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Eu to tentando guardar meu carro, eu to tentando remar meu barco. To tentando seguir em frente, to tentando não ligar pra gente. Eu to tentando ser feliz, eu to tentando te fazer feliz. To treinando pra guerra, to fazendo uma arma, to apertando o gatilho, to atirando no destino. To querendo seu nome, ter o seu sobrenome. To querendo carinho, até um chameguinho. To rimando sorriso com o seu paraíso. To chorando de alegria pra expor fantasia. To querendo um beijo com gosto de queijo, to querendo um abraço feito fita de laço. Eu to chutando pra marcar um gol, eu to vivendo de Rock'n Roll. To procurando alguém que não me deixe só, quero nossas mãos enlaçadas num nó. To querendo ter um Romeu, pra escrever a história de você e eu.
—  Tati sem Bernardi 
Ele disse que era saudade, só
mas saudade é tão grande como a palavra.
Outro gritou que era falta, apenas
mas falta é a morte da esperança.
Então ele concordou
-que seja falta então.
Quando na verdade, sabia que era amor.
—  Tati sem Bernardi

06:08 da manhã, e por que diabos o despertador estava ligado? Era sábado caramba, sábado é dia de dormir até tarde. E por que aquela música de elevador tocava ali no apartamento? Acordei meio bambo, querendo dormir de novo. Gosto de remédio na boca. Que horrível aquilo era. Remédio pra que? Remédio pra dormir, aposto. Apartamento revirado, bebida por todo o chão. Passou um furacão aqui e não fiquei sabendo, essa era a teoria principal. O computador ficou ligado a noite inteira pelo visto. E por que eu estava dormindo na sala? Minha mãe veio pra cá e ninguém me avisou, só podia. Mas não era isso. Havia alguém em minha cama. Alguém que eu nunca vi antes. Era ela e não ele. Então provavelmente rolou algo na noite passada. Ou não? Aquela individua era tão…linda. Nenhuma mulher havia deitado em minha cama antes. Será que ela me dopou? Não, não pode. Não me lembro de nada. Melhor eu arrumar esse lugar antes que a desconhecida donzela acorde e pense que sou um ogro. Não quero ter uma cena de Shrek logo no início do ano. Hora do almoço e ela acordou. Cumprimentei-a meio sem jeito e ela disse meu nome. Ela me conhece? Como? De onde? Era uma desconhecida em minha casa que sabe meu nome. Fiz minha especialidade pra refeição principal do dia: macarronada com queijo e batatas fritas. Era estranho a ideia de que eu teria companhia para aquele almoço. Então começamos a conversar. Papo vai, papo vem. Perguntei seu nome. Era Anna. Soava tão bem como se estivesse citando uma rima do meu xará Caio Abreu. Hã, mas, assim, é…como, melhor, por que você estava dormindo na minha cama, Anna? -perguntei sem jeito. Nunca fui bem em conversar com mulheres, principalmente com mulheres bonitas. Ela respondeu que veio de Devon a procura de emprego, e não tinha aonde ficar. Então eu ofereci que dormisse em minha casa. Eu disse isso? Sério mesmo? Droga. Anna também disse que ficaria ali por pouco tempo, só até encontrar um a.p barato pra alugar. Contou que ontem a noite eu tomei alguns remédios pra dormir pensando que era pra dor de cabeça, derramei água em toda a cozinha e falei que ela podia descansar em meu quarto. Minha memória realmente não estava nada boa. Ficamos horas conversando sobre tudo, e não dizendo nada. Contei-lhe meus medos, sonhos, metas e desejos, mas pouco sabia a respeito dela. Agora ela não era mais uma desconhecida. Tinha nome, e era Anna. Vinha de Devon e era de uma beleza única. Quem diria que futuramente a estranha teria um sobrenome tão familiar como Castielle. Quem diria que ela seria capaz de transformar um solitário em um amante do amor. Caio Castielle, s-ingular

Vire a direita. Siga enfrente. Cuidado com a curva. Pare. Siga. Vire a esquerda. Perímetro urbano. Reduza a velocidade. Fora de rota. Por favor retorne à estrada. - As vezes o que eu preciso é sair sem GPS. Seguir meus instintos, minhas vontades. Encarar o que o destino reserva para mim. As vezes o certo seria ser incerto, um fora da lei. Sem bagagem ou preocupação. Apenas a roupa do corpo e as chaves do carro em mãos. Parar num encostamento e sair andando até os pés pedirem descanso. Esquecer que tem vida, registrando cada momento na memória, nada mais. Ignorar o cotidiano, e numa noite, apenas numa noite qualquer, poder olhar para a lua e não me arrepender de ter saido do maldito padrão. Tatiany Graziele, s-ingular 

Não naufraguei como Robinsom Crusoé, tampouco segui uma vida de lei como Sherlock Holmes, mas tenho uma história tão bela como de Dom Quixote a contar. Um amor antigo, como Sansão e Dalila, vive em mim. Li o romance de Shakespeare, e assim como Romeu, eu morreria por minha amada. Amo-a por anos que logo perdi a conta. Mas ela não sabe, nunca precisou saber. Cada um seguiu sua sina. Ela casou-se, teve filhos, netos e até um bisneto de seu menino mais novo. Eu sai do país, mais nada. Peguei uma malinha recheada com alguns dólares, escova de dentes, um par de roupas e Dom Casmurro. Na mão tinha o passaporte e no peito um amor. Eu escrevi “A História de um Burro Brasileiro” e ela compunha canções de ninar enquanto trocava roupa suja do neto. Dava vontade de voltar pro meu interior, e escrever um livro de nós dois. Um dia estava eu com um café fresquinho na porta do prédio, quando escuto a secretária gritar. Era minha amada no telefone. Ela nunca havia me ligado, nunca me conhecera, mas queria um livro de minha autoria. Ouvia do outro lado da linha sua respiração e a minha aumentava a cada batida de seu coração. Escrevi um livro de amor, amor vagabundo de um cara de camelô, que vendia sentimentos por R$1,99 mas tinha o coração tão grande como as histórias de George R.R Martin. E na dedicatória, grafado com letras à mão, um segredo. Recordo bem da data, era fevereiro, 5 de fevereiro, meu aniversário. O dia em que eu voltaria para o meu interior, cidade pequena com conforto inigualável, e recebo a notícia de que Lucy Ferrier morrera. Não pude entregá-la o livro. Hoje, neste exato momento, percebo que deveria ter aproveitado mais, declarado mais e escondido menos. Deveria ter deixado essa paixão ser vivida a dois. Mas ela se foi antes do que eu esperava. Havia me esquecido que o amor pode ser eterno, mas as pessoas não. Um dia, não tão longe, eu te encontro no céu. E sabe querida, eu ainda te amo.
—  Ela se foi tão calada que não sobrou tempo para ouvir meu amor, Caio Castielle
Oi Zé, tô com saudade de nadar de costas na porta de casa, aquele rio que corta o milharal e chega no pé da bananeira. Eu to me controlando até pra não esquecer o tempo bom viu, porque na coleção de tempos bons que eu guardei pra mim, a cada dia eu me mato um pouco mais. Pois é, tô precisando colorir o que há de mais bonito aqui dentro, brincar de solidão e cantar o vazio. Nos ponteiros as horas devagar no tic vão indo, e no tac parece que o perto fica mais longe. Sozinha sempre fui a rainha de mim, que se esconde atrás de olhos atentos de felina e que não maltrata o coração. E agora tô meio assim Zé, vontade de chorar. To com uma saudade danada de casa.
—  Tati sem Bernardi
Saudade do café preto, preto como o pé de quem trabalha na roça. Saudade daquela viola estragada, tão velha quanto a serra. Saudade da mãe embalando o menino mais novo e o pai trazendo a saca de arroz. Saudade da negra marrenta, negra que contava histórias da senzala e de um rapaz com o nome tão estranho quanto falar de universo. Saudade daquela moça que eu amava, amor tão antigo como a saudade.
—  Tati sem Bernardi
Vi que te amo quando a rotina se tornou raridade e passei a comparar todos com vosmecê, adorando seus defeitos e enaltecendo as qualidades, decidida a aceitar que ninguém alcançaria nem o solado de seus sapatos.
—  Tati sem Bernardi
Eu volto pra casa hoje. Ligue pro mundo e avise que a ameaça está pra chegar. Peça que a polícia me espere no aeroporto, pois matei uma pessoa e quero render-me. Pagar pelos maus que cometi, o amor que sufoquei, a culpa que não aceitei e a vida que tirei. Ordene que os jornalistas apareçam. Quero anunciar em rede nacional o assassinato, pois ninguém apareceu pro velório e o cadáver sentiu-se inválido. Até hoje não notaram sua falta. Chame a funerária, porque o morto continua andando por aí, já que ninguém veio retirar seu corpo. As horas são inimigas de todos vocês. Apertam forte dentro do coração e deixa-os sem ar. Quanto mais tempo demorar, mais semelhantes a mim estarão. Tão mortos quanto meus olhos.
—  s-ingular
Uma vez perguntei a um mendigo o que é amor, ele respondeu que é algo que aquece. Então o amor pode ser substituído por um cobertor? Logo perguntei a um poeta, que por sua vez respondeu que amor é aquilo que enche seu corpo. Então o amor é um prato bem grande de macarrão com queijo? Certa vez fui a um stand up, onde o tema era justamente as formas de amar. Um cara citou um poema de Drummond, que falava: “O amor é grande e cabe nesta janela sobre o mar. O mar é grande e cabe na cama e no colchão de amar. O amor é grande e cabe no breve espaço de beijar.” Cheguei em casa, vi meu benzinho jogando videogame e fui deitar. Ele chegou de mansinho do meu lado e disse: “Amor, eu não almocei pensando em você. Eu não jantei porque estava pensando em você…” eu o intervi e disse que agora não conseguia dormir porque me ama de mais,até que ele continuou “ Ah, bom, eu ia dizer que agora não consigo dormir porque to morrendo de fome. Faz uma carne de panela comigo?” Então entendi que amor é mais que um cobertor, mais que um prato de macarrão, mais do que andar de mãos dadas. Amor é você estar com quem te completa e abrir um espaço na sua cama para outro vir completar.
—  Amor é que nem capim; a gente planta, ele nasce e cresce forte. Daí vem uma vaca e acaba com tudo, Tati sem Bernardi

Aquele friozinho que faz até a espinha se contorcer começou a dar as caras. Noite chuvosa, noite numa casa escura. Apenas a luz da televisão iluminando um casal se entreolhando no sofá cobertos até o pescoço. O filme se encaixava perfeitamente com o momento -um filme romântico para um casal amante. E aquele beijo silenciou todo o silêncio. O tempo tornou-se insignificante a partir daquele momento. Deixara de ser inimigo a inexistente; de que adianta a eternidade diante do amor de quem se ama. Surgiu então um abraço confortante com o ranger dos raios lá fora. O frio uniu dos corpos, e aquela noite, um homem e uma mulher dormiram juntos. E na seguinte, na próxima e na outra, até o fim dos tempos. Tatiany Graziele, s-ingular