livro velho

São seus olhos cerados sobre o sol nascente, talvez a miopia que cê não aceita, quem sabe eu não pareça com aquele personagem do livro velho que cê tanto ama, a questão é que a beleza vem de você e não desse amontoado de vacilos que eu sou.
—  Everton.
ela amava você?
somente como uma extensão de si mesma.
o que mais pode ser o amor?
o senso comum de querer muito alguma coisa muito boa. não se precisa estar relacionado por laços de sangue. pode ser uma bola de praia vermelha ou uma fatia de torrada com manteiga.
você está querendo dizer que você pode AMAR uma fatia de torrada com manteiga?
somente algumas, senhor. em determinadas manhãs. sob determinados raios de sol. o amor chega e vai embora sem avisar.
é possível amar um ser humano?
é claro, especialmente se você não os conhece muito bem. eu gosto de olhar para eles através da minha janela, caminhando na rua.
Stirkoff, você é um covarde?
é claro, senhor.
qual é a sua definição de covarde?
um homem que pensaria duas vezes antes de lutar com um leão com as mãos nuas.
e qual é a sua definição de um homem corajoso?
um homem que não sabe o que é um leão.
qualquer homem sabe o que é um leão.
qualquer homem pensa que sabe.
e qual é a sua definição de um tolo?
um homem que não se dá conta que o tempo, a Estrutura e a Carne em sua maior parte se desgastam.
então quem é que é sábio?
não existe nenhum sábio, senhor.
então não pode haver nenhum tolo. se não existe noite não pode existir dia; se não existe branco não pode existir preto.
sinto muito, senhor. eu pensava que tudo era o que era, não dependendo de qualquer outra coisa.
—  Charles Bukowski in, Notas de um Velho Safado

Não consigo me acostumar com essa geração tão veloz e impaciente. Sou calmaria; A brisa leve que faz cócegas na alma e tira as flores para dançar. Gosto de ver a serenidade do tempo tecendo a vida fio a fio. A saudade que nasce quando se há amor. Uma montoeira de cartas guardadas no fundo da gaveta; Dedicatórias de amor escondidas nas páginas amareladas de um velho livro;  Abraços apertados que sopram a nossa dor para bem longe; Olhares que conversam no silêncio e fazem poesia das palavras não ditas. Sorrisos inesperados reacendendo a primavera que existe dentro da gente. No final das contas, a gente descobre que o tecido da felicidade é bordado com fios de serenidade. É preciso se despir da urgência e olhar a vida com mais calma. Deslizar pelos pequenos detalhes e descobrir a beleza que se esvai na simplicidade.

Laís Santana

O amor e suas peripécias

Ela se foi. Deixou-me um cheiro de perfume francês entranhado por toda casa, muita saudade e um livro de seu poeta favorito: Manuel Bandeira. Oh, como foram dolorosos os dias que se seguiram após sua partida. Não haviam motivos que explicassem o que aconteceu, ela se foi como quem dá adeus no meio de uma conversa agradável e sai correndo. Sofri. Sofri demais. Só Deus sabe o quanto aquela mulher desgraçou meus dias. A todo instante eu me agarrava às memórias que tentavam sobreviver intactas ao turbilhão de raiva e inconformidade que assolavam meu peito. Algum tempo depois, decidi ler o livro surrado que ela havia me deixado como herança no falecimento de nosso romance. Com afinco folheei o velho livro e, página após página, para minha surpresa, fui me descobrindo um amante da poesia. Que gênio era aquele Bandeira! Poeta dos bons, sabia usar as palavras.

Certo dia, já um tanto reestruturado de minha derrota, resolvi dar a cara à tapa e escrever alguns versos para ela. Com o livro do Bandeira ao meu lado, como quem carrega um amuleto ou coisa assim, dediquei-me a escrever um breve poema que expressasse meu amor por ela. Não foi difícil, confesso. Os versos fluíram com uma facilidade imensa, era como se os deuses estivessem lá dos céus impondo suas mãos sobre minha cabeça e me entregando toda a inspiração necessária para compor a tão desejada Ode:

“És meu amor,
minha alegria,
a flor que inspira
minha poesia.”

Olhei para o caderno rabiscado e senti orgulho de mim mesmo, pelo menos alguma coisa boa aquela mulher maldita havia me deixado. Agora, eu era um poeta. Quem sabe, no futuro, seria um cara renomado como o Bandeira e serviria de inspiração para alguma vítima de amores malogrados.

Não pensei duas vezes, rasguei a folha do caderno e corri até a casa dela. Eu precisava entregar os belíssimos versos que tinha escrito, quem sabe assim, ela perceberia o quanto eu a amava.

Cheguei até a sua casa, empurrei o dedo na campainha e esperei a resposta. Alguns segundos depois, ela me apareceu na porta vestida num roupão puído, com um semblante não muito satisfeito. Não hesitei, entreguei-lhe a folha e animoso esperei uma reação. Compenetrada, ela leu os versos que descansavam harmonicamente na folha, e de repente, assim, sem mais nem menos, se lançou inteira em meus braços e me deu um beijo cheio de paixão.

— Eu te amo, Osvaldo! Sempre amei!
— Que magnífico, Joana! Mas eu não a amo.
— Como assim, Osvaldo? O que significam estes versos então?
— Ora, é a declaração amorosa de um eu-poético para sua amada. Nada mais.

Ela me olhou profundamente nos olhos e senti um misto de ira e confusão. Dei as costas e fui embora…

Alguns amores não valem mais que quatro versos mal escritos.

— Ítalo Jardim

Deitei na cama, abri a garrafa, dobrei o travesseiro nas costas para ter um bom apoio, respirei fundo e sentei na escuridão olhando a janela. Era a primeira vez que eu estava sozinho em cinco dias. Eu era um homem que se fortalecia na solidão; ela era pra mim a comida e a água dos outros homens. Cada dia sem solidão me enfraquecia. Não que eu me orgulhasse dela, mas dela eu dependia. A escuridão do quarto era como um dia ensolarado para mim. Tomei um gole de vinho.
—  Charles Bukowski.
Eu sabia que tinha alguma coisa de errado comigo, mas eu não me considerava insano. Era simplesmente que eu não conseguia compreender como é que outras pessoas tornavam-se tão facilmente irritadas, para em seguida com a mesma facilidade esquecer a sua ira e se tornarem alegres, e como é que eles podiam ser tão interessados por tudo, quando tudo era tão chato.
—  Charles Bukowski.
Às vezes eu sei, mas na maioria das vezes não sei do que estou falando. Minha mãe me chama de mongoloide, meus amigos me chamam de babaca, mas no sentido legal da coisa, eu acho. Eu falo bastante sozinho, na maioria das vezes parafraseio algo que li num livro ou que surgiu do nada e fico repetindo a mesma coisa, tentando entender porquê existe tanta desconexão entre o que eu quero pensar e o que eu estou pensando. E isso não é nem metade do contexto e já dá vontade de calar a maldita boca e não falar mais nada. Mas não falar nada já se tornou um hábito também. E eu odeio hábitos, apesar de estar cercado por eles. Minha vida é cercada no vazio, o vazio é cercado de pilhas de livros e jornais velhos que eu tento ler por não ter nada de interessante para fazer. Escrever é algo que também me salva. Sou um escritor meia-boca, gosto do que faço mas não sei se gostam do que faço, e dizer que não estou nem aí é mentira, porque apesar de escrever para salvar o meu próprio rabo, é bacana ver alguém dizendo que se identifica e que está na mesma merda ou está prestes a entrar na mesma merda que eu ou algo assim. Pensei em largar a escrita, mas escrever também é um dos meus hábitos. Acho que vou cursar jornalismo. Deve ser bacana ser jornalista e escrever umas matérias, ou então ser câmera e acompanhar uma loira gostosa enquanto ela fala aquelas desgraças que acontecem a cada segundo no mundo. Ninguém liga para as tragédias dos outros, mas todo mundo gosta de dois peitos na frente da câmera. E eles estariam bem na minha frente, que maravilha. Às vezes nem precisa ser dois peitos, um só está de bom tamanho. Por falar em tamanho, cresci um centímetro, uma tia veio me visitar e disse que eu cresci bem mais que isso. As tias só servem para falar sobre sua altura e para perguntar como vão suas namoradas ou os seus namorados ou seja lá com que porra você se relaciona. É basicamente isso. Não sei por que estou falando sobre tias. Isso é deprimente. Mas estar deprimido é também um dos meus hábitos.
—  Junior Lima.

O meu pai dizia-me — “a vida é uma corrida, meu filho. Quem olha para trás enquanto corre, arrisca-se a tropeçar”.
Eu não olho para trás. Avanço por vezes de olhos fechados, e tropeço, como os outros, e eventualmente caio, mas não olho para trás. Nunca fui pessoa de cultivar saudades. Não colecciono álbuns de fotografias, e jamais guardei pétalas secas entre as páginas de velhos livros. Sigo sempre em frente. Quando me perguntam para onde vou encolho os ombros. Rio-me:
“Adiante.”

José Eduardo Agualusa