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Me procurei gradativamente em utopias de caleidoscópio. Gosto de encontrar sentido em constelações imaginárias, universos paralelos, planetas distantes onde tudo é igual ainda que completamente diferente. As ruas são as mesmas, as pessoas continuam com o mesmo olhar de quem sabe tudo o que há para saber (ainda que morram de medo do ato falho que desencadeará a catástrofe), os horários seguem inalterados e detentores de blasfêmia, enquanto que eu me torno o oposto. Veja bem, não é que desagrade me ser, as coisas tem seguido um caminho diferente e tenho coragem suficiente para admitir o medo e a possibilidade de desastre presente em cada esquina. Cada passo para frente é, ao mesmo tempo, para fora de mim. Não sei dizer se estou me tornando alguém diferente ou se finalmente me serei por completo. Sequer sei descrever ou compreender o sentido das palavras que me tomam por completo, apenas me permito finalmente admitir que não há mais nada para dizer. Acredito que tudo seja dito no silêncio ou em pilhérias aleatórias ao longo do dia. Gosto de quem se permite através da máscara, ou melhor, que se faça de máscara mas tenha a cara limpa. Então é possível ver cada cicatriz da infância, cada marca de sol daquele dia ensolarado demais para ser responsável, cada lágrima derramada sem mais nem menos, pela tolice que foi a gota d’água. Coração partido também é cicatriz e se esconde na retina, e me foi permitido observar até compreender que nem tudo é passível de entendimento. Vejo cada detalhe, ainda que inexato (nada nessa vida sentida é). Canto aquela do Chico: “deixa em paz meu coração”, e você pede pra ficar. Mas fica. Fica. Cada sílaba, devagar. A vogal se estende pelos olhos. E eu fico, eu fico.  

G.