literatura

BELLEZA -3

Para el ojo atento, cada momento del año tiene su propia belleza, y en un mismo lugar de la campiña contempla hora tras hora un cuadro que no se vio jamás y que jamás se volverá a ver.

Los cielos cambian a cada instante y reflejan su gloria o su desdicha en las planicies de abajo.

De una semana a otra, el estado de los cultivos en las granjas vecinas altera la expresión de la tierra.

La sucesión de las plantas autóctonas en los pastizales y caminos, silencioso reloj mediante el cual el tiempo marca las horas estivales, haría perceptible hasta las divisiones del día, a un fino observador.

Bandadas de pájaros e insectos, puntuales como las plantas, se siguen unas a otras, y el año da cabida a todos.

En las corrientes de agua, la variedad es mayor aún.

En julio, en los bajíos de nuestro amable río, florecen en grandes lechos las pontederias azules, y bullen con enjambres de mariposas amarillas en continuo movimiento.

El arte no puede rivalizar con esta pompa de carmín y de oro.

El río está, en verdad, perpetuamente engalanado, y alardea cada mes con un nuevo adorno.

Pero esta belleza cíe la naturaleza que se ve y siente como tal es su mínima parte.

Los espectáculos del día, el rocío matinal, el arco iris, las montañas, huertos floridos, estrellas, el claro de luna, las sombras en el agua quieta y así sucesivamente, si se los persigue con demasiado ahínco, se vuelven meros espectáculos y se mofan de nosotros con su irrealidad.

Salid de vuestra casa para ver la luna, y no es más que oropel; no os resultará tan grata como cuando su luz alumbra vuestro viaje indispensable.

¿Quién puede atrapar la temblorosa belleza de las tardes gualdas de octubre? Id a buscarla, y se ha ido; es sólo un espejismo que miráis desde las ventanillas de la diligencia.

La presencia de un elemento superior, a saber, el elemento espiritual, es esencial para su perfección.

La egregia, divina belleza que puede ser amada sin languidecimiento es aquella que se encuentra combinada con la humana voluntad. La belleza es el sello que Dios pone a la virtud.

Toda acción natural es agraciada; lo es también todo acto heroico, que hace resplandecer al lugar y a los circunstantes. Las grandes acciones nos enseñan que el universo es propiedad de todos y cada uno de los individuos que en él habitan.

Cada ser racional tiene por dote y heredad a la naturaleza
entera.

Es suya, si así lo desea. Puede deshacerse de ella, huir a algún rincón y abdicar su reino, como lo hace la mayoría de los hombres, pero su propia constitución le confiere derechos intrínsecos al mundo, y llevará a este en su interior en proporción a la energía de su pensamiento y de su voluntad.

"Todas las cosas por las que los hombres aran, construyen o navegan obedecen a la virtud", decía Salustio. Y Gibbon:

-Los vientos y las olas acompañan siempre a los más hábiles marinos.

Lo mismo ocurre con el sol y la luna y todas las estrellas.

RALPH  WALDO EMERSON

* * *

Bastidores

A sala vazia era uma arena. Sons distantes quebravam o silêncio. O barulho contínuo, porém, ia dando ao próprio som a ideia de silêncio. Como uma sirene, ou apito que se mantém no  mesmo tom e doma o ouvido. De repente nem se percebia mais o incômodo. Caso cessasse ficaria no corpo a percepção de uma ausência, mas sem saber ao certo o que faltava. Mas era melhor assim. Antes o silêncio, ou a falsa ideia de, do que o barulho verdadeiro, aqui, de dezenas de crianças. Representar o papel de si mesmo é, ao que parece, tarefa bruta. Assim sendo, recolhia suas mais diversas máscaras, aparava as personas, criava um esquema que parecesse real. O certo mesmo era que parecesse. Ao menor gesto, no primeiro deslize, a mão no lugar errado ou qualquer acontecimento dessa natureza, tudo poderia ruir. A percepção da falsidade do que se apresentava, por qualquer criança que fosse, essa percepção abriria uma rachadura na parede e a partir dessa, novas iriam surgir, feito raízes que se multiplicam em solo fértil. Não podia atravessar a linha que separa, por milímetros, o sim do não, o ser da imitação. A verdade do mito. Pois deixando derreter o rosto previamente moldado, não com cera, mas com palavras a atitudes alheias de sua própria personalidade – dita – natural, estaria afundando numa espécie de areia movediça sem fim. Quer dizer, o fim seria ele mesmo e até onde o corpo pudesse afundar. Quanto mais se mexesse, mais cairia em si e se revelaria, como num jogo perverso em que, uma vez iniciado, não se pode reverter, nem recomeçar. No máximo parar e estancar as perdas no instante, feito vela que se acende e queima: não adianta chorar pela parafina derramada. Assim se compunha, achando graça no mesmo momento em que sentia o pavor de não acertar. Seria o sério ou o cômico? Dos dois modos era arriscado. Errar era um passo só que desse pra fora da linha, a corda suspensa a tantos metros de distância: na queda não havia rede que o segurasse. Se bem que do chão não passa. Enfim. Ser sério pediria a contenção dos sentimentos. Do riso e da galhofa. A cara fechada estaria sempre prestes a explodir com alguma daquelas pequenas criaturas. Mesmo que fosse só fachada. A voz teria que ser empostada para justificar o rosto duro e também o corpo teso, tenso, como que carregando mundos nos ombros, uma incessível ilha. Assim era bom, assim ninguém ousava se aproximar demais. Mas e a solidão? Tinha medo de se tornar por demais distante. Longínquo. Então pensou no cômico. Mas a falta de uma retidão também poderia ser perigosa. Por mais que fosse bem humorado, não sabia o ser a todo instante. Certo que fazia boas piadas quando reunido com os amigos numa mesa de bar depois de uma cerveja ou outra. Mas saberia  o ser continuamente durante as várias horas que passaria com cada turma? Poderia repetir as piadas pelas duas turmas em que lecionaria, se bem que tal fato poderia – sem que ele pudesse impedir – vazar de boca em boca de orelha em orelha e logo se espalharia a fama de sua falta de criatividade. Poderia, sem querer, cair na tentativa do padrão. E tudo que fosse padrão ele não retinha. Não possuía (assim pensava) nenhum dote além daquele que guardava dentro da cabeça: as regras de gramática, a tabuada, o nome dos estados do Brasil. Era o que bastava. Descartou ser cômico, afinal. Afinal como ser cômico entre uma oração coordenada sindética e outra? Ainda que fossem novos os alunos e tais orações não estivessem na pauta. A escola em si podia ser puro enfado. Parecia que tudo que fosse regra era sem graça. Era chuva na sopa. Mas era o que tinha: a regra. A simetria. Não sabia se seria suficiente. O tempo passava. Ajeitou as folhas sobre a mesa, dando a impressão de ordem, para que se acostumassem logo, tais alunos, que com ele as coisas tinham começo, meio e fim – nada de atrapalhar o andamento da matéria. De fato, nenhuma graça. Respirou fundo. Olhou o relógio. Tinha pouco tempo. Daria pra ligar pedindo ajuda para alguém? Sua mãe. Sua irmã. Seu melhor amigo. Para Júlia que dava aulas fazia tantos anos, talvez pudesse ajudar. Mas não. Definitivamente, não dava tempo. O coração acelerando dentro da caixa torácica. Puro corpo reagindo a estímulos de perigo onde – por lógica – não deveria haver. Apenas crianças. Os demônios de carne fresca e língua solta. Gotas de suor minavam, escorriam pela nuca, as costas encharcadas já e debaixo dos braços duas enormes rodelas de pizza: seria a piada do dia. Coçou a cabeça jovem, cheia de cabelo, embora aquelas entradas bruscas prenunciassem uma calvície precoce. Ainda mais com essa mania de coçar e arrancar os fios. E a aula nem começara. E nem se tornaram físicos os rostos e os nomes daqueles pequeninos. Saberia lidar? Não poderia mesmo ser cômico, ser o melhor amigo, tinha medo do amor gratuito. Tinha medo de cativar e ser cativado, essa estranha náusea de querer pertencer onde não se pode nunca mais entrar. O que seria se não fosse sério e cômico? Poderia, quem sabe, estar no meio. Entre. Neutro. No zero. Nem lá nem cá. Apenas fático. Nem seduzindo, nem afastando. Tão somente dizendo: isso é assim, pois a regra é assim. E só. Insonso. Responderia às perguntas com calma, sem severidade ou excesso de graça. Sem riso sem franzir a testa. Boca de hóstia: aquele gosto de nada dando aos pequenos alunos a informação: apenas a informação: puro depositário de um segredo, daria o segredo, mas sem se misturar com ele e nem com as ávidas almas humanas que queriam acessá-lo. Era isso o que faria. Sim. Mas como? Como se mostrar indiferente ante um universo de quarenta ou mais vidas, todas diversas, com seus problemas, dificuldades e, é claro, genialidades. Pensou e queria continuar pensando: o sinal tocou insistente. Acabara-se o bastidor. Pegou do giz na lousa e escreveu o próprio nome e a data de hoje. Hoje era eterno. Viva a atualidade sempre renovada. Aos poucos os alunos entraram, depois de minutos tensos, todos se sentaram, o último fechou a sala que se trancou em si mesma silenciosa feito concha. Barulho do mar os zíperes se abrindo e se fechando o material sendo colocado em cima da carteira até que: calmaria. Ainda não havia intimidade suficiente para iniciar uma conversa com o coleguinha do lado: e se o professor fosse bravo? Além do mais era a turma do primeiro ano do fundamental, a amizade que possuíam era a que tinha sido feita ali mesmo, meia hora atrás. Se bem que contando em tempo de meninos e meninas de seis ou sete anos, meia hora é uma fatia até que generosa se compararmos com o rapaz ali na frente esperando pra começar a aula e que já passara da casa dos trinta: demorara muito pra decidir o que fazer da vida? Há os que não decidem nunca. De algum modo era um lucro. Pigarrou como forma de dizer: estou aqui. Mas todos já estavam olhando com atenção. Então começou dizendo seu nome, o que era um pleonasmo visto que este já se encontrava na lousa: mas saberiam todos ali ler? Ainda não sabia. Se todos soubessem, tanto melhor. As mãos ainda frias, endurecidas como de estátuas. Olhou todos aqueles olhos atentos. Poderia jogar também. Pediu que cada um se apresentasse: sabia que para uns seria fácil; e para outros, o terror. Mas de terror também se vive. E se cresce pelo avesso. Toda experiência e o coração dilatando-se jogando-se para o abismo da vida. Assim que todas as apresentações foram feitas, ele já sacara pelo tom de voz os mais seguros, os tímidos, os ousados. Ele mesmo ia se reconhecendo um pouco em cada um deles, cada fatia da vida que ganhara ou perdera. As que ainda pulsavam. As que  nunca tivera. Aos poucos foi perdendo o gesto duro. Palavras escorregando com mais fluidez. A aula foi nascendo. Passou algumas lições básicas, queria saber como cada aluno se saía, entender o quão avançados ou atrasados estavam. Ia sabendo, meio sem saber, como seguir. Sabia que teria que ajudar o mais lento e acalmar a ansiedade do mais veloz. Teria que, feito maestro, organizar os instrumentos para manter a harmonia, como o barulho que vinha lá de fora. Sim. Era isso o que deveria fazer. Não adiantava planejar antes, não era roteiro de cinema em que as cenas são marcadas e os pés não podem ir para além daquela linha para não tirar o rosto do enquadramento almejado pelo diretor. Não. Pelo contrário. Era roteiro espontâneo e pautado na plena atualidade da criação. Tecia-se, como teciam as avós os tapete de crochê, ao mesmo tempo. Ao mesmo tempo em que se estava costurando ia se sabendo por onde continuar até que, por obra de instinto ou aprendizado filosófico, arrematava-se a ponta do barbante e voilà, estava pronto. Estava batendo o sinal. As horas, sem que notemos, correm. Por enquanto arrematara o dia, não de todo, não como as avós, deixaria uma ponta sempre solta para dela puxar o próximo e próximo dia até que se passassem, se não mil e um, ao menos o número de dias suficientes para um ano letivo. As crianças foram embora, ficou de novo aquela arena vazia o tremor nas mãos sempre renovado. Sairia. Almoçaria. Voltaria para a mesma posição atrás da mesa e o receio no rosto. A próxima aula era sempre um mistério.

- Caio Augusto Leite

Mi cabeza es un laberinto oscuro. A veces hay como relámpagos que iluminan algunos corredores. Nunca termino de saber por qué hago ciertas cosas.
— 

Ernesto Sábato, El túnel

translation: "My mind is an obscure labyrinth. Sometimes there is thunder, which illuminates certain pathways. I never end knowing why I do certain things." 

El dolor es extraño. Un gato que mata a un pájaro, un coche accidentado, un incendio…Llega el dolor, BANG, allí está, se introduce en ti. Es real. Y a cualquiera que te vea le parecerás un imbécil. Como si te hubiese caído una idiotez repentina. No hay cura para ello mientras no encuentres a alguien que comprenda cómo te sientes y sepa cómo ayudarte.
—  Charles Bukowski