem eu encontrei. A Rafaela também arregalou os olhos quando me viu.

Eu: E aí.

Ela piscou os olhos com preguiça e voltou a olhar pro filme, sem me responder nem tirar os fones de ouvido. Beleza, né? Também prefiro se a gente não precisar se falar, Rafinha. Ela tava com os braços cruzados, óculos de grau, uma camiseta preta larga, calças jeans, tênis e uma cara de bosta. Peguei o fone que tava no assento da poltrona e me sentei.

Passados 5 minutos de filme, eu ainda não tinha entendido bosta nenhuma. Não tinha cenário nenhum. Como um filme não tem cenário?! Tudo se passava dentro de um galpão, com marcas de giz no chão indicando que ali era a casa de alguém, ou algum lugar. E a iluminação artificial da cena indicava se era dia ou noite. Parecia um teatro tosco. O que eu tava pensando quando imaginei que fosse ver um filme legal? Que inferno. Queria me enforcar com o fio do fone. Eu tava achando tudo aquilo tão bizarro que não conseguia nem prestar atenção na história. Não tinha trilha sonora, os atores não saíam daquela porra de lugar, os diálogos eram imensos… Quando vi, tinha acabado de acordar de um cochilo.

Eu: Puta que o pariu.

A Rafaela não expressou nenhuma reação.

Tentei voltar a prestar atenção no filme, mas tinham uns atores ali que eu nem sabia quem eram. Devo ter dormido pra caralho. Puta merda, não posso fazer isso. Tive que cutucar a Rafaela. Ela tirou um dos fones pra me ouvir, mas não olhou pra mim.

Eu: Tu te importa de voltar um pouco o filme?
Rafaela: Me importo.

Colocou o fone de novo e voltou a assistir o filme. Filha da puta.

Eu: Na moral, tenho que assistir tudo. Eu dormi.

Ela revirou os olhos, suspirou e apontou com a cabeça pra mesa onde ficava a TV, que tinha um controle em cima.

Eu: Valeu.

Peguei o controle e voltei algum tempo de filme. Até que não foi muito. Logo me lembrei da cena que tava passando e dei “play” de novo.

Uns 15 minutos de filme depois, lá tava eu piscando pesado de novo. Fica acordado, caralho. Fica acordado. Eu bocejava, mudava de posição, coçava os olhos, mas nada me fazia ficar acordado pra assistir aquela porra chata do caralho. Quando vi, dormi de novo e acordei sem saber o que tava rolando. Caralho. Cutuquei a Rafaela de novo:

Eu: Cara, foi mal, de verdade, mas eu dormi de novo.

Ela continuou com a cara de bosta. Mas voltei alguns minutos do filme e ela não reclamou, então beleza. Dei “play” e me ajeitei na cadeira de novo. Alguém me ajuda a ficar acordado.

Na moral, não passaram nem dez minutos até me dar sono de novo. E eu dormi de novo. Dessa vez, quem me acordou foi a própria Rafaela.

Rafaela: Tu devia lavar o rosto.
Eu: Puta que pariu. - acordei e me dei um tapa na testa. - Tu não tem um remédio aí?

Ela fez que “não” com a cabeça.

Eu: Vai, pode dar o play. Vou tentar ficar acordado. Foi mal.

E minutos depois, lá estava eu querendo dormir de novo. Parecia que eu tinha bigornas no lugar das pálpebras. A Rafaela tentou segurar a risada, mas não conseguiu. Acordei com os barulhos dela.

Eu: Caralho, não dá.
Rafaela: Desiste, sério.
Eu: Que bosta de filme do caralho.

Ela sacudiu a cabeça e voltou a assistir o filme.

Eu: Na moral, que merda é essa? - apontei pra TV. - O que o cara tava pensando quando fez isso?
Rafaela: O Lars Von Trier? O diretor mais genial de todos os tempos?
Eu: Genial?! O cara tem todo o dinheiro do mundo pra fazer um filme e usa uma porra de um galpão com uns riscos no chão? Que porra é essa?
Rafaela: Mas essa é a ideia.
Eu: Qual a ideia? Matar as pessoas de tédio?
Rafaela: Hahahah.
Eu: Não dá. Prefiro me matar do que terminar de ver isso. Vai dizer que tu tá curtindo?
Rafaela: To sim.
Eu: Não é possível.

Ela voltou a rir e sacudiu a cabeça. A guria da recepção abriu a porta da nossa cabine:

Guria: Gente, não pode conversar, tá?
Eu: Esse filme é uma merda. Se eu não conversar, eu durmo.

Ela riu e fechou a porta. A Rafaela voltou a assistir o filme. Eu tentei também, mas já tava tão revoltado com aquilo que não consegui ficar quieto.

Eu: É muito sem noção. A mina tá na “casa” com o cara e a galera fica passando atrás. Dá pra ver tudo. - falei baixo pra guria da recepção não ouvir.
Rafaela: Sim. A ideia é mostrar que todo mundo sabe o que acontece, mas finge que não.
Eu: Hm.
Rafaela: Prazer, semiótica.
Eu: Tu também tem essa aula? Tu não faz outro curso?
Rafaela: Sim, faço publicidade, mas tenho a mesma matéria.

E aí a Rafaela ficou tentando me explicar o sentido que eu não conseguia enxergar naquele filme estranho do cacete. Quando não gosto de alguma coisa, é difícil alguém me convencer do contrário, mas deixei ela tentar. Até porque eu precisava entender alguma coisa pra fazer o trabalho. Ela falou com tanto amor e admiração pelo diretor que comecei a enxergar o filme com outros olhos. E sim, o filme era realmente estranho como eu tava pensando, mas a ideia era exatamente essa: ser estranho. Depois de alguns minutos me falando das influências do cara, que tinham vindo do teatro como eu já tinha previsto, resolvi dar mais uma chance e voltar a prestar atenção.

Rafaela: Tenta deixar o preconceito de lado e mergulhar na história. Tipo, veja os riscos no chão como paredes mesmo, sabe?

Concordei com a cabeça e voltei a assistir. E ficou menos difícil depois daquela explicação toda, mas não fácil. E eu acordei nos créditos finais.

Eu: Mano.
Rafaela: Hahaha.
Eu: Não acredito que eu dormi de novo.

Tapei o rosto com as duas mãos, querendo bater a cabeça na parede até desmaiar.

Eu: Perdi a porra do final. Não acredito que vou ter que voltar o filme de novo, caralho, não aguento mais essa bost…
Rafaela: Hahaha! Relaxa, posso te contar o final. Não vai fazer diferença no trabalho.
Eu: Não?
Rafaela: Não, tu só precisa escrever uma análise do filme no geral. Pelo que a gente conversou, tu entendeu o conceito. Escreve do conceito e tá tudo certo.
Eu: Porra. Valeu.
Rafaela: Por nada. - ela se levantou e começou a enrolar o fio do fone.
Eu: Entendo tu curtir, mas achei uma merda.
Rafaela: Sem problemas.

Ela pegou o pendrive com o filme na TV e saiu da sala rindo.

E pra piorar, eu ainda perdi todas as chamadas das aulas. Mas beleza, posso riscar a tarefa escrota de ver esse filme da minha lista de coisas escrotas pra fazer hoje. Peguei a mochila “estilosa” do Fred que não tinha nada a ver comigo e saí da sala depois de bocejar por uns 10 minutos. Tava foda.

Saindo da biblioteca, vi que a quadra e as lanchonetes tavam cheias de gente. Já era hora do intervalo. Mandei mensagem pro Matt, que veio me encontrar em frente à biblioteca.

Matt: E aí.
Eu: Achei uma bosta e dormi 4 vezes.
Matt: Hahahaha! Na moral mesmo? Eu curti.
Eu: Sou raso demais pra curtir essas profundidades.
Matt: Suave. Respondi pra ti as chamadas das aulas.
Eu: Orra, valeu!
Matt: E a Vicky botou teu nome no trabalho de sociologia.
Eu: Valeu. Vocês tão me ajudando pra caralho.
Matt: Suave.

Do nada chegou a mina do Matt e deu um puta beijo nele, como se eu nem estivesse ali. Era estranho falar “mina do Matt”, não só porque é o Matt, mas porque parece que não tem nem uma semana que ele terminou com a Larissa. É estranho. Depois que eles terminaram com a pegação em público, o Matt passou o braço por cima dos ombros dela e ela me olhou.

Raíssa: Oi, Thom.

Tinha alguma coisa estranha naquela mina, mas eu não sabia dizer o quê.

Eu: Er… Vou procurar o Fred.

Eu que não vou ficar ali pra ver o que acontece depois da noite sensacional que ele disse que teve. Mas no meio do caminho até a quadra, me lembrei que o Fred tava puto comigo. E que eu não tinha nenhum amigo além dele naquela faculdade.

Eu: Caralho. - reclamei sozinho.

Logo vi o Jota e seu black power passando perto de mim, e fui atrás dele.

Eu: Ei, Jota. Beleza?
Jota: Beleza e aí?

Outro cara popular da faculdade me perguntaria quem eu sou antes de falar comigo, mas o Jota é sempre gente boa. Ele tava usando uma camiseta colorida, daquelas de hippie, e o inconfundível black power tava ainda maior do que quando o vi pela primeira vez.

Eu: Sabe onde tá o Fred?
Jota: Tá na TV, terminando de editar o vídeo da Festa do Pijama.
Eu: Onde fica iss…?
Jota: Falou, cara. Preciso arrumar o projetor. A gente vai passar o vídeo daqui à pouco. Esteja lá!

Ele acenou de um jeito esquisito e saiu sem me deixar terminar de falar.
Eu não sabia onde ficava a tal da sala da TV, mas precisava chegar lá. Perguntei pra um cara que me indicou o segundo andar do bloco B, depois da segunda escada do corredor. Fiz o que ele disse e vi uma porta pintada de vermelho logo depois da segunda escada. Devia ser lá. Bati na porta, mas ninguém abriu, então resolvi abrir. Me deparei com uma sala não muito grande, toda pintada de preto, com vários equipamentos de filmagem jogados, uma mesa bagunçada com três computadores e um sofá de couro, onde o Fred tava sentado fumando um beck e morrendo de rir.

Fred: Daí ele viu o motel e foi jogando a moto pro lado esquerdo pra ver o que a mina falava! HAHAHAHA! Bizarro. - ele deu um trago no beck. - Tá ligado?

O tal Anchovas devia ser o cara de cabeça raspada mexendo no computador do meio e rindo das idiotices que o Fred falava.

Eu: E aí.
Fred: Que tu tá fazendo aqui, bixo?

O Anchovas me olhou.

Anchovas: É, bicho. O que tu quer?
Eu: Bixo é o rabo da tua mãe.

Falei pro Fred e me sentei do lado dele no sofá. O Anchovas até parou de mexer no computador e virou pra trás pra me olhar.

Anchovas: Comé que é?
Fred: Ele mora comigo, relaxa.

Ele sacudiu a cabeça e voltou a mexer no computador.

Fred: Que tu quer?
Eu: Tu tá de rosca ainda?

Ele deu outro trago no beck e não respondeu.

Eu: Se eu soubesse que tu ficaria puto, teria pedido permissão antes.
Fred: Eu não ia falar “não”, né, seu otário?
Eu: Então por que tu ficou puto?
Fred: Porra, tinha tanta mina no mundo e tu vai pegar ela? Assim tu fere meu orgulho, velho.
Eu: Qual o problema, cara? Faz mil anos que eu pego ela!
Fred: Como assim?!?! - ele quase queimou o sofá com a ponta.
Eu: Caralho, tua memória pra mulher é pior do que eu pensava.
Fred: Ah, mano.

Ele fez uma cara tão ruim que eu pensei que a ponta ia vir parar no meu olho, mas suspirou e deixou quieto.

Fred: Foda-se, vai. Essa história já deu o que tinha que dar.
Eu: Também acho. E não vou fazer de novo.
Fred: Não, agora foda-se. Pau no teu cu e dela.

Disse isso, se levantou e foi até a janela que dava pra quadra.

Anchovas: Não vai fumar na janela, ô, Lady Gaga.
Fred: Só vou apagar. Demora ainda essa merda?
Anchovas: Calma aí. Falta pouco.
Fred: O Jota tá fritando aqui me mandando mensagem sem parar.

Eles deviam estar falando do vídeo da Festa. Aquilo ia dar merda quando passasse a Vicky vomitando, mas beleza. Quanto antes isso acontecer, antes acaba. Sempre penso assim para os problemas que a gente não pode evitar.

Eu: Deixa eu dar um pega antes de tu apagar.

Me levantei e fui até a janela. Percebi que o Fred não tava mais puto comigo quando passou a ponta pra eu fumar. Bom que ele esquece rápido das coisas.

Fred: Olha lá. Falando no capeta…

Olhei pela janela e tentei procurar quem ele tava falando. Logo vi a Vicky lá embaixo, conversando com o Dudu. O Fred se debruçou na janela e ficou olhando.

Fred: O cara alopra ela e ela vai trocar ideia com ele depois. Que otária.
Eu: Não é otária, velho. Ela só não tá ligando. Do mesmo jeito que tu deu mancada com ela e ela quis ficar de boa contigo. Até te deu o brigadeiro, te pediu desculpa. A diferença foi que o Dudu levou numa boa e tu não. Aí ela tá falando com ele enquanto tu tá aqui remoendo. Tu que é otário.
Fred: Tá certo.
Eu: To te falando a real, ué. Tu que tá transformando isso num problema. Se fosse por ela, tava tudo de boa entre vocês.
Fred: Tá certo. Vai defender tua comida mais recente.

Traguei a ponta, que mal tinha mais o que fumar, e demorei um pouco pra entender o que ele tinha falado.

Fred: Ela mete bem?
Eu: A Clarissa?
Fred: Quem é Clarissa?
Eu: Porra, tá cada vez mais difícil conversar contigo.
Fred: A porra da Vicky, seu imbecil.
Eu: Eu vou saber?
Fred: Tu tava tão bêbado assim?

Apertei os olhos, tentando entender aquela conversa bizarra. Ele olhou pra janela de novo e viu a Vicky dando um abraço no Dudu.

Fred: Hein?
Eu: Eu não sei, cara. Que papo é esse? A gente não chegou a falar disso ontem.
Fred: Não precisa conversar pra saber.
Eu: Calma aí. Do que a gente tá falando?
Anchovas: Tá pronto o vídeo, Fred. Vou renderizar. Avisa o Jota.
Fred: Da tua noite de ontem, caralho. Ou de todas as tuas noites, já que tu disse que pegou a Vicky várias vezes.
Eu: Não, cara. Foi só ontem.
Fred: Mas como foi? Só quero saber se ela mete bem pra ver se minhas fantasias fazem sentido.
Eu: Não, velho.
Fred: Sabia. Ela deve ter vergonha até de gemer. Deve ser uma merda.
Eu: Eu não comi ela.
Fred: Tu é um lixo mesmo. Pega a mina e não presta nem pra comer.

Quando acho que o Fred não consegue ser mais maluco, ele dá um jeito de me surpreender. Primeiro fica puto porque eu comi a mina, depois fica puto porque eu não comi a mina.

Eu: Eu nem posso falar que PEGUEI ela, eu dei um beijo nela porque tava bem louco e só.
Fred: Não to entendendo porra nenhuma. Tu comeu ou não?
Eu: NÃO, VELHO!

Recebi uma mensagem da Layla: “To com teu dinheiro. Me encontra na frente do banheiro da quadra.”

Até que enfim uma notícia boa! Caralho, nem acredito.

Eu: Cara, preciso descer. Não sei que merda tu tá pensando, mas eu não comi a Vicky. Quem eu comi na tua casa foi a Clarissa.
Fred: Tu comeu alguém na minha casa?!?!
Eu: Esse papo tá só piorando. Falou.

Não podia enrolar pra encontrar a Layla nem por um segundo. Saí e deixei o Fred falando sozinho. Pude ouvi-lo do lado de fora da sala:

Fred: SE FOI EM CIMA DA MINHA CAMA EU CORTO TEU PAU FORA!

Desci as escadas correndo. Foi difícil chegar até o banheiro, a quadra tava um inferno. Tinha ainda mais gente do que o normal, parecia o dia em que o Fred disputou pra ser o novo integrante da TV. Devia estar todo mundo ali pra assistir o vídeo da Festa do Pijama.

Depois de muito esforço, finalmente vi a Layla. Quando tava chegando, o Matt me pegou pelo braço.

Matt: Cara, vai passar daqui à pouco. Cadê a Vicky?
Eu: Passar o quê?
Matt: O vídeo da festa, porra!

Sei lá, Matt, caralho. Tenho coisa mais importante pra resolver.

Eu: Não sei.

E a mina pendurada no pescoço dele tipo uma parasita. Eles não se largam, não?

Raíssa: Vamos sentar ali. - ela apontou pra um espaço vazio no segundo degrau da arquibancada.
Matt: Tu vem, Thom?
Eu: Daqui à pouco.
Matt: Ali a Vicky!

Vi a Vicky sentada alguns degraus mais pra cima, do lado do Dudu e uma outra guria amiga dela.

Matt: Vamos ali perto dela.
Raíssa: Ai, tá longe. Vamos ficar aqui embaixo mesmo.
Eu: Eu encontro vocês depois.

Deixei o casal falando sozinho e fui atrás da Layla, que tava me esperando na porta do elevador.

Eu: E aí.
Layla: Tá aqui. - ela me entregou um livro. - Aqui dentro.
Eu: Beleza. - respirei aliviado. Parecia um sonho. - Valeu mesmo.
Layla: Mas assim… Não tá tudo aí.
Eu: Como assim não tá tudo aqui?! Tu quer me foder?!
Layla: Fala baixo.
Eu: Porra, cara… Assim tu me fode, na boa.
Layla: Calma. Eu te entrego mais hoje à tarde. E mais amanhã de manhã. E aí pronto. Tu dá teu jeito, não dá?
Eu: Vou ter que dar. Caralho, Layla…
Layla: Foi mal. Foi o que eu consegui. To fazendo o que posso.
Eu: Porra, se foder. Se tu conseguiu isso, tu consegue mais. Me tira dessa.
Layla: Eu…
Jota: FAAAAAAAAAAAAAAALA, NEGADAAAAAAAA!

E eu nem consegui ouvir o que a Layla falou depois do surto da galera ao ouvir o Jota falar no microfone no palco da quadra.

Jota: Chegou o momento mais esperado da semana. Tem teaser da próxima festa, que vai ser do CA, e VÍDEO DA FESTA DO PIJAMAAAAAAAA, CARALHOOOOO!

É agora. Fodeu. Olhei pra cima e vi a Vicky com o Dudu. O Matt e a guria dele tavam no degrau de baixo. Ali onde eu tava eu não conseguia enxergar direito o telão no palco, então fui avisar a Layla que ia subir alguns degraus e que encontrava ela depois. Pra minha surpresa, a mina já tinha sumido. Vadia do caralho…

Jota: DÁ O PLAY, MACACO!

Disse isso e pulou do palco pra quadra. Enquanto subia os degraus até onde tava o Matt, pude ouvir o Fred berrando no início do vídeo: “AAAAAEEEEEEEEEEEE! FALA AÍ, WA!”. Engraçado que eu tinha visto ele gravando aquela parte na festa mesmo.

Me sentei do lado da mina do Matt, que tava com um perfume forte, mas bom. Lá de cima dava pra ver o quanto a quadra tava lotada de gente, todo mundo com os olhos vidrados no telão, só esperando as palas que iam aparecer. No andar de cima, pude ver o Fred debruçado na grade de proteção, assistindo o vídeo de lá.

——- CONTINUAÇÃO A PARTIR DAQUI —————- 

A Vicky tava sentada um degrau acima de mim com o Dudu. Dei uma última olhada pra ela antes de ver o vídeo. Ela parecia bem tensa. Coitada, velho. Foda é que eu me sinto culpado por ela estar passando por isso só por ser amigo do Fred. Sinto como se eu precisasse pedir desculpa, e parecia que o Matt tava meio assim também. O Fred faz a merda e a gente que se sente na obrigação de limpar.

E o vídeo foi acontecendo: cenas do Fred zuando bêbados que mal sabiam seus nomes, bixos envergonhados, veteranos engraçados, o Jota enfiando a câmera na cara de casais se pegando, depois o Jota entrevistando outras pessoas, cenas da galera fazendo bizarrices tipo subir na árvore da área de fumantes, andar pela festa de pijama rasgado, dançar de forma esquisita… E quanto mais o tempo passava, mais eu sentia a tensão da Vicky nas minhas costas.

E quando aquela cena passou, nem parecia ser verdade. O Fred segurando um urso de pelúcia que roubou de uma guria e dizendo: “E por hoje é só, pessoal! É assim que o Pernalonga fala?”. E os créditos da TV subiram.

Matt: Mano.

É, cara. Por essa eu realmente não esperava. O Fred não colocou a cena da Vicky passando mal. Ou tirou. Olhei pra Vicky, que tava boquiaberta, mas visivelmente feliz. Ela virou na direção do Fred, que tava no andar de cima, e disse “obrigada” com os lábios, sem emitir nenhum som. Ele acendeu um cigarro e assentiu com a cabeça de volta, pouco antes de ser empurrado por um segurança por estar fumando dentro da faculdade. E sumiu.

Matt: Não acredito, velho. - o Matt abriu um sorrisão.
Eu: Nem eu.
Raíssa: Muito booooom! Eles são muito engraçados! Hahahahah! E aquela parte que o Fred vira a garrafa no cara? Hahaha!

Essa mina me irrita um pouco, mas nem sei explicar por quê. Às vezes me sinto até meio estranho de falar que não gosto de alguém quando nem eu sei o motivo. Só não gosto. A Raíssa, a Vicky e o Dudu ficaram falando das melhores partes do vídeo, meio que ignorando que ela não tinha aparecido. O Matt se soltou da Raíssa por meio segundo e veio falar comigo.

Matt: Viu o filme?

Mais ou menos.

Eu: Vi.
Matt: Beleza. Agora sobe na sala 701 do bloco C pra fazer o trabalho. Lá tem vários computadores. Pega o trabalho no teu e-mail, a professora mandou por lá.
Eu: Que e-mail?
Matt: Tu tem um e-mail da faculdade.

Silêncio.

Matt: Obviamente tu não sabe qual é o teu, né?
Eu: Não.
Matt: Pega no meu e-mail então. Te passo por mensagem o login e a senha. Daí tu responde as perguntas que tão no arquivo, manda imprimir na sala 810, vai lá buscar e vai pra sala 303 do bloco B, onde vai ser a aula de Semiótica.
Eu: Já esqueci tudo.
Matt: Então se esforça pra lembrar, cara! Tá valendo teu semestre!
Eu: Beleza, beleza.
Matt: Tu deve demorar umas duas aulas pra fazer isso. Daí depois tem o segundo intervalo e depois é a aula. Dá tempo.
Eu: Tá.
Matt: Então vai, velho!

Me levantei com pressa, mas o Dudu interrompeu minha correria.

Dudu: Ei, antes de vocês irem! Vou tocar na festa dos bixos hoje, tão a fim de colar?
Eu: Que festa dos bixos?
Dudu: Da sala que ganhou os jogos.
Matt: O Thom tava em outra dimensão até ontem. Hoje é meio que o primeiro dia de aula dele.

É, acho que to meio por fora.

Dudu: Tiveram uns jogos aí entre as salas dos bixos, e a sala vencedora ia ganhar uma festinha por conta do Centro Acadêmico. Vai ser hoje.
Eu: Ah. Vamo aí.
Dudu: Demorou. É só colar mesmo. Tudo na faixa.
Eu: Então vamo certeza.
Matt: Thommo, vai fazer o trabalho.
Eu: Tu responde chamada pra mim?
Matt: Respondo. Fica sussa. Vai logo!

Se Deus existe de verdade, foi ele que botou o Matt na minha vida. O Fred também é um bom amigo, mas se dependesse dele, eu estaria indo pro bar agora. Aliás, é onde eu acho que ele tá.

Quando eu tava no elevador subindo pra sala onde ficavam os computadores, recebi a mensagem do Matt com o e-mail e senha dele.

Finalmente encontrei a sala, no sétimo andar. Confesso que naquela hora eu vi pra onde tava indo todo o dinheiro que eu tava me matando pra ganhar e pagar a faculdade. A tal sala 701 era gigantesca e só tinha computador foda. Tava meio cheia de gente na real, mas ouvi uns moleques comentando que “nessa época é sempre assim”. Época de entrega de trabalhos, imaginei. Me sentei numa das últimas fileiras e usei o login do Matt pra acessar o computador, depois o e-mail. Não entendi porra nenhuma daquele arquivo do trabalho de Semiótica, mas teria que me esforçar pra entender se não quisesse me foder. No fim tinha tanta gente fazendo o mesmo trabalho que eu que consegui pescar algumas coisas, e comecei a escrever as respostas. Só quando eu já tava na metade do trabalho eu percebi o quanto a conversa com a Rafaela tinha me ajudado.

Chegou um momento em que meu cérebro simplesmentre travou. Eu não conseguia escrever mais nada, não saía mais nada. Não tinha mais como encher linguiça. Nessa hora, um rosto conhecido passou pela multidão de estudantes tentando fazer trabalhos de última hora. Era uma guria que era da minha escola, provavelmente da minha sala. Eu não me lembrava do nome dela porque eu não era dos mais sociáveis no colegial, mas me lembrava da cara dela. Olhei pra ela, ela olhou pra mim, e a gente fingiu que não se conhecia. Melhor assim. Imagino o que ela devia estar pensando. “Esse maluco entrou na faculdade?”

Quando o bloqueio me bateu, achei que era hora de desligar o computador, sair pra fumar um cigarro e voltar depois. Olhei no relógio da tela. Não ia dar tempo. Que porra. Quanto mais os minutos passavam, mais difícil ficava pra escrever. O intervalo já tava pra começar e eu ainda não tinha conseguido terminar. Isso que dá passar a vida inteira sem fazer uma porra de dever de casa. Quando preciso fazer, não sei. Eu tava pra bater com a testa na tela.

Percebi que o segundo intervalo tinha começado quando o número de pessoas na sala duplicou. Era gente falando alto, tretando, apressando, ditando frases, discutindo respostas. Puta que o pariu. Cala a boca, todo mundo. Aquela barulheira foi me subindo a cabeça e eu achei melhor escrever qualquer merda que fosse, só pra sair dali. Precisava terminar logo aquela merda. Nunca fiz nada pra escola direito, não vai ser agora que eu vou fazer. Pelo menos tô entregando alguma coisa. Perguntei pro cara da mesa do lado como eu fazia pra imprimir um negócio, ele me explicou meio com pressa e eu me atrapalhei um pouco na hora de fazer, mas consegui. Tinha que colocar o arquivo numa pasta compartilhada, sei lá, e aí buscá-lo no andar de cima. Bem como o Matt tinha falado.

A sala de impressão tava ainda mais cheia de gente. Pelo visto eu não era o único irresponsável fazendo trabalho nos últimos segundos. Quando tava quase na minha vez de pegar o papel na fila, ouvi a voz do Felipe.

Felipe: Ei, Thom. Tava te procurando.
Eu: E aí.
Felipe: Muito trabalho?
Eu: Um só. Mas tá osso.
Felipe: Hahah. To ligado, é foda. Se liga, tudo certo com a faculdade, beleza?
Eu: Como assim?
Felipe: O Digo já acertou tudo. - ele abaixou a voz pra falar. - Todas as tuas faltas até agora foram abonadas e tá tudo certo com as mensalidades.
Eu: Tá falando sério? - falei mais alto do que deveria.

Finalmente uma boa notícia!

Felipe: Muito sério. Agora tu só precisa tirar as notas acima da média pra passar e não pode ter mais nenhuma falta.
Eu: Sussa.
Felipe: Tu consegue, certo?
Eu: Pode deixar.
Felipe: Então de boa. - ele me deu uns tapas nas costas. - E o Digo tá cobrando o cash da Festa do Pijama. - falou mais baixo ainda.
Eu: Pode crer. Vou falar com ele. A gente se desencontrou.
Felipe: Firmeza, cara. Só isso mesmo que tinham me pedido pra te passar.

Por um segundo passou pela minha cabeça comentar com o Felipe sobre o cara amarrado no Z Club. Pra caso ele soubesse de algo, não sei. Mas logo mudei de ideia. Era um assunto tenso demais pra eu falar com ele. Melhor seria falar direto com o Digo, coisa que eu ia fazer hoje, sem falta. Eu não ia conseguir dormir sem resolver aquilo.

Eu: Beleza.
Felipe: Falou, Thom. EI, LUCÃO! TU IMPRIME PRA MIM? - berrou pra um moleque, acenou e saiu fora.

Quando finalmente consegui imprimir meu trabalho, já tava quase na hora da aula. Nem dava pra acreditar que eu tinha perdido uma porra de um intervalo inteiro fazendo trabalho. Nem tava me reconhecendo. Mas era isso que eu precisava fazer pra não aumentar ainda mais minha dívida com o Z Club. Não que eu estivesse reclamando, eu tava bem feliz por ter quitado aquilo sem precisar chorar dinheiro pro meu pai. Liberdade.

A aula tava quase começando, e a sala ficava no outro prédio. Desci de elevador, corri até a quadra e subi até a sala de escada pra não perder tempo. Corri tanto que cheguei suando, mas consegui entregar antes de a professora começar a chamada. Deixei meu trabalho em cima da mesa dela e me sentei do lado do Matt, que tava numa das fileiras do fundo.

Matt: Conseguiu? Tudo certo? - ele parecia ansioso.
Eu: Aham. - respondi, ofegante.
Matt: Aí sim, cara! - ele sorriu e me deu um high five.

A aula passou rápido e nem era tão chata quanto eu tava imaginando. Bem que o Matt tinha dito que eu ia gostar. Ela passou os cinquenta minutos falando do trabalho de um cineasta francês chamado Jean-Pierre Jeunet. Falando assim parece assunto tedioso de baitola pseudo cult, mas tava interessante mesmo. E pelo que eu tinha entendido, ela ia falar de um diretor por aula até o próximo mês, e no final do semestre a gente teria que entregar um curta baseado no diretor que fosse escolhido pelo nosso grupo. Não sei. Parei de prestar atenção quando ela falou “trabalho”. Chega de trabalho, puta que pariu.

A aula terminou e recebemos a notícia que o professor da aula seguinte tinha faltado. Valeu, universo. Eu tava com muita fome e com overdose de faculdade. Eu e o Matt saímos comemorando.

Eu: Tá meio cedo, mas tu tá a fim de almoçar? To vidrado.
Matt: Pior que eu to com fome também.
Eu: Tem alguma coisa pra fazer em casa?
Matt: Claro que não.
Eu: Puta merda, velho. A gente precisa ir no mercado. Eu sei que é uma merda, mas a gente precisa ir. Não dá pra ficar gastando dinheiro pra comer fora todo dia.
Matt: Eu to ligado. A gente vai amanhã, pode ser?
Eu: Por mim, pode. Só precisa ser depois da minha aula à tarde.
Matt: Suave. E nem me fale de dinheiro, to precisando arrumar um emprego.

Não pergunta do meu emprego, não pergunta do meu emprego, não pergunta do meu emprego.

Matt: Como é lá onde tu trabalha?
Eu: Ah… Tu sabe.
Matt: Tu só fica servindo as bebidas?
Eu: É.
Matt: Mas sempre tem gente lá no horário que tu vai?
Eu: Ah, tu sabe, não tenho muito horário. Vou pra lá ajudar quando precisam.

Eu não sabia mais como enrolar. E fico mais nervoso ainda quando sei que to tentando enrolar o Matt, que sempre sabe das coisas.

Eu: Sirvo as bebidas, limpo alguma coisa se precisar, ligo no eletricista pra arrumarem a luz. Faço de tudo um pouco.
Matt: Saquei. Tu é o estagiário do bar.
Eu: Tipo isso.
Matt: É, eu precisava de alguma coisa assim.

Passamos pela catraca e saímos na rua.

Matt: Mas não lá onde tu trabalha. Achei a galera sinistra demais.
Eu: Quem fala “sinistro”? - mudei de assunto pra me livrar daquilo.
Matt: HAHAHAH! Falando nisso, melhor avisar o Fred que a gente tá indo almoçar.
Eu: Pra quê? Ele tá tendo aula agora.
Matt: Ah, ele sempre fica puto quando a gente faz alguma coisa e não chama ele.
Eu: É só um almoço, velho.
Matt: Vou avisar.

O Matt mandou mensagem pro Fred não dar piti e nós decidimos almoçar no bar da esquina mesmo. Era o menos caro da região e o mais perto da faculdade, pra onde eu ia precisar voltar quando começasse a aula de recuperação de finanças. Que inferno passar por aquilo. Enquanto a gente conversava, reparei que o celular do Matt não parava de vibrar e piscar.

Eu: Que isso, cara?
Matt: Mensagem.
Eu: Tá parecendo telefone de puta.

Ele riu, mas não foi pra mim. Foi pra tela. Na moral, era tanta mensagem que eu nem conseguia contar. Devia estar falando com a Raíssa, e ela devia ser no mínimo louca pra mandar tudo aquilo.

Os lanches demoraram tanto pra chegar que, enquanto a gente comia, a aula terminou e a galera começou a sair da faculdade. A rua, como sempre, ficou parecendo um mar de gente.

Matt: Olha o Fred ali.

Pudemos ver o Fred do outro lado da rua conversando com uma guria bonitinha, de cabelo bem comprido e castanho. Devia estar cozinhando pra pegar.

Eu: E tu preocupado que ele ia se importar com o nosso almoço.

O Matt sacudiu a cabeça, mordeu um lanche e puxou um fio de queijo com os dentes.

Vicky: Oi!

A Vicky passou pela nossa mesa e parou pra nos cumprimentar.

Eu: O que tu tá fazendo aqui ainda? O professor da última matéria nem veio. Tu não tava na sala.
Vicky: Ah, eu fiquei enrolando na quadra porque pego carona com uma menina de Relações Internacionais pra ir embora. Vocês vão na festa deles hoje?
Eu: Qual vai ser o esquema?
Vicky: Vai ser na república de uma menina que é amiga dessa minha amiga que me dá carona.
Eu: Acho que eu entendi.
Vicky: Vamos! Vai ser legal.

O Dudu passou do nosso lado e colocou a mão na cintura da Vicky pra falar com a gente.

Dudu: E aí. Porra, vocês comem aqui todo dia, né?
Eu: E tem alguma coisa naquela geladeira?
Dudu: Hahaha. Pior que não, cara. E aí, vão hoje?
Vicky: A gente tava falando disso agora.
Eu: Vamos sim.

O viado do Matt não respondia porque não tirava a fuça do celular. Mas eu respondi por ele.

Dudu: Demorou. Eu vou ensaiar agora à tarde e ir pra lá direto da casa do Tomate. Vejo vocês à noite. Tu tá indo pra casa, Vicky?
Vicky: To.
Dudu: Quer carona?
Vicky: Ah, eu ia com uma amiga, mas aviso ela.
Dudu: Vem com a gente, o Tomate tá na outra esquina. Ele te deixa em casa.

Ela deu de ombros, se despediu da gente e foi atrás dele. Foi só o Dudu sair da minha frente que vi o Fred beijando a menina do outro lado da rua.

Eu: É, acho que tudo voltou ao normal.

E o Matt respondendo mensagem no celular.

Eu: MATHEUS.
Matt: É. Voltou.
Eu: Nem dá pra acreditar que o Fred não sacaneou a Vicky e tirou a cena dela do vídeo.
Matt: Acho que ele se tocou que a guerra contra ela não fazia o menor sentido. Tirou a parte dela do vídeo, ela agradeceu, e agora é cada um na sua.
Eu: Melhor assim. Quase apanhei pela possibilidade de ter comido ela.
Matt: Tu comeu ela?
Eu: Não.

Ele fez uma cara estranha, tentando entender.

Eu: Deixa quieto.

A gente terminou de comer, fumou um cigarro, eu me despedi e fui pra aula de recuperação de finanças rastejando. Era o último lugar onde eu queria estar. Tava morrendo de sono por causa do almoço pesado e por não ter dormido direito à noite.

Chegando na sala, reparei que tava todo mundo estranhamente sentado no mesmo lugar da última aula. O casal, os quatro amigos, as duas gurias e o moleque gay. Me sentei num lugar diferente, porque até nisso queria ser do contra. Fiquei um pouco atrás do moleque, que tava escrevendo alguma coisa numa folha de papel com a caneta colorida.

O professor tava atrasado e não tinha aparecido ainda. Bem que ele podia faltar também. Me lembrei da aula passada, que eu não sabia resolver porra nenhuma do exercício e o viadinho me ajudou, logo depois de eu ter sido um babaca. Todo mundo da sala tava conversando, menos a gente. Resolvi puxar um assunto pra agradecer. Era o mínimo que eu fazia. Além disso, eu podia precisar da ajuda dele pelas próximas aulas também.

Eu: Ô. - ele não olhou, então chamei de novo. - Ô!
Renan: Tá falando comigo? - ele olhou pra trás.
Eu: Valeu pela aula passada.
Renan: Valeu nada! Quero algo em troca. E não pensa besteira, não to te xavecando. - ele riu.
Eu: Hahaha. Sussa.
Renan: Tu nem faz meu tipo.

Fiquei pensando no que poderia oferecer em troca pra garantir meus exercícios de finanças até o final do curso.

Eu: Tu curte umas paradas?
Renan: Que paradas?
Eu: Tu sabe.
Renan: O que tu tem?

Pensei um pouco pra responder. Ele sabia do que eu tava falando.

Eu: Curte um Key?

Resolvi oferecer ketamina, que eu arranjava fácil com o Sick Boy ou mesmo no Z Club.

Renan: Dos bons?
Eu: Claro.
Renan: Líquido?
Eu: Claro que não, né, cara?
Renan: Então obrigada. - ele virou pra frente.
Eu: Tá maluco? Keta em líquido derruma um cavalo por 1 hora.
Renan: HAHAHAHAHA!

Ele deu uma risada escandalosa que fez com que eu me arrependesse por ter puxado assunto.

Renan: Sabe de nada.

Porra, Ketamina em líquido não ia ser fácil encontrar. Precisava oferecer algo que estivesse mais ao meu alcance.

Eu: Crystal?
Renan: Haha. Tá bom.
Eu: O quê? Tá duvidando?
Renan: Tu não consegue nem Keta, amiga.
Eu: Crystal death.
Renan: Oi?
Eu: Te trago na sexta se tu fizer meus trampos até lá.

Ele ficou me olhando, pensativo. Depois sorriu.

Renan: Faço teus trampos e dos teus amigos.

Sorri de volta. Negócio fechado.

Renan: Thomaz, né?

Assenti com a cabeça e ele virou pra frente. Não demorou muito pro professor chegar e começar a aula. Naquele dia não tivemos que fazer nenhum exercício, mas se tivesse precisado, eu estaria tranquilo. Essa bicha vai me servir pra alguma coisa.

Terminada a aula, passei em casa pra pegar a grana da Festa do Pijama na gaveta e me lembrei que a Layla ainda tava me devendo. Se aquela mina não me pagar, eu juro, eu mato ela. De verdade. Pra minha sorte, não tinha ninguém em casa quando entrei e saí. Fui correndo pro Z Club pra resolver logo tudo aquilo, dar a grana, pegar mais Crystal, falar sobre o cara amarrado, agradecer por terem me ajudado na faculdade e implorar pra eles botarem o Carlão pra trabalhar comigo de novo.

Chegando lá, encontrei o Rod logo no bar de entrada conversando com um cara que eu nunca tinha visto. Ele falou comigo como se nada tivesse acontecido.

Rod: O Digo tá te esperando na sala do Doctor.

Não respondi, mas fui pra lá. Passar em frente a sala onde vi o cara todo fodido me deu um arrepio bizarro. Reparei que a porta tava propositalmente aberta, pra eu ver que não tinha mais ninguém lá dentro. Eu sentia que o Rod tava me secando até eu entrar na sala do Doctor, onde vi o Digo sentado numa cadeira contando notas de dinheiro.

Digo: Fala, Thomaz. Chegou na hora certa.
Eu: Opa.

Tirei o punhado de notas do bolso e dei na mão dele.

Digo: Vendeu tudo mesmo, hein, cara? Tu é foda.

Não respondi, mas minha vontade era falar “sou mesmo”. Ele ficou falando sobre o quanto tinham vendido naquele mês, que o Felipe precisava dar uma levantada nas vendas dele, etc etc etc. Eu nem conseguia prestar atenção, só ficava pensando em como eu ia começar o assunto do maluco amarrado na sala.

Digo: E lá na faculdade, tudo beleza? O Felipe falou contigo?
Eu: Falou, mano. Valeu pela ajuda, de verdade.
Digo: Que isso, não precisa te preocupar. E tu não vai ficar sem teu salário, beleza? A gente só vai pegar uma parte pra quitar tua dívida da faculdade. Nem vamos chamar de dívida, né? Tu não tá devendo nada. - ele soltou uma risada pigarrenta de fumante. - Já pagamos tudo. Mas tu sabe.
Eu: Sim, deu pra entender.
Digo: Só isso? - ele falou, meio que encerrando o assunto.
Eu: É…
Digo: Precisa de quanto de Crystal pra agora?
Eu: Pra agora não tenho nada fechado. Preciso do mesmo de sempre.
Digo: Alguma festa pra essa semana, onde tu vai vender pra caralho? - ele riu.
Eu: Por enquanto não. Só umas de boa.
Digo: Sem problemas. Tu praticamente já bateu tua meta do mês.

Reparei que ele tava me elogiando meio demais.

Eu: Precisava falar uma coisa contigo.
Digo: É sobre o Carlão?

Não era, mas também não seria má ideia falar dele. Ele percebeu a animação no meu rosto.

Eu: Cadê ele?
Digo: Olha, Thom… O Carlão tá passando por um momento delicado.
Eu: Eu sei. Eu pedi desculpa, eu…
Digo: A gente sabe, mas ele toma muito cuidado com essas coisas. Ele ficou bem incomodado com a tua amiga atrás dele.
Eu: Aquela guria é maluca, ela não é minha amiga. O Carlão tinha que entender isso.
Digo: Eu também acho, parça. Mas as coisas são como são.
Eu: Tenta falar com ele, por favor. Eu curti muito trabalhar com ele. Ele é gente fina e confiável.

Pra não dizer que ele é a única pessoa em quem eu confio nesse lugar.

Digo: Vou tentar.
Eu: E tem outra coisa. Vi um bagulho estranho aqui.

Falei rápido pra acabar logo com aquilo, sem ele me interromper e sem eu ter tempo de me arrepender.

Digo: Que bagulho?
Eu: Um cara. - engoli seco. - Tipo, eu sei o que eu vi, não sei como as coisas funcionam aqui, mas eu sei o que eu vi. E achei que seria melhor falar contigo, porque não me pareceu certo.
Digo: Pode falar.

Achei melhor fechar a porta antes de continuar, e voltei pra falar com ele, que tava me olhando com toda atenção.

Eu: Vi um cara amarrado numa cadeira na sala do lado direito do bar, vindo pra cá.
Digo: Agora?
Eu: Não, calma. Foi ontem. Anteontem. Já nem sei.

Eu tava nervoso pra caralho.

Eu: Nem sei se eu devia falar.
Digo: Fala, Thomaz.
Eu: O cara tava amarrado numa cadeira dentro da sala, todo fodido, machucado e ensanguentado. Parecia que tava ali há dias. Inchado de tanto apanhar.
Digo: Aqui dentro?
Eu: Sim. Eu vi sem querer. Ouvi um barulho estranho, abri a porta e vi.
Digo: Abriu uma porta que ninguém te autorizou abrir?

Eu to falando que um ser humano torturado tava aqui dentro e o maluco tá preocupado se eu abri uma porta que não me foi autorizada?

Digo: Olha, Thom. Eu vou investigar.
Eu: Tu sabia que essas coisas acontecem?
Digo: Não, não sei do que tu tá falando. Vamos investigar. Tu contou pra mais alguém?

Não sabia se falava do Rod ou não.

Eu: Não.

Entre apanhar ou não apanhar…

Digo: Ok.
Eu: Na moral, tu precisa fazer alguma coisa. Podia ser um concorrente, ou algum cliente que tava devendo, não sei… Mas não achei que tu concordasse com isso.
Digo: Não. De forma alguma, não concordo. Se isso tá acontecendo, precisa ser investigado.
Eu: Foi naquela sala do lado do…
Digo: Certo. Ei, tu precisa de um motorista, certo?
Eu: Ahn… Eu precisava do Carlão, na real. Pra me levar nos clientes, pegar mais Crystal quando precisasse, essas coisas.
Digo: Vou te arranjar um, beleza?
Eu: Tá…
Digo: Não vai ser o Carlão, infelizmente. Mas tenho o cara perfeito.
Eu: Beleza.

Ficamos em silêncio.

Digo: Mais alguma coisa?
Eu: Não.
Digo: Beleza. Pega tua parada com o Synyster e pode partir. Quando tu voltar aqui, espero já estar com teu novo parceiro de crime. - ele deu outra risada.
Eu: Suave.
Digo: E vou ver sobre o maluco pra ti. Fica tranquilo.

Ele se levantou e me guiou até a porta.

Digo: Pode ficar tranquilo.

Me botou pra fora da sala e fechou a porta. Beleza, vou tentar ficar. Pelo menos minha parte foi feita. Falei sobre o que eu vi com o Digo e, aparentemente, o cara sumiu. Pelo menos naquela sala ele não tava mais. Peguei mais um pouco de Crystal com o Synyster, que não tava muito longe do Rod, e fui embora. Guardei tudo na mochila.

Na república, me deparei com uma cena que parecia mentira. Encontrei o Fred sozinho na sala, fumando maconha e jogando video game. De lá, dava pra ouvir a Raíssa gemendo alto pra caralho do quarto do Matt.

Eu: Isso tá acontecendo?
Fred: O quê? - o Fred deu um trago no beck e quase bateu o carro no jogo.
Raíssa: AAAAAAAAAAII!
Eu: Tu jogando e o Matt….?
Fred: Pois é. Tá a fim de uma party loca hoje?
Eu: Festa dos bixos de RI?
Fred: Já tá sabendo, é?
Eu: Vamo aí. Só preciso dormir um pouco.
Fred: Demorou. Vou dormir também. Mas vai ter que ser na casa de alguma mina, porque o puto do Matt chegou aqui primeiro.

Sacudi a cabeça e fui pro meu quarto ouvindo a sinfonia da Raíssa. Guardei a mochila no guarda-roupa, fechei a porta e deitei na cama pra dormir. Eu precisava tirar um cochilo antes de ir pra festinha à noite, senão ia precisar tomar alguma coisa pra ficar acordado. E mesmo com a porta fechada, dava pra ouvir os dois no quarto do lado.

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E eu me sinto tão bem quando estou contigo, de um jeito que não fico com mais ninguém. É só você chegar de mansinho, pedindo carinho, que eu me entrego. Nós poderíamos passar um dia inteiro abraçados, em silêncio, quietinhos ouvindo o bater dos nossos corações pulsando ritmadamente, produzindo uma canção silenciosa, frenética, desenfreada e romântica. Eu poderia te olhar por horas, e não cansaria. Eu poderia estudar teu corpo inteiro sem deixar passar nenhum detalhe desapercebido. Eu poderia entrelaçar meus dedos nos teus cabelos negros e me perder no céu da sua boca sem pressa nenhuma de me achar. Na verdade, a gente poderia até casar, mas nós dois somos descompromissados demais com o mundo e suas regras. Eu nem sei mais o que somos, já fomos amigos, namorados, e estamos em um estágio tão superior a essas duas coisas que não existem palavras nos dicionários de língua portuguesa com a capacidade de nomear o ápice do amor em que nós dois conseguimos chegar. Como foi estabelecida essa indefinição? Quando dançamos juntos ao som de Beija-flor, do Cazuza? Ou quando você, por carência ou loucura, decidiu beijar a minha boca pela primeira vez na biblioteca central da cidade? Confesso que não sei, tudo o que sei é que o seu nome está encoberto por detrás das rimas dos meus poemas mais bonitos, assim como o meu nome está encoberto por detrás das tuas músicas mais perfeitas. Eu amo você, e amo a nossa indefinição. É um prazer desmedido para mim ser a inquilina que habita no seu abraço e no âmbito mais profundo do seu coração.
—  Silvia Mendes
Eu era um jovem, passando fome e bebendo e tentando ser um escritor. Fiz a maior parte das minhas leituras na Biblioteca Pública de Los Angeles, e nada do que eu li tinha a ver comigo ou com as ruas ou com as pessoas em minha volta. Parecia que todo mundo estava brincando de jogar com as palavras, que aqueles que não diziam quase nada eram considerados escritores excelentes. Seus escritos eram uma mistura de sutileza, artesanato e forma, e era lido e era ensinado e era ingerido e acabou. Era um esquema confortável, uma Cultura da Palavra, muito malandra e cheia de nove-horas. Era preciso voltar aos escritores da Rússia pré-revolucionária para achar alguma ginga, alguma paixão. Havia exceções, mas essas exceções eram tão poucas que a gente as lia logo, e lá estava você olhando para filas e filas de livros chatos pra caralho. Com séculos para olhar para trás, com todas as suas vantagens, os modernos não davam pra saída. Tirei livro após livro das estantes. Por que é que alguém não diz alguma coisa? Por que é que ninguém sai gritando? Tentei outros livros na biblioteca. A seção sobre religião era um pé no saco. Fui pra filosofia. Encontrei alguns alemães amargurados que me animaram um tempo, mas não passou disso. Tentei matemática, mas matemática superior era igualzinho religião: não saquei bulhufas. O que eu precisava parecia não existir em lugar algum.
—  Charles Bukowski.