meusigor

Mas eu nunca fui o tipo de gente que olha pra beleza e venera. Porque eu acho isso bobagem, porque a paisagem de dentro é sempre mais bonita. E se você me fala que fulano é lindo por causa do olho de cor diferente, por causa do sorriso branco, ou por causa do físico perfeito, eu sou obrigado a rir e dizer que nada disso vale um amor pra anos, um amor de anos: o exterior sempre perde para o tempo, sempre sucumbe à falta de maquiagem e à falta de mundo.
—  Igor Pires.

Porque a vida sempre nos dá alguma coisa e eu tô aprendendo a receber sem muito reclamar. Tô aprendendo sim, na força, mas tô adorando levar uma surra de como ser feliz e de como ser leve, e livre, e liberto - não só de mim, mas do mundo e dos carmas e dos títulos e de tudo.

— 

Floresinexatas.

Sei apenas que saudade é coisa que fica, na memória, nos objetos, nos corações. Fica após a chuva de verão, após o cheirinho de barro, após o sorriso do eterno amor. Saudade fica na poesia lida diariamente, nas lições que a vida nos dá. Fica nas flores do jardim da cidade, no filme que deixa os olhos cheios; fica num lugar onde nós sempre buscamos abrigo: na alma.
—  Igor Pires
Eu estava aqui. Bem aqui. Com o meu clichê “eu te amo, te quero bem”. Eu estava aqui. Para seus problemas pessoais, suas crises de solidão, seus cortes no pulso. Amor, eu estava aqui. Pras brigas, discussões, xingamentos, abraços, amor e sono. Tudo em sequência. Eu estava aqui quando você, arredia e espalhafatosa, derramava as flores pelo caminho, as dores pelas estradas, o desamor nas esquinas de bar. Estava aqui quando você clamava por alguém, pedia proteção, ajuda e sossego. Eu estava aqui. Estava amor, e você… você não viu.
—  Igor Pires
Eu quase supero sua ausência com uns risos pra cá, outros pra lá, com algumas conversas engraçadas e umas músicas aleatórias. Mas aí você vem na minha mente, como quem não quer nada e fica aqui, pra sempre. Eu quase consigo superar… Quase.
—  Floresinexatas.
Aqui, escuta-me baixinho, enquanto as estrelas explodem no céu: eu amo você, eu amo você. Enquanto as guerras fazem mortos e o ser humano morre lentamente, engolindo a dor e fazendo dela vômito: eu amo você, eu amo você. Nos livros de clarice, nos contos do caio, no drama de bukowski, na fala de quem não tem o que comer, naquilo que é inverdade, no arco-íris preto e branco: eu amo você, eu amo você. Com a solidão sussurrando mentiras e o vazio exaurindo meus espaços; com a náusea fazendo presença e a incompreensão batendo na porta: amo você, eu amo você. Na paz que deixou de existir e na esperança carregada nos olhos daquele que está ferido: eu amo você, eu amo você. Porque os dias estão atribulados e o peso é grande demais para que eu aguente sozinho. Eu tenho você e repito que é amor, que é consolo, que é abrigo, quase que como um mantra para que eu jamais me esqueça da sua presença me invadindo quando me queixo demais pois me sinto só. Porque os carros da cidade buzinam insolência e eu só preciso me aninhar no teu abraço e fazer dele minha casa. “Pode lar ser uma pessoa e não uma casa?” e pode sim, teu corpo é minha moradia contra trovoadas e chuvas ácidas e teus braços são montanhas na qual eu descanso, alívio. Porque eu te amo demais até quando tropeço no meio da rua e até as pedras, meu bem, até as pedras sabem o motivo dos meus sorrisos. Nos furacões norte-americanos e nos tsunamis japoneses, nas ilhas inalcançadas e nos desabrigos da alma: eu amo você, eu amo você, eu amo você.
—  Floresinexatas.
Sabe essa coisa toda poética-destrutiva-adolescente que eu carrego no peito? Então, é tudo fachada, meu amor. O que acontece é que, à noite, no meu quarto, eu coloco a mão no rosto e fico chorando até meus olhos dizerem chega. E ninguém vê as marcas no meu rosto, as olheiras e as pancadas nas minhas mãos. Também não quero que vejam, mas quando digo que estou triste e, na maior parte do tempo, eu sou triste, preciso/suplico/necessito que me entenda. Sem drama algum, sem excessividade nenhuma, sem sadomasoquismo aparente, eu só tenho o infeliz carma de sentir demais tudo aquilo que não é meu, de sentir tudo aquilo que talvez eu nem conheça. O sofrimento não é opcional quando amar se torna um vício, my darling, o amor, por si só, já é uma bagagem sentimental enorme, gigante, profunda - funda demasiadamente funda.
—  Floresinexatas.
Acho que amar é aguentar tudo como um coração, que vai pulsando toda gordura do corpo e suscita suscita mas não morre. Acho que amar requer dom pra receber: saber receber o sentimento puro e belo, saber ser recíproco e mesmo que não se saiba, se consente e deixa brotar. Acho que amar se tornou algo muito natural pra mim a partir do momento que entendi que não importasse o que os outros fizessem, eu estaria ali, no mesmo lugar. Eu sempre estaria ali, à espera, não sairia do lugar, poderia cair mundos, nascer planetas, morrer estrelas, eu estaria fincado no mesmo lugar. Amar, pra mim, é muito simples: ama-se pelos erros, defeitos, pelas faltas e ausências, pelos medos, pelos cortes, pela vontade de ir. Ama-se também o que é bom, a paz que outro te dá, a esperança em dias melhores, a vulnerabilidade da companhia, a presença forte, grande, impetuosa. Amar se tornou bem fácil pra mim a partir do instante que compreendi que os outros não precisam retribuir da mesma forma, na mesma intensidade: ama-se independente da troca, do valor e do resultado. Eu amo porque amar, antes de tudo, é um ato de estar.
—  Floresinexatas.
Porque nós somos feitos de poeira cósmica e estrelas que brilham incessantemente. Eu ouço “Let It Be” e canto, suspendendo meus braços pro céu, pedindo para que alguém, lá do alto, me conceda a graça de subir e ficar nas nuvens, sem precisar me preocupar com toda essa agonia que venho carregando ou coisa do tipo. Eu sei de todos os meus erros mas eu queria, neste exato momento, fechar meus olhos e encontrar um berçário de constelações cuja poesia me falasse de ti e de como o amor é bonito e em como a vida é bela apesar de. Basta toda essa tristeza que, às vezes, pego pra mim como um fardo e que eu não preciso, de verdade, carregar. Nós precisamos, lá no fundo, é de um amor que nos encontre com abraços bem apertados e uma voz serena e tranquila, e que diga sobre o que fomos e cante Beatles e que goste de Drummond. Todos nós deveríamos ter um grande amigo para ligar na hora da dor e dizer “ok” e rir e dizer novamente “ok” e rir novamente… A vida seria mais simples se olhássemos para as flores inexatas, que coincidentemente são as mais bonitas e plenas, são as que refletem quem somos e por que somos. Porque nós somos o corpo flutuando no espaço sideral, somos estrelas-cadentes que passam e nunca mais são vistas, apenas sentidas. Eu sinto estrelas, mesmo que eu não as olhe, eu as sinto. A lua me diz que somos metades para sermos inteiros, e que tudo isso é uma leveza quando visto com calma. E hoje me sinto tão feliz e calmo e sereno, talvez porque ouvir rock e ler textos românticos tenha se tornado uma prática viciante ou até mesmo porque quando eu me afasto eu fico comigo e fico bem, em paz. Se eu olhar para o meu céu, agora, eu terei todo o meu mundo voando atrás das estrelas. E será lindo.
—  Igor Pires.
Porque amor a gente encontra aonde ninguém foi. E a gente percebe o amor naquela pessoa de um jeito bonito. E reconstruímos a ideia de que ‘para sempre’ existe. E não nos parece loucura dizer que o amor existe sim, infinitamente. Foi assim com você: acredito em todas as possibilidades de salvação, em todas as possibilidades de cura, em todas as formas de felicidades entre nós, em nós e conosco.
—  Igor Pires.
Nós estamos tão ocupados, meu deus, que nem vemos como as luzes do céu misturam-se. São cinco cores, notei hoje: azul escuro, azul claro, laranja avermelhado, laranja e amarelo. Mas nós nem vemos que o céu às vezes gostaria de ser notado, assim como as estrelas que caem e nem sentimos. “uma estrela pinga no meu peito” eu li algum dia desses. Estamos tão imunes à beleza da vida que ser louco, viver uma vida louca e ter a melhor bolsa de marca tornou-se prioridade. Pergunto-me aonde vamos parar quando o uniforme das pessoas que convivem comigo é lacrado pela marca hollister, ou quando a poesia fica escassa àqueles que veem o minúsculo do minúsculo ou até mesmo quando o corpo é usado como objeto e admirado como tal - porra, museus existem, eu penso. As ciganas, acreditem, sabem mais do que os escritores. As prostituas refletem a razão segundo sartre enquanto clientes, como nós, beiramos a ignorância e beijamos o fim, com a morte na saliva. Estamos tão podres e amassados pelo sistema que nossos olhos desacostumaram-se a enxergar a luz do meio-dia, as flores que morrem murchas e sozinhas, o frio que congelou mais alguém em algum lugar do planeta. Eu acho que perdi o rumo do caminho quando eu vejo que meus colegas preferem gritar enquanto eu gosto de silêncio; quando todos querem ficar e eu desejo ir embora; quando todos falam de amor e eu não quero tê-lo comigo… em mim.
Sensibilidade aqui, ainda existe?
—  Floresinexatas.
Não se perca de mim quando os dias correrem depressa e eu não souber gritar teu nome. Porque você sabe que eu não consigo pedir pra que alguém fique… Não se perca de mim quando todos forem embora e só restar nós dois e mesmo assim for impossível que teus olhos encontrem os meus. Você sabe, eu não sei falar de amar sem chorar um pouco… Não se perca de mim assim como as canções do Cícero se perdem na minha memória e só voltam quando vejo vaga-lumes. Não, não vai indo assim, como quem não quer nada… fica e se não puder ficar, deixe. Deixe uma lembrança, um poema na geladeira ou um abraço para eu amar.
—  Floresinexatas.
Que o tempo não engane meus batimentos cardíacos, meu bem. E que não percamos a fé nas coisas detalhadas pelo céu que nos avisa sobre a chuva que cairá amanhã. Perceba: as estrelas estão morrendo por nunca serem observadas e o trânsito na Índia aumenta cada dia mais. Os poetas estão mendigando leituras tristes de textos tão sentimentais, mas poucos leem as entrelinhas das feridas que carregam. Assim como acontece comigo: meus pés sangrentos jamais serão culpa nos teus olhos. Não ria de mim assim, eu lhe digo, e você faz que nem é contigo. Ah, não faz estes teus olhos porque eu estou morrendo, chorando, caindo. Eu estou virando estrela, tão desapercebido e só, mesmo que estando com milhares de outras almas brilhantes mas que sofrem de solidão. Que o tempo não me ache escondido embaixo da cama de minha mãe e que a tristeza não me convença de ficar. Não ria de mim assim, eu lhe digo, não ria assim de mim que vou morrendo.
—  Floresinexatas.
Enquanto as pessoas se apertam dentro do ônibus e fecham a cara, comprimindo a ansiedade e a fome, o mundo vai morrendo aos poucos. A lavadeira continua a chorar no canto do rio, no canto do quarto, no canto do céu, no canto. O mendigo está na rua suplicando às plantas um pouco menos de loucura e ao sol um pouco menos de culpa pela pobreza. O cobrador me olha como se pedisse socorro por causa do suor e dos filhos que o esqueceram na vida, como se ela o quisesse. Quem dera! Quem dera que as estrelas caíssem aqui no abismo para me fazer companhia, que me olhassem e resgatassem-me de toda angústia, que cantassem a felicidade certa. Quem dera o amor fosse mais sentido e menos gritado, como numa dor de parto, onde se grita e descansa. Quem dera o amor fosse uma cura ou um remédio ou um poema aos meus ouvidos. As pessoas estão tão abaladas que ecoam de seus rostos a incapacidade de viver. E o amor não nos chegou. Continuarei não entendendo o cobrador, o mendigo, o mundo…
—  Igor Pires.
Pra dizer que teu amor foi daqueles que me roubou a pele, a vergonha, as vértebras, as têmperas, os búzios, os deuses, as falas, os gestos, os tempos, as vidas. Pra dizer que eu te amei demais muito mais do que supus, e que quis muito que tudo ficasse bem entre nós, mas que não foi bem assim. Dizer também que queria poder escrever mais, porém sinto atrofia e preguiça de relatar, novamente, como eu te quis, como eu me dei e como você poderia ter reagido a isso. Como tentei te salvar e por tentar te salvar, acabei me perdendo entre tantas guias e tantas ausências que nem eu sabia como suprir. Dizer que eu ainda te amo, que enquanto nada acontece, nada se resolve e você não fala, eu continuo aqui, esperando que tudo se ajeite, que você venha me roubar pela última vez e me levar daqui. Dizer que sinto uma ausência quando nós conversamos mas que você não se importa muito, e nunca se importou, se era ausência ou presença. Mas que eu te amei assim mesmo, ligando desesperado para sua mãe para ela me dizer algo de você, algo que acalmasse meu coração bravio, algo que me desse esperança de que você não havia se jogado de uma ponte como prometera. Pra dizer que eu escuto seu nome ao longe e choro de aflição e me escondo atrás dos escombros que jogaram em cima de mim. E que estou mais triste mais intenso e mais feliz. Mas que também choro pelas pessoas que perderam seus braços no vietnã e pelos textos que perdi quando roubaram-me de mim. Uma solidão que me roubou, uma agonia que tirou-me de mim, açoitou meus dramas e me fez viver com a ferida exposta. Pra dizer que súplico pelo seu calor entretanto não quero morrer dele, e que quero que entendas as minhas manias de fuga também. Por que não lhe disse que também sei fugir? Que também possuo pés capazes de voar? E que também tenho medo e por isso posso querer morar em outro esconderijo, que não você? Pra dizer que eu te amo eu te amo eu te amo, tanto que não posso mensurar, e é até pecado escrever, porque podem roubá-lo de mm. Pra dizer que teu corpo é como um oceano que margeia uma ilha deserta e que seus lábios são coxas de anjos que viraram poemas em algum lugar da terra. Pra falar que sinto uma inenarrável vontade de voltar no começo, no princípio, naquilo que foi de uma paz imensa, naquilo que causou um espantamento, no que foi mais do que amor. Aonde foi mais do que amor. Incomparável amor. Dedução ilógica de um sofrimento que não planejo mas que vem e sopra tudo e todos em cima da minha ferida - aberta, chamada seu nome.
—  Floresinexatas.
Saudade é uma palavra sussurrada às avessas, quando não se quer dar nome à dor que o amor causou. Quando as distâncias atropelam as emoções e a ausência vibra, grita, fala mais alto que qualquer frase escrita na porta da geladeira. Vivemos de saudade porque ainda ninguém soube amar os abismos, as lonjuras, a falta que o outro dá.
—  Igor Pires.
Você escreve porque seus gritos não passam do teto de casa. Porque os ecos não ultrapassam a corrente elétrica entre um ouvido e outro. Porque ninguém quer saber se você está morrendo, ou apenas fingindo viver.
—  Peter, can I go back home? Igor Pires.
Eu te diria que tenho a mim. Nos dias em que a solidão aperta e os assuntos acabam: eu só tenho a mim. Enquanto o mundo cai e os meus amigos vão embora, dizendo que não suportam: eu só tenho a mim. Quando tudo de repente foge, quando tudo quebra, quando tudo desmorona: eu só tenho a mim. Eu me tenho porque o amor ainda não veio e, talvez, eu não o quero. Talvez eu queira mesmo me isolar do mundo e ser. Ser eu, ser meu. Eu me tenho porque ninguém quer o irreal, o imensurável, as estrelas caídas nas mãos. Minhas mãos têm calos maiores que eu. Eu te diria que tenho a mim quando o inverno é na alma mas ninguém sabe, porque o entender fica exposto à concepção humana. É pleonasmo, mas ninguém aceita a minha humanidade. E como? se todos somos humanos? Eu só tenho a mim quando as lágrimas caem instantaneamente mas não há ninguém para o consolo. E eu nem queria o consolo. Eu queria o olhar. O olhar de quem se comove, de quem se agiganta e te diz “fica bem”. Eu só tenho duas mãos e o sentimento do mundo, entende? Eu digo as interrogações mas ninguém as lê. Amar. Eu só queria essa coisa. Eu não sei bem aceitar essa solidão, mas eu respeito. Eu sou. E eu tenho de me acostumar. Ruim, não? Acomodar-se com algo ruim. Porque ser só não é motivo de aplausos, não é motivo para nada. E o nada é o que pesa: quando você tem o nada para amar, quando você tem a invisibilidade para amar, quando você tem qualquer coisa… quando você é qualquer coisa. Eu tenho a mim quando me esquecem, eu tenho a mim quando me decepcionam, eu tenho a mim quando os cortes são profundos, eu tenho a mim quando a corda está no meu pescoço e ninguém quer puxá-la. Eu tenho a mim quando eu sangro só, eu tenho a mim quando meu caminho é sombrio, eu tenho a mim quando tudo parece fugir, e eu fujo também. Eu tenho a mim, quando tudo isso está acabando comigo. Eu tenho a mim hoje.
—  Igor Pires. Eu tenho a mim hoje.