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Eu esperei dezenove anos pra encontrar o cara certo, daqueles que as filhas desejam e os pais aprovam. Um que te busca em casa dirigindo um Bugatti Veyron 16.4, te leva pra jantar, paga seu cinema e te deixa em casa na hora que o sogro pede. Daqueles que sua mãe tem orgulho de contar para as amigas que tem um genro maravilhoso, com um futuro brilhante, que levará o nome da empresa da família nas alturas. Daquele que suas irmãs invejam e que quando passa na rua, arranca suspiros e olhares. Mas meu cara não é assim. Meus pais não o aprovam, dizem que ele não me fara feliz como o filho da Ciclana poderia me fazer. Me busca em casa de Opala SS amarelo desbotado, daqueles que por puco não estragam no meio da rua. Não me leva pra jantar, ele faz o nosso sanduíche toda noite. Não paga o cinema, pega as entradas e deixa o resto por minha conta e, tampouco, me deixa em casa antes das 23 horas. Minha mãe não gosta dele, muito menos minhas irmãs. Vivem dizendo que esperavam mais de mim. Mas eu não o vejo assim. Ele me leva a praia, me deita em cima de seus braços, e me faz olhar as estrelas. Ele me beija no carro, me faz cafuné na poltrona, me abraça no mercado. Me irrita segunda, me adora na terça, me implica na quarta, trabalha na quinta, volta com bombons na sexta, e me ama nos finais de semana. Me chama de docinho e depois de burra. Odeia minhas amigas mas não conseguiria me aturar sem elas, faz serenata mesmo não sabendo cantar, toca não sabendo tocar. É apaixonado por meus sorrisos e principalmente por minhas caretas. Não aguenta sermões mas não arruma o quarto. Bagunça a cozinha, come tudo o que tiver na geladeira, não abaixa a tampa do sanitário e molha todo o banheiro. Joga fora minha escova, suja minha toalha, esconde minhas roupas, e não me deixa assistir novela por que está vendo o clássico. E eu? Eu deito com ele todas as noites e sinto seu perfume naquelas roupas surradas. Então me esqueço dos outros, do que dizem, do que esperavam de mim, do que queriam que eu tivesse. Eu o amo, e amo seu jeito inofensivo de ser destrambelhado. Amo o modo que consegue me fazer feliz sendo menos príncipe e mais plebeu. Tati sem Bernadi

Vamos ser realistas. Sei que passado é algo que, mesmo em memória viva, nunca mais volta. Um raio não atinge o mesmo campo duas vezes. Sei também que a vida pode ser comparada com um livro. Um livro grande com folhas amarelas, outras rasgadas, algumas em falta ou páginas em branco que compõe capítulos, que formam histórias e as histórias sempre terminam com uma moral. Cada final tem duas escolhas, caminhos totalmente opostos que não se encontram, e assim, o leitor precisa decidir qual seguir. Então surgem as consequências. Alguém pode ser uma história completa, com início, meio e fim, para você, enquanto você não passará de um capítulo mal acabado. Ou uma história tão mal resolvida que torna-se espetáculo para ácaros. Podemos ser otimistas também, pensar que fatos assim nunca acontecerá conosco, que tudo que está escrito para nós vem do melhor. Mas é preciso enxergar que isso não se passa de uma narrativa maravilhosa; aquela que não há cabimento ou explicações. Algo totalmente irreal. Um bom soldado é aquele que sabe a hora de se render. Um bom escritor é aquele que sabe a hora de admitir que nada sabe a respeito da vida. Tatiany Graziele, s-ingular