léme

Me olha com carinho que eu fico. Tenho um casaco e um gorro de lã. Mas me faz ficar porque quer e não porque está frio lá fora. Diz aquelas palavrinhas que sempre destruíram minha muralha, ou aliás, não diz nada, deixa eu ler no teu silêncio que me esperou voltar e que desistiu de me manter afastada. Isso mesmo, porque eu nunca consegui ir longe o bastante. Mas eu te quero até onde a vista não alcança. Até confesso que seu olhar apaixonado às vezes me dava náuseas e agora me sinto engasgada, entalada, enjoada. Faz tempo que não enfio o dedo na garganta pra te pôr pra fora. Coloca em mim a culpa, eu deixo se você não deixar eu ir de novo. Eu sequei depois de sangrar horas a fio na calçada da sua casa. Eu caí de cara no meu próprio abismo porque eu odeio ver suas fotos e não te ver feliz do meu lado. Repara só como nem chorar eu consigo mais, faz tempo que minha alma não escorre pelos meus poros. Manda um recado pelo vizinho fofoqueiro falando que mudou de ideia e resolveu permitir que eu cuide das suas asas cansadas de abrigar meu corpo bailante de medos bobos. Eu limpo seu cantinho do meu coração todo dia que é pra esse amor não mofar. Ouvi falar que se ele ficar quietinho some, e só mais um dia eu acordei com a esperança cantando lá fora. Traz de novo aquela paz que eu tanto traguei enquanto me via sorrir dentro dos teus olhos. Esquece que sente pena da minha dor, esquece a tinta e esquece a folha. A gente escreve de novo essa história. Eu deixo os pontos finais lá em cima, feito estrela, enfeitando o céu da sua boca. Ou se preferir, joga a chave no meu rosto, eu sinto falta dos arranhões e machucados que uma paixão desvairada provoca. Me avisa que eu posso entrar de fininho de noite e adentrar teus sonhos e velar teu sono. Posso até ir dormir em outras nuvens, mas eu venho te livrar da fome. Me pede na marra, na força, na calma. Me perdoa a pressa de insistir em nós, mas lá no paraíso meu peito virou granito. Vem com seus dedos e toca até derreter, enquanto eu me deleito novamente nas curvas do teu nome, nas voltas que a vida dá enquanto a gente se distrai. Mancha meu presente com suas pegadas, é uma dádiva essa sua mania de me dar a sensação de que tenho o mundo todo nas mãos quando te abraço. Ilumina o fundo do poço, é que eu era tão eu contigo e no escuro não sei mais quem sou senão cinzas e fragmentos. Tanta gente ora pelo fim das guerras e eu só te peço pra acreditar no que a lenda reza, nascemos pra ser um erro não retratado. Me dá um espacinho, a ponta dos teus dedos ou o fim da sua tarde que eu te juro tropeçar na esquina dos seus ombros e ficar pra sempre, até essa palavra perder o significado. Me tira da parede, e me põe no pensamento. Não faço barulho, só minhas batidas aceleradas assustam de vez em quando. Eu tenho medo de resfriados, e de ficar espirrando minha decadência. Mas me faz ficar porque quer aquecer meus pés e não porque agora chove. Me faz ter de novo aquela fé no que ainda dá pra fazer desse monte de retalho embaralhado pelo chão da sala. Eu saí dos teus dias, mas por favor, não me deixa ir embora da tua vida com meu amor. Que seja pelo frio, que seja pela chuva, só me dá um sinal que eu pulo de volta e te mostro que todos os seus infinitos nasceram pra caber única e exclusivamente em cada beijo meu.
—  psicalgia.