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O destino, isso a que damos o nome de destino, como todas as coisas deste mundo, não conhece a linha recta. O nosso grande engano, devido ao costume que temos de tudo explicar retrospectivamente em função de um resultado final, portanto conhecido, é imaginar o destino como uma flecha apontada diretamente a um alvo que, por assim dizer, a estivesse esperando desde o princípio, sem se mover. Ora, pelo contrário, o destino hesita muitíssimo, tem dúvidas, leva tempo a decidir-se. Tanto assim que antes de converter Rimbaud em traficante de armas e marfim em Africa, o obrigou a ser poeta em Paris.
—  José Saramago, in ‘Cadernos de Lanzarote (1994)’
‘Com o tempo aprendi que o ciúme é um sentimento pra proclamar de peito aberto, no instante mesmo de sua origem . Porque ao nascer, ele é realmente um sentimento cortês, deve ser logo oferecido à mulher como uma rosa . Senão, no instante seguinte ele se fecha em repolho, e dentro dele todo o mal fermenta . O ciúme é então a espécie mais introvertida das invejas, e mordendo-se todo, põe nos outros a culpa de sua feiura.
—  Chico Buarque em  “ Leite Derramado ”
No século XXI, há uma doença que não ousa dizer o seu nome: a solidão. Hoje, solidão é sinônimo de revés amoroso, que por sua vez se tornou um estigma do insucesso - atualmente fracassar no amor é como estar desempregado. Á noite, o solitário à mesa de um restaurante é um sem-abrigo, um intocável hindu, numa espécie de pelourinho. Perdoa-se tudo nesta sociedade permissiva, menos aquele que não é amado.
—  Paulo Nogueira, “O Suicida Feliz” (2003)
E, se não fôssemos nós, pontais ao crepúsculo, vagarosos caminhantes dos prados do luar, como iria a noite – suas estrelas acendidas, suas esgarçadas nuvens, seu manto de negrume – como iria ela, perdida e solitária, acertar os caminhos tortuosos dessa cidade de becos e ladeiras? Em cada ladeira um ebó, em cada esquina um mistério, em cada coração noturno grito de súplica, uma pena de amor, gosto de fome nas bocas de silêncio, e Exu solto na perigosa hora das encruzilhadas.
—  AMADO, Jorge. “Pastores da Noite”
Por que o idiota da objetividade é idiota?

Imagine que uma senhora gorda vê uma cena e volta a lavar sua roupa suja. Agora imagine que ela viu um homem desesperado atirar três vezes em sua mulher no meio do passeio e depois se jogar sobre seu corpo ensanguentado, chorando e gritando: “meu amor, meu amor”. Agora imagine esta senhora pensando enquanto lava a roupa: “ele matou ela, ela o traiu, ele chorou”;

Eis uma idiota da objetividade. Para Nelson, não é a objetividade que define esse tipo sutil de idiota, mas a falta de sentimento. Portanto, sua crítica não é a busca por descrever um fato, mas a incapacidade de enxergar nele a Anna Karenina que agoniza diante de seus olhos. Com isso, o mundo torna-se objetivo como uma necrópsia. No humano, só o cadáver é capaz de ser plenamente objetivo, porém não o cadáver que é dissecado, mas o que observa.

 Luiz Felipe Pondé - “A Filosofia da Adultéra”, Ensaios Selvagens. p. 149

Colada à tua boca a minha desordem. O meu vasto querer. O incompossível se fazendo ordem. Colada à tua boca, mas descomedida àrdua construtor de ilusões examino-te sôfrega como se fosses morrer colado à minha boca. Como se fosse nascer e tu fosses o dia magnânimo eu te sorvo extremada à luz do amanhecer.
—  HILST, Hilda. “Do Desejo”