lisboa1

— Amor, me responde uma coisa?
— Fala.
— O que você pensou quando me viu pela primeira vez?
— Que guria pequena, existe alguém menor que ela no mundo? E aí eu pensei que pra gente se beijar você ia ter que subir no meu pé, para começo de conversa.
— Então foi tipo amor a primeira vista?
— De uma certa forma.
— E da outra forma?
— Queria distância.
— Por que?
— Fiquei com medo.
— Awn, de amar?
— De ficar pequeno também. Vai que era contagioso.
—  Luiza Lisboa.
— Não quero mais brigar.
— Por quê?
— Não aguento ficar longe de você.
— Então abre a porta.
— O que você vai fazer?
— Eu não sei. Te desculpar.
— Tem certeza que não precisa pedir perdão também?
— Eu peço.
— Pede? Você é orgulhoso.
— Não me faça voltar atrás. Abra a porta.
— Você não pediu.
— Quero te ver.
— Só ver?
— Quero te abraçar, te beijar… Pedir perdão, e te perdoar também.
— É mesmo você aí? – ela ri.
— Abra a porta para ver.
— Quer dizer que não é?
— É sim. Quem mais estaria na varanda da sua casa na virada de ano novo esperando você abrir a porta…
— Você vai esperar até quando?
— Até você abrir.
— E se demorar… Muito?
— Eu espero.
— E se eu não abrir?
— Eu espero. E posso não estar falando só da porta.
— Do que estaria falando então?
— Do seu coração. Da sua vida.
— Essa porta talvez não abra. Está meio enferrujada, sabe?
— Já disse que espero.
— Por mim?
— Por nós.
— Acho que você desistiria fácil.
— Ainda estou aqui.
— E pretende ficar até eu abrir, certo?
— Você entendeu agora?
— É romântico.
— Sim…
— Você nunca me fez nada romântico.
— Estou fazendo agora.
— Vai acontecer de novo?
— Abra a porta para saber.
— Só assim?
— Está ouvindo? A contagem regressiva.
“9, 8, 7, 6, 5…”
— Vai ficar aí mesmo, no seu ano novo?
— Sim.
— Você sabe que não vou abrir a porta assim tão fácil, não sabe?
— Sei.
“3, 2, 1…”
— Que este ano novo me traga você.
— Estou chorando.
— Eu posso ouvir daqui.
— Não vai me dizer para parar de chorar?
— Se eu começasse a lhe dizer tudo o que quero para você, para nós… Talvez nunca parasse de falar.
— E qual é o primeiro item da lista?
— Que você abra a porta.
— Acho que vou abrir.
— Vai?
— Vou.
— E por que estava chorando?
— Porque é bom.
— É bom chorar?
— É bom saber que alguém se importa.
— Qualquer alguém?
— Você. Outro alguém não serviria.
— Agora você é que está sendo romântica.
— Eu sempre fui.
— É verdade. E eu te amo.
— Isso também é bom.
— Então vai abrir?
— Não.
— Não?
— Não encontro as chaves. Acho que as joguei fora.
— Da casa?
— Não, do coração. A casa está aberta.
— E eu posso entrar?
— Está aberta.
— E agora… Onde foi que deixou as chaves do coração? Posso ajuda-la a procurar.
— Me livrei delas na última desilusão amorosa. Acho que prometi nunca mais deixar alguém entrar.
— Mas assim eu não vou poder entrar.
— É…
— Podemos construir outra casa. Só nossa. O que acha?
— Está me pedindo em casamento?
— Pode ser. – ele ri enquanto se ajoelha – Você aceita ser minha esposa?
— Está brincando? Temos dezessete.
— Você aceitaria?
— É claro.
— Que sim?
— Óbvio que eu seria sua mulher.
— Você pode ser minha pequena. Tipo, só minha.
— Eu aceito.
— E quanto às chaves? Não existe uma janela?
— Relaxa, acho que você conseguiu atravessar as paredes.
— Como um super-homem! – eles riem juntos.
— Eu diria que um super-garoto. Você ainda é meu pequeno, lembra?
— Como você é boba. Isso é contagioso?
— Com certeza, porque eu peguei de você.
— Vontade de ficar pra sempre.
— Então fica.
— Vou ficar.
— Que bom.
— Obrigado.
— Por?
— Me deixar entrar.
— Mas eu não deixei. Você que entrou.
— Eu deveria ficar ofendido?
— Não… Ainda bem que entrou.
—  “Posso entrar?”, por Luiza L, (sorriso-inconstante).
Eu estava quase dormindo ainda, quando minha mãe me ligou e me pediu para ir almoçar com ela, naqueles almoços em família ou sei lá – coisas que eu odeio. Todo mundo só quer saber de fofocar sobre mim e sobre minhas novas namoradas, se já estou noivo ou trabalhando. É tão difícil entender que eu sou um legítimo inútil? Nunca amei alguém, nunca fiz uma faculdade e nunca levei uma garota para almoçar no dia seguinte. Uma cela confortável por esses crimes, por favor – sou humano. Não é ridículo assim ser cafajeste, digo, eu só nunca achei a garota ideal – não que eu tenha procurado uma, mas não canso de dizer a mim mesmo que ainda vou estar conversando com ela, e aí vou perceber “ques olhos lindos”, e “que cabelo maravilhoso”. Tudo bem, talvez eu não fique assim tão gay, mas eu sei que vou saber. Minha mãe me pediu para passar em três lugares antes. Primeiro, no supermercado comprar algumas coisas para o almoço. Segundo, na casa da amiga da minha sobrinha de nove anos, para leva-la. E terceiro, no médico, pegar um exame que ela fez semana retrasada. Fiquei com medo, porque ninguém me avisara sobre esse exame. Eu sou sempre o último a saber de tudo mesmo, não é como se fosse novidade, mas, e se fosse algo sério? É da minha mãe que estamos falando aqui. Eu não estava nada com clima de conversar com alguém, e justo aí, quando eu estou no supermercado, uma garota loirinha, com os olhos castanhos meio esverdeados, um pouco baixinha, com um andar meio desajeitado e digitando no celular enquanto conduzia o carrinho com apenas uma Nutella, do tamanho “enorme”, um Doritos, do maior, também, três latinhas de Coca-Cola e uma canequinha com bolinhas coloridas estampadas, tromba em mim enquanto passa. Eu estava bem lendo a embalagem do azeite, porque tinha que ser do extra virgem, era o único que minha mãe usava desde… sempre. Ela passou meio correndo, não sei exatamente se me viu ali, mas o carrinho dela bateu em mim e eu xinguei um palavrão. Não exatamente pela dor, o carrinho estava bem leve, mas pelo susto, e é claro, falta de educação de quem quer que tenha sido. Aí eu me virei, e eu não sei exatamente como aconteceu… Ela me olhou, também. A gente não disse nada, só ficamos nos olhando por uns quarenta ou cinquenta segundos – sei que foi muito tempo. Depois daquilo já parecer bem constrangedor, ela disse “Sinto muito, eu sou meio distraída. Me desculpe, mesmo.”, e a voz dela era tão apressada, que engolia algumas letras, talvez até palavras. Ela falava meio histericamente, e depois, ela sorriu de leve, como se me quisesse ver sorrindo também para aliviar a culpa. Eu sorri. “Oi”, foi tudo o que eu consegui dizer, e até hoje eu me lembro disso e fico pensando como devo ter parecido idiota. Aí eu completei “Meu nome é Gabriel, e ah… Sem problemas.”, e ela sorriu de novo. “Legal…”. Depois de uns vinte segundos da gente se encarando outra vez, ela olhou para o azeite na minha mão e disse “Ah, eu acho que você tem alguns problemas em escolher azeites. Você não pode pegar o que tem isso escrito na embalagem, quer dizer que a qualidade não é tão boa. Espera, esse aqui é bem melhor. E eu reparei que está querendo o extra virgem, porque aqueles comuns estão logo ali. Você tem alergia, ou é só frescurinha mesmo?” Dessa vez ela falou mais devagar, com calma, e riu em seguida, em um tom de brincadeira, sem querer me ofender. Deu a volta pelo carrinho e pegou um vidrinho de azeite no fundo da prateleira, me dando e dizendo “Por nada.”, enquanto sorria sem parar. Um cara qualquer, que estivesse procurando alguém, uma namorada ou até ou futuro, teria investido naquela garota. Ela parecia tão esperta, era linda e muito simpática. Mas eu não sou um cara qualquer, então respondi “Não é pra mim. É para a minha mãe.”, e ela pareceu surpresa. Eu não queria muito papo, não sei direito por que, mas eu só a deixei ir. No meio daquele supermercado enorme, ela desapareceu entre as fileiras de frios, enquanto eu ia direto ao caixa. Depois que eu estava já indo embora, pensei que nem ao menos perguntei o nome dela, e voltei. Não sei por que, também, mas voltei. Queria ver de novo aqueles olhos enormes e fascinantes, e perguntar o motivo de algumas olheiras. Queria perguntar se ela conhecia azeites, e se tinha um namorado. Não tem exatamente um motivo, mas dei uma volta inteira no supermercado até encontrar ela. Estava digitando outra vez, e guardou logo o celular a me ver. “Então… Oi, Gabriel.”, e ela riu. Ah… Que risada era aquela? Eu poderia casar com aquela garota só para ouvir a risada todos os dias, para sempre. Eu estava meio ofegante por ter corrido, e nem tinha mais um carrinho, estava claro que tinha voltado. Não sei se ficou claro que era por ela, mas eu não queria soar como idiota. “Hm, você nem me disse seu nome.” “Clara… Você parece cansado.” “Sério?”, e eu ri também. Aí a gente começou a se aproximar, e ela perguntou se eu estava correndo, se eu já tinha terminado as compras ou se tinha perdido meu carrinho. Eu estava contra a parede, porque me sentia um idiota agora. Por que exatamente eu tinha voltado? Nem eu sabia. “Você digita tanto…”. Sei que soou curioso e intrometido demais, mas ela sorriu quando eu disse isso. “Você pergunta tanto… E não responde nada.”, aí eu ri e disse que era justo. Ela foi bem direta, e perguntou se eu queria acompanha-la até o cinema um dia desses. Eu aceitei, e passei meu telefone para ela. Primeiro erro! Nunca dê seu telefone a uma garota, isso a deixa no controle, e com ela no controle, você só se ferra. Sempre. As coisas começaram a complicar depois de uns seis, sete dias. A ligação que nunca chegava. O que tinha de errado comigo? Ela percebera que eu era um idiota, sem nada de especial para lhe oferecer? Minha mãe estava bem, e eram só mais alguns exames de rotina, pelo que me disseram depois. Me preocupei atoa, e também atoa voltei por aquela garota. A questão é que agora eu pensava demais nela, como se a gente já tivesse tido alguma coisa. Como se a gente já tivesse sido namorado, melhor amigo e ainda aquele primo super legal que não te deixa em paz. Como se… fosse ela, a garota. Depois de umas quatro semanas, a ligação finalmente chegou. Ela estava chorando, e sussurrou um “Estranho do supermercado?”, e eu perguntei “Você tá bem, Clara?” “Você lembra o meu nome… Uau.” E aí ela sorriu, deu para senti-la sorrindo de onde quer que ela estivesse falando. Ela continuou: “Eu sei que prometi te ligar, e prometi um cinema, um jantar ou só um passeio por aí, uma corrida no parque… Eu sei, tá? Me desculpe, só estou te ligando agora, porque no meu celular o nome Estranho do supermercado me soou atraente, e aí eu me imaginei trocando mensagens estúpidas com você, beijando você, e te ensinando a escolher azeites. Quero você.” “Você lembra meu nome, pelo menos?” Eu me sentia meio ofendido, era como se ela estivesse meio bêbada, e eu não duvido que estava. “Lucas? Caio? Matheus? Ah… André, não é?” Legal, ela conhecera mais uma dúzia e sei lá quantos estranhos no supermercado. “Você tá bem?”, eu perguntei de novo; não sei por que, mas eu me sentia no dever de cuidar daquela garota. “Não. Absolutamente não. Não, não, não.” Ela xingou, e deu para ouvir um choro mais alto um pouco, um soluço forte. “Cansei de dizer que estou bem! Ninguém entente, ninguém nunca vai entender, estranho. Você pode entender uma coisa dessas?” “Sinceramente, não. Onde é que você está?”, eu perguntei disposto a ir até o outro lado do planeta, se preciso para vê-la outra vez. “Eu não sei. Eu estou aqui, em um bequinho pouco amigável, mas eu quero ficar sozinha. Sobre tudo que me contam sobre a morte àqueles que não são bons, eu diria que estou no inferno. Pode ser, essa dor que estou sentindo não é nada divino.” “Alguém bateu em você?” “Dor por dentro, estranho. Me sinto um lixo.” “Calma, me dá o endereço. Vou aí agora.”. Aí ela me passou a rua, e eu resolvi nem comentar que era atrás de um bar que eu fora uma vez. Coisa da pesada, não é lugar para pessoas do bem. Para garotas meigas, fofas e comportadas irem chorar por algum garoto. E é claro, eu sabia que era por algum garoto. Sempre é.
— Oi, estranho — ela disse deitada no chão, quando me viu chegar.
— Clara! — era tudo o que eu conseguia dizer. Nem parecia a mesma garota do supermercado, dessa vez ela estava com uma garrafa de tequila na mão, uma lâmina prata suja de vermelho no chão ao seu lado e sangue saindo e escorrendo de seus braços. Não consegui deixar de olhar.
— Ah, não se assuste. Iria me afogar em uma banheira, mas eu acho que deve ser ruim demais morrer afogado, não acha?
— Quando fez isso? Depois que falou comigo?
— Não, foi antes.
— Ah, Clara. Vem aqui. — eu a levantei, mas ao ver que ela parecia tão pouco disposta a andar, carreguei ela e a levei até meu carro. — Para onde eu posso te levar?
— Lugar nenhum. Tanto faz.
— Te assustaria te levar para a minha casa?
— Ah… Você vai se aproveitar de mim? Sem problema. Tanto faz, não posso me defender mesmo.
— Claro que não! Onde fica sua casa?
— A sua soa melhor.
A viagem era bem longa, mais de uma hora, e a rua estava bem movimentada — era sexta-feira em São Paulo. Então eu pensei que ela poderia dormir um pouco até lá, e a deitei no banco de trás. Chegando em casa, eu levei ela até a minha cama, a cobri com dois cobertores e troquei toalhas para o sangramento. Passei todos os remédios convenientes, e fiquei ali, sentado ao lado dela, olhando aquele rosto curiosamente perfeito, e desejando ouvir a risada dela outra vez. Não sei quando adormeci, mas sei que quando acordei, só havia um bilhete na cama, e estava escrito: “Eu me lembrei, Gabriel. Seu nome… Eu poderia colocar aqui toda a minha história, para te explicar por que estava naquele estado desprezível ontem à noite quando te liguei, mas você já deve saber: garota ingênua, garoto cafajeste; garota boba, garoto se aproveita; garota se apaixona, garoto vai embora; É sempre o mesmo clichê, acho que eu nunca aprendo mesmo. Você foi muito legal comigo, parece mesmo ser alguém que vale a pena, e por isso mesmo eu não quero estragar a sua vida comigo. Obrigada, viu? E caso ainda queira contato, meu número está no seu celular, mas eu não coloquei meu nome, então acho que você vai ter que pensar um pouco. Já seu número… eu apaguei do meu. Agora você está no controle, rsrs. Não vou esperar ligação nenhuma, mas se ela chegar, eu ficarei muito feliz, acredite. Você nunca mais vai me ver daquele jeito, é uma promessa. A estranha do supermercado.”. No mesmo instante, procurei meu celular, que estava no criado ao lado da cama, e procurei por “Estranha do supermercado”. Nada. “Clara”, também nada. “Garota do azeite” também não funcionou, assim como “Mulher da minha vida”, “Alma gêmea” ou “Linda do supermercado”. Nada, nada. Aí eu procurei entre todos os contatos, o que não foi uma tarefa fácil, admito, e achei na letra M: Merdas, problemas e tudo que pode te fuder. Quando eu estava indo ligar, ainda apareceu uma janelinha na tela: “Pense bem”. Uau, ela arquitetara um ótimo plano, nem eu sabia fazer isso no meu celular. Chamou, chamou, chamou. Cinco vezes, e então atendeu uma voz conhecida. Não a voz chorando, que me ligara na noite passada. Atendeu a voz daquela loirinha linda do supermercado. Atendeu uma voz que fala desesperadamente e come letras, talvez até palavras. Uma voz animada, feliz. Eu percebi então, que era assim que aquela voz tinha que permanecer. Era assim que eu queria ouvi-la pelo resto da minha vida, e principalmente, percebi que eu queria ouvi-la pelo resto da minha vida. Percebi que eu precisava daquela voz, daquela risada, e daquela garota. Precisava cuidar dela. Atendeu, e perguntou “Estranho do supermercado?”.
—  Luiza Lisboa.
Minha vida está repleta de arrependimentos, decisões mal tomadas, falta de tempo. Meu corpo resiste, minha alma sofre. Sofre, mas insiste. Insiste em chorar. Chorar pelos motivos errados. Insiste em resistir, àqueles que só querem me ver sorrir. Mas sorrir… Parece tão irônico. Um sorriso… uma coisa tão aparentemente fácil de se fazer, e tão peculiarmente difícil de se tornar verdadeira. As pessoas sorriem como para agradarem os outros. Eu cansei de agradar. Cansei de fingir que não sofro. Cansei de limpar as lágrimas. Melhor deixar que corram, talvez assim resolvam não voltar.
—  Luiza L, (sorriso-inconstante).
— Ei, Bruna, fala comigo!
Me responde. Por favor.
Por favor.
Fala comigo, caralho.
— E qual é a sua pergunta, caralho?
— Não tenho uma.
— Quer resposta de quê, então?
— Me perdoa.
Isso foi uma ordem?
— Foi um pedido.
— Recusado.
— Por favor.
— Nem agora, nem daqui a mil anos. Nem aqui, nem em Marte. Entendeu?
— Por favor.
— Não adianta fazer essa cara, Lucas, a resposta não vai mudar.
— Nem meu amor por você. Ele não vai mudar. Não vai diminuir, e nem aumentar. Não vai embora, também, tenha certeza.
— Ah, o mesmo amor que era da Bia?
— Para com isso, com você é diferente.
— Agora você me deve uma resposta.
— Pergunte.
— Quantas vezes você disse isso para ela? Por favor, Lucas, vai. Vai, e nem volta.
— Não vou. Não vou até te provar o que sinto.
— Diz logo então.
— Está bem, eu não sou bom com palavras. Quem dera eu poder me expressar tão bem quanto Nando Reis, e fazer uma música linda que te conquiste outra vez. Nossa! Quem dera poder te conquistar outra vez. Seria a coisa mais perfeita do mundo, poder ver de novo seu sorriso, e saber que eu o causei. Não gosto de saber que te fiz sofrer, mas na verdade, eu não me arrependo. Tudo o que eu vivi com a Bia, só me provou que não existe nada comparado ao que eu sinto por você. Eu não sei o que é, mas meu coração me diz que é algo bem, bem, bem, bem maior que esse “amor” de publicações clichês no Facebook. É maior que esse carinho de amigo de cartões de aniversário, ou essas paixões do dia dos namorados. É maior do que tudo que você pode imaginar, e por esse sentimento, eu encontraria forças para carregar o Sol. Me faz bem, sentir isso. Faz eu me sentir vivo, e tinha muito tempo que não me sentia assim. “Estranho seria se eu não me apaixonasse por você…” Eu tenho saudade, muita saudade, de quando a gente costumava contar tudo um para o outro. De quando a gente era amigo, a cima de tudo. Mas como sempre, eu arrumei um jeito de estragar tudo. E como nunca consigo, mas ainda tento arrumar agora um jeito de consertar as coisas. Você podia me ajudar, também.
— Hm.
— E então?
— Você citou Nando Reis. Foi jogo sujo.
— Você ama ele. Foi estratégia.
— Mas eu só amo porque foi você que me mostrou.
— Eu não sabia disso.
— Tem muita coisa que você não sabe.
— Leoni. Comecei a ouvir depois que você me disse que amava.
— Metallica. Não curtia muito, antes de você dizer que é fã.
— Red Hot Chili Peppers. Dizia que gostava, e aí você perguntava sobre músicas, integrantes da banda, shows e turnês… E eu tentava trocar de assunto, mas só o encanto ver você sorrindo e dizendo que achou finalmente alguém que gosta de tudo que você gosta, era bom demais para ser interrompido.
— Avenged Sevenfold.
— Ah, eu me lembro. Você odiava, e então chorou com uma música que te mostrei. Foi a primeira música que te fez chorar, e então você passou a amar.
— Acho que você é Avenged Sevenfold têm muita coisa em comum.
— Você ama até hoje.
— Eu disse muita coisa, não tudo em comum.
— Mas eu te amo até hoje.
— Entendi essa parte.
— Doritos. Eu odiava.
— Nutella. Você me fez amar.
— Senhor dos Aneis. Eca. Hoje, caralho, sou fã.
Palavrões. Porra, antes eu não falava nada.
— Harry Potter! Achava ridículo.
— Futebol. Achava briguento demais.
— Filmes de comédia romântica.
— “Diário de uma paixão”. Você lembra?
— Se lembro? É meu filme preferido até hoje.
— Aquele dia foi legal…
— Muito.
— Jogos de RPG. São legais agora.
— Gartic! Eu achava complicado demais, aí eu te conheci, aí você me ensinou.
— E aí a gente que ficou complicado.
— Ficou?
— Pensando bem, eu acho que a gente era até simples. Você que preferiu a Bia.
— Não vamos falar dela, por favor.
— Me poupe, Lucas. Você chega aqui, me pedindo perdão, dizendo que me ama e que me quer de volta. Quer saber? Eu confesso, queria isso. Queria isso até o momento que sabia que não podia ter. Queria isso quando vocês estavam juntos. Mas Lucas, ela terminou com você. Você está só… Tentando substituir ela. Não é legal comigo, e nem com ela. Para de fazer esses joguinhos que só nos fazem lembrar…
— Eles te fazem querer me amar de novo?
— Essa a é questão. O grande problema. Eu ainda te amo! Você não vê isso?
— Me perdoa…
— Não assim. Não quero desse jeito. Não vai funcionar.
— Eu vou te contar.
— Contar o que?
— Porquê ela terminou comigo. Eu não disse a ninguém. E nem ela, foi um trato. Ela disse que via como eu te olhava, e sabia que eu te amava. Não queria continuar comigo assim. Ninguém nunca quer, acho que estou me acostumando com isso de “Eu quero, mas não assim”…
— Eu não sabia disso.
— Tem muita coisa que você não sabe.
— Você.
— O que tem eu?
— Antes eu odiava. Você me fez te amar.
— Como Avenged Sevenfold?
— Mais. Só me promete não me fazer mais chorar, Lucas. Por favor.
— Eu só quero o melhor para nós dois, Bruna.
— Que é…
Nós dois.
—  Luiza L, (sorriso-inconstante).
— Namora comigo?
— Desculpa.
— Tudo bem… Mas, por que não?
— Me desculpe pelas vezes em que vou te chamar de idiota egoísta, e te acusar de não pensar na gente. Me desculpe pelas noites em que não vou te fazer dormir pedindo um pouco de romantismo e te prendendo à sms no escuro. Me desculpe pelos tapas, chutes e socos. Nossa, esse eu tenho realmente que me desculpar, de joelhos até, porque sei que vamos sofrer por isso: Me desculpe pelo meu ciúme excessivo. E também, me desculpe por dizer o primeiro “eu te amo”, e te deixar com medo, eu já te entendo. Me desculpe por falar em casamento, sendo que ainda nem nos formamos. Me desculpe por ser uma idiota fresca, e nunca querer te perdoar. Na verdade, me desculpe também por querer brigar. Sei que muitas vezes você vai ter a culpa, mas também sei que a maioria delas vai ser eu. Me desculpe, ainda, no final de tudo, por te feito você perder seu tempo comigo. Então, agora, acho que além de pedir desculpas, devo te desculpar. Eu te desculpo, se você não pôde mentalizar o que é o amor, e o que é um namoro, antes do pedido. Eu desculpo isso, agora pode seguir em frente. Também supero isso.
—  Luiza L, (sorriso-inconstante).

Não perca a cabeça”, vivo me dizendo em momentos em que a minha única fé é acreditar que vai passar. Cadê os amigos? Cadê a felicidade? Cadê tudo aquilo que a vida promete quando você faz tudo certo? É, talvez esse tenha sido o problema. Eu fiz tudo errado. Começando por amar você. Por querer acreditar em uma coisa que no fundo, eu sabia que nunca daria certo. Não era para ser, provavelmente. Você vai achar alguém melhor, vai se casar, vai ter filhos e uma família linda. E em uma tarde de domingo quando estiverem conversando, vai contar aos seus filhos da idiota que namorou, e que ela te amou, mais do que deveria. Esse foi o segundo problema. “Mais do que deveria” com certeza isso se repetiria em uma quantidade à impressionar em uma história sobre nós. Primeiro, amar mais do que deveria, depois, acreditar mais do que deveria, e por fim, lutar por nós mais do que deveria. Você desistiu ao primeiro obstáculo, lembra? Talvez esse tenha sido o terceiro problema, escolher um homem tão fraco, tão mesquinho e tão idiota. Era para estarmos nisso juntos, pacientes de que iriamos terminar bem, mas você não foi paciente. Nem um pouco. Arrependo-me do dia que te conheci. Desde então os motivos para chorar tomam cada vez mais lugar dos motivos para sorrir. Isso é depressivo, me encontro em um estado de meditação profunda, onde analiso todos os erros da minha vida para tentar chegar ao crucial. Dentre todos os erros, acho que o maior deles, foi me envolver. Eu sabia desde o primeiro momento que não levaria a nada, e ainda assim, me envolvi. Procurava emoção onde só encontraria decepção. Queria ser desejada como todas as outras garotas ao meu redor, eu queria aquele amor de cinema dos anos 80. Queria que minha fantasia se tornasse realidade, e por algum motivo imbecil, quis com você. Acho que eu nunca fui empolgante o suficiente para você, não é? Uma foto de nós dois na estante da sala não era o suficiente. Eu era mais uma figurinha para completar o álbum. Nunca fui o bastante para ser a mulher da sua vida. A jóia que te faria destruir o tal álbum, e deixar o tão sonhado retrato no centro da estante, enorme. Minhas metáforas sempre te impressionaram, “como eu consigo deixar as coisas ainda mais estúpidas do que realmente são”, foi o que você disse, certo? Vou lhe dizer o que é estúpido. Você é estúpido. Você e esse jeito de tratar as mulheres, como se elas não merecessem você. Você não merece nenhuma delas. Você não me mereceu. E esse foi o quinto erro. Você. Em cada defeito do dicionário, você pode ser encontrado. Mas sabe o que mais me irrita nisso tudo? Depois de tudo, estou aqui explicando o porquê de estar triste, e é você. Como se tudo rodasse em torno você. É revoltante, mas é verdade. O motivo, é você. Sempre foi, sempre será, você. — Luiza L, (sorriso-inconstante)

70 dias até o próximo encontro. Decidi escrever isso porque não sei mais como me expressar, e como fazer você saber… Que eu te amo. Talvez sinta um pouco de monotonia na leitura, e outras horas queira terminar comigo pelos pensamentos tão brutos e mortais, mas ainda assim, lhe mostro isto para saberes meus ensejos sobre nós, sobre mim, sobre você, sobre a vida. (07/05) Hoje eu acordei feliz e fui dormir feliz. Pensei na gente o dia inteiro, e cheguei a desenhar um coraçãozinho no meu caderno de biologia. Aquela aula chata acontecendo enquanto eu só conseguia pensar em nós dois. É pecado? É pelo menos um pouco errado, querer você pertinho de mim todos os dias? Espero que não, porque é só isso que consigo pensar agora. 70 dias ainda, não posso imaginar mais nada para fazer a não ser manter nossas fantasias de finais felizes – digo, finais que duram para sempre, é claro. (11/05) Hoje eu vi três vezes no relógio do meu celular, horas iguais. Não sei se você estava pensando em mim, mas com toda certeza, se você olhou, era eu que não conseguia desviar os pensamentos e desejos de você. Cadê você aqui? Preciso te contar uma coisa. Uma descoberta. E dessa vez não é nada sobre estrelas, equações ou cupins. Dessa vez é sobre o coração. Descobri, e agora nunca vou esquecer. Vem logo. (16/05) Não aguento mais esperar, é sério. Eu achei que podia, mas não dá. Vou te escrever todos os dias, mas isso ainda não vai ajudar a afastar a vontade de ficar com você. E também não vai afastar o medo de que você esteja fazendo algo… Sem mim. Confio em você com todo o meu coração, mas este já está quase chorando, então, não o decepcione, por favor. (28/05) Segundas-feiras são tão chatas! Não é nem por acordar cedo, acho que é por acordar assim… Sem você. Saber que tenho que viver ainda mais uma (duas, três, quatro, cinco…) semana sem você. Preciso te contar coisas, impossíveis por cartas. Chorei ontem a noite, só de saudades, mesmo. Sabe, não é que você tenha feito algo errado. É só que… É difícil. Acho que você entende. Já faz um tempo que não nos correspondemos, preciso de novidades suas, e preciso falar com você. De qualquer jeito, não aguentaria dizer o que está entalado aqui. (08/06) É, já faz um mês. Um mês que eu digo a todos que estou “namorando”, e então não posso apresenta-lo a ninguém. As pessoas sussurram pelos cantos que você me trai, que você não me ama e que não é real. Eu sinto isso. Ninguém crê na gente, e ultimamente, até eu tenho colocado aspas no nosso namoro. Me desculpe por não permanecer tão forte, sinto muito mesmo. (10/06) Suspeito de algo interessante, acho que estou gostando de alguém. Um garoto alto, elegante e… real. Ele me trata muito bem, e sempre diz que você me faz sofrer. Desculpe por isso, mas eu concordo com ele. Você não em traz mais aquele gelo, e ao mesmo tempo aquece minha alma. Você não toca mais meu coração, como se pudesse atravessar todas as fronteiras e quilômetros de distância. É como se eu não fosse ganhar mais nada por esperar você. Só sofrimento que eu ando ganhando, e isso não está me fazendo bem. (30/06) Eu sou uma merda. Eu sou definitivamente a maior merda do mundo. Tentando curar as feridas que nosso amor me trouxe com outro completamente diferente, só consegui novas dores. Completamente diferentes e novas. Agora eu vejo como a distância é realmente boa, quando se trata de odiar alguém. É mais fácil tentar esquecer você quando você está a trilhões de quilômetros de mim, do que se fosse um idiota da minha turma. Lembrete do dia: Nunca mais me apaixonar. Lembre para: Todos os dias. (05/07) É estranho isso. É errado. É mau. É cruel… Voltar a gostar de você. Depois da briga, depois de dizer que não te quero mais. Eu não me aceitaria de volta. Mas eu olho os antigos sms, e lembro de quando mandei cada um deles. Eu me lembrei de como eu me senti, como se estivesse protegida de todo o mundo e fosse a pessoa mais sortuda do mundo por ter você comigo. Desejei me sentir assim outra vez, e imaginei que só conseguiria com você. Você é o único que consegue mexer com meu coração, mesmo. Você é o único que faz até minha mente ficar ao seu favor. Você deixa tudo ao seu favor. Por que não faz a distância ao seu favor, também? Por favor. E se eu disser que te amo? (08/07) Eu faria tudo tão diferente. Dormi chorando, acordei chorando. Eu te seguraria, te prenderia perto e não deixaria ninguém levar. Se alguém ousasse, ia provar da minha fúria. Infelizmente, eu é que te afastei. Você ainda não me responde, eu gostaria de ter a coragem de lhe dizer tudo o que sinto, e não somente aqueles idiotas “me desculpe”. Eu sei que aquilo não basta, e você quer ouvir um motivo justo para eu poder te ter de volta. Eu só… Não consigo. Mais uma vez (pela milésima e alguns), me desculpe – pela covardia, dessa vez.  (14/07) Depois de amanhã você viria aqui. Espero que ainda venha, de coração. Eu sei que não mereço nem te ver em foto, mas eu queria te abraçar, pelo menos uma vez. Eu pensei. Pensei muito. E agora, eu não me arrependo mais de nada. Tudo o que vivi, foi tão intenso que me ensinou muitas coisas. Tudo o que eu senti sobre por você me provou que o amor realmente existe, e que não podemos deixar ele ir embora. Você tem que correr atrás. Eu vou correr atrás de você até quando não conseguir mais andar. Não importa o que você faria por mim, eu faria tudo por você. Você não me responde mais, mas eu preciso saber se você ainda vem. Você já tinha até comprado a passagem, espero que não a entregue a um qualquer no aeroporto. Eu ainda te espero. Eu ainda te amo. Eu sempre te amei, e… Para sempre vou te amar. Era o que você me dizia, lembra? Eu me lembro. Eu me lembro de tudo. Eu não quero me esquecer nunca, e não quero te esquecer nunca, também. Você foi o melhor para mim. Você é o melhor. (15/07) Hoje… O que posso dizer sobre hoje? Eu acho que estou em depressão. Eu me mataria se pudesse, mas eu tenho consciência sobre as consequências – a pior delas, nunca mais te ver. Saiba que eu sinto saudades. E eu finalmente achei o que descreve tudo isso… É só saudade. Mas é uma saudade que não simplesmente passa com o tempo, é uma saudade que tem que só pode ser curada, quando é morta. Vem, garoto. Vem matar a minha saudade de você. Mata minha saudade de nós. Mata minha saudade de ser feliz. Mata minha saudade de sorrir de verdade. Se não puder matar essa saudade, acho que outra coisa que vai morrer. Talvez alguém, talvez eu. Talvez nós. (16/07) E hoje… Eu te mando isso, na esperança de você finalmente me dar uma resposta. Na esperança de você vir. Eu espero você.
—  Luiza L, (sorriso-inconsante).
— O que acontece se eu disser que te amo, agora?
— Acho que… Acaba.
— O que acaba?
— O encanto. De não ser nada sério.
— A gente não é nada sério? É isso que está dizendo?
— Depende.
— Depende do quê?
Você é algo sério para mim.
— Então por que depende?
— Porque talvez você não me ame.
— Mas eu acabei de dizer.
— Não, não disse.
— Você não deixou.
— Dizer? Pode dizer.
— Não… Você não deixa eu te amar.
— Pode amar.
— Sem você me amar de volta? Não tem graça.
— Tem que ter graça?
— Tem que ter reciprocidade. Tem que ter amor.
— Agora você me pegou.
— Você não me ama?
— Depende.
— Depende do quê?
— Se vai durar. Não posso amar alguém que pretende sair da minha vida, tipo… amanhã.
— Vou estar aqui amanhã.
— E depois?
— E depois.
— E depois?
— Depende.
— Do que?
— Você ainda não disse.
— Nem você.
— A gente tem que dizer?
— Você acredita que eu te amo?
— Acho que sim, você sempre me faz rir.
— Interessante.
— E você? Acredita?
— Tenho certeza que me ama.
— Como?
— Você quase disse.
— Mas não disse.
— Então diga.
— O que?
— “Eu te amo.”
— Você disse, há.
— Isso foi jogo sujo! Mas quer saber, eu te amo mesmo. Feliz?
— Muito.
— Agora, que tal você?
— Você já tem certeza.
— Então estava certo?
— Temo que sim.
— Sério? E o quanto você me ama?
— Vou estar aqui amanhã.
— Isso não é uma resposta.
Vou estar aqui para sempre.
— Quer dizer que vai me amar para sempre?
— Talvez. Isso depende.
— Depende do que?
— Você disse que me ama agora. Vai me amar para sempre?
— Eu te amo.
— Isso também não é uma resposta.
— Eu sei, só é bom dizer isso sabendo que você pode concordar.
— Mas eu ainda não disse.
— Então diga.
— Que te amo? Para sempre, ou agora?
— Qual o veredito? Você só me ama agora?
— Para sempre.
— Você ainda não completou essa frase.
— É complicada demais.
— A gente é complicado demais. Ela é simples.
— Simples?
— Sim. Você já provou, então agora é só dizer.
— Já provei?
— Tenho certeza.
— Legal.
— O que é legal?
— Estamos conversando.
— Sério? Poderia dizer que estamos discutindo.
— Por que estaríamos discutindo?
— Nós sempre estamos. E você ainda não disse.
— Eu te amo.
— Isso foi esquisito.
— O beijo? O jeito como eu disse? Ou eu ter dito?
— Não sei. Mas foi bom.
— Você é estranho.
— Você que é.
— Você acha que combinamos?
— Não.
— Não?
— Nem um pouco.
— Por quê?
— Porque não.
— Não é resposta.
— Você acha?
— Você me confundiu. Também acho que não.
— Pois é.
— Mas eu gosto assim.
— Também gosto.
— Só gosta?
— Eu amo.
— Me ama?
— Amo.
— Que clichê!
— Foda-se.
— Você odeia coisas clichês.
Mas eu amo você.
— Até amanhã?
Para sempre.
—  O primeiro “eu te amo”. Luiza L, (sorriso-inconstante)

Eu preciso do seu sorriso e de você dizendo que ele só está ali porque eu também estou. Preciso de você me guiando nos momentos em que eu me perco. Preciso da tua voz dizendo como eu sou linda, mesmo que eu discorde, e você brigando comigo por discordar… Preciso do teu choro para poder te ajudar a se alegrar… Preciso de uma mão tua, para me ajudar a levantar, quando eu cair. Preciso das tuas bobagens e do teu jeito bobo. Teu jeito bobo que encanta… foi por ele que eu me apaixonei… Preciso de um olhar teu, isso já estava bom. Preciso de uma ligação, que seja. Preciso ouvir tua voz, preciso te ver. Preciso de você. E você não tem ideia do quanto importa… - Luiza L, (sorriso-inconstante)

Gosto de, às vezes, me comparar a gatos. Uma gata bem pequena, aprendiz da vida. Não por ser bonita - longe disso, na verdade –, mas gatos são mimosos, precisam de carinho o tempo todo ou ficam choramingando em teu colo. Precisam saber que tem alguém que podem contar. Alguém que vai limpar a caixinha de areia todos os dias e pentear o pelo, sempre bem tratado. Vai confortar a mente e às vezes fazer um carinho em um dia chuvoso. Preciso ser amada, preciso ser cuidada. Gatos não vão embora aleatoriamente, em um dia de tédio. Gatos se acomodam na intenção ficar para sempre naquele cantinho da sua vida. Todos esquecem os gatos, todos procuram por algo mais ativo, mais divertido e menos casual. Sempre fui do tipo chato, que prefere observar à chuva pela janela, enrolada em um cobertor, assistindo Diário de uma paixão pela milésima vez. Sempre fui do tipo que não quer magoar ninguém, e sempre acaba magoada por quem mais ocupa meu coração. Gatos são ranhosos, agressivos com os que passam um tempo com seus donos julgado por eles, maior que o devido. Gatos são ciumentos, e fazem de tudo para defender aqueles que sabem que os defenderiam também. Talvez esse seja um defeito dos gatos, eles precisam saber que estão ganhando algo em troca. Eles precisam ser amados por aqueles que amam. Precisam de uma confirmação de que não vão sofrer. Às vezes, ao me comparar à gatos, acabo me confundindo com eles…. Certa vez eu tive um gato, achei-o na rua, chegando da escola em um final de tarde, em uma caixa de papelão, menor até que a minha mão. Perguntei-me como alguém seria capaz de abandonar aquela bola de pelos, com os olhos ainda fechados. Levei-o para casa, escondidos de meus pais, temendo o momento em que o encontrassem. Eu sempre fui proibida de ter algum animal, pela alergia de minha irmã, e minha constante infelicidade. Mas até esse momento, eu o olhava. Desejava saber o que passava por sua cabeça, por trás daqueles olhos, agora abertos e enormes, olhando ora para mim, ora para o leite que não conseguia tomar. Parei de olhar, e logo pensei que ele era como um bebê. Precisava de tratos especiais, e definitivamente não era como o grande cachorro do vizinho que costumava brincar aos sábados. Corri até a cozinha, puxei uma cadeira e nela subi procurando alcançar o armário mais alto. Procurei desesperada por um conta-gotas e logo o levei ao quarto. Colhendo cada pequena gota do leite na vasilha, e as soltando na boca daquele frágil animal, eu observava agora suas imperfeições. A pele clara como neve, o pelo negro com manchas grisalhas pelo corpo e as unhas ainda tão curtas… Para mim, ela era perfeita. Ao repetir o ato dezenas, talvez até centenas de vezes, senti que precisava dele. Precisava mimá-lo, cuidar dele até ele conseguir fazer isso por si mesmo. Ou talvez até depois disso. Queria ficar com ele, então criei um pequeno esconderijo debaixo de minha cama, com algumas cobertas e muito amor. Não demorou muito para meus pais descobrirem, mas por minha enorme surpresa, meus pais o deixaram ficar, contanto que não mantivesse contato com minha irmã. E não manteria. Nem que ela não tivesse aquela alergia, eu não queria que ele fosse dela. Era meu gatinho, meu pequeno, só meu. Passei a me importar demais com ele, e eu dormia abraçando ele, algumas vezes. Não me importava com as certezas de algumas doenças, ou até da maior de todas… Amor. Aquele gato fora o meu primeiro amor, por mais estranho que isso pareça. Aos sete anos de idade, eu desejava nunca crescer, pois sabia que se crescesse, ele também cresceria. E gatos morrem – infelizmente, antes de nós. Não queria perder ele, nunca. Então, em um aniversário da minha mãe, vários parentes foram nos visitar, e por ordem de minha mãe, tive que soltar o gato por algum tempo. Nina – a gata – acabou se tornando agressiva, atacando todos naquela festa com seus arranhões e olhares amedrontadores. Teve que dormir fora naquela noite, e quando acordei no dia seguinte, só pude chorar, ao ouvir aquela notícia, de que minha mãe a havia levado à uma fazenda, onde, de acordo com ela, viveria melhor. Desde então, tento ser como aquela gata. Estava sempre me fazendo sorrir, talvez não por uma questão de escolha, até, mas só pelo simples fato de existir. Queria ser desejada assim por alguém. E, mais de seis anos depois, ainda me lembro dela, e, em dias mais monótonos que o normal, costumo me comparar a gatos. — Luiza L, (sorriso-inconstante).

Tenho me escondido das pessoas, como se elas me fizessem mal. Tento me contentar com uma semivida nesses textos de meia boca. Como se ser feliz dependesse disso, escrevo, escrevo, escrevo, até me sentir doente. Parece que estou deixando ir a tal felicidade. Momentos doces, sutis e eternos se mentalizam em minha cabeça agora. Gostaria de vê-los passando em uma televisão, como o filme de minha vida. Momentos de nós dois. Dois apaixonados procurando tempo para tanto romance. Você podia não ter me deixado ir. Gostaria de ter ficado, é verdade. Só não pense que dependia de mim. Gostaria que você tivesse me puxado pela cintura, me abraçado bem apertado e sussurrado no meu ouvido um apelo de quem me queria ali. E acredite, eu ficaria ali para sempre. Mas isso não aconteceu. Parece impossível a ideia de compatibilidade entre dois corações tão turbulentos. Esse amor é incoerente e cego. Não arrancaríamos nada além de lágrimas, um do outro. Então, eu me contento com esses textos. Nem poemas, nem histórias. Só textos. Tem quem diga que escrevo para você, como uma busca incansável por um amor perdido. Não deixa de ser verdade. Tem quem diga que escrevo para mim, tentando dar motivos para sorrir, me colocando em situações onde finalmente posso ser mais feliz do que realmente sou. É, também não deixa de ser verdade. A questão é que agora, vejo que eu também te deixei ir. E não veja isso como uma carta de amor desesperada, de alguém que te quer de volta. Veja isso como um sussurro. Um sussurro cansado que pede perdão. Pois bem, aqui estou eu. Esperando uma resposta sua. Espero te encontrar um dia e saber que você sabe o que sinto hoje. Mas querido, até lá, eu escreverei. Escreverei porque assim sei que alguém ouvirá também meus gritos abafados. E oro, todos os dias, para esse alguém ser você. — Luiza L, (sorriso-inconstante).

Talvez as pessoas mais solitárias sejam aquelas que mais querem alguém. Ou não.

– Está levando um guarda-chuva? – pergunta minha mãe depois de uma discussão sobre sair e namorar precocemente. Precocemente? Adolescentes namoram desde… Sempre. É o mundo em que vivemos. Mas para a sorte da minha mãe, estou saindo sozinha. É uma coisa que faço com uma frequência peculiar para garotas da minha idade. Vou ao parque, tiro meu livro da bolsa e tomo um Pepsi Twist de latinha. Depois, passo na padaria e compro do maior pedaço da maior torta, porque eu não ligo de engordar ou de fazer tudo isso sozinha. Eu sei que me sinto bem com o Shuffle do meu Ipod laranja berrante que dá vida ao meu look quase completamente preto. Gótica, emo? Não, por favor. Escuto o meu The Kooks no volume máximo, e quando acaba passo para The Beatles. Sem perceber, começo a cantar “Here Comes the Sun” baixinho, folheando o novo livro que adquiri no sebo perto da escola. Tiro também da mochila meus cadernos. Um cheio de desenhos – vestidos que crio no tédio, crianças que vejo no parque ou até casais apaixonados de um filme. Gosto de desenhar coisas alegres, porque riscos fortes e cheios de dor me lembram da morte, a única coisa que temo. A não ser é claro, o amor. Outro caderno, cujas folhas são recheadas de poemas, narrativas, contos e crônicas. Gosto de conviver com meus doces ou cruéis personagens mais do que com pessoas, porque eu tenho controle quando manuseio a lapiseira tendo uma borracha ao lado. Conhecer o amor da vida dela enquanto faz compras? Encontrar a tia que havia desaparecido? Fazer sexo com o primo escondidos no banco de trás do carro do pai? Eu decido a história, eu crio os dramas e determino o final mais trágico, ou mais agradável – isso depende do meu humor. É tudo sobre mim, e eu gosto disso. Gosto de ter controle, e talvez assim tenha adquirido o susto de uma sociedade onde todos tentam cuidar da minha vida. E o outro caderno, é claro, da escola. Abro na aba de Sociologia para adiantar o trabalho que devo entregar semana que vem. Devo falar sobre relações humanas de hoje em dia. Poderia ser mais irônico eu ter que fazer esse trabalho em dupla? Gilson, o professor, deve ter tido alguma conversa com minha mãe sobre a garota antissocial da turma, a garota que não ri e nem que chora. A garota que odeia trabalhos em grupos. E é claro que ele teve que me colocar com o garoto mais estúpido de todos. Breno não é exatamente o mais popular ou o mais bonito, mas sabe manter muita gente a sua disposição. As garotas quase pedem para ficar se esfregando em seus músculos – às vezes fazem sem pedir – e os professores se impressionam com as notas e seu doce jeito de colar com a garota nerd que o ama. Não quero ter que passar muito tempo com esse tipo de pessoa, por isso eu pretendo fazer uma porcentagem boa daquele texto sozinha, e talvez depois ele possa acrescentar uma palavra ou outra, mas sem que precisemos nos encontrar. Caderno aberto à minha frente, enquanto devoro um pacote de Ruffles Cebola e Salsa – meu preferido –, balanço a lapiseira e brinco com minha borracha. As linhas em branco me afobam. Por que não sei escrever sobre relações humanas? Deveria saber, é o que mais se intensifica em minhas histórias. Tic, toc. Tic, toc. É realmente impressionante como o tempo insiste em nos torturar quando temos que fazer alguma coisa que não somos capazes.
– Larissa? – Que susto! Pulo da cadeira e me viro para ver quem foi o desafortunado a me encontrar na padaria. Minha padaria.
– Ah… Breno? O que você faz aqui? – realmente, o que ele fazia aqui? Devia estar em alguma academia ou sei lá o que esse garoto faz a tarde inteira.
– Já te vi aqui várias vezes. A padaria é do meu tio. – o que? Ricardo, meu amigo Ricardo, é tio de Breno? – O que está fazendo? – e se jogou mansamente ao meu lado no banco estofado junto à mesa da janela.
– Deveria estar fazendo o nosso trabalho, mas não sai nada. – ele me olhou diretamente nos olhos por no mínimo uns quinze segundos, e depois, com imensa convicção, pegou a lapiseira da minha mão e escreveu algo na primeira linha. A letra era bagunçada e feia, mas consegui ler “Relações humanas não prestam.”. Eu o encarei por um tempo esperando ele começar a rir e dizer que estava tirando onda comigo, mas ele não riu. Ele só sorriu de lado e disse:
– Já é um começo.
O garoto que é amigo de todo mundo, que zela por sua aparência perante a sociedade e faz todos o amarem, não acha relações humanas coisa boa?
– Eu não entendo. – disse com um ar desistente, enquanto encostava o corpo no vidro e observava o céu um pouco cinza. Havia neblina, e parece que meu corpo resolveu sentir calor no momento em que meu cérebro captou que o clima estava frio. Sempre a típica contradição da minha mente. Despi meu pulôver azul marinho.
– Você deveria escrever realmente o pensa, Larissa. Sem essa de personagens, sabe? Escrever sobre você, pelo menos uma vez. Seus sentimentos.
O calor aumentou, e de repente minhas roupas eram mais que suficientes. O que estava acontecendo comigo?
– Eu não me sinto bem.
– Então escreva que não se sente bem! Diga o que pensa da sociedade, Gilson não tirará pontos de você por sinceridade.
– Não… Não é isso. Eu quero dizer que não me sinto bem. Acho que estou um pouco tonta. – tudo escureceu, mas sei que foi por pouco tempo, e de repente estava caída nos braços de Breno. Devia ser um truque simples e comum para garotas da escola serem carregadas por ele, mas comigo, ele não acreditou ser mentira, e estava me levando lá para fora onde não é tão abafado. Sentou-me em um banco pouco confortável de praça, e se ajoelhou na minha frente. Perguntou o que eu tinha, e eu expliquei a história da pressão baixa e da anemia. Não posso ficar muito tempo sem os complementos de ferro. Ele me abraçou e disse que se assustou quando eu desmaiei. De repente Ricardo também estava lá perguntando se estava bem. Consenti, e ele voltou para sua padaria. Breno o acompanhou somente para pegar minhas coisas, guardou tudo apressadamente dentro da minha mochila e apareceu de novo na porta.
– Vou te levar até a sua casa. – mas ao ver o meu ar de protesto, continuou sem me dar a chance de dizer alguma coisa – Você ainda nem tomou seu remédio, e não pode desmaiar sozinha na rua.
Nós fomos conversando pelo caminho. Ele me instruiu a não ficar assim tanto tempo sem os complementos, para por suas próprias palavras “Não assustar mais o seu futuro amante, ele pode desistir de alguém tão turbulento”, e então rimos. Me ajudou com ideias para o trabalho, e pensamos em um texto já quase pronto para se ser escrito e entregue. Ele disse que ouvia muito Legião Urbana, e que era apaixonado por Júlio Verne. Eu assumi que nunca li um livro dele, mas disse que tenho vontade. Conversamos sobre música, e acabamos descobrimos muita coisa em comum. Ele me elogiou pelas notas agudas e desafinadas de Here Comes the Sun, e cantamos juntos por boa parte do caminho. Ríamos até quase chorar, andávamos no meio da rua e meio pulando. Parecia que estávamos drogados, e o comentário ao ser dito só trouxe mais risadas. Então ele para, tenta segurar o riso até ficar incrivelmente sério e olha nos meus olhos enquanto canta pausadamente a minha preferida dos britânicos que estavam bombando nossa conversa, “If I fell in love with you, would you promise to be true?” Eu rio, e ao ver ele tão sério, vejo que cantar junto é a solução. “And help me understand?” Meus agudos eram realmente o meu ponto fraco, e qualquer garota não cantaria assim na frente de um garoto, mas eu acho que já poderia dizer que estamos entre amigos.
Sem nenhum aviso prévio, como naqueles filmes em que físicos ficam estressados assistindo, começou a chover. Pingos pesados caíam sobre os meus cabelos, roupas e minha mochila de pano. Breno se cobriu parcialmente com seu moletom e eu fiz o mesmo. Tudo o que conseguia sair da minha boca eram palavrões.
– Chapinha? – ele perguntou rindo o pouco.
– Minha mãe vai me matar! Isso é praga, só pode. – arfei enquanto corríamos para um telhadinho na calçada – Ela me mandou trazer guarda-chuva, porque eu já estou um pouco resfriada e ela morre de medo de uma pneumonia séria. Eu bati a porta na cara dela, e imagino a recepção agradável que eu vou receber chegando encharcada desse jeito.
– Vai para a minha casa, toma um banho lá.
– Ah, claro, porque assim a minha mãe não vai mesmo brigar comigo! E como você pretende que eu volte, pelada? Ah, deixa eu adivinhar… Dormir na sua casa? – quanta ironia para uma pessoa só. Ele riu.
– Não seria uma má ideia, mas você pode pegar uma roupa da minha irmã. Ela é dois anos mais velha, mas deve servir. Explique para a sua mãe que você desmaiou, e diz que eu te trouxe para a minha casa porque é mais perto, aí você acordou lá e viu que não era nada de um sequestro ou sei lá. A gente fez o trabalho de uma vez, e você nem tomou chuva. Amanhã eu te entrego suas roupas limpas, pode deixar.
– Será que ela acredita? E, aliás, onde você mora?
– Duas quadras daqui. É bem perto. Deixe que eu falo com ela. – ele tirou o celular do bolso e eu ditei o número. Esperamos chamar três vezes, e explicou a história do jeito que tinha falado, contando tudo com aquele ar meigo e apaixonante que tem. Minha mãe quis falar comigo, e então ela disse que meu pai passaria lá para me pegar às nove horas da noite.
– Uau – observo o quarto dele quando chegamos lá. Pôsteres de várias bandas indie britânicas e uma foto da Megan Fox. Previsível. Na mesa, um computador ligado. Uma estante ao lado, cheia de livros de Julio Verne e a coleção de Harry Potter, Jogos Vorazes e O Senhor dos Aneis. Que garoto era aquele? Eu estava me impressionando com meus próprios pensamentos de que fora feito para mim, quando comecei a reparar a colcha sobre a cama de solteiro. Eram quadrinhos de todos os tipos. Ao seu lado, um violão de madeira clara, e um baixo ligado à caixa acústica. – Me pergunto quantas garotas já passaram por aqui. – rio, mesmo sendo uma informação estranhamente de meu interesse.
– Calma – ele riu de volta, e sorriu. – Você é a primeira. – Não sabia se acreditava ou não, mas pelos olhos dele, aquilo parecia bem sincero.
Tomei um banho, e nem por um segundo consegui pensar no quanto a situação era constrangedora. Conheço alguém, e no mesmo dia, estou tomando banho no chuveiro dela. Estranho, para qualquer um. As roupas da irmã ficaram um pouco grandes, mas justas o suficiente para ficarem no corpo. O trabalho foi bem divertido, porque toda hora era interrompido por uma música do The Kooks que ele me mostrava no baixo, ou uma dos Beatles no violão. Ainda que indiretamente, as cinquenta e oito linhas da minha letra miúda naquele caderno eram sobre nós dois, e sobre como as impressões podem enganar. Em momento algum citamos nomes, mas de algum jeito eu sabia que tinha mudado. Sabia que seria diferente na aula agora, porque nós havíamos nos tornado, pelo menos, amigos. Como se lesse meus pensamentos, ele perguntou:
– Mudou alguma coisa, não mudou? Digo… Em relação a nós dois. Pelo menos alguma coisa tem que ter mudado, porque agora você está no meu quarto com um shorts e uma camisetinha da minha irmã mais velha, na minha frente, e você me conhece mais que a dona dessa roupa. Ontem você era só uma colega que senta no fundo da sala que meu professor me mandou fazer a dupla para um trabalho.
– Claro que mudou. Você é meu amigo, eu acho.
– Eu gosto de você, Larissa. Seu jeito me encanta.
– Seu jeito encanta todo mundo, então acho que nem preciso comentar a minha parte nessa conversa.
– Mas você não é todo mundo, quero saber. – ele sorriu sem jeito.
– Eu gosto de você, Breno. Eu nunca gostei de ninguém, se isso conta.
Enquanto um beijo doce encantava aquele final do dia, e nós comíamos pipoca enquanto cantávamos, dizíamos, fazíamos coisas idiotas, na mesa, havia uma mochila. Havia cadernos, e havia lapiseiras, borrachas e canetas. Havia livros jogados, uma cifra de música e talvez um desenho que ele tenha feito um dia sem mostrar a ninguém. Naquela mesa havia bagunça, havia um monitor de computador e por baixo de tanta coisa havia também um teclado, provavelmente. E, naquela mesa, havia uma redação, cuja primeira linha estava visivelmente escrito com uma letra calma e quase delicada “Na maioria das vezes, as relações humanas não prestam, mas, em poucas… podem até dar certo.”.
—  Luiza Lisboa.
Vem todo gelado, deixa carente. Te encanta, te mostra o mais lindo da vida. Faz você se apaixonar. E depois vai embora dizendo que vai vir alguma coisa bem melhor. Mas o Inverno sempre foi minha estação preferida, porque a Primavera é muito clichê. O Verão é muito quente, e o Outono é muito triste. Você sempre foi a minha paixão preferida. O resto nunca serviu.
—  Luiza Lisboa.
Abri os olhos e a única coisa que ainda tinha de nós dois era a certeza de que a tinha perdido.

A garota era a frescura em pessoa. Nunca vi. Para começar, se tocasse nela, se remexia toda, como um sopro em um dente-de-leão. Era como se fizesse cócegas, mas com ela, nos joelhos, nos ombros, na barriga. Tudo quanto era lugar ela começava a rir, e aí não parava mais. Poderia citar que muitas vezes fiz de propósito só para ver aqueles dentes branquinhos alienados e a mostra no meio de uma briga. Mas estou falando de seus defeitos agora. Ela era esquisita. Digo, dizia coisas esquisitas. Ficava recitando Caio Fernando Abreu, e falando de como devemos ter medo das baratas porque é o único animal terrestre capaz de sobreviver a uma explosão nuclear, e os homens vão acabar se destruindo. Fazia coisas esquisitas também, como tossir três vezes depois de rir, cruzar os braços quando está brava e andar só de calcinha e sutiã em um dia frio. Sair gritando palavrões quando queima os nossos cookies no forno, e depois esconder todas as minhas cuecas porque “você fica mais bonito sem elas”. Rir como se tivesse engasgando. Na verdade, engasgar com a própria saliva. Ela fazia isso também. Ela também era cheia de comparações. Adorava me comparar com estrelas, quando não era com um panda. Dizia que sou preguiçoso demais, mas que eu brilho demais também. E que no dia que nos conhecemos, ao chegar a em casa, a primeira coisa que fez foi abrir a porta de sua sacada e gritar perdão para as estrelas por finalmente ter achado algo que brilha mais que as mesmas. Maluca. Doida de pedra. Ah, e ela ama pedras. Estudou pedras. Está vendo o que eu quero dizer? A garota perdeu cinco meses de vida em que podia estar se divertindo para fazer um maldito curso de pedras. É pior que filosofia! A garota perdeu também mais cinco meses comigo. Ou talvez eu tenha perdido com ela, isso eu ainda não descobri. Mas esse erro foi pior que fazer filosofia. Foi pior que estudar pedras.
Ela também já estudou astronomia. Mas disso até que me ensinou a gostar. Ficávamos horas no observatório depois que já fechava – contra a lei mesmo – olhando as estrelas, nos beijando… Pensando bem, acho que odeio astronomia.
Ela amava um filme toda segunda-feira, e passava o resto da semana assistindo só séries, porque nenhum outro filme podia quebrar o encanto daquele, por pelo menos uma semana. Todo sábado tinha pipoca, e na quinta-feira, brigadeiro. Ela era um lixo na culinária, mas os nossos cookies eram o que salvava. Eu tive que ensiná-la a fazer café. Café! Como alguém chega aos vinte e três sem saber fazer café? Aprendi com sete. E desde então sou um viciado. Assumo mesmo. Tenho tantos vícios que prefiro nem contar todos. Eu fumava. Parei porque ela não gostava. Na verdade, ela odiava. Ela repugnava cigarro. Passava mal, e brigava comigo três eternidades e meia quando eu fumava quando estava com ela. Aí a vontade de estar com ela ficou maior que a de fumar, e acabei parando. Eu deixei de ser eu mesmo por causa dela. Deixei de me viver, e passei a respirar ela. Amar ela, ser ela. Tudo ela. Cheguei a me trocar por ela, só para sentir de novo como é estar em sua presença. Mas isso já foi depois que ela foi embora.
Lembro da sua paixão por aquela banda, “Chili Peppers”. Ou algo assim. Ainda lembro-me dos versos que ela cantou em um dia que estava chovendo muito, e resolvemos passar o dia na minha casa. Fizemos uma gravação. Ela está com uma camisa minha – ridiculamente ridícula –, um controle remoto como microfone enquanto pula na cama. Ela me chama para cantar junto, mas estou deitado, filmando. Quem vê até acha que somos um casal feliz. Fomos, até. Ela canta tão alto que eu até grito um palavrão. Ela me censura, e eu peço desculpas. Ela cai de propósito em cima de mim e nos beijamos. Acaba. “A propósito, tentei dizer que estaria lá. Estaria lá por você.” Ela cantava, enquanto tocava seu baixo imaginário em movimentos Flea. Jogava seu cabelo Jesus como Frusciante e pulava, girando, como Antony. Desde então, aquela banda é um lixo. Astronomia é um lixo. Cookies… Idem. Pedras são um lixo, também. Pandas são um lixo. Sorrisos são um lixo. A vida é um lixo.
Ah, a história dos nomes falsos! Aquilo me encantou tanto que eu senti que poderia contar essa história para sempre. Para os nossos filhos, nossos netos, os amiguinhos dos netos que estivessem passando o fim de semana conosco. Nunca me cansaria de cantar nossa história. Hoje? Juro que nunca pensei que doeria tanto pensar nela. Parece que ela sempre carregava uma navalha, todas as vezes que estávamos juntos. Sempre pronta para usar. Aí usou, e eu não estava preparado. Eu nunca estou. Mas daquela vez, ela é que não estava. Não estava pronta para um compromisso, então inventou essa de esperar. A gente se encontra, se conhece e dá aquela sensação de feitos-um-para-o-outro. Então ela inventa: “Vamos esperar tipo, umas três semanas, e se a gente ainda quiser se encontrar… a gente se encontra.” Eu já disse que ela tem problemas? Nunca vi isso. Nem no filme de segunda. Nem em série. Nem em livro. Pra deixar a coisa ainda mais engraçada, ela nem me disse seu nome. E me proibiu de dizer o meu. Era Lilo. Eu juro que fiquei três semanas e oito dias daquele intervalo – de três semanas – entre os encontros, pensando qual deveria ser o nome dela. Juro que apelei para aqueles jogos, vírus, tanto faz da internet que diziam se os nomes combinavam. Coloquei Lilo mesmo, e ainda deu que combinava. Cada coisa começou a virar sinal para mim, e era como se eu estivesse idealizando a pessoa perfeita. Mas a questão é que: Eu não a conhecia. Eu não a conhecia realmente. Ela tinha mais livros do que brincos ou colares, sonhava em viajar até o espaço e gostava de dirigir triciclos. Grande coisa. A garota era só defeitos. Uma pilha de defeitos que jogaram na minha vida. Gritei. Berrei, e arranquei minha blusa. O apartamento sempre foi tão pequeno e tão aconchegante – até antes dela. Mas agora, assim, sem ela, parece tão vazio. Tão vago. Essa dorzinha cada vez crescendo mais, causa umas ilusões de que o ferimento está pior do quando você bate o dedinho do pé da quina. Não sangra, não corta a sua pele. Mas dói. Se dói…
Ela é meio irônica. Vivia me falando sobre caras que foram embora, e que assim partiram seu coração. Caras que a decepcionaram, magoaram, destroçaram seus sentimentos. Caras “maus”. Vivia me dizendo para não ser esse tipo de cara, porque ela realmente gostava de mim, e não queria que eu fosse. Falsa. Isso que ela é. Foi embora. Não uma, mas duas vezes. No primeiro encontro, quando eu poderia jurar que ela era minha alma gêmea. Ainda estava meio insistindo pelo seu nome, e queria muito manter contato. Não conseguiria esperar nem três horas, três dias… imagine então três semanas. Sussurrei em seus ouvidos “Não quero vê-la partindo.” E o que ela fez? Me mandou fechar os olhos. Contou, supostamente, até dez – na verdade, não ouvia mais sua voz a partir do sete – e quando eu vi, ela não estava mais ali. Abri os olhos e a única coisa que ainda tinha de nós dois era a certeza de que a tinha perdido. Então foi o momento de me alegrar com as três semanas. Nós íamos, enfim, nos vermos outra vez. Não era exatamente para acabar com tudo. Era uma pausa. Uma dolorosa – com todas as letras e sensações que a palavra traz – pausa. Não tão dolorosa quanto o final, é claro. Foi mais ou menos a mesma coisa. Estava indo tudo tão bem… Pedi ela em casamento. Sim, pedi. Eu, que tenho medo de tudo, e nunca estou pronto. Estávamos dançando. Ela me dissera uma vez que odiava rotinas, então a levei para o Cristo Redentor. Uma viagem de quatro horas e meia, só para surpreendê-la. Invadimos lá dentro (Estávamos ficando bem craques nesse lance de bandidos. Observatórios, monumentos…). Nos sentamos no chão e começamos a comer morangos. Morangos com Nutella. Ela amava. Eu passei a amar também. Depois passei a odiar, também. Mas no dia, eu amava ela. Amava tanto que a ideia surgiu de repente. Ao olhar ela rindo, e olhando para mim… Eu imaginava se ela pensava o mesmo. Queria passar o resto da minha com aquela Lilo. Minha Lilo. Acabamos de comer e estávamos dançando. Lá dentro mesmo. Nenhum de nós tinha coragem de sair, porque ambos tinham medo de altura. Enquanto abraçava aquela garota tão pequena. Tão frágil, tão… fuiregitp43ngf3e. Tão minha, apenas. Vontade daquele momento durar tipo… para sempre. Aí eu sussurrei. De novo. “Casa comigo?” e depois a soltei. Olhei em seus olhos, e tentei sorrir. Não consegui, porque de repente toda a minha segurança se trocou por medo. Apavorado. E se ela recusasse? Ela não sorriu. Não sorriu, e eu não sorri. Ela fez a mesma cara de quando me via fumando. Cara de quem vê alguém cometendo um grande erro, enquanto sabe que é um erro. Depois de alguns anos, acabei descobrindo que essa cara também servia para quando era ela quem cometia o erro. Mesmo sabendo que era erro. Na hora, parecia que ela ia chorar, e de repente eu também queria. Queria me jogar no mar e nunca mais ver a luz do dia. Ela não chorou. Não sorriu, não chorou, não respondeu. Enquanto eu me torturava com quinhentos e noventa e três – e meio – pensamentos que poderiam me matar. Aquela insegurança estava me matando. Uma lágrima desceu do rosto dela, e tudo que eu ouvi foi “Me…” Estava rouca, como se fosse a primeira vez que falasse. “Desculpe.” Rápido, como uma criança almoçando antes de ir brincar, ela me deixou ali. Saiu. Minha Lilo. Foi embora.
—  E de repente tudo nela era defeitos, e a pessoa perfeita era só… medrosa. Luiza Lisboa.