levem

Estar só não é vantagem, mas também não chega a ser uma desavantagem. Estar só é uma evolução. Imagine que você está saindo do seu casulo, procurando se conhecer, tirando um tempo para você. Mesmo que você pareça um bichinho indefeso, mesmo que você pareça estranho, não deixe que te rotulem, que te taxem como trouxa ou como estranho… Você é apenas diferente. Se descobrir e tirar um tempo para si não é pecado algum. Liberte-se, evolua, crie suas teorias, não seja apenas mais uma cabeça guiada pela sociedade e pelo que ela lhe impõe. Todos somos capazes de criar nossa própria estrutura, basta apenas querer e ter força de vontade. Estar só muitas vezes é ser você mesmo, é ser o seu melhor amigo, seu próprio companheiro. Estar é só se entender para que um dia outros possam lhe entender e quem sabe aprender com você, coisas que ninguém foi capaz de lhe ensinar.
—  Diego Castro.

Na boa? Me deixa! Porra, eu estou cansada de obedecer ordens, se bem que eu nunca fui de seguir de nenhuma regra. Mas não importa quando for, nem o dia da semana, nem a hora, nem nada! Se eu quiser dar em cima de alguém, vou dar. Se eu quiser beijar, vou beijar. Se me der vontade de beber até cair, pode crer que eu vou beber. E se eu quiser prazer? Vou transar, ah, vou mesmo! Minha vida é minha vida, não sua caralho! Então se liga. Nada importa, só o que me faz feliz, só. Deu pra entender? Sim,talvez eu seja uma perfeita vadia!

Chego em casa e, já não sinto tanto frio quando estava com ele. Eu me sento e deixo meus pensamentos correrem soltos. Por que deixo ele usar meu corpo assim? Eu sei que não gosta de mim. Sinto um aperto por dentro. Como se uma mão entrasse no meu peito e assim, alcançasse meu coração e desse um puxão sem se preocupar como eu me sentiria, como me deixaria. E isso vai se tornando um hábito quando penso nele e, essas dores retornam com mais força que as primeiras vezes. Por que ele faz isso comigo, por quê?! E o cheiro dele ainda permanece em mim e, eu penso no beijos dele, no jeito, no calor, nos olhos; da intensidade que nossos corpos fazem. Ele não é um cara perfeito, eu sei. Mas meu coração é dele, o meu corpo também é. Quando o vejo, meus olhos me denunciam. Meus olhos sempre têm um brilho, tem um quê a mais, que são guardados só pra ele. Mas sempre tenho medo de falar demais; de me entregar demais. Mas não me levem à mal, eu só quero que ele me queira tanto, como quero ele.
—  Porque tudo fica mais frio quando você está aqui, por Chrislayne L. Pinto.
Senhor, quero pedir que transforme cada detalhe da minha vida. Mude a maneira como eu enxergo as pessoas. Que o meu olhar não seja mais carregado de tristeza, mas que meus olhos transmitam vida e alegria. Que as minhas palavras não sejam mais comuns, mas que transbordem paz e carinho a todos que ouvi-las. Que dos meus lábios saiam palavras cheias de amor e conforto. Que as minhas mãos sejam generosas e bondosas para fazer tudo que Você me disser. Que os meus pés me levem muito além dos meus limites. Que a minha mente seja repleta de pensamentos doces e agradáveis a ti. Desperte o meu coração para que eu possa atender ao teu chamado e não aos desejos e vontades da minh'alma. Que o meu maior desejo seja te adorar em todos os momentos da minha vida. Peço que me ensine a ser fiel e obediente a ti, meu Deus.
—  Joelma Thomaz
O que quer uma mulher?

 Uma mulher quer que suas unhas não quebrem nem descasquem. Uma mulher quer se sentir atraente com o peso que tem. Uma mulher quer ver seu trabalho valorizado. E quer ganhar dinheiro com ele. Uma mulher quer ser amada. Quer viver apaixonada. E quer se divertir.
 Poderíamos encerrar a questão neste primeiro parágrafo, mas como a página necessita ser preenchida, avante.
 Uma mulher quer ter filhos. Ou já quis um dia.
 Uma mulher com filhos quer ter mais tempo para si mesma. E uma mulher com tempo de sobra quer uma rotina mais agitada. Uma mulher só não quer o tédio.
 Uma mulher quer um cabelo que não precise ser constantemente pintado, arrumado, escovado. Uma mulher quer conversar. Uma mulher quer ficar em silêncio. Uma mulher quer que lhe telefonem de surpresa e lhe digam coisas que a façam ficar sem palavras. Uma mulher quer deixar um homem maluco. E ter, ela mesma, o direito de enlouquecer.
 Uma mulher quer aprender a ser mais egoísta. Quer, ao menos uma vez na vida, pensar só nela e em mais ninguém.
 Uma mulher quer inspirar um poema. Quer ser musa. Mas não quer ser confundida com essas mulheres que não controlam a própria vaidade, perdem a noção e pagam mico nas páginas das revistas.
 Uma mulher quer colocar comida na mesa e que as crianças raspem o prato, uma mulher quer seus filhos saudáveis e felizes, uma mulher quer que eles durmam a noite toda, de preferência em casa.
 Uma mulher quer desligar a tevê. Uma mulher quer sexo. Uma mulher quer devorar um pão de meio quilo sem culpa. Uma mulher quer sair bonita na foto.  Uma mulher quer dormir mais cedo. Uma mulher quer ser reparada na festa.  Uma mulher quer que seu carro não a deixe na mão. Uma mulher quer ser escutada. E quer escutar os homens, que pouco se abrem.
 Uma mulher quer fazer algo pela sociedade. Quer ajudar quem precisa. Quer ser útil. Em troca, quer que a ajudem com as sacolas. E que a amparem na dor.
 Uma mulher quer ter o gostinho de dizer não para os cafajestes. Por mais que ela queira dizer sim.
 Uma mulher quer morrer de rir. Uma mulher quer que não a levem tão a sério. Quer batalhar por seus ideais sem se embrutecer.
 Uma mulher quer de vez em quando demonstrar seus dotes de atriz. Uma mulher quer brilhar no escuro.
 Uma mulher quer paz. Uma mulher quer ler mais, viajar mais, conhecer mais.  Uma mulher quer flores. Quer beijos. Quer se sentir viva. E quer viver para sempre, enquanto for bom. Está respondido, doutor Freud. Não somos assim tão complicadas.


Martha Medeiros.

As vezes, eu queria que Deus me desse alguém pra me dar um carinho. Sei que Deus ta preparando alguém especial para isso, afinal eu sou complicada, não sera qualquer pessoa que Deus colocara ao meu lado para isso. Sei também, que não será alguém que ira me deixar na hora da dificuldade, e que quando eu estiver desanimando, ira orar por mim, incansavelmente, que ira cuidar de mim, e irá me dar os conselhos que me levem mais perto de Deus. Sei que meu tempo de solteira é importante pra Deus, porque sei que estou confiando na melhor pessoa possível para cuidar do meu coração. Então não terei pressa, porque sei que Deus faz o melhor para mim.
—  하나 나오미. Hana Naomi
Deus, afaste de mim todo tipo de coisa que não venha de Ti. Afaste pessoas, afaste propostas, afaste circunstâncias que me levem a me afastar de Ti. Eu te amo demais, Deus, pra querer desviar meus olhos de Ti por qualquer proposta desse mundo. Cuide de mim, Deus, e do meu coração, não quero pecar contra Ti. Amem.
Que meus olhos nunca deixem de ver o lado bom das pessoas. Que minhas mãos estejam sempre prontas pra levantar, não empurrar. Que meus pés levem o amor. Que minha boca não seja usada pra dizer palavras amargas e de derrota. Que meus ouvidos sejam pacientes para ouvir a dor do outro. Que meu coração nunca fique duro, escuro. E que eu nunca, nunca mesmo, desista de recomeçar. As tempestades vêm, sempre. Mas que além delas, sempre venha uma fé bonita e a esperança de que as coisas se ajeitam.
—  A menina e o violão.

eu quis colar a boca no seu rosto e recitar alguma prosa de caio, e você ia sorrir e fechar os olhos e sentir o som reverberar na sua pele. falaria aquele da avenca que deveria ser uma samambaia mas cresce sem parar, os dedos cravados no seu braço. tudo seria triste e bonito, ainda que nossa tristeza seja mais alheia do que propriamente nós. aquele momento resultaria num riso que contradiz a taquicardia do peito. porque você riria do meu ato mas teria o corpo aquecido. eu faria meu ar blasé mas aquilo diria mais que um punhado de canções populares. esses dias eu quase te chamei para aprendermos italiano porque vejo nosso amor em florença, embora acredite piamente que ele sobreviveria mesmo no frio do ártico. é bonito dizer isso porque eu sempre fujo do amor, mas dessa vez o sinto talhado na minha carne. e digo pausadamente para você sentir a entonação de cada palavra saindo dos lábios e se propagando na pele. eu sou triste mas você me faz uma tristeza menos só. eu quero partir mas quero ainda mais que você me impeça. você abre a boca mas se cala. vezenquando me sinto uma intrusa da vida. eu não devia estar aqui, eu não devia estar aqui, digo e repito ainda com as mãos apertando seus braços porque minha fala contradiz os desejos.  

agora vejo-me amena, como a calmaria antes da tragédia. quis usar esse momento de lucidez para grudar em você, chorar por todas as vezes que me vi fitando esse abismo que reside n’algum canto de mim, porque você não sabe acalentar dores mas é minha calmaria. então eu fecho os olhos e deixo meu nariz frio na sua bochecha até o peito aquietar. te escuto contar as batidas num sussurro, uma, duas, três, quatro, calculando quanto tempo vai levar para a próxima aceleração cardíaca. eu engancho os dedos na sua camisa como quem procura equilíbrio. você desfaz o nó que mora entre a garganta e a boca do estômago. essa tristeza me adoece e tenho medo da piora. senti novamente as dores que te assustaram há dois anos atrás, mal consegui respirar, silenciei. penso em contar sobre a outra música do chico que te vi esses dias, escutei e escutei e senti-me feliz porque gosto da poesia dele tanto quanto gosto de te ver chegar. enxergo seus detalhes nas coisas mais belas que me marcaram e mal noto. quero falar de toda a ternura que sinto, não consigo, você me causa lágrimas nos olhos pelo excesso. não negarei as lágrimas que se esvaem por você, a verdade é que me permito sentir como se voltasse ao tempo em que o afeto era vivido sem temor. tenho medos irrefutáveis e ainda assim te vejo com olhos de quem vê alguém que o faz na mesma proporção. sinto como se fosse feita para amar até te amenizar a exaustão. nosso amor é doído e acalentador como aquela música que você canta ao pé d’ouvido quando estou prestes a adormecer. 

na sua pele aquecida pela minha boca, na sua camisa amassada pelos meus dedos, nos seus olhos cansados como os meus, sussurro sem som que era você, sempre foi você. ainda que meus pés se distanciem dos pelos da sua perna, ainda que suas mãos deixem de aquecer minhas costas, ainda que uma infinidade de orações adversativas levem seus passos para o lado contrário, ainda será você.

G.

A Lyric Hymn to Mercury

Horace, Odes 1.10

Mercury, Atlas’ eloquent grandson,
You who in your cunning shaped
The savage ways of primitive man
With language and the customs of
    The comely wrestling-ground,
I shall sing of you- the messenger
Of great Jove and of all the gods,
Creator of the curving lyre,
Cunning at hiding in joking theft
    Whatever’s caught your fancy.
Once, when Apollo, with threatening voice,
Was terrifying you, still a boy,
If you did not return his cattle
Stolen through a trick, he saw
    His quiver gone, and laughed.
And, too, it was with you as guide
That wealthy Priam left Ilium
And slipped past Atreus’ haughty sons,
Thessalian watch-fires too, and the camp
   Pitched to level Troy.
You set pious souls in their happy seat
And with your golden wand corral
The insubstantial throng of dead;
You please not only the gods above
   But those below as well.

Mercuri, facunde nepos Atlantis,
qui feros cultus hominum recentum
voce formasti catus et decorae
    more palaestrae,
te canam, magni Iovis et deorum
nuntium curvaeque lyrae parentem,
callidum quicquid placuit iocoso
    condere furto.
Te, boves olim nisi reddidisses
per dolum amotas, puerum minaci
voce dum terret, viduus pharetra
     risit Apollo.
Quin et Atridas duce te superbos
Ilio dives Priamus relicto
Thessalosque ignis et iniqua Troiae
    castra fefellit.
Tu pias laetis animas reponis
sedibus virgaque levem coerces
aurea turbam, superis deorum
    gratus et imis.

Bronze statuette of the god Mercury, holding a money-purse in his right hand; his left hand originally held a caduceus.  Artist unknown; 1st or 2nd cent. CE.  Now in the Louvre.  Photo credit:  © Marie-Lan Nguyen / Wikimedia Commons.

Resolvi finalmente deixar acontecer. Parei de tentar evitar a dor ou qualquer outra coisa que eu possa sentir. Inclusive, deixei para trás também a mania de tentar prever o futuro. A ânsia para saber se coisas ruins iriam acontecer me deixava paralisada. Que as mudanças aconteçam e levem o tempo que precisar. Mesmo que muitos digam que eu vou fracassar prefiro não revidar, vou viver um dia de cada vez e mostrá-los que nem tudo é sobre perder ou ganhar. Um dia de cada vez esse será meu lema. Vou tocando minha jangada e deixando que a vida me leve. Decidi que de hoje em diante não vou mais me importar com essas pessoas que não acrescentam nada e ainda assim insistem em me rodear, me colocar pra baixo e me fazer desistir antes mesmo de tentar algo novo. De agora pra frente, vou viver a vida da forma que eu já devia ter feito há muito tempo, mas que por um motivo aqui, uma pessoa ali, ainda não havia feito. Vou viver intensamente sem pensar no que os outros vão dizer, viver do meu jeito, de uma forma que me faça ter orgulho quando olhar para o passado e pensar “eu vivi tudo isso”. Viver sem medo de lá na frente, mais velho, ter aquela dúvida, aquele “e se” que a maioria das pessoas possuem. Deixar o medo de lado, e pensar mais em mim, menos no que vão dizer sobre. Vivemos sem a certeza do amanhã, você vai querer arriscar?
—  Escrito Glória, Lucas, Danielle e Kíssila em Julietário.
Abro os olhos mas não vejo nada. Sinto um peso em minha cabeça mas é apenas meu travesseiro. O despertador toca ao longe e não consigo alcanca-lo, não vejo nada. Finalmente consigo pegá-lo. Seis da manhã. Quantas horas eu dormi? Doze? E mesmo assim o cansaço pesa em meu corpo. Me esforço para levantar. Preciso me arrumar para o serviço, mas a minha vontade é zero. Preciso me esforçar, pego uma toalha, minha roupa branca e vou para debaixo do chuveiro. Ontem mesmo ouvi “você está doente, como pode cuidar de outras pessoas?”, isso não sai da minha cabeça. É muito difícil para mim esconder tudo isso. Passo a maior parte do dia no hospital, me escondendo daquilo que eu sei que é verdade. Mas eu ignoro. Não posso abandonar tudo, não agora. Já sou um total fracasso em tudo, desistir seria humilhante demais. Dou bom dia pelos corredores com meu estômago roncando alto. Esta tudo bem. Continue fingindo. Forte/vazia/forte. Tudo isso gira em minha cabeça enquanto a água morna escorre pelo meu corpo. Ah, se ela levasse junto com ela as minhas dores. Uma garota que finge ser feliz, mas está cheia de cicatrizes por dentro e por fora. Nos seus pulsos está escrito “be strong” mas nem ela mesma acredita mais nessas palavras. Fracassada. Assim que se define. Desligo o chuveiro e me seco, me visto, sem me olhar no espelho. A imagem que reflete nele me dá nojo. Vou até a cozinha e pego uma xícara.
- Tem bolo dentro do forno.
Ouço minha mãe falar entrando na cozinha. Na esperança que eu queira me entupir de bolo (240 cal) as seis da manhã. Apenas assinto com a cabeça enquanto preparo meu chá com adoçante (0 cal). Ela ainda pensa que esta tudo bem. Nada que sorrisos falsos, maquiagem e roupas largas não disfarcem não é? Sinto uma pontada de culpa, odeio mentir. Mas logo passa, isso tudo é necessário. Tomo meu chá enquanto minha mãe está no banho.Coloco meus fones no último volume na musica “courege”. Pego um prato e espalho farelo de bolo sobre ele. Deixo a forma do bolo em cima do forno. Pego uma fatia e jogo fora. Depois deixo o prato e a xícara na pia. Pronto. Ela vai pensar que comi aquela explosão de calorias. Só falta uma coisa. Um elogio. Vou até a porta do banheiro.
- Mãe, estou indo, ah, o bolo estava ótimo.
- Ta bom, vai com deus!
Trabalho feito. Aquela pontada de culpa volta. Mas a afasto para longe. Coloco os fones novamente e sigo o caminho do hospital. Minha cabeça dói. Estou a quantos dias sem comer? Nem sequer consigo me recordar. Chego com muita dificuldade até meu setor. Sinto um peso nas minhas costas. Tentei deixar tudo de lado, tomei cerca de dois litros de água, até ficar enjoada. Dentro dessas seis horas. A manhã passa rápido. Eu não paro um minuto. Finalmente chega a hora de ir embora. Pego minhas coisas e vou. Na saída uma colega me chama. Desacelero o passo. Ah meu deus o que ela quer agora?
- Você está bem?
(Minta!) - Estou sim, porque?
- Está meio pálida, faz dias que te vejo assim.
- Eu sou branca demais, deve ser isso.
- Você está com uma aparência de doente, isso que estou querendo dizer.
- Bobagem, estou um pouco gripada, só isso.
- Tudo bem então, se precisar de algo pode me chamar, até amanhã.
- Obrigada, até!
Uau, ok, isso foi estranho. As pessoas estão começando a perceber? Poxa, eu passo muita maquiagem e fico sorrindo o tempo todo. Aparência de doente? Isso me deixou preocupada. E se minha mãe notar algo? Vou para casa o mais rápido possível. Não tem ninguém em casa. Então me troco e deito, preciso esquecer a fome, e não, não posso comer. Tenho academia mais tarde, mas tenho medo de passar mal. O que aconteceu outro dia. Quase desmaiei, tive que dizer que eu tomava remédio forte , e que minha pressão caia as vezes. Mentira. Sou rodeada por mentiras. E sinceramente isso é muito cansativo. Oh Deus, o que eu faço para essa dor de cabeça passar? E não, não vou comer. Vou até a cozinha e preparo outra xícara de chá. O cheiro me enjoa. Tomo e volto a deitar. Meu estômago reclama, ele estava na esperança de receber algo sólido. HA-HA, não foi dessa vez meu amigo! Não sei aonde vou tirar forças para ir na academia, mas terei que ir de qualquer forma. Pego no sono, e me acordo duas horas depois. Bem a tempo de me vestir e ir malhar. Eu sempre gostei de ir na academia, é como se eu colocasse toda a minha raiva nos exercícios, gosto de me sentir exausta, aquele cansaço de “eu não aguento mais” me faz sentir bem. Por um momento parece que estou fazendo alguma coisa certa. Exceto por, fazer exercícios sem comer. Enfim, eu aguento essa. Coloquei meus fones e fui correndo até a academia, que fica a duas quadras da minha casa. Lá encontro minha linda e magra professora. (Que por favor, não dê aula só de top hoje, para eu me sentir mais fracassada do que já sou!). Venderia minha alma para ter o corpo como o dela. Tento me concentrar nos exercícios, mas estou fraca demais. Qual é, agora não! Quando me abaixo para alongar sinto tudo escurecendo ao meu redor. E já sabia o que estava por vir. Não senti mais nada. Tudo apagou. Quando consigo abrir os olhos sinto meu corpo doer, vejo várias pessoas ao meu redor, alguém verifica minha pressão. Não consigo falar. Elas falam mas eu não entendo, sinto uma pontada na cabeça, será que eu bati quando cai? Quando consigo sentar a sensação já passou um pouco.
- Como você está se sentindo? - diz minha professora.
- Estou bem, o que houve?
- Bem, você desmaiou, sua pressão foi lá no chão, já havia acontecido isso antes?
- Ah, já, e hoje está muito quente, deve ser por isso.
- Quer que levem você para o hospital?
- Não precisa, passo tempo demais lá. (brinco)
- Tudo bem, mas vá se sentar um pouco antes de ir embora. Pedi para trazerem um suco para você, tudo bem?
- Tudo bem, obrigada.
A aglomeração já havia acabado, apenas uma mulher estava sentada ao meu lado, me olhando a cada segundo pensando que eu iria para o chão de novo. Que vergonha. Isso não poderia ter acontecido. Não consegui terminar os exercícios! Que droga! Sinto vontade de chorar. Mas empurro um suco de laranja garganta abaixo. Preciso ir embora. Passei vergonha demais por hoje. Quando estou saindo alguém me chama na porta.
- Psiu.
Era um garoto, muito bonito por sinal. Olhos castanhos e cabelo escuro, usava uma blusa preta e tinha uma tatuagem no braço.
- Ah, oi. - respondi meio surpresa.
Eu nunca conversava com ninguém na academia, o máximo foi trocar algumas palavras com uma colega sobre como estava quente aquela tarde. Ele passa a caminhar do meu lado, como se eu o tivesse convidado a me acompanhar até em casa.
- Foi você quem passou mal na aula lá em cima?
- Ah, foi, mas não é nada demais, porque?
- Eu estava passando lá bem na hora, só não fui lá porque sei que atrapalharia mais do que ajudaria, sou péssimo nessas coisas.
- Que vergonha, pararam a aula por minha causa. - dou um sorriso sem graça.
- Que isso! Nada demais, mas agora você está bem?
- Ah sim, estou ótima, vou para casa já.
- Como é seu nome?
- Me desculpe, esqueci, me chamo Júlia e você?
- Lucas, mas pode me chamar como quiser.
(Sorrio)
- Ok, obrigada pela preocupação, eu moro naquela casa no final da rua. Nos vemos por aí. - tenho vontade de bater minha cara na parede depois de dizer isso.
- Espera, me passa seu número?
- Pra quê?
- Talvez eu queira conversar com você depois. - ele dá um sorriso torto.
- Tudo bem, anota aí.
Digo meu número e me despeço. Com certeza aquilo foi muito esquisito. Entro me perguntando o que tinha sido aquilo. Vou direto para o chuveiro, o que eu mais precisava agora era um banho, bem gelado, para esquecer tudo o que tinha acontecido. E os pensamentos voltam. Sinceramente achei que eles só viriam a noite, mas resolveram aparecer mais cedo desta vez. Aquela vontade de sumir toma conta de mim. “Você não é importante, ninguém te ama, você deveria morrer”. Tenho vontade de gritar. Essa voz fica repetindo isso em minha cabeça várias e várias vezes. É interrompido pelo som do meu celular. Uma mensagem. “Queria esperar mais para te mandar mensagem mas não aguentei, gostei muito de te conhecer.” Era do Lucas, aquele garoto que a dez minutos atrás eu nem sabia que existia. Coloco o celular de lado, não queria responder naquele momento. Terminei meu banho e fui para o quarto. Enfim respondi a mensagem “Também gostei de te conhecer.” Foi o máximo que consegui. Qual é! Conversamos dez minutos, nem isso, o que queria que eu falasse? Mal respondo e já chega outra mensagem. “Podemos sair um dia desses, se você puder, é claro.” (Não, estou muito ocupada fingindo que estou bem, não comendo e me cortando, ah, e meus pensamentos suicidas não me deixam em paz, então seria melhor não acontecer). “Claro, eu adoraria! Estou livre no sábado”. Idiota, não consegue ser má com ninguém, nem mesmo com alguém que acabou de conhecer. “Ótimo, te pego as oito."Ok”. Eu tinha um encontro? Não acredito. Ah e se ele quiser me levar para comer um xis burguer? O que eu faço? Que roupa vou usar sem parecer uma porca gorda? Ah, isso é o de menos, hoje é quinta-feira, tenho tempo para pensar nisso. Preciso dormir, isso que preciso. Tomo duas colheres de anti-ácido para ver se meu estômago para de chorar e vou dormir. Sexta-feira passa muito rápido, e quando vejo já é sábado. Tenho cortes recentes nos braços, como vou esconder? Um casaco e maquiagem, sempre funciona. Se não fizer um calor de quarenta graus. E já estava calor de manhã, de noite poderia ser pior. Não existe a possibilidade de eu ir de casaco, terei que ir de manga longa, a mais fina que eu tiver, mas só a maquiagem não vá cobrir os cortes, tenho mais isso para me preocupar. Me visto, passo maquiagem, um batom escuro, e não me encaro muitas vezes no espelho pois sei que mudaria de ideia sobre sair de casa. Antes que comece a por defeito em cada parte de mim a campainha toda. Era ele, pontual demais por sinal. Eram oito e um. Desci e avisei minha mãe que iria sair. Ele estava mais bonito que o outro dia, estava com uma camisa cor de mel e uma calça escura, o cabelo estava bem penteado, estava super perfumado. Ele me dá um beijo no rosto.
- Vamos?
Ele abre a porta do carro para mim. Eu apenas assinto com a cabeça. Confesso, eu estava nervosa. A muito tempo eu não tinha um encontro, nem nada parecido. E não acreditava que estava me permitindo a isso outra vez. Mas a única coisa que realmente me preocupava era aonde iríamos.
- Aonde vamos?
- Bom, é surpresa.
- Ah me fala, sou curiosa.
- Você vai ver.
Isso me deixava mais nervosa ainda. Chegamos em um restaurante. Eu tremi, meu pior pesadelo, comer em público. Respira, respira, respira. Eu tinha que segurar a barra, só por uma noite. Depois poderia ficar uma semana sem comer, ou algo parecido. Poderia me punir. Mas eu não poderia me comportar como uma louca/maníaca por comida, ele não poderia saber de tudo na primeira noite.
- Está tudo bem? - ele segura minha mão e me puxa para fora dos meus pensamentos.
- Ah sim, tudo certo, é aqui?
- É sim, vamos?
Ele desce e abre a porta para mim. Cavalheiro demais pro meu gosto. Deve ser porque é a primeira vez que estamos saindo. Garanto que ele não faria isso todos os dias. Enfim, ele apoiou a mão em meu ombro e entramos. Era um lugar confortável, as luzes eram meio fracas, o que dava um ar bem romântico. Havia uma mesa no canto direito, com dois lugares, era decorada com rosa brancas. Nos levaram até ela, ele havia reservado. Me sentei e ele se sentou na minha frente. Olhei ao redor e haviam poucas pessoas. Eram educadas, conversavam baixo. Respirei fundo mais uma vez. ‘Você consegue fazer isso’. Fiquei repetindo na minha cabeça o tempo todo. Logo trouxeram nossa comida, ele mesmo que escolheu para mim. Tinha carne, arroz, salada, era um prato bem enfeitado. Umas 398 calorias calculei. Ele me perguntou o que eu queria beber, e pedi uma água sem gás. Comecei a cortar a carne em pedaços, primeiro quatro, depois oito e depois dezesseis pedaços. Coloquei um na boca e comecei a mastigar. Essa era a hora de começar a falar, quem sabe assim conseguiria comer menos. A carne desceu rasgando a minha garganta. Estava suando frio. Tomei um pouco de água.
- Então, o que você faz? Sabe, além de ir na academia… - ele sorri.
- Eu trabalho e estudo, faço faculdade de psicologia.
Ah droga, ele ia ser psicólogo? Eu estava realmente perdida. A qualquer momento eu seria descoberta, disso eu tinha certeza.
- Ah, que legal.
Minha cora de assuntos tinha acabado por ali, eu era péssima nisso. Na verdade eu era péssima em tudo o que fazia.
- E você, faz o que?
- Trabalho num hospital e estudo enfermagem.
- Eu não conseguiria, sabe, lidar com pessoas doentes.
- Mas na verdade você vai lidar, só que são pessoas psicologicamente doentes, o que eu acho bem pior, você apenas não está vendo a doença, pois ela está por dentro, mas ela está lá, muito pior que um câncer ou algo parecido.
- Nossa, me surpreendeu agora!
- Porque diz isso?
- Você entende de psicologia?
- Além de enfermeira, sou psicóloga - sorrio - Sabe, os pacientes são muito necessitados de atenção, de ter alguém pra conversar, e eu faço esse papel também. - mexo na minha salada e coloco um pedaço de alface na boca.
- Entendi, mas não deve ser muito fácil.
- Fácil não é, mas é o que eu realmente amo fazer, parece que é a única razão pela qual eu ainda continuo viva, para ajudar as outras pessoas, cuidar.. Única forma de eu me sentir útil.
- Está sendo melancólica.
- Não estou não, estou sendo sincera.
- Tudo bem.
- Sabe, eu fazia terapia. - droga, não deveria ter falado isso.
- Sério? - ele parece apavorado - você não me parece alguém que precisaria de um psicólogo.
- É, mas preciso. - ele sorri, levou como uma cantada.
- Me diga o motivo. - nesse nível da conversa ele já estava acabando de comer, e eu ainda comendo a alface.
- Você não vai querer saber, de verdade.
- Quero sim, por isso estou perguntando, pode confiar em mim, já sei lidar com gente maluca. - ele me cutuca e sorri de canto.
- Tive alguns problemas um tempo atrás, e minha mãe achou melhor me levar numa psicóloga, que acabou virando psiquiatra e eu tive que tomar uns remédios, mas foi por pouco tempo, hoje eu estou super bem. - minto.
- Que tipo de remédios? - ah, agora ele estava querendo saber demais.
- Olha, é a primeira vez que a gente sai, não quero ficar te assustando com a minha triste história.
- Mas se eu quis sair com você e te trouxe até aqui é porque quero saber mais da sua triste história, afinal, é quem você é.
- Você vai ser um bom psicólogo. - sorrio triste. - Então tudo bem, eu tive depressão, tentei suicídio e descobriram que eu tenho transtorno bipolar.
- Só isso?
- Bom, só? Acho bastante coisa para alguém de 21 anos, não acha?
- Já atendi pacientes piores. - ele parece indiferente.
- Sofri de automutilação também.
- O que mais?
- Nada. - eu não podia falar da ana e da mia, seria um crime.
- Você é uma pessoa interessante.
- Fala isso porque sou maluca e você é psicólogo? - sorrio.
- Não, falo isso porque é verdade.
- Tudo bem.
- Você é linda. - ele acaricia o meu rosto de leve. - Mas nem tocou na sua comida, está ruim?
- Ah, não, está ótima, eu que não estou com muita fome hoje.
- Tudo bem.
Ficamos um tempo em silêncio e eu me pergunto o que se passa na cabeça dele. Afinal, eu acabei de contar que sou uma maluca suicida e ele diz que sou linda? Trazem a sobremesa e eu nem comi a comida. Graças, agora só preciso enrolar mais um tempo. Digo que vou ao banheiro. Me olho no espelho, mesmo depois de ter passado maquiagem eu ainda estava pálida. Tanto faz, aquela altura eu só queria ir pra casa dormir. Não sei porque havia aceitado aquele convite, aquilo não daria em algo bom. Eu sentia isso. Volto para mesa e ele já devorou metade da sobremesa.
- Não vai comer?
- Não gosto muito de doce.
- Você vive do que, de ar? - ele ri, eu fico muda. - Foi brincadeira, desculpe.
- Não, tá tudo bem. - não, não está.
Pego meu copo de água, quando solto ele pega na minha mão, e puxa minha manga.
- Você ainda faz isso? - o olhar dele era uma mistura de preocupação com medo. Puxo meu braço rápido, foi apenas um descuido e ele viu, isso não podia acontecer.
- Bom, cada um acha uma forma de se aliviar. - foi a única coisa que eu consegui dizer.
- Você não precisa disso. - ele pega na minha mão e faz eu olhar nos olhos dele. - Você é linda, não precisa andar por aí cheia de marcas!
Não consigo responder. O que ele estava tentando fazer?
- Está tarde, você me leva em casa? - ele parece triste.
- Sim, vamos então.
No caminho até a minha casa não falamos nada. Ele liga o som e é a única coisa que se escuta dentro daquele carro além da nossa respiração. Chegamos.
- Foi muito bom, obrigada, de verdade.
Seguro na porta para abri-la.
- Espera. - ele me puxa de volta.
- O que foi?
- Vamos nos ver de novo?
- Podemos sim, mas porque a pergunta?
- Talvez eu tenha feito ou falado algo que você não gostou.
- Não, não fez nada, de verdade. - ele acaricia a minha bochecha e coloca a mão na minha nuca, a mão dele está meio fria o que me dá um arrepio.
- Você é lin-da. - ele quase sussurra enquanto aproxima o rosto do meu, posso sentir o hálito dele em mim.
- Obrigada. - é a única coisa que respondo, eu estou anestesiada, eu quero que ele me beije mas ao mesmo tempo não quero, e penso que ele já teria o feito se quisesse. Então ele encosta os lábios nos meus, bem de leve, depois com mais força, sinto seu gosto em mim, e eu quero mais, e mais. Não quero parar agora, ele coloca a outra mão em minha nuca e puxa meu cabelo de leve, sinto um arrepio. Eu quero ele todo pra mim, naquele momento, mas não posso. Começo a beijá-lo mais lentamente, até parar e olhar para ele. Ele passa a mão pelos meus cabelos e me dá um beijo na testa.
- Obrigado pela noite.
Eu me viro e saio do carro, ainda não acreditando no que havia acontecido. Eu pensava que ele não iria me beijar, e o beijo dele era maravilhoso, poderia passar horas e horas beijando ele sem parar. A eu tinha que parar de pensar nisso e entrar em casa! Vou para meu quarto e deito na cama, preciso analisar tudo o que aconteceu. Eu saí com ele e contei praticamente toda a minha vida (ou uma boa parte dela) e ele me beijou? Isso era muito estranho. Pego minha coisas e vou para o chuveiro. Quando volto para me deitar meu celular vibra. “Durma bem.” Apenas isso. “Você também.” Respondo. Viro para o lado e pego no sono. Acordo com o despertador mais uma vez. Ao longo do dia trocamos alguns sms’s. Não me pesei hoje, e não vou fazer isso até amanhã. Tenho medo de subir na balança, aqueles números me assustam. Estou cansada, e meu estômago não para de reclamar. Não posso comer. Não posso comer. Não posso comer. Não posso comer. Não posso comer. Não posso comer. Não posso comer. Não posso comer. Não posso comer. Não posso comer. Não posso comer. Não posso comer. Não posso comer. Não posso comer. Não posso comer. Não posso comer. Não posso comer. Não posso comer. Não posso comer. Não posso comer. Não posso comer. Não posso comer. Não posso comer. Não posso comer. Não posso comer.
Pego uma garrafa de água gelada e tomo ela toda até sentir que vou explodir. Pronto agora ele pode parar de reclamar, pelo menos por um tempo. Não me lembro realmente quando tudo isso começou, quando dei por mim já estava no banheiro com o dedo na garganta, é viciante. Com o Lucas as coisas vão bem, tirando a parte que escondo o que se passa por minha cabeça vinte e quatro horas por dia. Esses dias estávamos deitados e ele passou os dedos pelos cortes em minha barriga, que estavam quase cicatrizados.
- Você não vai mais precisar disso, eu te prometo.
Não respondi, apenas me deixei envolver os braços nele, era aquilo que eu precisava, alguém que cuidasse de mim, mas o que ele não sabia é que havia algo pior que os cortes. Os pensamentos sobre suicídio não me deixavam em paz. Eles vinham no momento que queriam e estavam me enlouquecendo. Me sinto totalmente fracassada por não ter conseguido daquela vez, me descobriram, se não tivessem me levado a tempo para o hospital eu não estaria aqui agora. Acordei e vi minha mãe, e um curativo em meu braço. Sete pontos e uma garota maluca de dezesseis anos que tentou tirar a própria vida. Minha mãe não dizia nada, mas as vezes eu fingia dormir e a ouvia chorar. A pior coisa do mundo é ver sua mãe chorar, e pior ainda é saber que é por sua causa. Eu estava acabada, e sabia que precisava de ajuda, mesmo assim eu me recusava ao tratamento. Apenas me forcei a comer para não descobrirem o meu segredo, e sempre que dava, eu jogava a comida fora. Eu precisava sair de lá. Foram vinte e cinco dias, vinte e cinco longos dias que pareceram cinquenta. Finalmente recebi alta, no mês seguinte minha mãe ficava em cima de mim o tempo todo, achando que a qualquer momento eu pudesse tentar alguma coisa. Ela me olhava dormir duas vezes por noite. Sei disso pois me acordava com o som da porta cada vez que ela entrava. Fui forçada a ir na terapia duas vezes por semana, falar dos meus sentimentos com uma estranha. Nada daquilo adiantava, os remédios só me faziam sentir mais dopada e com vontade de dormir o dia todo. As vezes eu mentia que havia tomado. Foram três longos anos até minha mãe achar que estava tudo bem e que eu não tentaria me matar de novo. Ela parou de me vigiar e eu voltei a me cortar. Era o momento em que me sentia viva, vendo o sangue sair eu sabia que não tinha acabado ainda. Tenho mais coisas para fazer antes de partir. Me dediquei aos estudos, e aqui estou eu, aos vinte e um anos, deprimida outra vez. Mas de uma coisa eu sabia, que se houvesse outra tentativa, na verdade não seria tentativa, eu conseguiria, mas ninguém poderia aparecer para me salvar, como acontece nos filmes sabe? Nesse filme eu realmente morreria. Eu ignoro o pensamento o máximo que posso. Desde que o Lucas apareceu, sinto que uma parte da minha vida é colorida, e o resto é preto e branco. Não sei se desistiria da ideia de acabar com tudo por causa dele. Eu escreveria uma carta, que ele guardaria, e talvez depois de um tempo jogasse fora, para se esquecer de mim. Sei que algumas poucas pessoas sofreriam com a minha partida, mas passaria, é sempre assim que acontece. As pessoas ficam de luto, choram por noites, e depois de um tempo superam, e seguem suas vidas, é inevitável. Sou uma garota de vinte e um anos que não vê mais motivos para viver. Estou no meu quarto a umas três horas, chorando, me cortando. Não tem ninguém em casa. Meu celular tocou algumas vezes, mas não o peguei. Eu não aguento mais, preciso terminar com isso logo. Bato na parede com força, minha mão sangra. Eu quero gritar, mas minhas forças acabaram. Vou até a cozinha, na prateleira de remédios. Encontro os que eu queria, sedativos, indutores do sono, calmantes, se eu tomasse todos de uma vez dormiria para sempre? Volto para o quarto, pego uma folha e uma caneta, começo a escrever uma carta. E amasso o papel. Pego outro. Nenhuma palavra é boa o suficiente, nenhuma. Nada justifica minha falta de vontade de viver. Desisto de escrever uma carta. E faço um bilhete. “Me perdoem, mas foi melhor assim”. Apenas isso, seria o suficiente. Começo a tomar os comprimidos. Um, dois, três, vinte e quatro, quarenta? Eu acabei com as cartelas, ainda não sinto nada. Mas parei de chorar. Seria o fim? Agora meu celular toda sem parar, é o Lucas. Fico tonta, já se passaram seis horas, daqui a duas horas minha mãe chegaria, algo deveria acontecer. Vou até o banheiro, vejo tudo girar. Pego meu navalhete, que ainda não havia usado. Coloco a banheira para encher. Tiro minha roupa. Está tudo girando, me deito na banheira, eu preciso de apenas um corte e sei exatamente onde fazê-lo. Deslizo a minha com força em meu antebraço, na horizontal. E o sangue começa a sair com força, logo a água da banheira está vermelha, sinto que vou apagar a qualquer momento. Sinto medo, estava dando certo. Fecho os olhos e deixo meu corpo me levar para debaixo da água. Escuto um barulho forte, mas ao mesmo tempo fraco, está tudo confuso para mim. Quando sinto que estou indo sinto algo me puxar para fora da água. Não vejo mais nada. Quando acordo vejo minha mãe chorando, de alegria? Demoro a perceber o que está acontecendo. Eu estava entubada. A pior sensação que alguém pode ter deve ser essa. Vejo uma enfermeira correr e chamar ajuda, e tiram o tubo de minha garganta. Todos comemoram, eu não entendo nada, não tenho forças para falar. Única coisa que sei por enquanto é que estou no hospital. Quando outra enfermeira se aproxima de mim consigo ver seu uniforme, agora eu sabia exatamente onde estava, UTI. Como isso pode estar acontecendo? Minha mãe segura minha mão.
- Filha, você lembra do que aconteceu?
Não tenho forças para responder, meus pulmões doem para respirar. Tento fazer que não com a cabeça, nesse momento minha mãe já havia parado de chorar.
- O Lucas te encontrou na banheira, sangrando, desacordada, te trouxe para o hospital, mas acharam que era tarde demais, você entrou em choque, eu sei que você sabe o que significa - ela sorri triste - teve uma parada cardíaca e veio parar aqui. Você ficou onze dias em coma, os médicos não sabiam se você acordaria, ou quais seriam as sequelas se você acordasse novamente, eles estavam sem esperança na verdade. Mas eu sabia que você iria acordar! - seus olhos ficam molhados novamente - Você recebeu sangue, fizeram lavagem pois você havia tomado muitos remédios, eu fiquei aqui o tempo todo, esperando você abrir os olhos. Filha, eu não posso te perder, você é tudo que eu tenho! - ela desaba a chorar novamente.
- Oh mãe… - Consigo responder, e ouvir minha voz faz ela chorar mais, ela me abraça e eu choro também - Prometo nunca mais fazer nada parecido.
- Filha eu te amo. - Ficamos um tempo abraçadas até que ela me solta.
- Mãe, onde está o Lucas?
- Aqui existe horário de visitas, você sabe disso, mas ele passou muito tempo aqui com você, se não fosse por ele, eu teria perdido você!
- Mãe, o importante é que estou bem agora, preciso muito falar com ele.
- Vou chamá-lo.
- Ele está aqui?
- Ele sempre está filha, ele só volta em casa para tomar banho e volta para cá.
Dou um sorriso triste. E ela saí. Logo o vejo entrar, vejo uma lágrima cair e ele toca o meu rosto.
- Nunca mais faça isso comigo. - Ele desaba. Depois se recompõe, eu não consigo dizer nada. - Tenho uma coisa para você, eu não queria que fosse dessa forma, mas enfim.
Então ele se ajoelha ao lado da minha maca, tira uma caixinha preta do bolso e a abre para mim com os olhos molhados.
- Amor da minha vida, você aceita, que eu te cuide todos os dias, pelo resto da minha vida, que eu te ame, que eu acorde ao seu lado e esteja mais perto de você para garantir que nada de ruim aconteça? Você aceita se casar comigo? - Eu estou em prantos, mas preciso encontrar forças para responder. Percebo que os enfermeiros e técnicos estão todos olhando para mim e sorrindo, alguns até deixam escapar uma lágrima.
- Sim Lucas, sim! É tudo o que eu mais quero! - Ele coloca a aliança no meu dedo e me beija, e o que eu sentia era uma mistura de tudo.
Depois de um dia fui levada para o quarto, ainda haviam medicações a fazer. Então depois de oito dias recebi alta. E decidi que a partir daquele momento eu seria feliz, eu me permitiria ser feliz. Hoje estou com vinte e seis anos, e confesso a vocês, está difícil terminar de escrever com a Sofia no meu colo. As cicatrizes agora fazem parte do meu passado, e hoje estou cuidando do meu futuro. Agora vou indo, o papai da Sofia acabou de chegar.
—  Recomeçar.