levantar]sol

Eu acordei, mas não senti vontade nenhuma de levantar. O sol brilhava lá fora, e aqui, estava tão escuro. Eu queria dormir mais algumas décadas. Mas eu acordei de novo.
—  Pê.
resoluções de um ano não tão novo assim

esse ano,
vou cortar todo meu cabelo,
pintar as unhas de uma cor pirada toda semana,
dizer que te amo enquanto sóbria
comprar flores pra minha mae,
levantar antes do sol pra tomar café da manhã
e pegar o atalho errado
no caminho de volta pra casa.

esse ano,
vou cair de cara no chão,
descontruir minha anatomia,
e dormir sem a assustadora
nostalgia

esse ano,
vou fugir em silêncio
e escrever versos
violentos
vou fazer perguntas estúpidas
e cometer erros irreparáveis
vou escalar montanhas
que me fazem sentir pequena
e reclamar do céu sem estrelas.

esse ano,
vou protestar,
chorar no chuveiro e
fingir que quero estudar

esse ano,
vou casar
e depois de dois dias
divorciar.
vou mentir,
conseguir o que quero,
e nao me preocupar

esse ano,
vou revolucionar-me

Aquele salão estava uma bagunça quando te vi pela primeira vez. Você segurava um copo de suco de caju, e lembro da careta que fez quando deu o primeiro gole, pois você não conhecia a fruta. Seus olhos claros e vivos se sobressaíam na multidão de olhos escuros e cansados. Como eu devia agir? Eu queria te dizer que o suco de caju não era ruim, que só estava sem açúcar, mas eu não conseguia. Queria te dizer bom dia, em português mesmo, toda vez que você passava por mim de manhã pra ir trabalhar, mas também não conseguia. Lembro bem que costumava acordar bem cedo e chegar lá antes de você, só pra te ver entrar e ver seu sorriso de quem adora levantar antes do sol. Aprendi a dizer “Wie geht’s?” e “Heute ist so ein schöner Tag!”, mas não conseguia dizer nem um “Hallo” quando te via. Era tão estranho! Tentei uma conversa bacana em três línguas diferentes e percebi que não conseguiria nem se fosse por código morse. Hoje eu olho pra trás e sinto falta do tempo em que minhas mãos tremiam e eu perdia o sono. Vejo caras bacanas por aí, pra alguns até consigo dizer oi, mas você sempre será o mistério que fazia uma garota tão falante como eu ficar muda do nada.
—  Wörter für dich, Anna Heinzmann
Tem gente na rua. Não só na rua, mas morando lá. Gente morando na rua. Tem gente também sem casa. Com casa, mas sem lar. Tem gente, tem sim, que fica espreitando a janela dos outros, a comida dos outros, o cachorro dos outros, a grama do vizinho, mais verde que a da casa. Da casa, não lar, casa. São essas pessoas, que vivem indefinidamente suas vidinhas vazias, que nos fazem pensar se é bom ficar na cama até mais de meio dia deixando o tempo passar. Por mais que o cobertor seja quente, por mais que o ventilador faça cosquinha nos pés, a gente deveria mesmo é levantar, andar, ver o sol, fazer um bolo. Viver. A gente, tendo um lar e tendo uma rua que não é casa, tem quase tudo para ser feliz.
—  Theu Souza
Não perca a oportunidade de ser feliz. Evite se lembrar das coisas ruins que ficaram no passado e não cutuque feridas cicatrizadas. Jogue fora os pensamentos ruins, não esconda o seu coração por medo de se machucar novamente. A vida é feita de recomeços, por isso dê uma nova chance para si mesmo e construa uma outra forma de ser feliz, existem tantas. Se encha de esperança, coragem e determinação. Não deixe nunca de acreditar que o seu futuro será melhor que o seu presente. Hoje você pode ter caído, mas amanhã irá se levantar.
—  Quando o sol se põe
Às vezes não consigo, não por não querer, mas é que a gente sempre tem algo como base que nos deixa bem, e quando essa base treme, tudo treme e todo o medo que é escondido de repente aparece como uma chuva em um dia de sol.
—  Levantar-âncora
post it sobre um menino ausente

Na voz de griô do avô Juvêncio, Baltazar ouvia conselhos para uma vida inteira.
“A primeira coisa a fazer por uma pessoa é amá-la. Deixe o julgamento para sexta.
Antes, até a quarta-feira, já a terá perdoado.”

Juvêncio ainda lhe falava de outros assuntos:
“Filho, não acorde quando o telefone levantar antes do sol. Notícia boa não madruga.
Desconfie se o trabalho não te chamar antes da noite. Coisa boa não vem sem luta.”

O menino ouvia atento a cada palavra sem saber que ele mesmo iria morrer a uma hora da manhã de um sábado, moço e disposto a praticar o perdão e a enfrentar as batalhas de mais uma semana.

Juvêncio nunca disse ao neto o que fazer com o imponderável, mas na linha final de sua voz ainda anunciava como se predissesse sua própria sina:
“Não creia se ouvir que, após a morte, a última coisa a fazer por uma pessoa é sepultá-la. Por último, começarás a não esquecê-la.”

Ehre