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O destino, isso a que damos o nome de destino, como todas as coisas deste mundo, não conhece a linha recta. O nosso grande engano, devido ao costume que temos de tudo explicar retrospectivamente em função de um resultado final, portanto conhecido, é imaginar o destino como uma flecha apontada diretamente a um alvo que, por assim dizer, a estivesse esperando desde o princípio, sem se mover. Ora, pelo contrário, o destino hesita muitíssimo, tem dúvidas, leva tempo a decidir-se. Tanto assim que antes de converter Rimbaud em traficante de armas e marfim em Africa, o obrigou a ser poeta em Paris.
—  José Saramago, in ‘Cadernos de Lanzarote (1994)’
‘Com o tempo aprendi que o ciúme é um sentimento pra proclamar de peito aberto, no instante mesmo de sua origem . Porque ao nascer, ele é realmente um sentimento cortês, deve ser logo oferecido à mulher como uma rosa . Senão, no instante seguinte ele se fecha em repolho, e dentro dele todo o mal fermenta . O ciúme é então a espécie mais introvertida das invejas, e mordendo-se todo, põe nos outros a culpa de sua feiura.
—  Chico Buarque em  “ Leite Derramado ”
Por que o idiota da objetividade é idiota?

Imagine que uma senhora gorda vê uma cena e volta a lavar sua roupa suja. Agora imagine que ela viu um homem desesperado atirar três vezes em sua mulher no meio do passeio e depois se jogar sobre seu corpo ensanguentado, chorando e gritando: “meu amor, meu amor”. Agora imagine esta senhora pensando enquanto lava a roupa: “ele matou ela, ela o traiu, ele chorou”;

Eis uma idiota da objetividade. Para Nelson, não é a objetividade que define esse tipo sutil de idiota, mas a falta de sentimento. Portanto, sua crítica não é a busca por descrever um fato, mas a incapacidade de enxergar nele a Anna Karenina que agoniza diante de seus olhos. Com isso, o mundo torna-se objetivo como uma necrópsia. No humano, só o cadáver é capaz de ser plenamente objetivo, porém não o cadáver que é dissecado, mas o que observa.

 Luiz Felipe Pondé - “A Filosofia da Adultéra”, Ensaios Selvagens. p. 149

E, se não fôssemos nós, pontais ao crepúsculo, vagarosos caminhantes dos prados do luar, como iria a noite – suas estrelas acendidas, suas esgarçadas nuvens, seu manto de negrume – como iria ela, perdida e solitária, acertar os caminhos tortuosos dessa cidade de becos e ladeiras? Em cada ladeira um ebó, em cada esquina um mistério, em cada coração noturno grito de súplica, uma pena de amor, gosto de fome nas bocas de silêncio, e Exu solto na perigosa hora das encruzilhadas.
—  AMADO, Jorge. “Pastores da Noite”
A Humilhação dos Dias Úteis

Nos fins de semana nos sentimos donos do mundo. Mesmo os pulhas, como dizia Nelson. Mas, nos dias de semana, somos humilhados pela realidade. O homem, pela impotência diante do chefe, do salário, da esposa já não mais satisfeita. A mulher, pela morte da beleza ao longo das horas e do envelhecimento, que é sua face final.

O cotidiano da sopa ou do Facebook, qualquer cotidiano apaga o futuro. A realidade é pequena como uma sopa para quem não consegue mastigar ou morder uma mulher. As ciências sociais nunca tocarão o coração da realidade, porque não olham para a humilhação do homem cotidiano. Uma mulher impossível de ser penetrada é a chave da realidade profunda. Pouco dinheiro, carro velho, apartamento apertado. Nada mais. 

Luíz Felipe Pondé - A Filosofia da Adúltera, Ensaios Selvagens. p. 101

A culpa foi minha, chorava ela, e era verdade, não se podia negar, mas também é certo, se isso lhe serve de consolação, que se antes de cada ato nosso nós puséssemos a prever todas as consequências dele a pensar nelas a sério, primeiro as imediatas, depois as prováveis, depois as possíveis, depois as imagináveis, não chegaríamos sequer a mover-nos de onde o primeiro pensamento nos tivesse feito parar. Os bons e os maus resultados dos nossos ditos e obras vão-se distribuindo, supõe-se que de uma forma bastante uniforme e equilibrada, por todos os dias do futuro, incluindo aqueles, infindáveis, em que já cá não estaremos para poder comprová-lo, para congratular-nos ou pedir perdão, aliás, há quem diga que isso é que é a imortalidade de que tanto se fala.
—  SARAMAGO, José. “Ensaio Sobre a Cegueira”