larahsangi

o quase verão e outras armas de fogo

eu só queria fugir pra onde eu pudesse me encontrar, pra onde não faça tanto calor. pra onde eu não sinta vontade de desistir a cada nanosegundo. eu queria que a fraqueza escorresse pelo ralo junto com meu suor diário. que o medo se desprendesse de mim junto com o rímel que se mistura com as minhas lagrimas. há um vazio gigante. é como se eu ainda estivesse na mira de um 38. mas ouso dizer que sinto por ainda escrever. por ainda possuir dinamites internas e não poder gritar quando uma ameaça a explodir. enquanto explodo em palavras. diz sobre qualquer coisa, mas diz. diz sobre a estação. o tempo. a chuva que te faz lembrar de mim. do garçom que te serviu um conhaque antes do último até mais. diz mais que isso. volte na mesa e escreva além das jabuticabas, dos faróis que te cegam. porque eu volto pro exato momento em que a ferida se abriu e choro ao ver as imagens de uma massacre como esse. eu não tenho medo da dor e nem da gravidade. antes dos números eu só olhava os horóscopos e sorria por não acreditar em ninguém. vale mais olhar os pássaros que voam juntos. e admirar o ultimo do bando e imaginar a felicidade de poder voar sem ter ninguém pra olhar. eu ainda guardo as mensagens da gráfica. as lembranças são agradáveis, mas revive-las me traz desgosto. confesso que me arrependo, mas não olho a luz artificial do celular que ilumina meu rosto. eu tenho medo de nunca conseguir sair desse trilho que me leva direto pro abismo. eu não quero me manter satisfeita com uma garantia escassa. há uma parte em mim que apodrece. e talvez eu não queria a morte, e nem a vida. talvez eu queira o saber do desespero do ultimo suspiro e nada mais. talvez eu só queira morar no fim de uma canção de tim maia e esperar que você venha. matilde diria que foi duro pra caramba essa distancia, mas é bom saber que você se fez rei e que o afastamento de dois corpos em muito contribuiu para isso. doeu mais foi e os santos padroeiros ajudaram e as multidões revolucionarias de almas cansadas com a crise econômica. mas a distância entre nós não foi certamente a causa de toda explosão. alguém diz que mesmo que pequeno e falho um poema é sempre verdade. mas ninguém acredita nas nossas mutações. e eu me lembro que nem eu.

11.11

um plano infalível

acho que joguei fora minha lucidez. o ópio dessa madrugada é uma realidade inventada. não precisa ser gênio pra perceber que eu não tô bem. tô afogando essa coisa que eu não consigo definir, mas que ta me devorando por dentro com drogas com nomes que minha língua não consegue pronunciar. meu nariz sangra segundos depois da primeira inalação em 19 anos. a vida queima muito mais que essa chama de (não)realidade. e eu desvio os caminhos. não há mais necessidade de secar o sangue no chão do quarto pra ninguém ver. e nem em fugir pra ilha do frade pra escrever essas coisas. não há mais necessidade de olhar o sol nascer e lembrar das vezes em que fizemos isso, só que juntos. não há necessidade de viver essa chama que queima sem arder. não há esperanças que a vida me surpreenda. nem essa sonda que posou em um cometa em plena quarta de um novembro quente, quente, quente. eu tô sempre voltando, e perguntando pra Deus se existo de verdade. se não sou apenas uma miragem. se não sou apenas um pesamento de um ser intangível. Deus não responde. eu continuo a ser pensamento e a não existir.
eu não existo
sou uma traidora do meu próprio ser. eu penso em todas as bebidas fortes e me torno a escória da sociedade ao não viver a realidade. e me manter sempre acima da linha tênue que separa a sanidade da loucura. eu respiro a liberdade de uma solidão que entra como um gás extremamente tóxico em meus pulmões. a liberdade não é justa, mas é tudo o que tenho depois de você. não me conformo com a conformidade, mas continuo vivendo a minha vida e encontrando nesses escapes momentâneos a morte e suas revelações. com o copo pela metade, 1:18 de uma sexta que cheira ao fracasso de todos os santos. eu tomo dois segundos antes da minha primeira compulsão pra lembrar de você. minhas sinapses ainda mantém uma conectividade coesa entre minha mente e meu corpo. enquanto a minha alma se faz intrínseca nesse inferno particular que é não amar ninguém