mimese

Essa juventude que nunca morrerá

Como vai ficando escuro contar. A noite aberta. Tateio o tapete da sala. Ali, onde anos e anos da vida sentei para encontrar o riso. Saberia agora sentar para encontrar o ponto último? O ponto pior da vida, o ponto nulo da existência? Eu estava procurando um motivo para. Para quê? Para dizer. Desligo então a TV e fico olhando a tela preta me olhando de volta. Eu posso lembrar. Mais que isso, quase que posso sentir. Nós sentados olhando, esperando que acabasse um programa qualquer para que enfim viessem as doses de risadas. Diárias. Pequenas migalhas de alegria por entre os dias abafados de verão. Tentávamos adivinhar qual episódio seria. Tantos que vimos tantas vezes. A mesma vila, as mesmas portas, o mesmo barril. A graça da vida de parodiar a si mesma. De repetir-se para nunca deixar de mudar. O mesmo era o outro sempre e sempre. O gozo de saber do riso, a ânsia das mesmas piadas, situações, coisas tão internalizadas como um sonho que se profetiza. O íntimo colocado em cena. A catapora da Chiquinha, os banhos com balde d’água, as pancadas no Sr. Barriga, os cafezinhos com o professor, etc. E bota etc. nisso. Toda uma essência recuperada das águas negras e profundas. Não sei mesmo quantos anos já se passaram. Sentado de novo no chão da sala eu era um menino de novo. Ou eu nunca deixara de ser. Como nunca nós deixamos de ser. Nunca você deixou de ser. Emergiam cenas como corpos de uma tempestade. Eu que ria da sua voz que não era sua voz, a voz do outro se tornava a voz do mesmo, particularizada e tomada como verdade. A verdade era de uma invenção tão profunda quanto um lago noturno. Mas que importância tinha a realidade quando se podia viver de sonho? Quando se podia atravessar a fome de todos os dias sem sanduíche de presunto, a arte alimentando a vida. A cobra devorando o rabo de si mesma. A piada feita. A travessura. A imaginação. A destruição da linguagem. Pelo insólito também nos reconhecemos. E só quem tem ainda muita fome, as duas fomes do ser, só quem ainda sente esse vazio no estômago pode entender o que foi ter crescido assim. Assim sabendo driblar o ácido corrosivo da vida. O sorriso de arma. Revestindo a miséria. A inveja, a ira, a ganância, o amor, o carinho. Toda uma infância arquitetada. Não por serem crianças era artístico. Uma criança era sempre uma criança e isso era fácil. O artista, como você, era o avesso, era justamente por ser adulto e ter podido deixar de ser. Bruxas, canhões, quiproquós de todos os tipos. Todos os modos inteligentes de se fazer rir. O riso mais fácil estava no caminho inverso das mãos, não o riso pela criação patética, mas pelo patético criado, com a mais pura naturalidade de uma mimese que é, e depois deixa de ser. Se num instante a realidade puxava nosso dente em dor profunda, depois era a brincadeira, o lúdico, a invenção do mundo que revertia tudo para seu oposto e salvava a existência de cair num abismo de si mesma. De cair no cru do mundo. Bastava um gesto para que tudo não desabasse, para que as ondas de um mar bravio deixassem de tentar afundar o barco, para enfim movê-lo. A travessia para o futuro que nunca chegou. A eternidade lhe caiu bem. Vestido de noite, nem parece que o horizonte te agarrou, parece que ainda está por aqui. No fundo de um céu, o brilho de uma estrela que parte e fica, cintilante. Até quando? Queira nós por muito ainda. Não por ser o resplendor de uma estrela real num céu real num mundo real e tocável. Estrela do de-dentro. Nos tecidos íntimos de um tapete na sala, o tapete voador. O tapete fundo de um eu. Eu nem sei por onde continuar, labirinto do pra sempre. Sei que se que quiser posso sentar no mesmo tapete, recapitulando as mesmas falas e os mesmos casos para me devolver a inocência de uma juventude. Essa juventude que nunca morrerá. 

- Caio Augusto Leite