linhas de costura

Eu me sentia como uma criança proibida de brincar com o seu brinquedo favorito. Não adiantava chorar e nem fazer birra. Era arrasador e revoltante. A vida é como um pai sem coração, não adianta dar chiliques, fazer bicos de três metros de comprimento e nem mesmo os famosos olhinhos do gato de botas. Nada disso é capaz de convencê-la a tornar-se fácil. Sério, eu já estava para desistir de tudo, até que então, você surgiu como um sopro de ar puro durante a madrugada, aquietando não apenas a minha alma, como também o meu coração. De início, pensei que você seria apenas mais uma pessoa passageira, assim como os demais. Mas, com o tempo, você foi me mostrando que eu tinha me enganado em relação a você. Quando percebi que você era a pessoa que eu sempre procurei, comemorei como uma idosa sem óculos ao conseguir passar o filete de linha em sua agulha de costura. A explosão de felicidade foi tão grande quanto a vibração de uma torcida de futebol após o gol da vitória de uma final de campeonato. Apenas quero que você saiba, que você apareceu no momento certo, mas poderia ter aparecido antes e me poupado alguns litros de lágrimas.
—  Pedricovick.
Guia de como consertar-se

A gente costura o peito do jeito que pode. Procuramos agulhas apropriadas, mas se o tempo estiver curto, qualquer palito serve. Preferimos linhas de costura, mas um barbante velho é sempre útil. Sem qualquer anestesia, tentamos conter o filete de sangue que passa pelas costelas e para no tornozelo. Nos últimos instantes, é indispensável a ajuda de alguém, para limpar, para arrumar e para ficar.

Aos 12 anos de idade eu achava que tinha amor dentro de uma jarra suficiente para todo mundo, nessa época ninguém era mais sentimental que eu. Aos 12 anos, meu cabelo estava mudado, minhas véstias também, minhas músicas falavam sobre amores fraudados e meus programas abordavam cenas melosas que me faziam pensar que se eu amasse muito alguém e essa pessoa me deixasse eu choraria até que ela voltasse para mim, mas nessa idade eu não sabia que amor não se implora, eu não sabia que amor se deixava ir e dependendo de sua volta era preciso seguir em frente. Nessa mesma época descobri que o amor não era tão belo como nos filmes que assisti, minha primeira decepção me fez ter uma força da qual nunca imaginei possuir. Naquele momento eu deveria saber que essas decepções são tão passageiras como o vento, que estamos presas à elas com uma linha de costura e que a qualquer momento podemos nos livrar e voar. Com 12 anos eu deveria saber que NADA do que eu não quisesse me faria mal, e que a vida segue, que somos arrastados por ela para seguir também, afinal a ela não vai esperar você acordar de um pesadelo para vivê-la. Mas apesar de tudo eu deveria saber aos meus 12 anos que o tempo é o rei das causas passageiras e que assim como o nome ele passaria, e eu… bem eu o acompanharia.
—  Poesografa.