liricamente

Eu sou uma pessoa excitável que só entende vida liricamente, musicalmente, em quem sentimentos são muito mais fortes que a razão. Eu estou tão sedenta para o maravilhoso que só o maravilhoso tem poder sobre mim. Qualquer coisa que eu não possa transformar em algo maravilhoso, eu deixo ir. Realidade não me impressiona. Eu só acredito em intoxicação, em êxtase, e quando vida ordinária me algemar, eu escapo, de uma maneira ou de outra. Nenhum muro mais.
—  Anais NIn

auto - decisões profundas
é como encontrar uma nova religião,
reformular a equação espiritual.
não consigo encontrar as palavras,
então ajo fisicamente.
levo um martelo para a alma,
decomponho-a delicadamente.
discurso alquimista
palavras formam quimica
os meus verdadeiros sentimentos,
ainda não se expressam liricamente.

Monólogo sobre o Não Saber

Carrego na voz a sombra de gritos não proclamados. Nas pernas, a ânsia de fugir. E no restante do corpo a estagnação, o cansaço, a descrença mais árdua. Eu poderia sair, me embebedar, assistir um culto na igreja, jogar conversa fora com amigos na varanda aqui de casa ou descobrir a cura para o meu daltonismo. Mas estou aqui, desmoronando em linhas numa noite de sexta-feira chuvosa. Aliás, hoje não parou de chover, nem lá fora e nem aqui dentro. Da janela do meu quarto, fito cair a chuva ácida da cidade de São Paulo, remetendo-me saudosas lembranças de quando eu me sentia mais inteiro, de quando eu não costumava carregar tanto peso sobre a pele. Mas um dia tudo muda e nos sentimos alheio à nossa própria existência, como se estivéssemos girando de olhos vendados até que, ao tirarmos a venda, não reconhecemos o ambiente. Tudo é estranho, o corpo desfalece, a mente cai numa vertigem furiosa, as paredes nos engolem e nos vomitam. Se formou uma poça d’água no lado de fora! Do parapeito da janela, fito as inúmeras gotas do telhado saciando-a quase que liricamente, como se dançassem ao som da Nona Sinfonia. O abismo parece ser tão lindo, pensei. E de repente fica tudo tão vazio, amor. Um eco surdo, um sopro raso. Um medo de não sei o quê, uma sensação de incógnita que não tem nem nome. Tchau.