mas emfim

Eu estou tão fora de mim. A uns dias fico olhando pra o nada até chorar. Eu gosto de chorar, acredito que é uma forma de mandar a tristeza embora e abrir caminho pra felicidade. Mas pra eu desocupar esse espaço dentro de mim ainda vai demorar muito, não é só tristeza que eu guardo. Acumulo muitas coisas, coisas que até eu desconheço. Fico me perguntando se esses pensamentos são consequencia da solidão ou da bebida. 

Um dia desses sai desnosteada pela rua, a medida que os meus passos aumentavam a velocidade, o ar parecia ficar mais gelado e o vendo parecia ficar mais insuportável a cada segundo - não bastasse a chuva que o acompanhava. Porém o clima naquele momento era o de menos, eu teria que achar um destino, um beco qualquer, um alguém. Não sei nem o que procurava ao certo. Se procurava a mim, ou a quem me possuia. Tinha em baixo de meu braço um diário e em minha mão fumava um cigarro, e tinha outro dentro do meu bolso. Quem me via, pensava até que eu era louca, andando calmamente no meio da chuva e de um vento violento que as vezes me fazia até fechar um pouco os olhos. Eu estava totalmente encharcada, e o meu diário também, sorte que ele tinha uma capa e que não havia molhado tanto assim as páginas devido a chuva. Achei uma praça e havia uma árvore grande, não chovia tanto assim em baixo dela, e dava pra eu sentar em algumas de suas raizes já que eram grossas, longas e entranhadas, formava como que… um banco, é. Sentei-me lá e acompanhando as gotas de chuva chorei. Mas uma vez chorei pelo nada. Olhava pra o céu, olhava pra as folhas das árvores e pra as pessoas que passavam correndo. Quanta coisa ao meu redor, quanta falta dentro de mim. Até que parei de me procurar e fui procurar quem me possuia. Sabia que a casa dele ficava a algumas quadras de onde eu estava, levei meia hora pra chegar lá, pois estava caminhando devagar e com um aperto, muitas vezes parava e tentava desistir, mas… alguma coisa me fazia continuar. Cheguei e avistei um portão preto e grande, era a casa dele, chamei, chamei, chamei e nada… quando estava quase indo embora, ele abriu o portão pedindo desculpas pela demora, não sabia que era eu que estava lá fora, ficou surpreso. Falou:

- Quanto tempo que não nos vemos. você está…. - e olhando pra as minhas roupas molhadas, meu cabelo meio desgrenhado, e maquiagem borrada, falou cuidadosamente- diferente.

- É por causa da chuva e também porque não sabia para onde ir, então resolvi vir a sua procura.

- E o que te troxe aqui?

- Eu, quer dizer, nós.

- Nós? - disse ele e deu um riso irônico- a quanto tempo não ouço isso, tudo entre nós, digo, eu e você, já teve um fim.

- Mas eu insisto!

- Insiste em que? - indagou confuso. - Não há em que insistir.

- Insisto que você devolva o que me roubou. insisto que devolva meu coração e a minha alegria.

- Essas coisas não podem ser roubadas. Você não está nada bem, vá pra casa.

- Essas coisas podem ser roubadas sim. Porque vocês as roubou de mim. Me privou da alegria, quando foi embora e não me permitiu mas ver o seu sorriso. Roubou meu coração, quando me fez acreditar em ti e despertar esse sentimento, inquietante.

O semblante dele mudou.

- É…

- Calma espere que eu acabe…  E por fim, roubou a mim, quando se foi, sem ao menos dar adeus. 

- Você ainda me ama não é?

- Sim. amo muito.

- Não quero que você sofra, então, esqueça é melhor. - falou ele meio, condoido.

- E você pensa que eu não quero esquecer? que eu não tento? é a coisa que eu mais quero. Me livrar dessas lembranças e desse amor. Acha que eu gosto de ficar lendo romances e me imaginando neles, e depois me deparando que.. eu nunca vou viver aquelas histórias. - e já chorando e com a voz meio embargada, continuei- acha que eu gosto de passar noites em claro? acha que eu gosto de ficar me auto destruindo e investindo no impossível? , por favor digo, eu.

- Mas eu tinha que seguir a minha vida. e… é que.. eu não gostava de você, não a amava, você merece coisa melhor. Por isso me afastei. - e abaixou a cabeça. 

- Mas eu o amo, amo com as forças que me restam. Eu amo cada detalhe seu, amo seu sorriso, a sua voz, o seu abraço. Amo-te ao mesmo tempo que te odeio. Mas esse ódio é de não precisares de mim, tanto quanto eu te preciso, de não dependeres do meu sorriso, e nem de míseras migalahas de um amor acabado, ou talvez inexistente. Mas ainda sim o amor fala mais forte, quer dizer, grita e suplica.

- Eu.. eu não sei o que dizer diante disso. - falou ele um tanto constrangido.

- Não precisa falar nada, eu que preciso desabafar.

- Sempre achei essa coisa de amor, meio ridicula até que cai em mim e percebi que sou a pessoa mais ridícula do mundo. Por que amo e amo muito. Sempre achei essas coisas de livros de romance, clichês, dizia que não tinha graça e hoje eu devoro-os e até ainda acredito que o tal do amor é recíproco. O amor muda as pessoas.

- Eu sei, você me mudou. Um tanto que pra melhor, errando, se aprende muitas coisas.

- Errando? fui um erro pra você?

- Não é bem isso que eu quis dizer, é que..

- Pode falar, é a hora da verdade.. ainda não percebeu?

- É você foi um erro. - admitia com difuculdade e que um tanto inaudível, mas ainda sim, eu entendia.- você é muito romântica, e ainda sim, é muito pouco pra mim. Eu quero alguém que me faça sentir bem, que me desperto um sentimento bom, e você não conseguiu fazer isso. Sinto muito… você não foi o suficiente.

- Me desculpe.

- Não precisa pedir desculpas. Está vendo o que eu fiz? não era pra eu ter dito isso.

- Me desculpe por não ser o suficiente.

Ele abaixou a cabeça não sabia o que falar.

- Se você acha que uma garota que te ama, que te liga pra dizer que sente a sua falta, e que parece que volta a ter 5 anos de idade e fica escrevendo teu nome rodeado de corações, se você acha que a garota que aceita tuas imperfeições e tuas manias mas aninda sim, te olha com a certeza de que és o melhor o mais perfeito, e que… que é capaz de te aguentar a rejeitando e ainda sim continuar a te amar. não é suficiente, eu realmente não sei mais o que fazer… por mim, por você, e pelo meu nós fantasiado.

- Eu encontrei minha garota “perfeita”.

- Fico feliz por você.

- Feliz? disseste agora mesmo que me ama mais que tudo…. Não minta, é a hora da verdade lembra?

- Fico feliz sim… Se você está feliz, eu estou feliz. Me desculpe, por não a garota sufuciente pra você, e por te amar tanto ao ponto de ver-te feliz com outra e sorrir. Realmente me desculpe.

- Ele virou as costas. - parece que chorava, não sei ao certo.

Eu joguei o cigarro que estava na mão, fora. E pisei, parecia cena de filme. Coloquei meu diário em baixo dos braços novamente, e segui. Ele olhou pra trás assim com eu também,

-Adeus. - sussurrei,enquanto acendia o meu outro cigarro. 

(Um último olhar e o portão fechou)

E enquanto eu caminhava, abri as páginas molhadas do meu diário e arranquei a folha onde dizia : o amor é recíproco.  -Chega de ilusão. 

                                                             Luanna Cavalcanti.