minguado

Vivemos o tempo da demora e resposta lentas. Vivemos o tempo da exaustão, da precariedade dos sentimentos, das lutas diárias pelas buscas e da incansável procura pelo ser e ter. 

Vivemos o tempo que esquecemos de viver. Vivemos, dia a dia, um tempo que era para ser nosso, mas que acabou sendo de ninguém.

 Vivemos o tempo de combates de egos e status.

Vivemos o tempo do amor minguado, da esperança privada, da fome de prazer, do amor escasso. 

Vivemos o tempo da perdição. 

Vivemos o tempo das descobertas científicas avançadas, das pessoas emproadas, dos sorrisos amarelos. 

Vivemos o tempo da insatisfação.

Vivemos sem saber que o tempo vive. O tempo corre e ninguém dá conta. 

Vivemos o tempo dos relógios digitais, das mentes digitais,  dos amores digitais e de pessoas individuais.

Vivemos o tempo da tristeza, do insucesso, da incapacidade de lidar com o outro. 

Vivemos o tempo da perda, da falta, do vazio provocado por ninguém e por todos. 

Vivemos o tempo dos conhecidos totalmente desconhecidos.

Vivemos o tempo que não sabemos viver. 

Vivemos o tempo em conjuntos totalmente desfragmentados. 

Vivemos o tempo da lassidão e intromissão.

Vivemos o tempo que há tantas outras coisas para fazer que viver já não é essencial. 

— Túlio Santos. 

eu quero esquecer que você esteve aqui, somente. fingir que foi só um devaneio insano e eu acordei; com um choro engasgado, sem saber o porquê. mas que não me travou o riso. não me apagou e fez com que eu sentisse como se nunca tivesse brilhado. eu quero acender de novo a minha lamparina interna e fazer de conta que não fiquei aqui, só com os minguados de ti, só com o que você se permitiu deixar pra trás. mas metades não nada, meu bem. migalhas estão longe de ser alimento de verdade e tua ausência há de parar de me corroer. porque um dia eu vou te encontrar e minhas retinas não marejarão mais. porque restos não são inteiros e um dia desaparecem completamente. vai doer e dói, mas eu ei de suportar e te apagar de vez. fazer de ti um cisco que não lacrimeja mais nos meus olhos. meu coração, de ti, será só escassez e você se tornará mísero e irrelevante. porque o meu todo, não foi o suficiente pra você ficar. as marés me lançaram pra fora do teu mar e tentando te encontrar, eu me perdi de mim. tentando te pertencer, eu deixei de ser minha. eu esqueci de existir, só pra te completar e mesmo assim, eu não fui o bastante.  me rasga saber que você não quis se encaixar em mim, nem me deixou tentar caber no teu todo. e a verdade é que você me mata, todas as vezes que escolhe não se arriscar. todas as vezes que se entrega na primeira batalha de uma guerra, que talvez, eu tenha travado sozinha. de olhos fechados, imaginando que no primeiro puxar dos gatilhos, eu estaria salvaria sob a proteção das suas asas. asas que nem se quer existiram. o horizonte púrpura que eu criei pra nós, foi quimera. 

eu via o crepúsculo eclodindo nos teus olhos e pensava que eu poderia ser sempre tua alvorada.

B.

Absolvição

Estou fora a mais ou menos 120 horas, e o motivo não é somente escolha de ficar retirado de tudo e de todos. Sempre há um motivo, e na maioria das vezes, pensar nele é assustador. Não trate esse vazio que venho causando como mero descaso com o seu benquerer. As minhas ausências é anti-dor, não para mim, tão somente a você. É injusto gozar desse desejo encarcerado, a mercê de uma inútil tela de computador, quando se nem ao menos é possível teletransportar-se. As suas palavras com codificação já não são apenas linguagens ao vento, fazem sim todo o sentido e me servindo a insinuação. Conheço que o meu mistério fascinante esteja se afundando em repelência. Não me permita romper seu zeloso âmago, impeça-me se puder, só não mendigue o meu ficar. O envolvimento é irreal, a afeição é utópica, e acredite, a dificuldade é tão para mim quanto a você. Posso ser tanta coisa capaz de contundir-te. E se por ventura, ainda houver um minguado de afeição para comigo, escute-me; siga o meu pedido, mas não o trate com desdém: 
- Não permita que eu dilacere sua alma. Não aceite minhas causas infundadas de distanciamento. Mantenha certo limite; não me deixe alcançar seu íntimo. Sou uma verdadeira arma, não aperte o gatilho. E se possível, faça uma declaração, em papel selado, na presença de um advogado. Por que não? 

JJ. Literato Sensato

No meu próprio papel.

Eu troquei a fechadura do meu coração, tranquei as janelas e lacrei as frestas abertas. Eu deixei a poeira sentimental infestar a casa inteira, nada é capaz de limpar os destroços que o passado deixou aqui. Minha alma enegreceu. Não há quem possa me salvar. Quando é que vão aprender? Eu sou solitária, meu Deus! Nasci pra ser solitária. Os dias pesam em mim como uma dolorida eternidade caótica. Eu tenho claustrofobia do mundo, meu ser é sobejo e eu não caibo em lugar algum. Eu morro todos os dias. E das cinzas renasço, pra morrer de novo. Minha alma se deteriora a cada mísera tentativa de rejuvenescimento, e minha essência se vai aos bocados junto com minguados suspiros de melancolia. Recobrei minhas forças, para ao menos assistir minha vida passar como se não fosse minha, gastei toda a minha energia gritando no vácuo, suplicando que devolvessem o que era meu, e foi quando percebi que nada nunca foi meu de verdade, era só uma bela ilusão criada pelos meus inúmeros devaneios de fim de tarde. E aqui estou eu, minguada, aos barrancos, incapaz de produzir a própria história. Talvez seja difícil entender que não preciso de remendos, que minha essência se fez assim, por livre arbítrio, por livre experiência, sei viver com a minha escuridão, não peço por luz, e sim por paz, emano toxinas para que mantenha distância, não use máscaras no meu palco, aceite minha natureza selvagem e nômade, ou não aceite e vá de uma vez, mas não fique aqui, dançando nos meus sentimentos, não me deixe assistindo enquanto você altera minha coreografia para se adaptar ao seu ritmo. Minha dança é de um só, meu palco só cabe em mim, nasci pra ser assim.

Requietude deu as mãos à Catacrasear. 

Então, é isso.
Já tenho por certo que não sou de garbo,
minha elegância trago por dentro.
E digo sim que me afeta o fato,
o desacato,
o desalento,
o desatento jeito de viver que tenho.
Desajeitado mesmo.
Não nego que me afeta o fardo,
de ser assim,
dolorida,
delicadamente em desuso.
Não brado palavra,
calo quase sempre,
ruborizo,
me escondo,
eternizo meu
casulo.
Me transformo em minguados movimentos,
há muitas borboletas já.
Tenho por certo, minha sina é está,
experimentar sufocos,
passar do tempo,
perder a hora,
não voar direito.
Não vou ter meu nome em dourado,
nem vociferar,
nem sequer falar mais alto.
Vou sempre descansar a cabeça na mão esquerda,
para ouvir alguém falar.
As soluções não virão de mim,
se me complico…
Não explico,
nem suplico,
nem fico mais inebriada com discursos.
Sei-me assim cansada um pouco dos humanos de sempre.

Descortinar

Tua escassez me deixou aos farrapos

Acho que ceguei tuas pupilas, babe. Incendiei tua íris com a minha luz ofuscante e diluí tuas falsas promessas. É que o amor é uma arma e eu vivo atirando no escuro. Do chão gélido do meu quarto, vejo-te virando poeira no abismo de mim, escorrendo do meu reservatório, esvaindo através de um só estalar de dedos. Eu mergulho no teu vazio e grito, imploro, deságuo: “Não me deixa sumir nas incertezas do teu piscar de olhos castanhos. Não me deixe fundida à solidão de te esperar porque eu logo bato as asas e não pouso mais aqui. Não me deixa cair desse trapézio onde subi com a segurança de que haveriam braços prontos pra me alcançar no fim do salto”. Mas meu esforço é em vão, minhas súplicas são jogadas ao vento e só o que se percebe, é minha respiração debilitada que se propaga no teu vácuo interno. Eu estou exausta de nadar contra a corrente e morrer na praia, dear. Eu me atirei nos teus minguados de mar e morri afogada. Logo você, que era como anestesia para as minhas feridas, insiste em ser ácido clorídrico que me penetra e queima a pele.

Eu lhe entreguei meu peito botão de flor, mas você se esqueceu de regar. Morri tentando florescer.