minguado

tu me estragou nas noites em que eu fervia de querer
e tu nunca me pedia pra ficar
e eu acabava amuada por não me bastar com aquilo
que não tem nome mas tem lugar pra abrigar
que é minguado em ti mas me ocupa até o pescoço
e que não ouso chamar de amor.

tu reduziu todo título-frase dos livros
que eu comprava só pela beleza dos nomes.
tu reduziu minha identidade de sujeita que se sujeita demais
a sentir pelo outro sem condições
sem lenço sem documento.
tu desbotou a cor dos pontinhos
que eu ainda podia ver quando fechava o olho
pra não ver tua cara escancarada em tudo.

não faz eu te beber inteiro
enquanto tu me mastiga e não engole.
não faz eu suar calafrio
enquanto tu me envenena com toda palavra que soa cruel
porque nasce na tua boca.
não faz eu me afogar com lágrima salinizada
enquanto tu nutre teu ego inflamável
porque tu tá fora de cogitação.

não faz eu embaçar o céu
porque esse é mais um dia do meu processo
de sem ti eu viver bem demais.
não faz o tempo ficar feio
como quando eu agi pelo pulso.

não faz eu esquecer de onde vim
não faz eu continuar indo embora de outros corpos
não faz eu não me permitir atravessar outras almas
não faz eu não me permitir amar em expansão.

eu quero esquecer que você esteve aqui, somente. fingir que foi só um devaneio insano e eu acordei; com um choro engasgado, sem saber o porquê. mas que não me travou o riso. não me apagou e fez com que eu sentisse como se nunca tivesse brilhado. eu quero acender de novo a minha lamparina interna e fazer de conta que não fiquei aqui, só com os minguados de ti, só com o que você se permitiu deixar pra trás. mas metades não nada, meu bem. migalhas estão longe de ser alimento de verdade e tua ausência há de parar de me corroer. porque um dia eu vou te encontrar e minhas retinas não marejarão mais. porque restos não são inteiros e um dia desaparecem completamente. vai doer e dói, mas eu ei de suportar e te apagar de vez. fazer de ti um cisco que não lacrimeja mais nos meus olhos. meu coração, de ti, será só escassez e você se tornará mísero e irrelevante. porque o meu todo, não foi o suficiente pra você ficar. as marés me lançaram pra fora do teu mar e tentando te encontrar, eu me perdi de mim. tentando te pertencer, eu deixei de ser minha. eu esqueci de existir, só pra te completar e mesmo assim, eu não fui o bastante.  me rasga saber que você não quis se encaixar em mim, nem me deixou tentar caber no teu todo. e a verdade é que você me mata, todas as vezes que escolhe não se arriscar. todas as vezes que se entrega na primeira batalha de uma guerra, que talvez, eu tenha travado sozinha. de olhos fechados, imaginando que no primeiro puxar dos gatilhos, eu estaria salvaria sob a proteção das suas asas. asas que nem se quer existiram. o horizonte púrpura que eu criei pra nós, foi quimera. 

eu via o crepúsculo eclodindo nos teus olhos e pensava que eu poderia ser sempre tua alvorada.

B.

Absolvição

Estou fora a mais ou menos 120 horas, e o motivo não é somente escolha de ficar retirado de tudo e de todos. Sempre há um motivo, e na maioria das vezes, pensar nele é assustador. Não trate esse vazio que venho causando como mero descaso com o seu benquerer. As minhas ausências é anti-dor, não para mim, tão somente a você. É injusto gozar desse desejo encarcerado, a mercê de uma inútil tela de computador, quando se nem ao menos é possível teletransportar-se. As suas palavras com codificação já não são apenas linguagens ao vento, fazem sim todo o sentido e me servindo a insinuação. Conheço que o meu mistério fascinante esteja se afundando em repelência. Não me permita romper seu zeloso âmago, impeça-me se puder, só não mendigue o meu ficar. O envolvimento é irreal, a afeição é utópica, e acredite, a dificuldade é tão para mim quanto a você. Posso ser tanta coisa capaz de contundir-te. E se por ventura, ainda houver um minguado de afeição para comigo, escute-me; siga o meu pedido, mas não o trate com desdém: 
- Não permita que eu dilacere sua alma. Não aceite minhas causas infundadas de distanciamento. Mantenha certo limite; não me deixe alcançar seu íntimo. Sou uma verdadeira arma, não aperte o gatilho. E se possível, faça uma declaração, em papel selado, na presença de um advogado. Por que não? 

JJ. Literato Sensato

Vivemos o tempo da demora e resposta lentas. Vivemos o tempo da exaustão, da precariedade dos sentimentos, das lutas diárias pelas buscas e da incansável procura pelo ser e ter. 

Vivemos o tempo que esquecemos de viver. Vivemos, dia a dia, um tempo que era para ser nosso, mas que acabou sendo de ninguém.

 Vivemos o tempo de combates de egos e status.

Vivemos o tempo do amor minguado, da esperança privada, da fome de prazer, do amor escasso. 

Vivemos o tempo da perdição. 

Vivemos o tempo das descobertas científicas avançadas, das pessoas emproadas, dos sorrisos amarelos. 

Vivemos o tempo da insatisfação.

Vivemos sem saber que o tempo vive. O tempo corre e ninguém dá conta. 

Vivemos o tempo dos relógios digitais, das mentes digitais,  dos amores digitais e de pessoas individuais.

Vivemos o tempo da tristeza, do insucesso, da incapacidade de lidar com o outro. 

Vivemos o tempo da perda, da falta, do vazio provocado por ninguém e por todos. 

Vivemos o tempo dos conhecidos totalmente desconhecidos.

Vivemos o tempo que não sabemos viver. 

Vivemos o tempo em conjuntos totalmente desfragmentados. 

Vivemos o tempo da lassidão e intromissão.

Vivemos o tempo que há tantas outras coisas para fazer que viver já não é essencial. 

— Túlio Santos.