jeitosa

CAPITULO 14 ( ERAMOS MAIS QUE SÓ NOS DOIS )

CAPITULO 14

– Hoje á noite? – Não consegui disfarçar a surpresa em minha voz. – E suas cirurgias? E o hospital?

Minha maior vontade era perguntar: E nós? Nós eu e Thais, não eu e o meu feijãozinho.  Aquela altura nem tinha ideia se o nós em algum momento existiu para Thais.

– Clara, eu não consigo ficar tranqüila sem saber ao certo o que pode ter acontecido. Eu não posso falar nada com mais ninguém e eu vou acabar enlouquecendo se não souber o que aconteceu. Eu não consigo ignorar mais.

Se eu tivesse um irmão e ele fosse dado como morto, talvez eu fizesse o  mesmo. A atitude de se preocupar com Vanessa mesmo após de dez anos sumida apenas aumentou minha admiração por ela.

– Mas você não me falou sobre o hospital e as cirurgias…

– As minhas cirurgias eu repassei as que estavam já marcadas, conversei com os pacientes, felizmente são todas de procedimento mais comum. – Só a Thais pra achar que operar um cérebro é um procedimento comum. – O hospital vai ficar em boas mãos. Designei a Duarte para gerenciar as cirurgias e a parte administrativa o pessoal do conselho vai tomar conta. – Ela deu um meio sorriso. – Só espero que não se virem tão bem e descubram que eu não sirvo pra nada.

– Thais, eu já conheço você. Você adora que todo mundo fale que precisa de você, que não sabe que vai viver sem você por aqui… – Ela deu uma gargalha matreira. – Não vou cair nessa, não, mocinha…

– E você?

– Não, acho que as pessoas daqui vivem sem mim. – Ela não agüentou meu tom sério e riu. – É verdade, não sou uma pessoa querida.

– Boba, estou perguntando. Você não tem nada para me contar?

Estou grávida de um sujeito que me trocou pelo personal trainner que tem um ombro daqui até a outra esquina, moro em uma republica estudantil que não tem estudantes, minha mãe me odeia, meu tio vai me matar quando souber da gravidez e tenho duvidas sobre o que você e eu temos. Não, eu não podia abrir minha boca agora. Se os deuses,o destino ou sei lá quem fizeram um helicóptero cair só para ela viajar para o outro lado do país é porque não era hora de ocupar sua atenção com minha vida. Eu poderia esperar pó um tempo. Vou ter que esperar por meses, o que seria mais algumas semanas?

 – Não, nada de mais, só posso te desejar boa viagem.

Com as costas de seus dedos ela delicadamente jogava meus cabelos para trás.

– Só isso? – Notei os dentes de Thata mordendo de leve os próprios lábios, eu já sabia interpretar muito bem aquele gesto, ela estava doida para uma despedida mais caprichada, assim como eu. – Eu achei que a gente podia passar a tarde juntas já que vamos ficar alguns dias sem se ver…

– Thata, eu tenho que trabalhar…

Eu tenho é que me controlar para não atacá-la aqui no estacionamento do hospital. Já basta a fama de tarada do elevador, tarada de estacionamento já é demais. Agora sou uma mãe de família, uma reputação a zelar. Mãe de família, meu Deus, eu tenho que me acostumar com isso. Só de ver aquela expressão de desapontamento em seu rosto, me derreti. Já vi tudo, se eu deixasse em um mês com essa mulher ela estaria mandando em mim mais do que o Adolph Hitler manda em filme de nazista. Por outro lado, como dizer não a Thata? Minha resposta foi envolver seu pescoço em meus braços e puxá-la para um beijo cálido. Adeus reputação de mãe de família, sim sou uma tarada de estacionamento.

Acabei conseguindo alguém para me cobrir na clínica, em troca ficaria no plantão de fim de semana. Assim que entramos no carro ela me puxou para outro beijo. Jeitosa como sou, sem querer com o cotovelo toquei a buzina do carro chamando atenção dos guardas. Me controlei para não rir quando vi a cara de Thata. Um dos guardas veio todo valentão bater na janela para saber o que acontecia, quando ele viu Thata ficou vermelho, vinho, azul e por fim roxo.

– Desculpa, doutora Thais é que eu pensei ter ouvido alguma coisa e visto um movimento suspeito. – Dessa vez quem ficou vermelha fui eu. – Mas deve ter sido algum engano.

– Deve ter sido não, foi um engano.

– Positivo, positivo doutora, desculpe o incomodo mais uma vez.

Nem ouvi o que Thata respondeu, só sei que o valentão se afastou com um ar de menininha que levaram a boneca embora e ela partiu com o carro. Não falamos nada até sair do estacionamento, mas depois não aguentamos e tivemos uma crise de riso.

– Clara, de uma coisa eu não posso reclamar, com você não tem rotina, cada hora uma aventura. Chuva, raios, operação, eu quase tenho uma crise de asma no meio do sexo… Agora quase pega pelo guarda.

Decidi devolver toda a provocação que ela me fez no dia do jantar da casa do meu tio e comecei com umas brincadeiras sem inocência nenhuma para seu lado. Levemente beijei seu pescoço e rocei minha boca pela lateral de seu rosto.

– Claraaaaaaa…

– Não quer saber qual a aventura de hoje, amor?

Ela aproveitou transito lento e me deu um beijo rápido.

– Estou doida para chegar em casa para descobrir.

– Eu quero ir pra um lugar diferente hoje.

Thais deu um sorrisinho meio sacana.

– Explorar novas possibilidades, gosto disso. Você quer ir aonde?

– Para minha casa. – Minha boca voltava a procurar pela dela, mas Thata se afastou instintivamente. – Tem algum problema da gente ir pra minha casa?

Antes que levássemos uma multa por transar e discutir ao mesmo tempo no meio de um engarrafamento, Thata estacionou o carro em uma ruazinha mais tranquila.

– Eu te fiz um pergunta.

– Clara, o Junior e a Angela são meus subordinados no hospital, esqueceu? 

– Na minha casa eles são meus amigos, o Junior é seu irmão e você não é chefe de ninguém.

– Falando nisso, é bom você tocar nesse do Junior e da sua casa. – Não acreditei na cara de pau dela. - O que o meu irmão esta fazendo morando com você?

– Você esta mudando de assunto.

– Pelo contrário! O assunto é o mesmo. Eu acho que um direito saber porque você e meu irmão moram juntos.

– O que isso tem haver com você e eu?

– Tem haver que você divide sua casa com o maior banheiro publico da cidade, é só ter vontade que ele esta ali esperando e eu não gosto que mexam em coisa minha.

Essa é boa, era só o que me faltava. Agora a doutora bonitona só porque é bonitona ia ficar controlando quem entra e sai da minha e me chamando de…

– Já que você faz tanta questão de tocar nesse assunto, dona Thais, você enche a boca para falar que não gosta que mexam no que é seu, afinal, eu sou o que sua?

Sim, aquela era a hora de por os pingos nos is. Ela não esperava a pergunta e nem sei de onde tirei tanta coragem e cara de pau de questioná-la. Talvez da minha indignação por aquele ciúme sem razão do Junior. Não estava esperando por um pedido de namoro, mas queria por tudo as claras. Sou quem afinal? A forasteira aventureira, a amiga com benefícios do quartinho de plantão, a piranha que dava mole para a chefe, o caso da vez, nenhuma, ou todas as alternativas anteriores?!

– Clara…

Salva pelo gongo. Aquele telefone estava se tornando um dos meus maiores inimigos na cidade.

– Oi? Marisa, quanto tempo! Como você esta? Sério? Mas vai ficar onde lá? Não sabia… Bom que legal, então pode deixar que eu te procuro por lá. Saudade também. – Thata deu uma risadinha que me azedou ainda mais. – Até então, um beijo Máh! – E desligou. – Uma amiga, acredita que ela vai pra um congresso em Manaus. Ela é psicóloga. Bom… Vamos para casa?

Não respondi. Se quer conversar que ligue pra Marisa, ou pra Máh! Ligar pra que, elas iam ter muito o que conversar em Manaus. Só queria ver até onde iria aquele showzinho dela. Para não responder suas perguntas, encostei a cabeça no vidro e fiquei me distraindo com a paisagem. Não deu outra, cochilei. Assumo, quando o sono vem sou que nem velho, durmo em qualquer canto. Meu pai não cansa de cantar da primeira vez que entrei para tomar banho de mar, estava pendurada em seus ombros e acabei pegando no sono. Acordei quando o carro parou. Abri os olhos, estava em frente a minha casa.

– Achei que você falou que iria para casa. – Eu comentei realmente surpresa. – Decidiu aproveitar suas horas de viagem sozinha?

– Não. Você não disse que queria que fosse na sua casa? Pois então… Vamos?

– Não brinca comigo!

Ela era tão geniosa, só podia estar tirando sarro ou sendo irônica comigo.  Thais voltou a procurar pelos meus olhos que estavam cheio de interrogações.

– Clara, eu vou ser bem sincera com você… Eu ainda não sei o que você é minha, mas eu adoro ficar do seu lado. Você me faz rir, você esquece o tempo inteiro que eu sou sua chefe… – Nós duas rimos, era verdade, eu vivia dando broncas falando o que não devia. – Você não sabe, mas tem um jeito especial de cativar as pessoas… Eu não me importo o lugar que eu estou se eu sei que estou com você… – Outra vez os coraçõezinhos de desenho animado deviam estar em volta de mim. – E agora vamos entrar porque senão eu vou te agarrar no meio da rua e me tornar o novo assunto das suas vizinhas.

Nem precisou falar duas vezes. Eu desconhecia meu poder de se materializar em outro lugar, mas quando dei por mim já estava na sala da minha casa deixando Thata experimentar o gosto da minha boca. Junior e Angel só voltariam de noite mesmo, a casa era nossa. Aquele foi um dos melhores beijos que ela havia me dado. Excitante carinhoso, forte, sensível. Eu tenho que descobrir o endereço desse cursinho secreto de beijos lésbicos de qualquer maneira. Não sei quanto tempo nós íamos ficar sem nos ver, por isso queria aproveitar nosso tempo da melhor maneira possível.

– Vem, vamos subir lá para o meu quarto…

Me abraçando por trás, Thata tratava de puxar para mais perto, suas mãos invadiam por dentro da minha camiseta e a boca tomava meu pescoço me fazendo virar os olhos. Estremeci quando senti sua língua abafando minha nuca. Tombei levemente meu pescoço para a esquerda facilitando nosso contato.

– Estou doida para conhecer o seu quarto.

Foi um sacrifício subir com aquela mulher grudada em mim, sacrifício que eu adorei ter passado. Não pensava em mais nada de passado, futuro, apenas vivia o presente. Não chegamos ao meu quarto, praticamente arrombamos a porta com todo o nosso peso contra ela. Era espantoso como ela me tirava de órbita. Eu topava qualquer coisa que ela propusesse se fosse para ser pega daquele jeito depois. Tudo que ela falasse se tornava lindo porque ela era linda. Thais podia me mandar para o Iraque com uma passagem só de ida, me dar uma surra, me atropelar com uma jamanta se depois me beijasse do jeito que ela me beijava, venerasse o meu corpo, com olhos, mãos e bocas.

Eu estava deitada na cama, apenas de calcinha, sentia o peso de Thata. Eu já tinha dado um jeito de sumir com suas roupas, ficaram pelo chão do meu quarto e me deliciava com a visão daquela mulher com uma calcinha branca de renda ressaltada por sua pele. Meus seios já tinham sido massageados por suas mãos e depois por sua boca. Como ela podia ser tão suave e tão incisiva ao mesmo tempo. Minha barriga já estava vermelha de tantos beijos, sugadas e lambidas que recebeu. Agora ela me torturava com a boca beijando por cima da minha calcinha. Cachorra, estava doidinha para me chupar, mas queria me ver pedindo.

– Thais, pelo amor de Deus! – Ela descia devagar o tecido da calcinha e soprava levemente cada pedaço de pele que se revelava. Para acabar de vez comigo, ela tinha tomado ou experimentado algo gelado e sua língua ainda estava em uma temperatura abaixo do normal. – Eu sei que você esta doida para me chupar…

Ouvi um risinho zombeteiro vindo da minha carrasca.

– Quem disse?

– Eu estou vendo… – E estava mesmo. Seu sexo quase tocava meu rosto e a calcinha completamente encharcada. Ergui minha cabeça, puxei a calcinha um pouco de lado e com a língua toquei de leve seu clitóris, Thais deixou escapar um gemido que me atiçou ainda mais. – E estou sentindo…

Ficamos nesse jogo até alcançar o gozo. Uma das melhores sensações que tive e tenho na vida é quando sinto o corpo de uma mulher se desfazendo na minha boca e em seguida conhecer aquele olhar de satisfação. Pena que tudo que é bom dura quase nada e nossa tarde foi em um piscar de olhos. O relógio de parede marcava cinco e meia da tarde, oito da noite ela precisava estar fora de Silvéster para pegar o vôo pra Manaus no aeroporto de Ribeirão Preto que era o mais próximo de Silvéster. Ela estava adormecendo de um jeito tão bonitinho na minha cama que não tive coragem de acordá-la e lhe presenteei com mais quinze minutos de sono enquanto tomava um banho e preparava uma mesa com algo para comer.

A cozinheira oficial da casa era Angela, mas consegui me virar com pão, frios, refrigerante, frutas e uma caixa de bombom que Junior ganhou de uma das “inhas”. Alguns instantes depois, ouvi um barulho nas escadarias. Preguiçosamente Thata vinha do quarto enrolada em um lençol.

– Nossa, isso tudo é pra mim? Você colocou comida para um batalhão…

Na hora me lembrei de nossa manhã na cabana, ela também havia caprichado na mesa.

– Eu também vou comer, egoísta. – Ela veio ao me encontro e roubou um beijo. – Não quero que você saia falando por aí que se come mal na minha casa.

– Com certeza disso eu não posso reclamar… – Demos um sorriso meio bobo, ela me roubou um beijo. – Vem tomar banho comigo?

– Acabei de sair do banho…

– A gente vai ficar sem se ver, por favor… – Ela começava a me rondar feito uma gata querendo carinho. – Não vamos demorar…

Estava na hora de eu criar uma proteção para aquela carinha pidona dela. Lá estava eu realizando mais uma de suas vontades. A água estava na temperatura perfeita, a Thais também. Com um beijo ela me pressionava contra a parede do box. Tudo foi rápido demais, só observei a toalha que estava na maçaneta da porta caindo e Angel entrando no banheiro.

– Clarinha, acredita que a- AIIIIIIIIIIIIII! Desculpa, desculpa!

E saiu correndo, não por mim já que quando eu estava sozinha no chuveiro ela e Junior entrava sem fazer cerimônias, mas por Thais, ou melhor, pela chefe.

– CUSTA BATER NA PORTA UMA VEZ?! – Eu berrei para Angela me ouvir de fora do banheiro.

– Entendeu por que eu falei da minha casa?

Eu achei que depois da visitinha da Angel no banheiro, Thais iria mandar me matarem ou algo do tipo, mas não é que ela surpreendeu? Quando saímos do banheiro Angel e estava na sala, em silêncio. Eu não sabia onde enfiar minha cara perante minha amiga, mas a Thata me salvou.

– Angela, desculpa a gente achou que você ia voltar mais tarde.

– Desculpa, chefe, eu que…

Thais trocou um olhar confuso comigo e por fim falou a minha amiga.

– Acho que depois dessa pode me chamar de Thais, ou de Thata. – Angela assentiu prontamente. Meio com vontade de rir Thais e disse com voz de médica. – Eu vou subir e me trocar, enquanto isso você dá água com açúcar para sua amiga.

Assim que ouviu a porta do meu quarto bater, Angel soltou todo o ar que tinha segurado. Ela não sabia se ficava constrangida ou ria da minha cara.

– Vocês ficaram falando aquilo dela vir na minha casa para gente se conhecer melhor, ai eu coloquei ela contra parede…

– Não acredito…

– Então ela falou que não tinha problema nenhum em ficar aqui em casa…

– Não acredito… – Angel disse com vontade de rir. – Clara ela é minha, ela é nossa chefe… Todo mundo tem medo daquela mulher…

– Dá um desconto para ela, coitada, esta tentando.

Resumindo, no final da noite Angela e Thais não estava até se dando bem com direito da Thata rir das histórias de Angela que assim como eu era outra vítima de Murphy?! O bom senso que faltou no episódio do banheiro, Angel usou na nossa despedida, cumprimentou Thata com dois beijos de comadre, desejou boa viagem e foi fazer qualquer coisa lá nos fundos da casa. Essa era a pior parte, eu já tinha me acostumado a vê la todos os dias, tocar, abraçar, espero que essa viagem não demore muito. Eu era a única que sabia o real motivo, para os outros, usamos a desculpa do congresso que haveria em Manaus de médicos e Psicólogos. Por que fui lembrar da porcaria desse congresso, agora lembrei que a Máh vai estar lá. Eu sou uma idiota mesmo, ela indo reconhecer o corpo da irmã morta e eu fazendo uma cena de ciúmes.

– Você despediu do seu irmão?

– Despedi, fui procurei o Junior e me despedi dele que nem gente. Não sei se ele te falou, mas ele deve trazer o Jack pra cá pra ficar com ele… – Ela respondeu de um jeito engraçado. – Você, hein, agora encasquetou que o Junior e eu temos que nos dar bem…

– Você liga muito mais pra ele do que você pensa. E confia também senão não deixaria o Jack com ele.

– O Jack gosta do tio e é mais perto pra ele ir pra escola do que a casa da minha mãe e chácara da minha avó. – Thata deu uma olhada no relógio. – Agora eu tenho que ir mesmo. O helicóptero vai me pegar lá no hospital daqui a pouco e eu tenho que pegar as malas em casa.

Demos o ultimo beijo de despedida.

– Eu vou ficar com saudade.

– Eu também…

 

Mal fechei a porta e já estava me sentindo triste. Eu já era toda emocional em estado normal, grávida eu parecia que ia explodir a qualquer momento ou de choro, ou de gargalhadas, ou de raiva, ou de desespero… Loucura mesmo. Angel veio dos fundos com um sorriso nos lábios.

– Achei que ia ficar diabética de tanto doce de vocês…

– Idiota!

– Mas eu estou feliz por você sabia. Não esperava mesmo da Thata aceitar assim ao de boa…

– O que?

– Sua gravidez, coisa lenta! - Angela me encarou. – Clara, você não contou ainda?!

– Eu vou contar como?

– Clara, ela vai viajar, não tem data certa para voltar.

– Eu sei!

Minha amiga estava agitada, andava de um lado para o outro.

– Clara você tem que ir atrás dela e contar antes que ela embarque. Tipo, pelo que você me disse ela se abriu e foi sincera com você…

– Eu sei Angel, mas…

– Não tem mas, Clarinha. É sério, se ela embarcar sem saber vai ser muito pior.

É por essas e outras que eu amo a Angela. Quando ela surta, eu puxo o balãzinho dela e trago de volta a realidade e o mesmo ela faz comigo. O que eu estava fazendo era errado e só ia piorar se eu mesmo não colocasse um fim. Faltava meia hora para Thata embarcar no helicóptero. M enfiei na primeira roupa que entrou e fui que nem uma doida correndo atrás de um táxi para me levar até o heliponto. Infelizmente quando cheguei, vi o helicóptero levantar voo e Thata ainda me viu e deu um tchauzinho, mas não deu para falar nada. Não tinha jeito, teria que esperar os dias até que ela chegasse.

Os dias foram virando semanas e as semanas foram virando meses. Muita coisa aconteceu nesse tempo. Passei na prova dos internos, fiz meu pré natal, descobri que estava esperando um menino, contei para o Junior que estava com a Thata e ele parou de falar comigo, Jack veio morar com a gente, Angel começou a namorar, senti o bebê mexer, meu pai veio me ver, briguei com meu tio Afrânio por ser mãe solteira, encontramos vazamento na casa e tivemos que gastar com pedreiro,May saiu de casa, voltei a falar com Junior, Angel terminou o namoro, compramos um carrinho de bebê, uma ex namorada de Junior apareceu e descobrimos que ele tinha uma filhinha de quatro anos chamada Laísa, Pepa adorou meu trabalho com as grávidas, Angel e eu desconfiamos da ex namorada de Junior e roubamos a toalhinha e a mamadeira da criança para fazer DNA, Edu veio me visitar, Angela ficou com Edu, Laísa era filha legítima de Junior, Edu e Junior quase saíram no tapa e se entenderam após um bebedeira juntos, a ex namorada de Junior deixou Laísa com ele e foi embora, agora moramos em cinco em um casa de três quartos e um fusca, peguei Angel e Junior se pegando no fusca, estou com 60 quilos, engordei 7 e usando 42, os pedreiros ainda não terminaram a obra da nossa casa. Ufa, falei que era muita coisa!

Quase dois meses sem ver Thais que não conseguia pistas de Vanessa. Sobre tudo, saudade, muita saudade. Falávamos todos os dias, mas era pouco. Acho que estamos namorando, mas não tinha certeza. Eu sentia que ela gostava de verdade de mim, mas tinha medo de sua reação. Estava cansada desse mas atrapalhar minha vida. Estava me sentindo mais bonita, aceitando melhor a ideia da gravidez e com uma vontade enorme de beijar na boca, mas não tinha coragem de ficar com outra pessoa. Como toda manhã eu me colocava na frente do espelho do meu quarto e ficava alisando minha barriga de quatro meses. Eu não ia ficar uma grávida tão barriguda como muitas que vejo por ai, mas que meu abdômen já estava mais saliente, estava. O celular tocou, corri para atender.

– Oi amor… Bom dia… Tudo bem?

–Não… Clara, deram as buscas como encerradas. – A voz de Thata estava completamente embargada, ela chorava do outro lado da linha. – Concluíram que a médica só pode ser a Vanessa. Minha irmã esta morta.

– Sério? – Realmente eu estava sentida, acompanhei toda aquela luta. Era a única pessoa que sabia a verdade, para todos os outros, Thata resolveu estender sua estadia em Manaus para participar de outros congressos. – Não tem mais ninguém que possa dar informação, que…   

– Não. Eu contratei um detetive e deixei aqui, ele vai procurar, mas eu não tenho mais esperanças…

– Thata, não sei o que te dizer…

– Eu volto para casa amanhã. Já reservei minha passagem.

Falamos ainda mais um pouco, eu tentando disfarçar meu apavoramento. Angel que estava certa, eu devia ter contado isso lá na casa do meu tio quando ela me perguntou pela primeira se tinha acontecido alguma coisa. Me despedi com um beijo e fui me arrumar para trabalhar. Como estava me sentindo bem, só tinha pretensão de parar de trabalhar depois dos sete meses, quando eu fosse fazer a prova para a próxima etapa da minha residência. Desci as escadas.

– Ah não, cozinha?! Não faz isso comigo!

Segunda feira era o meu dia de limpar a cozinha que para variar parecia que tinha sofrido um Tsunami. A porta do banheiro estava aberta, Junior quase chegava com Laísa no colo, mas Jack correu antes e se trancou no banheiro.

– Jack, abre ai! Tenho que levar a Laísa pra creche, eu tenho que trocar a menina!

– Quem mandou ter filha?!

– Jack!

Jack abriu a porta colocou a cara pra fora.

– Eu falei que era melhor ter um cachorro, ou uma bicicleta nova!

E se trancou de novo.

– JACK!

No outro lado da casa, Angel lutava com um dos pedreiros.

 

– Seu Jerêmias, o senhor não disse que em abril me entregava tudo pronto.

– É que…

– A chuva atrapalhou… – Nato, irmão de seu Jeremias e ajudante de pedreiro ajudava.

– É foi a chuva, não sabe minha, “fia”…    

Grávida de 4 meses, cirurgiã, morando com duas crianças que não são minhas e outras duas crianças que tomam conta dessas crianças, uma escada, vários andaimes e dois pedreiros que comem mais que a gente que é da casa. Minha única família é minha prima. Tenho uma quase namorada agora deprimida pela morte da irmã e sem saber o que é sexo por quase dois meses, essa é minha vida, esse é o meu clube.

Em vinte minutos todos estavam na mesa tomando café.

– Quase dois meses pra arrumar um vazamento de nada! – Angela ainda implicava com os pedreiros. – Um absurdo!

– Se eu fosse vocês não pagava eles tio Junior!

– Não pagava. – Laísa como toda criança mais nova, querendo encher o saco do primo repetia quase tudo que ele falava.

– Ai, vou chegar atrasado no colégio. – Jack ainda reclamava da reforma no banheiro. – Vou acabar perdendo a aula!

– Perdendo a aula!

– Quer parar?! Tio, você comprou essa filha com defeito. Esta parecendo um papagaio!

– Papagaio!

– Será que dá para os dois ficarem quietinhos? Vocês são muito mal agradecidos. Vocês queriam o que, ficar empurrando carrinho na feira pra ver se ganha algum trocado? Jogando bolinha no sinal? Só assim pra vocês darem valor pro banheiro e pra comida de vocês!

– Junior, não fala assim com as crianças, amor! - Angela repreendeu. - Vai traumatizar os coitados!

– Os coitados acabaram com o seu yogurt…

– E com a bolacha também…

Junior e eu falamos respectivamente, Angela virou a garrafa desacreditada. Nem uma gota!

– Eu devia mandar tudo para o colégio interno! E MILITAR!

Pelo tom que ela usou até eu fiquei traumatizada e com medo de ser enviada para o colégio interno. E Militar!

Agora vocês me perguntem se eu trocaria a vida que estou levando agora com a vida de antes de São Paulo. Nem morta! Apesar de tudo eu era feliz. Dei a notícia a eles que Thata voltava no dia seguinte.

– Minha irmã vai me matar! – Junior disfarçadamente apontou para Laísa. Jogou um copo de vitamina na frente de Jack. – Toma isso!

– Então teremos um funeral duplo. – Eu disse de olho na minha própria barriga.

– Tio, é ruim!

– Toma pra ficar forte. Você teve anemia!

– Eu tinha três anos!

Junior estava de folga e levaria as crianças para o colégio. Angel e eu seguimos para o hospital Assim que chegamos Duarte já nos passou serviço.

– Vocês duas vão pra emergência comigo. Outro atraso desses  mando as duas ficar fazendo exame de próstata!

– Doutora Duarte, é que a gente foi tomar banho em casa e…

– Doutora Clara quantas vezes eu tenho que repetir que sua vida sexual não me interessa! – tentei argumentar, ela olhou para Angela. – E nem das suas parceiras!

Nos entreolhamos, antes de qualquer explicação, Duarte falava sobre o trabalho.

– Dois traumas graves. Acidente de carro e um motoqueiro.

Chovia muito, usávamos capa de chuva. Em poucos segundos lá estavam duas ambulâncias esperando por nós. Angel e Duarte pegaram o primeiro, o segundo era meu. Assim que abriram a ambulância vi uma cena no mínimo incomum, um sujeito com uma caneta espetada na traqueia e a cara toda ensanguentado. Acompanhando ele uma mulher de uns 29 anos, morena, e de capacete com a viseira levantada o ajudava a respirar através da traqueotomia improvisada.

– UAU!!! – Angela voltava para me ajudar com o meu trauma. – Vocês que fizeram isso?

Realmente o cara que fez aquela traqueotomia com uma caneta precisava ser muito homem. Ele salvou a vida do sujeito que não conseguia respirar normalmente.

– Não. – Um dos paramédicos respondeu. – Foi ela ali…

Eu estava de costas para eles, ajudava a colocar o paciente na maca. Conferia sua ficha. José Dias de Macedo, 52 anos.

– Você esta bem? – Escutei Angela perguntar a pessoa. – Sua perna esta ferida.

– Estou bem. Eu preciso falar com a minha irmã.

Minha espinha gelou. Eu conhecia aquela voz, estava mais ofegante e cansada que o comum, mas eu reconheceria aquela voz rouca em qualquer lugar. Virei imediatamente para conferir, infelizmente não estava errada. Como se fosse um fantasma de carne osso, lá estava ela na minha frente, minha motoqueira mexicana. O cheiro forte de mato molhado invadiu minhas narinas. Não é possível que era ela. O que aquela bandida estava fazendo aqui?

– Como é seu nome? – Angela perguntou.

– Ai, desculpa… - A motoqueira parecia realmente precisar de descanso. - Eu preciso falar com a minha irmã Thais, meu nome é Vanessa Mesquita.