lixo espacial

Ela sempre teve um objetivo, sempre teve “certeza” do que queria. Mas a vida é de imprevistos e as coisas não acontecem com planos, elas vêm inesperadamente. Lutou tanto pra conseguir o que queria que perdeu  mil coisas pelo caminho. Sua lista de planos virou uma coleção de “talvez”. Não conseguiu alcançar o objetivo e não ganhou nada em troca de todo o esforço. E o que ficou? Um emaranhado de sentimentos confusos, sem tempo para novas amizades e ocupada demais para cultivar as antigas, cansada demais para viver um amor e estressada o suficiente para começar uma briga desnecessária. E o resultado de tudo isso? A vêem como uma pessoa amarga, fria, como quem não se importa muito com nada, mas o que não vêem é seu universo interior, uma galáxia há muito esquecida com um buraco negro onde há constelações de estrelas mortas, sistemas com planetas dizimados, lixo espacial descartado sem nenhum cuidado. Há quem diga que é uma das viagens mais perigosas, pois quem entra pode não conseguir voltar. E ninguém tem coragem de viajar em um buraco negro, não é mesmo?
—  Ela É Uma Galáxia Inteira

aonde vai o lixo espacial?

eu só não perco o medo da morte porque nós dois compartilhamos a mesma vontade de chorar.
o quão menos odiaria a mim mesma e ao limbo em que vivo,
o que seria da lisergia dos meus contos se você não fizesse moradia no cansaço de esperar?
a simetria que demarca ponto por ponto,
poro por poro e lágrima por lágrima
essas olheiras obsoletas
diz sobre a bravura do meu subconsciente em carregar algo maior do que consigo datilografar.
quisera eu te reduzir e te escrever num muro velho.
você seria meu mais imundo haicai,
mas minhas mãos não te alcançam, nem os braços ou mesmo os pulos. escrevo o que me inebria.
cada vez que observo suas coisas miúdas,
seus defeitos rastejantes
e a protuberância da sua voz
eu assassino um momento de paz pros meus punhos.
todo nano tempo em que você está
é a anarquia das minhas cidades e becos e esgotos e porões.
há um objeto compressor no centro do meu peito e uma discografia inteira para te dizer tudo que você já sabe.
vamos fazer um filme?
uma lua em formato de granada,
saturno com o céu em chamas
e a gente vendo tudo do interior de um anel.



yasmin

Alinhamento Planetário

Não sou terráqueo, não sou normal e muito menos humano no sentido da palavra. Derivo da fração que é a arte. Residente no espaço que paira em meio à gravidade, em sua obesidade a colidir com asteroides e traçar o curso desta galáxia. Tudo aqui parece ser feito para ti enquanto direcionam-se para o vulcão solar. Os franzinos-sóis juntamente dos obesos astros num (des) alinhamento, com causa maior e por você contemplam tua beleza que chega a anos luz.

Eis que eles se pronunciam de uma forma pitoresca, de uma forma individual expressando teus efeitos sob a atmosfera.

Mercúrio é onde a arte toma fôlego e a extensão cinza muda para um tom abóbora sem tempero.

Vênus, uma fração mostarda-avermelhada que parece explodir e mimetizar o sol. Como se a atmosfera fosse proposital para chamar a tua atenção, numa espécie de cortejo que permanece pelas eras.

Terra, um conglomerado azul e marrom que se esconde em densas porções de chantilly. Brilha com um azul precioso e audaz para refletir tua proporção. Pois, a Terra e as estrelas nasceram para ti.

Marte, a parte da astronomia que completa a alma. Com um rubor tão vivo, pois tuas cavernas negras penetram deixando hematomas de vergonha. Então, essa atmosfera que nos leva a uma dimensão quase particular na ausência de água, pois tu fizeste toda umidez evaporar.

Júpiter, um planeta que de tão grande e curioso sai do eixo solar para te observar assim tão nua e tímida com esse sorriso bobo. “Eu amei as estrelas tão afetuosamente que é impossível ter medo da noite. E cada parcela pequenina e brilhante é de certa forma um traço de ti”.

Saturno, mesmo com 5 sentidos (anéis solares) para examinar teus rastros em torno da galáxia, tão vão que implode em ventos fortes, das cores marmóreas ao ouro. Ainda sim, com auroras e atrações mil nada é suficiente para presentear você que de tão esquiva, prefere fazer shopping no sol.

Urano, arado o pó das estrelas e direcionado, tu sopras sobre a atmosfera que se mistura com o vento e dança num carnaval gélido e azulante que expulsa gotículas d’água. Reluzindo lentamente num modesto brilho gelo e nuvens esparsas.

Netuno, navegar num oceano azul, o qual tão carmesim quando encontra a luz, além do sol num banho oeste de estrelas desconhecidas. Rompendo o vácuo estelar para conquistar tua atenção.

Plutão, um planeta verme-nanico que por não respirar oxigênio acompanha uma tristeza solene vestida de prata. Por não ter tua presença, então excluído e vitimizado com tanto amor resguardado. Mas com certeza, há algo em algum lugar incrível esperando para ser exibido.

E eu um mero mortal em traje. Visualizando você… A minha lua. Emitindo sinais fracos que não perpassam o que realmente reside no peito. Projeto de foguete rompendo a ionosfera para na tua extensão derivar como um lixo espacial, a rodear na tua orbita, rompendo a velocidade da luz e até o vácuo. Mas sem sucesso de aterrissar sobre ti, os teus cílios negros e os teus sons que me guiam, porém não saciam o que somente teus beijos fariam. Sem ar antes da hora como o teu afago, ou sem forças suficientes para não soltar a mão tua. Então, eu só posso observar você desalinhar da minha orbita e partir cravando um sentimento em mim.  

-GREGO