metade da laranja

Autossuficiente. É assim que a maior parte de nós deveria ser, ou pelo menos fingir. Entenda, nem toda metade da laranja, do limão ou do coração, que você encontrar vai ser a sua, mas também não a destrua por não ser, pois uma rachadura se quer que fique irá impedi-lá de se encaixar na metade certa. Há muitos sofrendo pela peça errada do quebra-cabeça, se encaixando em aberturas incompatíveis e aceitando qualquer falso amor que lhes é oferecido, qualquer eu te amo cuspido de bocas duvidosas. Não se enxergue como gota d'água quando na verdade és uma represa inteira, se ainda ninguém ficou é porque eram meras caixas d'água de mil litros, não suportaram a vastidão do teu ser e do seu sentir. Sorria, sofria, mas não esqueça, a sua metade compatível do miocárdio pode estar na próxima esquina, no próximo olhar ou até mesmo no seu próximo final.
—  Simone Ribeiro.
Eu te amo tanto que as vezes eu acho que você é aquele alguém que eu sempre quis, aquele alguém que eu sempre precisei durante toda minha vida; alguém que eu precisei durante minhas noites em claro, durantes meus dias ruins, durante minhas crises; eu te amo tanto e todos os dias que passam eu só penso que talvez, bem talvez, você seja a pessoa com quem eu quero compartilhar toda minha vida, pra sempre mesmo, aquela coisa de contos de fadas, aquelas coisas que não existem, eu quero utopia, mas quero com você, porque você faz eu me sentir como a pessoa mais incrível do mundo; e eu sei que ao seu lado eu posso ser o que eu quiser e quando eu quiser, porque você acreditou em mim quando nem eu mesma acreditei, porque você lutou por mim quando eu já tinha desistido, porque de todas as pessoas do mundo, não tem uma que faça eu me sentir tão bem, confortável e feliz, porque você é a pessoa que eu sempre quis, o príncipe que eu sempre sonhei; você é minha metade da laranja chupada por milhares de outras garotas, mais ainda minha, porque você já nasceu pra ser meu; e eu posso estar equivocada, mas, meu deus! Como é bom estar equivocada ao seu lado; como é bom criar expectativas e sonhos, planos, como é boa essa ilusão de que eu vou ter você e que vou ser sua; eu sei que ninguém nunca sabe de tudo, que eu não posso fantasiar tanto, mas pela primeira vez na vida eu não estou com medo; eu não tenho medo de te amar, porque por mais que isso acabe um dia, eu nunca senti nada tão recíproco com nenhuma pessoa antes.
—  Bianca Autran
Tem muita gente que diz que a gente precisa primeiro ser completo pra depois completar o outro. Isso é mentira. Sempre falta algo, alguém, alguma coisa. Sempre. Nós nascemos com um pedaço perdido, solto e largado por aí. E isso é inevitável. Ninguém se suporta por inteiro: a gente precisa de uma mão que nos ajude a andar e a trilhar o caminho árduo da vida. E ao contrário do que muita gente também pensa, a nossa missão não é sair por aí perambulando para encontrar a metade da nossa laranja perdida. Isso também não é verdade, porque somos feitos de carne e essa carne pulsa, sente e sofre. Ser fruta é fácil. Difícil é encontrar outra alma que se encaixe, que seja, que fique. E achá-la não faz parte das regras do jogo, mas da sorte do acaso. Nós não somos inteiros porque não sabemos ser sós. Queremos ser sempre nós, no plural, ainda que isso dê um nó. E dá. Porque a gente, infelizmente, não se basta. E sente falta do outro que não tem nome, nem cheiro, nem telefone, mas que talvez exista e isso é suficiente pra nos manter na luta em busca de algo que nos torne plenos. E esse algo se chama amor. Porque amar, meu caro, não é ser um só: é ser em si e no outro. Amor não preenche, amor tira. Quanto mais a gente ama, mais carente a gente fica, feito rio que sempre seca, mesmo estando no inverno. Quem diz que quando ama muda, não sabe o que diz. Amor não muda ninguém. Amor nos aprimora. É como se fôssemos uma pedra bruta que precisa ser lapidada pra enxergar o mundo de um jeito mais bonito, mas o mundo permanece intacto. Quem o aperfeiçoa somos nós.
—  Capitule
Deixa de ser pedra, quem te fazia inverno já se foi faz tempo mas mesmo assim você nunca mais se fez verão. Não finja que tens um coração de gelo, quando na verdade o que sente é um vulcão em erupção, larga essa maldita tristeza ela não faz parte de você. Veste-se de sorrisos, as paredes do seu quarto não merecem mais ver suas lágrimas. E por descuido ou vontade própria deixa uma janela entreaberta nunca se sabe quando a sua próxima metade errada da laranja pode chegar
—  Simone Ribeiro.
Ele me deu um pé na bunda. E doeu. Fiquei sem entender direito o motivo. Tudo parecia bem. A gente parecia bem. O mundo parecia um lugar bonito e seguro. Eu parecia bonita e segura. E de repente as coisas mudaram. Ficou um vazio grande no lugar dele. Ficou uma sensação de perda dentro de mim. Na hora em que o calo aperta e o coração quase derrete não adianta falar de tempo. Enfia o tempo no bolso e sai daqui! Não quero saber se o tempo cura, não quero ouvir que ele é o melhor remédio para todos os males. Não quero sair, não quero conhecer gente nova, não quero achar novo amor. Aproveita e enfia o novo amor no bolso também. Eu quero é ele. Ele, ele, ele. É que não tem ninguém igual. É que não vai ter sentimento igual. É que não vai ter outra pessoa que seja assim, tão única, tão perfeita, tão, tão…sabe? Não vai ter, eu sei. Eu sei e todo mundo sabe, não sei por qual motivo, razão ou circunstância ficam me enrolando e tentando me passar a perna com esse lance de o-que-é-seu-tá-guardado. Tenho certeza que ele é a minha alma gêmea. Eu nunca acreditei nisso. Até conhecer aquele homem. Meu Deus, ele é a metade da minha laranja. Por ele eu mataria e morreria. Por ele eu seria sempre melhor. Por ele eu seria até capaz de virar Amélia, a mulher de verdade. Por ele. Ele, que fez com que eu entendesse o amor. Ah, o amor. Aquele cretino. Aquele safado. Aquele ordinário. Aquele sem vergonha que faz a gente entregar o coração e acabar de mãos abanando e sangrando. Nunca mais vou amar ninguém. Não quero. Não vou. E não adianta você voltar com aquela história do tempo. E não adianta querer me levar pra sair, pra conhecer gente, pra esfriar a cabeça. Não quero saber de toda aquela baboseira de cortar o cabelo, renovar o guarda-roupa, começar a malhar, frequentar novos lugares, mudar velhos hábitos, incrementar o dia a dia. Não quero saber de tudo aquilo que as mulheres fazem para tentar achar A Cura. Não quero me curar. Quero beber todo dia uma vodca barata. Ou cara, depende do dia do mês. Quero beber e ficar sozinha. Prometo que não vou encher os ouvidos das amigas, das colegas de trabalho, dos amigos gays, da vizinha do andar de cima, da minha mãe. Prometo que nem vou buzinar nos ouvidos do terapeuta. Juro que me comporto. Fico eu, o pouco de sanidade que resta, o copo sempre cheio de vodca, algumas lágrimas e um punhado de recordações. Quero isso. Quero a depressão. Quero a fossa. Quero me acabar. Quero ficar arrasada para sempre. Quero ficar pensando nele o dia todo. Recordando cada momento que passamos juntos. Não quero saber de me entupir de chocolate e carboidratos. Vou fazer greve de fome até morrer. E antes vou deixar um bilhete: morri, seu idiota. Morri. Acho que agora estou entrando naquela fase da raiva. Aquela em que a gente imagina o cara de terno e gravata fazendo cocô. Aquela em que a gente começa a pegar nojinho. Aquela em que a gente usa todos os palavrões para definir o infeliz. Aquela em que a gente sai da fase da música de corno para cantar bem alto “I’m Every Woman” de braços abertos, abraçando o infinito, até ficar rouca e louca. Guardei as fotos em uma caixa e escondi ela no fundo do armário. Melhor deixar longe. Melhor não ver. Melhor parar de fuçar no Facebook. Melhor deixar de seguir no Twitter. Melhor deletar o telefone do meu celular. Melhor não dar uma espiada na vida da ex. Não quero mais saber o que ele come, se sente frio, se reatou com a antiga namorada, se continua lindo de morrer, se acabou comprando aquele tênis que eu disse que combinava com ele. Não quero saber nada disso. Quero virar autista e fingir que ele nunca existiu. Assim sofro menos. Assim vivo mais. Hoje eu reparei que as olheiras diminuíram. E que deixei de chorar. Me achei mais corada. Menos pálida. Mais bonita. Uma beleza melancólica. Tem um pouco de tristeza nos meus olhos. Mas vou me maquiar. Senti vontade de me arrumar. Pra mim. Para meu espelho. Pra me animar. Uma amiga me convidou pra um happy hour. Vou. Uns caras me olharam, me senti mais mulher, me senti bem. Quase não lembrei dele. Estou trabalhando bastante. É bom ocupar a cabeça. Parei um pouco de beber. Arrumei minhas gavetas. Joguei umas coisas fora. Decidi limpar as coisas por aqui. Acendi um incenso. Dancei sozinha na sala. Ri. Fui na padaria. Comprei pão francês e queijo cottage. Decidi dar uma volta no Ibirapuera. O dia está tão lindo. Encontrei uma velha conhecida. Conversamos. Marcamos um sushi para o dia seguinte. Fui jantar com a velha conhecida. Me diverti. Voltei pra casa, assisti um filme bobo, lembrei dele, chorei, sequei as lágrimas e me perguntei: por que estou chorando? Entrei no Facebook e vi uma foto dele com uma mulher peituda. Chorei mais. Dormi chateada e pensei isso-nunca-vai-passar. Comecei a caminhar todos os dias pela manhã. É melhor, vou para o trabalho com mais ânimo. Um cara bem interessante caminha por lá também. Não usa aliança, está sempre sozinho, ouvindo música e com o olhar longe. Parece eu. Me distraí. Esbarrei no cara. Ele se desculpou e sorriu. Nossa, que sorriso bem lindo. Senti uma coisinha no peito. Sorri de volta e segui andando. Na outra volta encontrei ele de novo, que sorriu mais uma vez. Para, que vou morrer aqui. Na outra volta eu já estava cansada, mas ansiosa por aquele sorriso. Ele sorriu. Me derreti. Parecia uma abobada. Voltei pra casa. No outro dia acordei feliz da vida, o cara sorridente ia estar lá de novo. E estava. E sorriu. E sorri. E ficamos nessa por uma semana. Até que ele pediu meu telefone, eu dei e ele me ligou. Quer ir ao teatro comigo? Quero. Enquanto eu me arrumava ele me ligou. Ele, que me deu um pé na bunda. Não atendi. Sorri. E tentei lembrar a última vez que lembrei dele. Não consegui. Talvez eu volte a acreditar no amor de novo. Talvez eu nunca mais sofra. Talvez. A vida é cheia de “talvez”, mas uma coisa é certa: o tempo ajuda. E não adianta você dizer que não e tentar lutar contra isso.
—  Clarissa Corrêa.
Eu devo achar alguém que me complete? O que é completar?
Completar: vt. Acabar, terminar, concluir. Integralizar, integrar.
Então, pera aí, eu sou uma metade? Sou 50% de alguma coisa? Incompleta? Algo que precisa de conclusão? O que existe não está de bom tamanho? O simples fato de eu ser quem eu sou não está de bom tamanho? Preciso de alguém que supra o que está faltando? O que há para ser completado? Besteira. Que me desculpe o criador da frase “você deve encontrar a metade da sua laranja”.
Pessoas não são laranjas pela metade. São pessoas, 100%, ou pelo menos somos 99%. De carne, osso e sentimentos. Mais sentimentos que tudo. E precisamos aprender a amar esse emaranhado de sentimentos, pensamentos e insegurança que somos. […]
“Aquele que não se ama procura no outro um amor incondicional que deveria existir dentro de si mesmo. Aquele que se ama se basta.”
—  Isabela Freitas.

aprendi que nem tudo na vida, necessariamente, precisa significar algo.

e doeu.

na virada do ano, me peguei realizando promessas e desejos, que são típicas de virem acompanhadas com sete ondas do vasto mar.
em silêncio, eu desejei que o universo me trouxesse alguém. não me refiro a minha alma gêmea ou metade da laranja. só pedi um alguém que fique. implorei, que pelo menos uma vez, a paixão não me fosse tão efêmera.
logo eu, que sempre fui descrente de tudo, me peguei de peito aperto e de pés molhados, desejando alguém para ficar.

no momento em que eu te vi pela primeira vez, com o coração acelerado, eu me perguntei se você era a resposta.

relembro, constantemente, o momento em que te conheci e de como todos os seus gestos me eram vistos em câmera lenta.
fotografei o seu sorriso e seu olhar na minha memória, para decifrar calmamente todos os significados possíveis que haviam escondidos em seus traços.

depois daquela tarde, eu buscava acreditar que todos aqueles momentos que passamos juntos foram reais.
você me deu um anel. você lembra?
eu ia comprar um para mim, mas por algum motivo, você fez questão de me presentear.
eu quis, de todas as formas possíveis, não criar expectativas.
olhava para a minha mão dizendo várias e várias vezes que aquilo era apenas um anel.
mas me entreguei.
me permiti.
quis te sentir.
deixei me levar.
me apaixonei.

foi engraçado, quando meus amigos questionaram se o sorriso estampado no meu rosto veio de brinde com o anel que eu havia ganho.
estar com você me fazia feliz.
você me fez sentir algo que eu sempre quis, mas acreditava que não seria possível.
era utópico demais.
eu acreditei em um “nós” a cada mensagem de bom dia que recebia de você.

depois de um tempo, percebi que pular ondas, gritar meus desejos para o universo ou fazer um pedido quando der meia noite, não significam nada.
muita das vezes, um anel é apenas um anel.
um bom dia pode ser uma mera formalização.

o fato de alguém estar, não significa que ela queira ficar.
o fato de estar seguindo em frente, não significa que eu esteja bem.
mas continuo seguindo.

você se foi.
mas o anel ficou.

Não acredito em destino, mas acredito em algo separado por Deus. Para mim metade da laranja, tampa da panela é besteira, mas acredito que da costela de Adão veio sua esposa Eva e é assim, cada homem encontra a sua mulher ideal, alguém que Deus preparou, cada homem encontra a costela que foi tirada de si, porque Deus viu que não era bom que o homem ficasse só.
—  Hey Nana
Eu queria ser aquele cara que você gosta, aquele que você pensa quando ouve a palavra amor, aquele que te faz sonhar e ser o seu primeiro pensamento do dia. Eu gostaria de ser aquele que pode te fazer sorrir todos os dias, que consegue preencher seus pensamentos e te livrar dos males que te cercam. Eu queria ser o teu refúgio, sua rota de fuga, seu destino, seu caminho, sua metade da laranja ou tampa da panela. Eu gostaria de ser aquele que te abraça e te cobre em um dia frio, que te protege e te faz bem. Eu gostaria de ser pra você tudo o que você é pra mim, pra poder te mostrar o quão lindo é o dia quando sei que vou te ver.
—  O Pequeno Bob. 
Às vezes acho que sou uma romântica em negação. Digo que não, mas sonho com a pessoa perfeita, a alma gêmea, tampa da panela, metade da laranja, aquela pecinha que faltava no meu quebra-cabeça. Grito em alto e bom tom que não preciso de ninguém – é mentira. Eu preciso. Quero ser surpreendida com flores na porta da minha casa, quero andar de mãos dadas no shopping, acampar num parque, ir de bicicleta até à praia, fazer loucuras e juras de amor.
—  Elizabeth Rossi
Desapegar: remover da sua vida tudo que torne o seu coração mais pesado. Loucos são os que mantêm relacionamentos ruins por medo da solidão. Qual é o problema de ficar sozinha? Que me desculpe o criador da frase “você deve encontrar a metade da sua laranja”. Calma lá, amigo. Eu nem gosto de laranja. O amor vem pros distraídos.
—  Não se apega não.
Cadê a tampa da minha panela, o chinelo do meu pé cansado, a metade da minha laranja? Tá em ebulição, vazando, transbordando, e nada da tampa da panela pra socorrer a lambança. É culpa da pressão que eu ponho em tudo isso? É o que dizem: desencana que uma hora ele aparece. O pé cansado já tentou calçar (à força) do chinelão que descola as tiras ao sapatinho de cristal. Nenhum serviu e o coitado tá todo esfolado. Ninguém pra descascar, chupar ou fazer uma laranjada. Em compensação, laranjas na minha vida não faltam. E chega! Há anos peço o príncipe e só me mandam o cavalo. Fim de ano sem amar é deprê, hein? Tô megera o suficiente pra ver uma família feliz no shopping e pensar que aquela instituição “image bank” não passa de uma união solitária de aparências. Tô megera o suficiente pra furar a fila do Papai Noel e pedir um pirulito, bem grande, bem grosso, bem exclusivamente apaixonado por mim. Tô megera o suficiente pra abraçar os veadinhos do trenó em homenagem aos meus ex-casos. Tô mega megera o suficiente pra não admitir minha carência e dar uma risada debochada de todas as luzes, canções e emoções de boas-festas. Tá, mas no especial do Roberto Carlos não vai dar pra ser megera. O filho da mãe sempre me faz chorar. É impressionante como a gente se sente sozinha na porra do especial do Roberto Carlos. É claro que eu desejo o meu sucesso profissional, dinheiro, saúde… mas nada de atacar para todos os lados nas simpatias deste réveillon. Não dá certo. Este ano vou focar no amor: calcinha vermelha, fitinhas vermelhas e as sete ondas vão ser puladas com a mão no coração (se eu usar a frente-única branca que comprei, é bom que a mão no coração já segura um peito) e uma só intenção: encontrar o danado. Ah, sejamos sinceras mulheres modernas: no fundo, no fundo, a gente quer mesmo é alguém pra dormir protegida no peito (de preferência largo, forte e levemente cabeludo). E nem é medo de ficar pra titia não, além de ter cara de mais nova e ser bem nova, eu sou filha única. É vontade de sentir aquela coisinha misteriosa de “é esse!”. Como será sentir isso? Eu sempre sinto que “pode ser esse, ou talvez com algumas mudancinhas possa ser esse ou talvez se ele quisesse, poderia ser esse…”. Não, isso tá errado. Quero sentir que “é esse”. Dizem que materializar os sonhos escrevendo ajuda, então lá vai: quero transar com beijo na boca profundo, olhos nos olhos, eu te amo e muita sacanagem, quero cineminha com encosto de ombro cheiroso, casar de branco, ser carregada no colo, filhos, casinha no campo com cerquinha branca, cachorro e caseiro bacana. Quero ouvir Chet Baker numa noite chuvosa e ter de um lado um livrinho na cabeceira da cama e do outro o homem que amo. Quero sambão com churrasco e as famílias reunidas. Quero ter certeza, ali no fundo da alma dele, de que ele me ama. Quero que ele saia correndo quando meu peito amargurado precisar de riso. Que ele esqueça, de vez em quando, seu lado egoísta, e lembre do meu. Que a gente brigue de ciúmes, porque ciúmes faz parte da paixão, e que faça as pazes rapidamente, porque paz faz parte do amor. Quero ser lembrada em horários malucos, todos os horários, pra sempre. Quero ser criança, mulher, homem, et, megera, maluca e, ainda assim, olhada com total reconhecimento de território. Quero sexo na escada e alguns hematomas e depois descanso numa cama nossa e pura. Quero foto brega na sala, com duas crianças enfeitando nossa moldura. Quero o sobrenome dele, o suor dele, a alma dele, o dinheiro dele (brincadeira…). Que ele me ame como a minha mãe, que seja mais forte que o meu pai, que seja a família que escolhi pra sempre. Quero que ele passe a mão na minha cabeça quando eu for sincera em minhas desculpas e que ele me ignore quando eu tentar enrolá-lo em minhas maldades. Quero que ele me torne uma pessoa melhor, que faça sexo como ninguém, que invente novas posições, que me faça comer peixe apimentado sem medo, respeite meus enjoos de sensibilidade, minhas esquisitices depressivas e morra de rir com meu senso de humor arrogante. Que seja lindo de uma beleza que me encha de tesão e que tenha um beijo que não desgaste com a rotina. Que a sua remela seja sequinha e não gosmenta e que o tempo leve um pouco de seu cabelo (adoro carecas…). Que suas escatologias não passem de piada e se materializem bem longe de mim. Tem que gostar de crianças, de cachorrinhos, da minha mãe, e tem que odiar ver pessoas procurando comida no lixo. Tem que dançar charmoso, ser irônico, ser calmo porém macho (ou seja, não explodir por nada mas também não calar por tudo). Tem que ser meio artista, mas também ter que saber cuidar dos meus problemas burocráticos. Tem que amar tudo o que eu escrevo e me olhar com aquela cara de “essa mulher é única”. É mais ou menos isso. Achou muito? Claro que não precisa ser exatamente assim, tintim por tintim. Exigir demais pode fazer eu acabar sozinha em mais shows do Roberto Carlos. Deus me livre! Bom, analisando aqui, dá pra tirar umas coisinhas. Deixa eu ver… Resumindo então: tem que dizer que me ama e me amar mesmo, tem que rolar umas sacanagens e não pode ter remela gosmenta. Pronto! E quando eu tiver tudo isso e uma menina boba e invejosa me olhar e pensar que “aquela instituição feliz não passa de uma união solitária de aparências” vou ter pena desse coração solitário que ainda não encontrou o verdadeiro amor.
—  Tati Bernardi.