mcastro

Não sei se ainda sei ficar só, dentro do meu silêncio alvoraçado.
Há muito não gasto meu tempo com esses monólogos que a gente tem em madrugadas insones, esses que a gente jura que encontrou um outro você. Eu costumava conhecer todos esses eu, e até chegava a entender eles.
Hoje percebi que não reconheço muitos deles, e até o meu reflexo no espelho eu estranho de vez em quando.
— 

Será que me perdi de vez?

M. Castro

O piano do vizinho está melancólico.
E hoje de manhã quando fui a padaria da esquina, a atendente saiu do banheiro ainda limpando a maquiagem borrada nos olhos.
No trabalho eu pude ver as olheiras cansadas do meu chefe nitidamente.
E a moça que sempre se senta ao meu lado no ponto de ônibus cochichava alguns insultos no telefone enquanto engolia o grande nó na garganta.
O cobrador não respondeu ao meu bom dia pela primeira vez.
E o motorista nem ouviu o meu obrigada.
Ou todo mundo também brigou com você ontem a noite, ou a tristeza que carrego no peito entornou um pouco em cada lugar que passo.
— 

Quando a gente briga acabo vendo nosso reflexo triste e lamuriante em todos os olhos, em todos os passos. O mundo se acaba em sofrimento no nosso choro, e renasce na tranquilidade quando damos as mãos.

M. Castro

São três da manhã.
Não no relógio, em mim.
São três amanhãs diferentes.
E eu não sei qual seguir.
São três rãs atrapalhando meu sono.
Como uma dor de dente.
São o que são!
Três “hãs?!”
Para seus gritos intermitentes de amor.
— 

Sobre o quanto me perco no vai e volta de seu amor.

M. Castro

Nota pessoal:
O que doeu não foi o adeus.
Doeu estar aí, e você não suportar olhar pra mim, enquanto eu não conseguia tirar os olhos de ti.
Eu analisei os teus jeitos, e até fiz uma ou duas poesias sobre, mas você tirou todo doce disso, fez minha mania de observar os detalhes virar um defeito incômodo que eu preciso, a todo custo, arrancar de mim. Como vou escrever poesia se não posso mais extrair o íntimo dos gestos?
Você disse que eu deveria ser mais o que sou no papel, mas quando eu me encolhi tímida em sua sombra você desejou que eu não estivesse ali. O que sou no papel senão timidez e desajeito?
E quando tentei ser quem não sou, você também odiou.
Mas no meio disso tudo, de tanto desagrado, teve um momento em que o que fui, foi poesia, realidade e mais algumas coisas da minha personalidade que nunca vão mudar, fui o silenciar.
—  M. Castro

A poesia do desequilíbrio mental:

De manhã eu rolo no lençol
sinto um cheiro, é café.
Luz entra pela janela, é o sol.

Tudo é extremamente branco.
Blusa, calça, sandália.
Piso, parede, janela e banco.
Tic.
As mãos alcançam o cabelo.
Tac.
Os dedos enrolam os cachos freneticamente.
Tic.
Os olhos piscam, medo.
Tac.
A cabeça treme, mil coisas na mente.
Tic.
Tac.

Relógio… barulho…
Corre… Tá na hora…

Júlio?!
Cadê meu pai?!
Hoje não é dia de visita?
Tomei banho, escovei os dentes…
Olha, coloquei fita…
no…
cabel…
Como assim ele não vêm?!
Não quero ficar na fila!
Não! não quero comida!
Quero um bom… passeio…
Os patos estão esperando…
Que feio!
Ele não veio, e os patos…
vão pensar que fiz por mal…
que os abandonei…
Tic.
Eu os magoei.
Tac.
Prometi, e não cumpri.
Tic.
Tac.

—  M. Castro
A cidade que não dorme.
Está sedenta por silêncio.
A dor que consome.
Não tem espaço pra ser sentida.
Não em meio à tanto movimento.
Aqui, ninguém para pra cuidar da ferida.
Não há tempo.

Nos passos que percorrem calçadas.
Nos ombros que se esbarram.
Nos carros que buzinam.
Nos escombros.
Nos cartazes.
Nos bares.
A vida passa corrida.
A lida, a lida.
Não há tempo.
Não há espaço.
O amor acontece.
Num alento.
Num abraço.
Assim, num piscar de olhos.
Às vezes nem se percebe.
De repente início.
De repente fim.
Quando vê, acabou.
Não resta nada.
A não ser a saída.
A não ser o partir.
Ao sair,
nem se dá conta do próprio egoísmo.
Nos outros olhos ainda havia carinho.
O resquício machuca.
Mas a cidade não dorme.
Então a dor passa batida.
Morre.
Engolida.
Sufocada.
—  M.
Ela deslizou o dedo e escreveu na poeira.
“Eu te amo, mas todo amor um dia, parte!”
Eu vi seus olhos voltando pra mim naquele momento.
Uma parte dela gritou que ficaria, enquanto a outra acenava.
Tchau.
O beijo na bochecha ficou grudado em mim.
Entrei no banheiro da casa abandonada, e minha cara refletida no espelho quebrado parecia combinar com aquele lugar.
—  M.
Eu liguei seus sinais,
com a ponta dos dedos.
Atraquei no seu cais,
de alma e corpo inteiro.
Beijei sua nuca.
Mergulhei em seu cabelo.
Mordi sua boca.
Senti teu cheiro.
Deitei sob você, fui uma das suas cicatrizes.
Decorei cada traço seu, e de suas tatuagens.
Amei seus defeitos como ninguém.
E fui embora, de fininho pela manhã.
Deixei-lhe, um bilhete, com a melhor parte de mim.
Um adeus sereno, sobre um amor que não dói no fim.
— 

Amor por uma noite.

M. Castro

Gradativamente a gente se apaixona pela mente mais desequilibrada que já esbarramos na vida, instinto de compaixão, ou só burrice mesmo.
É só ter um aviso de “cuidado” que a curiosidade atiça, e assim, quase sem querer, entramos num beco sem saída.
—  M. Castro
Gosto da nudez
porque mostrar mais da pele
é um ato de coragem
tato,
é fato que é daí que o prazer vem
e faz querer mais
dá vontade de tocar além.
porque no fim das contas
a pele é só um Ás…
um convite, talvez,
para acariciar o que se esconde no íntimo.
—  Não é amor, mas não é só sexo. (Afinal, para que servem os rótulos?)
nota pessoal:
atrevi-me a colocar um ponto final no meio do ano.
não cabia sequer uma vírgula, e tive a ousadia de esculpir um ponto final.
não há validade nenhuma naquele ponto final, o tempo não parou de passar dolorosamente, e o ano não recomeçou, nem acabou. 2014 continua, com gosto de partida, e textura de despedida.
as lágrimas carregam as dores de um erro meu e outro seu, não importa, o ponto dói com a mesma intensidade de uma frase contínua…
—  M

A tempestade não nos impediu de sair de casa.
“É um risco que deve ser corrido.”
Ele sussurrou trêmulo antes de entrarmos no carro.

Nunca fui a louca que se joga no meio de uma tempestade em alta velocidade, nem a que entra num bar isolado no meio da estrada.
“O juízo me abandonou essa noite!”
Eu gritava entre uma dose e outra.

Me espendurei no pescoço dele e deixei que ele me carregasse do bar ao carro, e do carro ao quarto, nós nos perderíamos para sempre depois desta noite.

“A partida por si só, já é um ato de destruição. Não custa nada matarmos o tédio antes de cometermos esse suicídio.”
Ele escreveu isto num guardanapo e eu o guardei no bolso, ler isso agora de manhã, com a cabeça a ponto de explodir, é dolorosamente poético.

“Tomara que perca o embarque!”
Pensei enquanto lhe desejava boa viagem, internamente somos mesmo egoístas.

“Tomara que dê tudo certo!”
Foi o que eu disse. Um beijo, e lá se foi outro amor.

—  M. Castro
Tanta dor, pendurada numa lágrima.
Não pisque.
Por um milésimo de segundo você faz isso e ela escorre, pinga, e marca seu livro favorito.
Não, não pisque.
Não permita que essa lembrança se grave num lugar tão bonito.
Pegue o lenço.
Ele não merece mais que estar assoado no meio de tantos outros choros, lavados, e esquecidos.
—  M. Castro
Penetro em seus olhos profundos, e me deleito no universo que é seu.
Mergulho em seus lábios, e encontro em seu sabor, pitada de caos, dor, poesia e amor.
A complexidade que habita em ti tem a cor do céu do dia primeiro de janeiro, e assim acho em ti, o começo e o fim.
Me deito em seu peito, e me sinto em paz, porque ali é o único lugar onde sinto que minha pequenez, é gigante.
Tenho medo dos seus medos, e tenho coragem bastante para enfrentá-los contigo.
Por isso insisto.
Quero que me permita estar, como nunca permitiu a ninguém.
—  M. Castro

O adeus grita no encontro do nosso olhar.
E eu consigo os teus pedidos, decifrar:

“Cuide-se, porque não poderei mais cuidar.”
“Cuide muito bem, daqueles que para sempre, jurei amar.”

O adeus é semente da saudade.
Eu plantei o seu, pra mais tarde,
colher lágrimas em meio a lembranças.
Ah, se essas constantes mudanças,
lavasse o meu rosto e
levasse o desgosto,
de não lhe ter mais.
Ah, se a morte não deixasse para trás
a dor de não lhe ter mais.

—  M.
Nota pessoal:
Ultimamente não escrevo muito sobre os detalhes sutis da vida, e isto tem me feito mais amarga, a poesia sempre foi o que me acrescentou doçura. Não quero me distanciar desse meu eu como tenho feito. A amargura não pode ser o que prevalesce no sabor de um bom chocolate, ela tem que estar lá, mas deve ser na medida certa.
O fio da lâmpada emitia luz e calor para o quarto, era tarde, mas eu não sabia o quanto. Seus olhos penetravam os meus, e dava pra sentir sua respiração na minha pele. Estávamos as duas em silêncio. Não cabe muitas palavras entre o orgasmo e o sorriso de satisfação. Este era o momento de conectar mais que corpo, mais que prazer. Enlace em mim um pouco de você. Sussurre mais que gemidos aos meus ouvidos. Olhe-me mais que só com desejo.
A luz se apaga de repente.
Não importa, ainda consigo ver seu vulto, suas curvas, sua estrutura interna ainda flutua, e ainda sinto seus segredos dependurados na ponta da língua enquanto me beija.
Você se levanta.
Meus braços estão agora vazios, e a porta que antes nos fechava no nosso mundo está agora aberta, seus passos ecoam pelo chão e soam como música, as gavetas da estante da sala foram abertas e reviradas uma por uma, e todos os barulhos são você, até o xingamento que solta ao esbarrar em algo.
Sua silhueta surge na porta.
Caminha como se dançasse no escuro em minha direção, não é uma dança suave, ou leve, você se mexe com sensualidade e até tem uma leve pitadinha de delicadeza nos teus gestos, mas o que se destaca no seu jeito é a graciosidade do desastre, desajeitada, mas ainda assim sexy.
Acende uma vela.
Derrama a cera dela numa pequena xícara, apoia-a, me olha e sorri: “Queria te ver a luz de vela, quebrei a unha do mindinho, mas valeu a pena, você fica ainda mais linda.”
—  M.