marcham

Infiéis pélvicos

Eu deveria me calar
Quando não sei o que dizer
Mas enquanto a mão treme
Minha cabeça esquece de mim
E quer ser sozinha
Um corpo inteiro

Já estou acostumado
Que meu corpo me abandone
É como quando corre
Em uma ladeira
E não consegue parar
Mas se a cabeça corre assim
Ou para ao machucar alguém
Ou até perder a energia

Sou fascista de meu próprio corpo
Minha propaganda diz
Que só devem fazer o que eu mando
(Mas eu nem sei o que estou fazendo)
E levo a eles -órgãos-
em impulsos nervosos
Marcham como quero
E só deixo que obedeçam a mim
Mas sempre há infiéis
Infiéis pélvicos no geral
Que se deixam levar
Por novas figuras
Muitas vezes liberais desorganizados
E há também os tais olhos
Que só precisam ver os de outro corpo
Pra refletirem sobre igualdade
E se fazerem revoltosos.

Eu já sabia

Brasil de capitanias hereditárias,
Eleição atrás de eleição e coisa se mantém precária,
Fanatismo de torcidas, guerra civil de ideais,
Palavras como flechas, não voltam atrás,
Birra de criança no recreio,
Violência de adultos sem receio,
Voto de cabresto de quem está no sistema, curral eleitoral,
Intelectual fazendo as vezes de economista,
Artistas divididos como facções de heróis,
E quem é são está passando mal.
Terra de Vera Cruz, do poder de pai pra filho,
O Peixão e o Peixinho dirigindo um trem sem trilhos,
Esse plano de carreira com cara do velho clero,
Já se sabe, serão mais quinhentos anos de lero lero.
Quem quiser que tome pra si alguma verdade,
Que vou tomar mais uma dose de vergonha por nossa humanidade,
Não sem antes jogar um gole pro santo que espera no canto a sua oração.
Rufam tambores, marcham nas redes sociais, em carros de som, na televisão,
De fardas vermelhas, de fardas azuis, uns nos flancos, outros nas trincheiras,
E o pacifista com as mãos na cabeça, perdendo as estribeiras.
Quem quiser que corra pras frentes de batalha, não adianta apelo,
Vou arrumar meus livros, fazer o almoço, vou ficar aqui de chinelo!
E aos críticos, desculpe a ignorância, desculpe a minha falha,
Mas o futuro da democracia não precisa de tarot,
Agora é esperar mudança vestido de pierrot,
Quem é de fé espera de mãos espalmadas o milagre de um novo dia,
E só o mendigo de juízo carcomido que tinha razão,
No sinal de transito esperando, com uma placa escrita com carvão: Eu já sabia!

- Transtorno Poético -

Você e eu temos duas mentes que pensam como uma e nossos corações marcham na mesma batida, dizem que tudo acontece por uma razão, você pode ser imperfeito o bastante, mas perfeito para uma pessoa, alguém que estará lá para você quando você desmoronar guiando sua direção quando você estiver passeando pela escuridão.Esses somos você e eu.
—  You and me

O amor pode ser quando as coisas não acontecem, também. Quando o momento passa como um tiro pela sua cabeça e você cai santo e terroso no chão enquanto todos caminham e marcham na avenida paulista. O momento exato em que você quebra a perna tentando escalar os muitos pensamentos mas não consegue porque no fim, no fim de mais um dia cansativo, não há força bruta que te eleve ao céu. A vida, efêmera, traça um paralelo de que o amor pode ser a coisa que não acontece. E não é ruim não acontecer. É desastroso, doloroso, infeliz. Mas ruim, jamais. A ferida que estava aberta, começa a desfazer-se em cascas, camadas, e de um dia para outro, quando colocam-lhe o dedo, já não dói mais. Embora os tsunamis e as guerras atinjam seu peito, estancou-se o que havia e há de se recomeçar. 

Viver nem sempre requer amores eternos. O que fica é a marca de que passou-se, passaram-se.

Ouroboros

Vivemos um tempo embaralhado, são muitas Eras juntas,

Vivemos tudo que já houve e haverá de uma só vez,

Perdidos em alguma história ainda não escrita de Stephen King.

A sopa primordial ainda fervilha, o fogo é descoberto,

O grande fêmur vira uma arma, se constroem pirâmides,

Cristãos são comidos por leões,

As fogueiras ainda queimam bruxas,

A chibata ainda estala e nunca se matou tanta gente.

São mortes via implosões silenciosas,

As dores e sofrimentos como um vírus em mutação.

Bombas atômicas explodindo dentro do coração do honesto,

A Grande Guerra na mente de quem se vê impotente e angustiado,

As torturas da ditadura no suspiro diário do assalariado,

O meteoro que matou os dinossauros na ignorância planejada.

As almas estão sendo fagocitadas pela própria psique,

A força gravitacional aumentou de dentro pra fora.

Os generais marcham com seus exércitos nas fachadas dos bancos,

Os bacanais de Roma acontecem em Brasília,

O imperador nomeando um cavalo para um cargo em comissão,

Neandertais planejando a morte de homossapiens.

Que tempo é esse que parece existir em lugar nenhum?

O mundo se devora, se consome em turbilhão,

Mortes de dentro pra fora, de fora pra dentro,

Morte civil, psicológica, pela falta de lógica em viver,

Não se pensa logo não se existe, gente que morreu e nem sente.

É cobra comendo cobra meu irmão,

Como um enterro de um imortal indigente,

Alguém aperte o reset para que o futuro venha novamente.

- Transtorno Poético -