lady zou

Mad Men Week - 10 Momentos Musicais

Mad Men ficou famoso pelos mais diversos fatores, mas um dos principais e mais subvalorizados em termos de perceção pública é o uso cirúrgico de música, quer de época, quer original de modo a criar efeitos no espectador. Uma destas virtudes é o uso irónico de canções nos créditos finais de cada episódio, que muitas vezes contrastam com os momentos psicológicos de cada personagem em cada dado momento. Não são raras as situações em que músicas bem alegres fecham episódios transversalmente negros para um ou mais personagens. Mais do que isto, no entanto, a música é inserida como uma espécie de wormhole emocional que nos liga imediatamente à época representada e à psique dos eventos. Matt Weiner, David Carbonara e os seus supervisores musicais são exímios no uso da música, sendo uma obsessão muito particular para muitos dos fãs da série, acrescentando uma camada extra de significado e simbologia ao cardápio já por si extenso de toda a série. Aqui ficam dez dos meus momentos musicais preferidos. E fica a pergunta, qual será a derradeira canção que encerrará Mad Men?

10- Zou Bisou Bisou (Season 5 Episode 01/02 “A Little Kiss”)

Um dos momentos mais icónicos de toda a série. A festa de anos de Don Draper planeada em segredo pela sua recém esposa, Megan Draper, é um virar de página importante na narrativa. Para trás fica a família ideal, a esposa loira ex-modelo, os três filhos, a casa nos subúrbios - a fantasia de uma era perdida em si mesma. Aqui está representada a contemporaneidade, a vida urbana de Manhattan, uma vida nova, mais ritmada, mais sensual e mais perigosa. Estrangeira e estranha para Don, tal como a letra da música.

9-  You Only Live Twice - Nancy Sinatra (Season 5 Episode 13 “The Phantom”) 

O rematar daquela que é unanimemente considerada a melhor temporada de Mad Men. Uma onde se sentia no ar o nervoso de um acontecimento traumático estaria para acontecer, algo que se veio a confirmar no episódio anterior com a morte de Lane. “The Phantom” vive do sonho, de um nevoeiro simbólico que se instala no estado psicológico das personagens, como se nada do que estivesse acontecer, acontecesse na verdade. Um estado de letargia e entorpecimento simbolicamente representado pela dor de dentes de Don e pelas suas visões do seu irmão falecido. A canção de Nancy Sinatra conclui o episódio numa sequência memorável em que Don se intromete para arranjar um trabalho publicitário para Megan, apenas para a deixar sozinha no set e se dirigir a um bar onde é abordado por um mulher que lhe coloca a derradeira questão “Are you alone?”

8- Both Sides Now - Judy Collins (Season 6 Episode 13 “In Care Of”)

A conclusão da divisiva (para ser bonzinho) sexta temporada, um arco narrativo que deixou muita gente perplexa, interrogando-se do porquê da sua inclusão numa fase tão tardia da narrativa. os malfadados fashbacks de Don Draper no bordel onde cresceu. Mas se o caminho foi tormentoso, o pay-off foi brilhante. Don, depois de se ter revelado no pitch da Hershey (mais sobre este momento num artigo brevemente), deixa cair a máscara que lhe faltava, perante os seus filhos, especialmente Sally que lhe vinha pedindo a verdade constantemente. É um momento terno, poderoso e tão simples pontuado pela melancólica canção de Judy Collins.

7- Is That All There Is? - Peggy Lee (Season 7 Episode 8 “Severance”)

O princípio do fim, da última metade temporada, recomeça com um plano da face de Don, autoritário, a dar instruções a uma mulher, jovem, bela, sensual, como se estivessem em privado. Ela poderia ser mais umas das conquistas à lá Draper. O plano vai abrindo, primeiro para as poses da rapariga, depois para o resto da sala de castings. A música entra num plano perdido por entre as curvas desta mulher e a letra insurge-se como uma faca afiada: “Is that all there is?” os planos vão intercalando a face de Don e a prestação da modelo, ele impávido, quase nem se mexe, segue-a apenas com os olhos, ela deleita-se espreitando-o pelo espelho e ritmo compassado, lento, arrastado marca o ritmo da cena. Não é por acaso que ela repete nos créditos finais. A canção de Peggy Lee é típica de Mad Men. O mote perfeito para os últimos episódios, resumo temático de toda a série até este ponto. Será isto o suficiente?

6- Don’t Think Twice, It’s Alright – Bob Dylan (Season 1 Episode 13 “The Wheel”)

A primeira temporada de Mad Men é praticamente perfeita, um microcosmos de todas as encarnações que a série viria a ter nos anos seguintes e o exemplo máximo seja talvez o seu episódio final. À época, sem saber que a série teria continuação, Matt Weiner não deixou nada por usar. “The Wheel” representa o momento alto e baixo de Don Draper, o seu pitch de panteão para a Kodak e o desapontamento da sua família. Este episódio representa um homem na procura de algo mais, algo que perdure, que o complete. E é no final do pitch, onde as suas duas faces se intercecionam, que percebe o significado. Apressa-se para chegar e por momentos pensa que chega a tempo e é recebido com ternura pela filha, apenas para se deparar com um cenário vazio, uma casa deserta, a sua família já distante. O plano final é aterrador, marcado pela melodia e poesia de Dylan, de cima vemos Don isolado sentado nas escadas confrontado com o seu erro. Divinal.

5- Tomorrow Never Knows – The Beatles (Season 5 Episode 8 “Lady Lazarus”)

Durante cinco temporadas toda a gente se perguntava quando é que uma música dos Beatles iria parar a Mad Men. Muitos pensavam que isso nunca iria acontecer (o budget para música era limitado e as canções dos Beatles não são propriamente saldos), mas havia uma razão bem central para a sua inexistência. Não era o tipo de música dos círculos onde estas personagens navegavam. Aliás, o desdém pelos caras larocas britânicos que causavam histerias por onde passavam era bem evidente. Don & companhia são de uma outra era que não contemplava os refrões universais dos quatro de Liverpool. Por isso, qual a melhor maneira de os introduzir do que Megan (símbolo de nova geração a par de Sally) aconselhar Don um álbum. Qual a surpresa que a música escolhida é a experimental Tomorrow Never Knows que representa precisamente um futuro onde a mancha cinzenta que é Don Draper não tem lugar. É uma sequência magnífica que percorre ainda um Pete de coração partido e Megan em aulas de representação até ser interrompida bruscamente por Don que levanta a agulha do vinil. Chamar-lhe subversivo é pouco.

4- The Best Things in Life Are Free (Season 7 Episode 7 “Waterloo”)

Bert Cooper sempre foi mais um símbolo que uma personagem. A sua presença era permanente mesmo quando não estava presente fisicamente. O seu estatuto, dentro e fora da narrativa, atribuía a qualquer cena um gravitasde outra forma não teria. Daí que a sua morte seja de especial significância para todas as personagens de Mad Men e coloca em curso um em fio narrativo que ainda agora se faz sentir. Mais do que isso, coloca tudo em perspetiva para Don. O seu falecimento é o fim de uma era do qual Don Draper e Roger Sterling são os únicos representantes. Bert sempre foi um conselheiro para Don, o equilíbrio que fazia a empresa funcionar, a voz da razão, daí que seja arrasador que Don tenha esta visão: “The Best things in life are free” diz-lhe Bert num delicado soft shoe em memória do passado glorioso do ator Robert Morse na Broadway. Ouve-o com atenção Don!

3- My Way – Frank Sinatra (Season 7 Episode 6 “The Strategy”)

Quando Mad Men chegar ao seu inevitável fim, o que vamos levar da série será provavelmente uma das melhores relações mentor/prodígio amizade platónica da história da televisão. É fácil afirmar que Mad Men é a história da ascensão de Peggy Olson e da queda de Don Draper. É bem mais do que isso, como é óbvio, mas esta é a relação fulcral, a razão pela qual existe série, o coração de onde bombeia toda a sua vitalidade. Falamos de “The Suitcase” ou “The Other Woman” e tantos outros. “The Strategy” é um desses episódios de panteão, absolutamente mágico, focado uma vez mais na relação Don/Peggy. Não vale a pena estar a dissertar sobre esta cena. Ela fala por si. Vejam-na. Revejam-na. E percebam o porquê do “My Way” do Sinatra se encontrar neste posição. 

2- You Really Got Me – The Kinks (Season 5 Episode 11 “The Other Woman”)

Não é por acaso que esta lista termina com três músicas referentes a episódios predominantes para Don e Peggy. Aqui, depois de uma temporada com algum atrito entre os dois, sobretudo com o sentimento de falta de reconhecimento do mérito do trabalho de Peggy, esta decide ir à procura de melhores oportunidades. Ela acaba por se render à oferta do arquirival de Don Draper, Ted Chough. Ironicamente, ou não, quando ela decide contar a decisão de sair a empresa recebe a notícia que conseguiu ficar com o negócio da Jaguar. No meio de toda a euforia, das garrafas de champanhe a abrirem-se, dos gritos de felicidade que ecoam pelos corredores, Don insiste em saber qual o assunto que Peggy lhe queria trazer. Um aumento? Um lugar na equipa da Jaguar? Impossível, estes gajos dos carros nunca aceitariam. Peggy, num discurso eloquente, emocional, devastador de corações, agradece tudo o que Don fez por si e que a levou àquele momento. E nós espectadores logo vamos buscar as nossas recordações desses momentos. Don reage primeiro chocado e desapontado, zangado até, depois resignado. Peggy chora como nunca a tínhamos visto chorar, Don também, os dois respeitam-se demasiado para partirem de costas voltadas. Don beija-lhe a mão e deseja-lhe boa sorte, “Don’t be a stranger!”. Peggy deixa o escritório percorre os corredores vazios em direção ao elevador. Este chega, dá o sinal de abertura de portas e Peggy sorri, mais confiante do que nunca, a caminho de uma nova vida ao som dos Kinks. Este é um poderoso momento de afirmação. O pay-off do investimento de cinco temporadas.

1- Bleecker Street – Simon & Garfunkel (Season 4 Episode 7 “The Suitcase”)

Não podia ser de outra forma. Aquele que é unanimemente reconhecido como o melhor episódio de Mad Men é também aquele que tem a melhor música. “The Suitcase” é um ensaio sobre Peggy e Don, um combate cerrado entre as duas personagens principais, uma monumental carta de amor ao meio e ao processo criativo, um verdadeiro carrossel de emoções. Quantas linhas de diálogo e momentos épicos não saíram deste episódio? “That’s what the money is for!!”, “Maybe there’s a way out of this room we don’t know about”, “Sterling’s Gold”, etc, etc. Todo o episódio é duro, à flôr da pele, divertido como não há igual (Duck Philips) e simplesmente devastador. Depois de uma noite de combate, com a madrugada chega a bonança. O fantasma de Anna Draper, a chamada que se tentava evitar, a confirmação do pior. Stephanie dá as notícias, Don tenta aguentar, mas desaba ao ver a face de Peggy desperta a olhar para si. A única pessoa que o conheceu verdadeiramente morreu. Peggy conforta-o dizendo que não é verdade. Entretanto, ela recolhe ao seu escritório e adormece até ser acordada pelos seus colegas idiotas. Ainda de cabelo desconcertado entra no escritório de Don onde este se apresenta como novo. Discutem trabalho e quando chegam a consenso este aperta-lhe a mão reconhecendo os acontecimentos da noite passada e da intimidade que partilharam. Peggy dirige para a porta quando a leve melodia de Bleeker Street de Simon & Garfunkel se começa a ouvir. Peggy pergunta: “Open or Closed?” e ele responde sem hesitar: “Open”. A melancolicamente bela canção preenche os créditos, e por consequência o episódio, de esperança e harmonia. Estas duas pessoas foram feitas para estarem juntas e quando isso acontece tudo está bem com o mundo. Peggy e Don. Don e Peggy. Não é preciso dizer mais nada.