mas nem rolou

Capítulo 143 - Dois cabelos loiros.

Eu: O que eu respondo?

Me sentia meio idiota fazendo aquela pergunta, mas já que o Fred tava acertando até o momento, achei melhor aproveitar a consultoria.

Fred: Diz pra vocês se encontrarem amanhã à tarde, ué.

É, né? Pareceu até meio óbvio demais depois que ele falou. Comecei a digitar já dentro do metrô, quando o Fred pareceu ter surtado de uma hora pra outra.

Fred: NÃO!!! Não!

Até dei um pulo de susto. O desespero na fala dele foi tão grande que eu imaginei que tivesse a ver com qualquer outra coisa, menos com a minha inofensiva mensagem. Percebi que o problema era ela quando ele tirou o celular da minha mão.

Eu: Ficou maluco?
Fred: Tu não pode encontrar essa mina amanhã!
Eu: Por que não?

Nunca imaginei que fosse ouvir qualquer frase parecida com aquela saindo da boca do Fred. Ele me proibindo de sair com uma guria - que não fosse a Alícia - era novidade.

Fred: São tantos motivos que preciso te listar.
Eu: Vamo lá.

Pisquei devagar e com tédio, pronto pra ouvir mais uma história idiota com importância superestimada na cabeça do Fred.

Fred: Amanhã tu precisa estar livre à tarde pra me ajudar com a festa.
Matt: Tu vai mesmo dar uma festa na segunda-feira?
Fred: Precisamos comprar as paradas, chamar a galera, aquela coisa toda de sempre. Vocês tão ligados, precisamos sempre de três cabeças pra organizar as festas.
Eu: E tu não pode chamar outra pessoa no meu lugar?
Fred: Tu não falou isso. - ele pareceu ofendido de verdade.
Eu: Ué. O que tem? Não é tu que sempre diz que nada é mais importante do que pegar uma mina?
Fred: “Bros before hoes.” É ISSO que eu sempre digo. - ele me apontou. - Não coloca porra de palavra na minha boca.
Eu: Beleza, qual é o outro motivo?
Fred: Tu vai encontrar a mina à tarde na casa dela, certo?
Eu: Pelo visto, sim.
Fred: Tu sabe o que vai rolar, certo? Ela não tá te chamando pra conhecer a coleção de selos dela.
Eu: É…
Fred: Ela não é o Matt.
Matt: Eu nem tenho coleção de selos.
Fred: Tem sim.
Matt: Claro que não.
Fred: Vinte e um selos de países diferentes guardados na tua gaveta já podem ser considerados uma coleção, Matheus.
Matt: Pô.
Eu: Foda-se! Continua!
Fred: Então, vocês vão meter, ela é gatinha, tu é jovem, tá precisando dar umas já faz um tempo…
Matt: O último selo que eu guardei eu tinha quinze anos.
Fred: Que mentira.
Matt: É verdade.
Fred: Eu te vi mexendo nisso semana passada.
Matt: Eu só tava arrumando, ué.
Fred: E na boa, tu acha mesmo que quinze anos é uma idade ok pra tu colecionar QUALQUER coisa?
Eu: Mano, como é difícil manter uma conversa com vocês, puta que pariu.
Fred: Voltando: o que eu quero dizer é que vocês vão transar várias vezes, a tarde inteira, até não aguentar mais e…

Eu já tava parecendo um cachorro assistindo um frango assado na padaria ouvindo o Fred falar. Ele tava narrando o melhor dia da minha vida ou o quê?

Fred: Com essas coisas que eu to falando vai ficar difícil tu deixar de encontrar a mina pra passar a tarde com dois idiotas organizando festa, né?
Eu: Sim.
Fred: Mas calma, tu já vai entender. Meu ponto é: vocês vão ficar trepando até pouco antes da festa, tenho certeza.
Eu: Hm.
Fred: OU PELO MENOS É ISSO QUE EU ESPERO QUE TU FAÇA.
Eu: Certo.
Fred: E aí tu vai simplesmente dizer “tenho uma festa pra ir” e ir embora?
Eu: É… Eu acho.
Fred: Não, velho. Ou tu vai chamar pra continuar transando, ou tu vai chamar pra não ficar chato, ou ela vai se convidar. E aí de repente tu tá de casal numa festa com infinitas possibilidades de mina pra tu pegar. Melhor não.

Na boa, eu não teria essa capacidade de pensar tão longe no lugar dele. Mas fazia sentido.

Eu: Mas e aí? Eu falo que não posso ir amanhã e perco uma tarde de sexo com a mina?
Fred: Claro que não. Daí tu passa pra outro dia.
Eu: E se outro dia ela não estiver mais a fim?
Fred: Se vocês já tivessem transado, tu corria esse risco. Mas nem rolou ainda, então ela tá ansiosa e na expectativa. Vai querer no dia seguinte mesmo.
Eu: Pode crer.
Fred: Confia em mim, cara. Responde aí dizendo que apareceu um bagulho de última hora e tu só vai poder ir na terça.
Eu: Não acredito que vou fazer o que tu tá mandando, mas vamo lá.
Fred: Pode confiar. Ah! E não esquece de perguntar se ela vai estar sozinha em casa amanhã também.
Matt: Acho que a gente passou a estação.
Fred: PORRA!

A gente realmente tinha se empolgado na conversa. Descemos na estação seguinte e voltamos uma pra poder descer perto da república. Respondi a mensagem da guria assim que o Fred devolveu meu celular, e ela pareceu bem tranquila sobre a gente se encontrar no dia seguinte. Às vezes transformamos coisas simples em problemas sem nem perceber, e depois ainda ficamos botando a culpa no mundo como se fôssemos azarados. Pensei que a guria fosse ficar puta, ou não fosse mais querer me ver, e no fim ela só respondeu um “beleza”.

O Matt ficou sem falar nada no caminho até a república. Provavelmente ainda tava anestesiado com a história toda. Muita coisa aconteceu na vida dele nos últimos dias. Até nas últimas horas. Logo ele que é um cara que curte o sossego e valoriza a calmaria, tendo que lidar com tanta coisa ao mesmo tempo. Queria poder ajudá-lo de algum jeito.

Fred: Pra começar eu acho que prima não é parente.
Eu: Ei, Matt. Parece que tão oferecendo um trampo na biblioteca da faculdade mesmo.
Matt: Sei.
Eu: Amanhã tu pode ver isso na hora do intervalo. Vou contigo, se quiser.
Fred: Trabalhar na biblioteca deve ser chato pra caralho.

Incrível como o Fred não perde a oportunidade de ser inconveniente.

Fred: Trabalhar em qualquer lugar deve ser chato pra caralho, na verdade. Mas, ei! Tu precisa estar livre amanhã pra me ajudar com a festa, demorou? - ele falou com o Matt. - Começa com esse trampo na terça só.
Matt: Não sei nem se vou conseguir.
Eu: Vai sim.

Eu sou pessimista pra caralho na maior parte do tempo, mas reconheço que às vezes é preciso mentir um pouco pra si mesmo - ou pros outros - que tudo vai dar certo pra vida ficar mais fácil.

Chegando na república, o Fred ficou acelerando pra gente já começar a ligar pras pessoas pra avisar sobre a festa e arranjar os gorós, mas ninguém tava no clima. Eu tava com preguiça e um pouco de sono, e o Matt… Pff. Parecia que alguém da família dele tinha morrido. Entrou em casa e foi direto pro quarto se enrolar no edredom. O Fred reclamou (pra caralho), mas depois de tantos anos nós já aprendemos a abstrair. Fui pro meu quarto e deixei ele divagando sozinho na sala sobre o quanto a “Milena da Atlética” tinha cara de vagabunda mas não se aproveitava daquilo. A última frase em que eu me lembro de ter prestado atenção foi “ela faria mais sucesso que a Marcela se assumisse que tem cara de atriz pornô”, seja lá o que isso quer dizer na cabeça do Fred.

No quarto, encontrei o Dudu deitado na cama com a luz acesa lendo um livro. Ele me cumprimentou, mas tava tão concentrado que nem devia ter reparado em quem eu era. Só quando me deitei na cama e cobri a cabeça com o lençol ele notou a minha presença.

Dudu: Tu quer que apague a luz?
Eu: Não, tá de boa.

Na real eu queria, mas não ia foder com a leitura do cara só pra eu poder dormir mais rápido. O Dudu é um cara legal. Gosto dele.

Eu: Tem festa na casa do Fred amanhã, se quiser colar. - minha voz saiu abafada embaixo do lençol, mas ele entendeu.
Dudu: Na segunda-feira?
Eu: Pois é.
Dudu: Ah. Massa.
Eu: Pode chamar os caras.
Dudu: Demorou.

E alguns minutos depois, eu dormi.

Acordei com o barulho do Dudu abrindo uma gaveta emperrada, ainda bem, porque eu tinha esquecido de colocar o celular pra despertar.

Eu: Caralho, que horas são?
Dudu: Relaxa, tá cedo.

Disse isso e saiu do quarto. Ainda fiquei uns dez minutos coçando o rosto e olhando pro teto, como se aquilo fosse me trazer algo de útil pra vida, mas é que às vezes o ato de enrolar é mais forte que eu.

Quando finalmente decidi sair da cama, vi o quarto do Fred e do Matt vazio, e encontrei o Matt tomando sucrilhos numa tigela vermelha na sala da cozinha. O Felipe tava no banho e o Dudu tava amarrando o tênis próximo da porta de saída.

Eu: Cadê o Fred?

O Matt deu de ombros. Achei estranho, mas também não tava no melhor dos ânimos pra trocar ideia aquela hora da manhã. As manhãs não foram feitas pra conversar.

Tomei um sucrilhos rápido e troquei de roupa enquanto o Matt me esperava feito um zumbi encostado no sofá da sala. Tava na cara que ele não tava com a menor vontade de viver. Saindo do quarto, dei de cara com o Felipe atravessando o corredor.

Felipe: E aí, Thom.
Eu: E aí.

Ele desviou e entrou no quarto. Eu já tava pra sair andando quando me lembrei de chamá-lo pra festa do Fred.

Eu: Se liga, vamos dar uma festa na casa do Fred hoje. Se quiser colar.
Felipe: Hoje?
Eu: É.

Qual é o problema das pessoas com festas na segunda-feira? Parece que todo mundo tem que confirmar a informação umas três vezes antes de decidir se vai ou não.

Felipe: Hoje tenho outra festa pra ir, cara. Não vai rolar.
Eu: Ah, suave.
Felipe: Festa do Lobo, não tá sabendo?

E por que eu estaria?

Eu: Acho que não.
Felipe: Festa do Michel Lobo, diretor de eventos da Atletica, meu brother.

Sorri pra fingir que eu sabia quem era.

Eu: Pode crer.
Felipe: Falou, velho.

Ele fez um gesto engraçado com as mãos e saiu andando. Eu fui logo atrás e chamei o Matt, que me obedeceu como uma ameba.

Eu: Tu tá parecendo uma ameba sem cérebro.
Matt: Amebas não têm cérebro.
Eu: Vamo nessa, vai, Matt.

Atravessamos a rua da faculdade como se estivéssemos indo pro inferno. Eu tava com muita preguiça de assistir qualquer aula que fosse, e naquele dia eu sabia que ainda ia ter que correr atrás do professor de finanças pra pegar minha nota da recuperação, o que me deixava com mais preguiça ainda.

Só acordei daquele estado de pura preguiça quando vi um cabelo loiro ao longe, bem em frente à área de fumantes. Ou melhor, não só um cabelo loiro, mas dois, é bem próximos.

Eu: É o Fred?
Matt: O Fred e a Vicky.
Eu: Tá me zuando que o cara veio mais cedo pra ficar com a guria. Esse mundo anda muito esquisito.

Próximo post: 10/08 - finalmente #FESTADOFRED